2015-06-30



Eu remava num lago...


Eu remava num lago. Era uma gruta abobadada sem luz do sol, mas estava claro, havia uma luz transparente e homogénea que irradiava da pedra azul pálida. Embora não se sentisse nem uma ponta de vento, as ondas subiam, mas não tanto que isso pudesse representar qualquer perigo para o meu barco, pequeno, mas sólido. Eu continuava a remar calmamente entre as ondas, mas quase nem pensava nos remos, estava todo concentrado em absorver ao máximo o silêncio que dominava o lugar, um silêncio como nunca o tinha sentido em toda a minha vida. Era como um fruto que eu nunca tivesse comido mas fosse o mais suculento de todos. Agora, tinha os olhos fechados e sorvia-o. Mas não sem alguma perturbação. O silêncio era ainda total, mas sentia-se uma perturbação contínua; qualquer coisa sustinha ainda o ruído, mas ele estava à porta, a rebentar de vontade de entrar subitamente. Rodei os olhos na direcção daquele que não estava ali, soltei um dos remos da arramação, pus-me de pé no barco que baloiçava, ameaçando o vazio com o remo. Mas o silêncio persistiu e eu continuei a remar.

Franz Kafka in "Parábolas e fragmentos"

#imagem- Douro, 2015

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