2016-11-24



Com muita vontade de ler este livro da Isabela que acaba de ser publicado. Um livro que, como se diz no artigo, sendo de ficção é pura realidade.
Sendo mais ou menos da idade da Isabela e tendo sido formatada no princípio de que os inimigos da "alma" são o mundo, o demónio e a carne, terei de viver mais uns cinquenta anos para desaprender de recear inimigos, afinal tão próximos.




2016-11-23

considerando



voltei a usar com maior assiduidade este espaço, depois de me escapar de outra rede, vai prevalecer a linguagem através das imagens e alguns poemas. palavras o menos possível, há que domesticar as paixões. para quem passa, sinta-se em casa, como sempre.


 

linguagem







Barbara Kruger

2016-11-18


Não Fora o Mar!

Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.


Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"

o melhor mesmo é desligar o botão







Em França são conhecidos como os panélistes, os indivíduos que circulam pelos inúmeros painéis, onde fazem de intelectuais politólogos, sociólogos e psicólogos e outros “logos”. Estes comunicadores são a elite do “agir comunicacional” contemporâneo, mas, em ocasiões como a das eleições americanas, sentem-se no dever de restituir ao Homem Médio a palavra que lhe foi confiscada. Falam muito de populismo e fizeram dele uma palavra-maná, um significante flutuante, uma “coisa”; apontam-no como um fenómeno temível do nosso tempo, mas participam convictamente e sem má consciência na lógica e nas manifestações do populismo cultural.

António Guerreiro



2016-11-16





Que deves tu à ciência
Senão o reconhecimento
Da tua própria, e a dela,
Limitação?

Que deves ao ar que respiras
Além da inquietude
De te manteres vivo
Mais um dia?

E ao amor, que deves
Que não seja
A causa primeira
De estares limitado a viver?

Rui Almeida in Muito Menos
Companhia das Ilhas, setembro 2016

fantasias #5

2016-11-15



É preciso estabelecer que a religião é um direito dos seres humanos. O homem tem o direito de procurar qualquer coisa que possa resolver os seus problemas com o desconhecido, com o além, com a morte. Ele tem esse direito e é preciso defender esse direito. Dito isto, ninguém tem o direito de institucionalizar a sua religião e impô-la a toda uma sociedade. Tal como temos o direito de acreditar, temos o direito de não acreditar. E nessa perspetiva é preciso separar o Estado, que é comum a todos, da religião, que é pessoal, um assunto tão pessoal como o amor, e que não compromete se não a própria pessoa.

Aqui

2016-11-11

Leonard Cohen : "Sisters Of Mercy"

Oh the sisters of mercy, they are not departed or gone.
They were waiting for me when I thought that I just can't go on.
And they brought me their comfort and later they brought me this song.
Oh I hope you run into them, you who've been travelling so long.

Yes you who must leave everything that you cannot control.
It begins with your family, but soon it comes around to your soul.
Well I've been where you're hanging, I think I can see how you're pinned:
When you're not feeling holy, your loneliness says that you've sinned.

Well they lay down beside me, I made my confession to them.
They touched both my eyes and I touched the dew on their hem.
If your life is a leaf that the seasons tear off and condemn
They will bind you with love that is graceful and green as a stem.

When I left they were sleeping, I hope you run into them soon.
Don't turn on the lights, you can read their address by the moon.
And you won't make me jealous if I hear that they sweetened your night:
We weren't lovers like that and besides it would still be all right,
We weren't lovers like that and besides it would still be all right.


créditos, Sony Music

Alfredo Bruto da Costa, 1938-2016


Um homem lúcido e generoso (como é referido aqui)

O que é eterno nunca morre


Leonard Cohen, 1934-2016
#imagem Reuters

2016-11-10



Se nos encontrarmos, um dia, eu e a mulher, e ela me perguntar o que mais me importa, dir-lhe-ei que de sobremaneira me importa viver, vencer a morte, e saber se se confirma que só o amor é maior do que esse colapso. Gostaria que, nesse momento, nos reconhecêssemos textuantes, gente que, no mistério da realidade, não tem necessariamente muito a partilhar salvo esse pequeno diálogo que transportamos de lugar em lugar.


Maria Gabriela Llansol
PARASCEVE
Relógio D'Água

#imagem - S. Martinho do Porto, Outubro 2016

2016-11-05

"a dor é o que há de mais humano"



A dor é o que há de mais humano
em deus, a luz que o pontifica.
Quando crescemos no interior
de uma ausência permanente,
o sagrado que se oculta
por detrás da nossa pressa
tende a mergulhar num mar
profundo de incógnitas.
Procurar respostas é humano,
inspirar dúvidas é divino.
Mas a dor, a dor é o que há
de mais humano em deus.
Não importa quem começou o quê.
Certo é terem havido homens
mais próximos dessa condição
que dizemos sagrada,
do que todos os deuses do mundo
numa orgia de perfeição.
Sei que na dor nós vencemos
.Sei que pela dor nós crescemos
até ao mais alto dos céus: a obra
que fica na carne da língua.
Não será essa a nossa condição?
Um sacrifício de sangue, uma prisão
de desejos, uma força de criar?
Resta-nos uma vida, um adeus.


Henrique Manuel Bento Fialho,
in Um Poema Para Fiama,
coordenação de Maria Teresa Dias Furtado e de Maria do Sameiro Barroso,
Editora Labirinto,
Amarante, Maio de 2007.

fantasias #3


2016-11-03

não te prendas a uma onda qualquer

fantasias #1




Durante algum tempo julgávamos que a abundância de informação disponível através dos novos meios de comunicação (canais por cabo, redes sociais, podcasts) nos tornaria mais lúcidos e racionais. Puro engano. Os piores instintos da populaça tomaram de assalto quase todos os espaços da opinião informada. 

daqui