2015-08-23





8*Entretanto, Caim disse a Abel, seu irmão: «Vamos ao campo.» Porém, logo que chegaram ao campo, Caim lançou-se sobre o irmão e matou-o.9O SENHOR disse a Caim: «Onde está o teu irmão Abel?» Caim respondeu: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?» 10*O SENHOR replicou: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim. 

Génesis, 4 









"Há um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre (...). O ideal não é só passar da exterioridade à interioridade para descobrir a acção de Deus na alma, mas também chegar a encontrá-Lo em todas as coisas."

Laudato si, 233 - Papa Francisco

2015-08-20





Se o homem não consiste na sua alma - e hoje vêmo-lo claramente -, como sentiu este pedaço de cosmos alojado nele? Se pensamos nisso a que chamamos eu, vêmo-lo rodeado de capas concêntricas cada vez mais distantes e estranhas; primeiro dentro de si mesmo, depois no que já não é o homem. Nelas encontramos a alma. Que lugar ocupa? Qual é a sua função?


maría zambrano in "a metáfora do coração e outros escritos"
tradução josé bento


 

2015-08-17



# agosto 2015



Não só sobre vós
Mas também sobre mim as trevas lançaram sombras,
O melhor que tive pareceu-me vago e suspeito,
O que julgava serem os meus grandes pensamentos, não seria afinal tão banal?
Também não sois os únicos que conhecem a maldade,
Eu sou aquele que conheceu a maldade,
Também eu apertei o velho nó da contrariedade,
Também eu conheci a indiscrição, a vergonha, o ressentimento, a mentira, o roubo, a inveja,
Pratiquei a fraude, senti cólera, luxúria, ardentes desejos que não me atrevi a confessar,
Fui travesso, vaidoso, insaciável, vulgar, falso, cobarde, maligno,
O lobo, a serpente, o porco não faltaram em mim,
Nem faltaram o olhar falso, a palavra frívola, o desejo adúltero,
Repulsas, ódios, adiamentos, baixezas, preguiça, nada disso faltou em mim,
Fui um com todos, os dias e os alvoreceres de todos,
Com as suas vozes claras e altas os rapazes chamavam-me pelo meu apelido quando me aproximava ou me viam passar,
Senti os seus braços à volta dos meus ombros, ou a sua carne negligentemente apoiada na minha quando me sentava,
Nas ruas, no ferry, nos comícios, muitos amei sem nunca lhes dizer uma palavra,
Vivi como vivem todos, com o mesmo riso antigo, mastigando, dormindo,
Representando o papel que ainda evocam o actor ou a actriz,
O papel de sempre, o papel que é grande se quisermos que seja grande,
Ou insignificante, ou grande e insignificante se quisermos.

walt whitman in "folhas de erva"
tradução josé agostinho baptista
Assírio & Alvim

2015-08-15

# julho 2015



Consciência Cósmica


Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram a minha fronte.
E as vagas do sofrimento arrastaram-me
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado... 

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...


João Guimarães Rosa
 

2015-08-13





Que amada eu desejo? - perguntais-me. Eu tenho-a já
Como a desejo: e isto diz, parece-me, muito em poucas palavras.
À beira-mar andava à busca de conchas. Numa delas
Achei uma pérola: trago-a agora junto ao coração.

(J. W. Goethe, in Poemas. Trad.: Paulo Quintela. Fundação Gulbenkian)

2015-08-04

# julho 2015

 

Mar Sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dia do Mar.