2016-12-27



Madrigal

Herdei uma floresta densa onde raramente ponho os pés. Mas lá chegará o dia em que os defuntos e os viventes troquem de lugares. É então que a floresta se põe em movimento. Não perdemos ainda toda a esperança. Os maiores crimes continuam ainda por desvendar, malgrado o esforço de tantos polícias.Do mesmo modo, algures nas nossas vidas, há um grande amor por revelar. Herdei uma floresta densa, mas hoje entro numa outra, plena de claridade. Tudo o que vive canta, serpenteia, abana, rasteja! É primavera, e o ar que respiramos é fortíssimo. Tenho um exame na universidade do olvido, e as mãos tão vazias como a camisa pendurada na corda de secar roupa.


Tomas Tranströmer, 50 Poemas
Trad. Alexandre Pastor
Relógio D'Água 

imagem - Artur Pastor, Nazaré

2016-12-23


Que Natal?

Natal não tive. Ou tive
só o Natal que tiveram
minhas filhas. Esse vive
como as coisas que viveram
mas já não são. Que Natal
tenho hoje? Que alegria,
que festa, neste final,
nesta descida sombria?
Diz Natal quem diz começo,
ou chegada, ou descoberta...
Onde estou, só há tropeço,
terra fria e deserta.

Se, no fim, recomeçasse!
Se, descendo, eu subisse!
Se, parando, não parasse!
Ressuscitar... quem o disse?

Eugénio Lisboa


[Para quem passa e vê o seu Natal descrito no poema do Eugénio Lisboa, um forte abraço. E para todos os outros também.]

2016-12-21

marginália



afinal o Papa não calça Prada. O problema é isso ser notícia.






 


A FOME

Aqui, onde a mão 
não alcança o interruptor da vida, aqui 
só brilha a solidão.  

Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
Aqui, onde a brancura dum lenço é a brancura do infortúnio, 


aqui a solidão 
não brilha, apenas  
se estorce. 
A fome fala através das feridas.


Luís Miguel Nava. Vulcão
Quetzal, 1994 

2016-12-17

eu também



A partir de um prefácio de Arundhati Roy

Busco compreender o mundo de outra maneira.
Encosto o ouvido no chão
e procuro:

o genocídio não divulgado
a guerra civil não televisionada
o golpe militar escondido.

É o meu destino não acreditar em tudo que leio no jornal.



daqui 



 



Lutou "pelo direito a morrer com dignidade". Morreu a Laura Ferreira dos Santos.

 

2016-12-15

 


Retrato de Mulher


Deve ser para todos os gostos,
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d'água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.

Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingénua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalito de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodka.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.


Wislawa Szymborska

2016-12-10

2016-12-04


Monica Vitti,
Deserto Rosso - Michelangelo Antonioni

talvez esperança


[...]
Oiço dentro de casa que lá fora chove
dizes somente a solitária lágrima
que te humedece os olhos caminhamos
e há em nossos ombros numerosas folhas
Nasço subitamente há mundos no teu rosto
antes de ti ninguém na verdade houve
chove posso dizer pela primeira vez que chove
Esperar por ti não é esperar por ti
esperar por ti é ter talvez esperança
ou é esperar com minudenciosa paciência
e desenhar teu rosto em cada rosto que vejo surgir
na minha alvoroçada vizinhança dos teus passos
Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo 
é tudo serem para mim estradas largas nas múltiplas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado
Quando te vejo e embora exista o vento
nenhuma folha nas múltiplas árvores se move
ver-te é logo todas as coisas começarem é
tudo ser desde sempre anterior a tudo
Ver-te é sem tu me veres eu sentir-me visto
sentir no meu andar alguma segurança mínima
caminhar pelo ar a meio metro da terra
e tudo flutuar e ser ainda mais aéreo do que o ar
ver-te é nem mesmo pensar que deixarei de ver-te
ver-te é sentir pousar mais que um olhar 
uma mão muito calma sobre a minha vida
ver o teu rosto é ter toda a certeza de que existo

[...) 

Ruy Belo
A margem da Alegria 

 

2016-12-02

libertação

 [Acabei de ler. É mesmo um grande romance. Tocou-me por dentro, por fora, no presente, no passado e no futuro. Ao ler o texto que se segue, fiquei com os olhos húmidos. Imagino (ou não) as lágrimas, a dor, o desespero que geraram, por fim, a libertação.]





 A casa escuta. Respira fundo, fecha os olhos e deixa-se levar na melodia das vozes gravadas no lugar para sempre, com as quais poderá ainda contar quando chegar o fim do mundo.
É noite alta. Só eu. Ninguém mais respira dentro. Ninguém pensa ou fala. O coração bombeia o sangue que circula nas minhas veias, pum-pum, pum-pum, pum-pum. Só o escuto eu e a casa, com as suas grandes orelhas de abano. Toco as suas paredes, estendo-me no chão com a cadela e absorvo a frescura do soalho. Toco o meu corpo, as minhas queridas mamas volumosas, que tombam para o lado quando tiro o sutiã. O meu corpo ainda grande, que passei a amar como é. Tal como é. Que bonito é o meu corpo! Que gorda tão doce! E que poder! Como é que não percebi antes, como é que pude escutá-los todos aqueles anos?! Por que lhes dei ouvidos, sabendo que era eu quem estava certa? A troça recairia sobre o trocista, caso eu nunca a tivesse aceitado como aceitei. Que bela mulher eu sempre fui! Um corpo tão perfeito, tão imponente, como pude desamá-lo tanto?!

Isabela Figueiredo, A Gorda
Caminho


2016-11-24



Com muita vontade de ler este livro da Isabela que acaba de ser publicado. Um livro que, como se diz no artigo, sendo de ficção é pura realidade.
Sendo mais ou menos da idade da Isabela e tendo sido formatada no princípio de que os inimigos da "alma" são o mundo, o demónio e a carne, terei de viver mais uns cinquenta anos para desaprender de recear inimigos, afinal tão próximos.




2016-11-23

considerando



voltei a usar com maior assiduidade este espaço, depois de me escapar de outra rede, vai prevalecer a linguagem através das imagens e alguns poemas. palavras o menos possível, há que domesticar as paixões. para quem passa, sinta-se em casa, como sempre.


 

linguagem







Barbara Kruger

2016-11-18


Não Fora o Mar!

Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.


Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"

o melhor mesmo é desligar o botão







Em França são conhecidos como os panélistes, os indivíduos que circulam pelos inúmeros painéis, onde fazem de intelectuais politólogos, sociólogos e psicólogos e outros “logos”. Estes comunicadores são a elite do “agir comunicacional” contemporâneo, mas, em ocasiões como a das eleições americanas, sentem-se no dever de restituir ao Homem Médio a palavra que lhe foi confiscada. Falam muito de populismo e fizeram dele uma palavra-maná, um significante flutuante, uma “coisa”; apontam-no como um fenómeno temível do nosso tempo, mas participam convictamente e sem má consciência na lógica e nas manifestações do populismo cultural.

António Guerreiro



2016-11-16





Que deves tu à ciência
Senão o reconhecimento
Da tua própria, e a dela,
Limitação?

Que deves ao ar que respiras
Além da inquietude
De te manteres vivo
Mais um dia?

E ao amor, que deves
Que não seja
A causa primeira
De estares limitado a viver?

Rui Almeida in Muito Menos
Companhia das Ilhas, setembro 2016

fantasias #5

2016-11-15



É preciso estabelecer que a religião é um direito dos seres humanos. O homem tem o direito de procurar qualquer coisa que possa resolver os seus problemas com o desconhecido, com o além, com a morte. Ele tem esse direito e é preciso defender esse direito. Dito isto, ninguém tem o direito de institucionalizar a sua religião e impô-la a toda uma sociedade. Tal como temos o direito de acreditar, temos o direito de não acreditar. E nessa perspetiva é preciso separar o Estado, que é comum a todos, da religião, que é pessoal, um assunto tão pessoal como o amor, e que não compromete se não a própria pessoa.

Aqui

2016-11-11

Leonard Cohen : "Sisters Of Mercy"

Oh the sisters of mercy, they are not departed or gone.
They were waiting for me when I thought that I just can't go on.
And they brought me their comfort and later they brought me this song.
Oh I hope you run into them, you who've been travelling so long.

Yes you who must leave everything that you cannot control.
It begins with your family, but soon it comes around to your soul.
Well I've been where you're hanging, I think I can see how you're pinned:
When you're not feeling holy, your loneliness says that you've sinned.

Well they lay down beside me, I made my confession to them.
They touched both my eyes and I touched the dew on their hem.
If your life is a leaf that the seasons tear off and condemn
They will bind you with love that is graceful and green as a stem.

When I left they were sleeping, I hope you run into them soon.
Don't turn on the lights, you can read their address by the moon.
And you won't make me jealous if I hear that they sweetened your night:
We weren't lovers like that and besides it would still be all right,
We weren't lovers like that and besides it would still be all right.


créditos, Sony Music

Alfredo Bruto da Costa, 1938-2016


Um homem lúcido e generoso (como é referido aqui)

O que é eterno nunca morre


Leonard Cohen, 1934-2016
#imagem Reuters

2016-11-10



Se nos encontrarmos, um dia, eu e a mulher, e ela me perguntar o que mais me importa, dir-lhe-ei que de sobremaneira me importa viver, vencer a morte, e saber se se confirma que só o amor é maior do que esse colapso. Gostaria que, nesse momento, nos reconhecêssemos textuantes, gente que, no mistério da realidade, não tem necessariamente muito a partilhar salvo esse pequeno diálogo que transportamos de lugar em lugar.


Maria Gabriela Llansol
PARASCEVE
Relógio D'Água

#imagem - S. Martinho do Porto, Outubro 2016

2016-11-05

"a dor é o que há de mais humano"



A dor é o que há de mais humano
em deus, a luz que o pontifica.
Quando crescemos no interior
de uma ausência permanente,
o sagrado que se oculta
por detrás da nossa pressa
tende a mergulhar num mar
profundo de incógnitas.
Procurar respostas é humano,
inspirar dúvidas é divino.
Mas a dor, a dor é o que há
de mais humano em deus.
Não importa quem começou o quê.
Certo é terem havido homens
mais próximos dessa condição
que dizemos sagrada,
do que todos os deuses do mundo
numa orgia de perfeição.
Sei que na dor nós vencemos
.Sei que pela dor nós crescemos
até ao mais alto dos céus: a obra
que fica na carne da língua.
Não será essa a nossa condição?
Um sacrifício de sangue, uma prisão
de desejos, uma força de criar?
Resta-nos uma vida, um adeus.


Henrique Manuel Bento Fialho,
in Um Poema Para Fiama,
coordenação de Maria Teresa Dias Furtado e de Maria do Sameiro Barroso,
Editora Labirinto,
Amarante, Maio de 2007.

fantasias #3


2016-11-03

não te prendas a uma onda qualquer

fantasias #1




Durante algum tempo julgávamos que a abundância de informação disponível através dos novos meios de comunicação (canais por cabo, redes sociais, podcasts) nos tornaria mais lúcidos e racionais. Puro engano. Os piores instintos da populaça tomaram de assalto quase todos os espaços da opinião informada. 

daqui



2016-08-17



Hay horas en que me atormenta que me ames (cómo te gusta usar el verbo amar, con qué cursilería lo vas dejando caer sobre los platos y las sábanas y los autobuses), me atormenta tu amor que no me sirve de puente porque un puente no se sostiene de un solo lado.


Julio F. Cortázar - (Cap. 93, Rayuela)

2016-08-09



  A ponte

Entre instante e instante,
entre eu sou e tu és,
a palavra ponte.

Entras em ti mesma
ao entrar nela:
como um anel
o mundo fecha-se.

De uma margem à outra
há sempre um corpo que se estende,
um arco-íris.

Eu dormirei sob os seus arcos.

Octavio Paz (in Antologia Poética; ed. Dom Quixote, 1998)

 

 

2016-07-22





Descrever um lugar indescritível é torná-lo inamovível para o resto da minha vida, que certamente decorrerá ao lado da árvore, como sempre tem decorrido no jardim que o pensamento permite. O jardim não é criado pelo pensamento, o jardim permite pensar, tem a sua forma de pensar o pensamento. O Grande Maior tem as mesmas propriedades. Apenas não pensa do mesmo modo. Na verdade, aprofundar a intensidade de viver e deixá-la à natureza, é morrer menos. Falo do meu ponto de vista de visitante, porque ali não havia morte; não sei se não tinham palavras para isso ou se simplesmente não precisavam dela. Havia uma fonte que a seiva molhava a meio de uma Praça - um rasgão no céu -, e, paradoxalmente, seres se sentavam nessa seiva onde, imergindo, tomavam rosto que uma humana como eu reconhecesse. As mãos fremiam. Foi a primeira parte do corpo deles que reconheci. Eu não tinha aceite a sua hospitalidade com a intenção de lhes contar quem era, mas para os ouvir falar sobre a sua própria pessoalidade.



Maria Gabriela Llansol in PARASCEVE

 

2016-04-16



uma mulher espera-me

Uma mulher espera-me, tudo ela contém, nada lhe falta,
Mas tudo lhe faltaria se o sexo faltasse, ou lhe faltasse o orvalho do homem certo.

O sexo tudo contém, corpos, almas,
Desígnios, evidências, purezas, doçuras, resultados, promulgações,
Canções, mandamentos, saúde, orgulho, o material mistério, o sémen,
Todas as esperanças, favores, graças, todas as paixões, amores, belezas, delícias da Terra,
Todos os governos, juízes, deuses, chefes,
Estão no sexo como partes dele, como justificações dele.

O homem de quem gosto sem rubor conhece e aceita as delícias do seu sexo,
A mulher de quem gosto sem rubor conhece e aceita as delícias do seu.

Agora desdenharei as mulheres impassíveis,
Irei e estarei com a que me espera, e com as ardorosas mulheres que me agradam,
Vejo que elas me compreendem e não me rejeitam,
Vejo que me merecem, delas serei o robusto esposo.

Não são em nada inferiores a mim,
As suas faces estão queimadas de sóis e ventos,
As suas carnes têm a antiga flexibilidade e força divinas,
Sabem nadar, remar, cavalgar, lutar, atirar, correr, atacar, retroceder, avançar, resistir, defender-se,
São supremas por direito próprio - são calmas, lúcidas, donas de si mesmas.

Quero-vos perto, mulheres, apertando-vos,
Não vos posso soltar, desejo o vosso bem,
Sou para vós e vós para mim, não só por nós mas também pelos outros,
Em vosso sono dormem heróis e bardos maiores,
O vosso despertar é só para mim e  mais ninguém.

Aqui estou, mulheres, abro caminho,
Sou firme, cáustico, enorme, inflexível, mas amo-vos,
Não vos magoo mais do que o necessário,
Dou-vos aquilo que gera filhos e filhas dignos destes Estados, aperto-vos com rudes e lentos músculos,
Fortaleço-me, não vos dou ouvidos,
Não me atrevo a retirar-me até depositar o que durante tanto tempo acumulei em mim.

Desaguo em vós os meus rios contidos,
Aspiro em vós os próximos mil anos,
Enxerto em vós os meus amados rebentos e os da América,
As gotas que destilo em vós darão vida a ágeis raparigas, novos artistas, músicos, cantores,
Os seres que engendro em vós, engendrarão outros seres,
Exigirei homens e mulheres perfeitos do meu pródigo amor,
E que eles se interpenetrem com outros como nós o fazemos agora,
Confiarei nos  frutos que das chuvas brotam, como confio nos frutos das chuvas que de mim agora brotam,
Procurarei as amorosas colheitas do nascimento,  vida, morte, imortalidade, que amorosamente semeio agora.


Walt Whitman in "Folhas de Erva"
Tradução José Agostinho Baptista,
Assírio & Alvim


2016-04-09

manter a esperança





Durante muito tempo pensámos que, com a simples insistência em questões doutrinais, bioé-ticas e morais, sem motivar a abertura à graça, já apoiávamos suficientemente as famílias, consolidávamos o vínculo dos esposos e enchíamos de sentido as suas vidas compartilhadas. Temos dificuldade em apresentar o matrimónio mais como um caminho dinâmico de crescimento e realização do que como um fardo a carregar a vida inteira. Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las.

nº37 da exortação "Amoris Laetitia" 


 

2016-02-29





Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
                                               perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.



Ana Hatherly
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003


2016-02-27






Quadras da Alma Dorida

Trago deus impresso em mim
no coração e nos rins
A mancha tem a altura
de quarenta quadratins

Estava num profundo êxtase
no seio da divindade
Tudo se esvai. Perdi o
bilhete de identidade

A vida dói. Nada resta.
E diz a alma dorida:
Não creio numa outra vida.
Havia eu de crer nesta?


Ruy Belo
Todos os Poemas
Assírio & Alvim

2016-02-17



Que memória podemos trazer
da infância
mais avassaladora
do que uma vara de negrilho
esculpida a navalha? Ou
os movimentos de uma cobra d
água guardada num frasco
de tofina? Ou
os assentos de um morris
850? Ou
uma saia travada
que tocámos a tremer de frio?
Vai-se a ver e
quase tudo se passou
fora dos livros
e dos ensinamentos para a vida.



  José Carlos Barros - "O Uso dos Venenos"


daqui 

#imagem - Graciela Iturbide

2016-02-14


#fevereiro 2016
Parece-me que a invisibilidade é a condição para a elegância. A elegância acaba se for notada. Sendo a poesia a elegância por excelência, não sabe ser visível. Então, para que serve?, dir-me-eis. Para nada. Quem a vê? Ninguém. O que a não impede de ser um atentado contra o pudor, e apesar de o seu exibicionismo se exercer entre os cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a glória. A glória é absurda por resultar de um ajuntamento. A multidão cerca um acidente, conta-o a si mesma, inventa-o, perturba-o até se transformar noutro. O belo resulta sempre de um acidente. De uma quebra brutal entre hábitos adquiridos e hábitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo hábito for adquirido, o acidente deixará de ser acidente. Far-se-á clássico e perderá a virtude de choque. Por isso uma obra nunca é compreendida. É admitida. Se não me engano, a observação pertence a Eugène Delacroix: «Nunca se é compreendido, é-se admitido». Matisse repete com frequência esta frase.

Jean Cocteau, in 'Visão Invisível'



 

2016-02-13





Tão só!
Cada vez são mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)

Ah, não fujam de mim!
Não mordo, não arranho.
Direi:
— «Pois não! Ora essa! Tem razão».

Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como pássaros mudos.



Fernanda de Castro, in "E Eu, Saudosa, Saudosa"

2016-01-21





NOMEAR-TE

Não o poema da tua ausência,
somente o esboço, uma fissura num muro,
algo no vento, um sabor amargo.


Alejandra Pizarnik

 

#imagem - Edouard Boubat, Nazaré 1956

2016-01-10



Antes que as gotas fizessem baloiçar os ramos
nós, por trás da janela, esperávamos
que a água lavasse as folhas escondidas.
Depois chovia que Deus a dava
e pusemos um copo no peitoril
a medir a água pluvial em centímetros.

Às quatro o sol apareceu
e sobre a janela o copo cintilava
pleno até à borda.

Eu e o meu irmão bebemos metade cada um
e comparámos a água do poço
com a do céu que é mais escorregadia
e contudo tem o sabor a relâmpagos.

Tonino Guerra in "O Mel"
Trad. Mário Rui de Oliveira
Assírio & Alvim


#imagem by Joahan van Keuken, Lucette, 1955

2016-01-07






Aí por finais de Março
uma nuvem negra surgiu sobre o vale e os montes.
Uma nuvem suspensa pois
não andava nem para a frente nem para trás.
Por vezes redonda mas depois alongava-se
ao alto desenhando um tonel,
um palheiro ou uma serpente sem fim.
Ou então abria-se num leque tão leve
que todo o ar do céu parecia cheio de moscas.
Eu e meu irmão, tal como os outros
pensávamos que fossem estorninhos vindos da Rússia.
De repente tomou a forma de uma bola escura, pesada,
cor de chumbo e imprimiu uma sombra oval 
sobre o prado. Começou a tocar a terra
mas logo subia e onde se apoiava
ficavam manchas claras, quase cinza depois do fogo.
E assim, pouco a pouco, todo o vale
que era verde de erva, de folhas de trigo,
empalideceu como aqueles rostos amedrontados
até que a nuvem pulou para além dos montes
e nunca mais se viu.

Seriam gafanhotos?


Tonino Guerra in "O Mel"
trad. Mário Rui de Oliveira
Assírio & Alvim

2016-01-03






O homem não pode manter-se humano a esta velocidade, se viver como um autómato será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão inseparável da vida do homem como a sucessão das estações é inseparável das plantas, ou do nascimento das crianças. Estamos no caminho mas não a caminhar, estamos num veículo sobre o qual nos movemos incessantemente, como uma grande jangada ou como essas cidades satélites que dizem que haverá. E ninguém anda a passo de homem, por acaso algum de nós caminha devagar? Mas a vertigem não está só no exterior, assimilá-mo-la na nossa mente que não pára de emitir imagens, como se também fizesse zapping; talvez a aceleração tenha chegado ao coração que já lateja num compasso de urgência para que tudo passe rapidamente e não permaneça. Este destino comum é a grande oportunidade, mas quem se atreve a saltar para fora? Já nem sequer sabemos rezar porque perdemos o silêncio e também o grito. 
Na vertigem tudo é temível e desaparece o diálogo entre as pessoas. O que nos dizemos são mais números do que palavras, contém mais informação do que novidade. A perda do diálogo afoga o compromisso que nasce entre as pessoas e que pode fazer do próprio medo um dinamismo que o vença e que lhes outorgue uma maior liberdade. Mas o grave problema é que nesta civilização doente não há só exploração e miséria, mas também uma correlativa miséria espiritual. A grande maioria não quer a liberdade, teme-a. O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal extremo que, se rasparmos um pouco a superfície, poderemos verificar o pânico que está subjacente nas pessoas que vivem sob a exigência do trabalho nas grandes cidades. A exigência é tal que se vive automaticamente sem que um sim ou um não tenha precedido os actos. 

Ernesto Sábato, in 'Resistir'