2017-05-22

por Ouologuem Yambo
Poesia Africana
Tradução de Manuel de Seabra
Lisboa, 1974

Todos pensam que eu sou um canibal
Mas bem sabem o que são as línguas

Todos vêem as minhas gengivas rubras
Mas quem as tem brancas
Vivam os tomates

Todos dizem que agora virão
Menos turistas
Mas bem sabem
Não estamos na América e de qualquer maneira
Somos todos tesos

Todos dizem que a culpa é minha e que têm medo
Mas vejam 
Os meus dentes são brancos não rubros
Eu não comi ninguém

As pessoas são más e dizem que eu engulo
Os turistas assados

Ou talvez grelhados
Assados ou grelhados perguntei
Ficaram calados e olharam com medo para as 
Minhas gengivas
Vivam os tomates

Todos sabem que um país arável tem agricultura
Vivam os tomates

Todos garantem que os vegetais
Não alimentam bem o agricultor
E que eu sou forte demais para um subdesenvolvido
Miserável insecto vivendo dos turistas
Abaixo os meus dentes

Todos se repente me cercaram
Prenderam
Prostaram
Aos pés da justiça

Canibal ou não canibal
Fala
Ah julgas que és muito esperto
E pões-te todo orgulhoso

Agora vamos ver o que te acontece
Qual é a tua última palavra
Pobre homem condenado

Eu gritei vivam os tomates

Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem
Havia uma no círculo que espreitava
Que com a sua voz raspante como a tampa duma panela
Gritava
Chiava
Abram-no ao meio
Estou certa de que o papá ainda está lá dentro

Como as facas estavam rombas
O que é compreensível entre vegetarianos
Como os Ocidentais
Pegaram numa lâmina Gillette
E pacientemente
Crisss
Crasss
Floccc
Abriram-me a barriga

Encontraram lá uma plantação de tomates
Irrigadas por riachos de vinho de palma
Vivam os tomates




rapinado daqui



2017-05-12



MUSÉE DES BEAUX ARTS

Sobre o sofrimento tiveram sempre razão
Os Velhos Mestres;perceberam lindamente
A sua humana posição; como habitualmente ocorre
Enquanto outros comem ou abrem uma janela ou simplesmente passeiam;
Como, enquanto os idosos aguardam reverente e ardentemente
Pelo milagroso nascimento, tem de sempre haver
Crianças que não queriam especialmente que acontecesse, patinando
Num lagona orla da floresta;
Nunca esqueceram

Que até o atroz martírio deve decorrer
Algures a um canto, um local grosseiro
Onde os cães continuam a sua vida de cão e o cavalo do algoz
Esfrega atrás de uma árvore o inocente traseiro.

No Ícaro de Breughel, por exemplo, como tudo se desvia
Calmamente do desastre; o lavrador por certo teria
Ouvido o splash, o grito desvalido,
Mas para ele não era um fracasso importante; o Sol brilhava
Como devia nas pernas brancas que no mar esverdeado
Se sumiram; e o barco sumptuoso e delgado que terá vislumbrado
Algo de extraordinário, um rapaz do céu caído,
Tinha algures para onde ir e calmamente vogava.


W. H. Auden in "Outro Tempo"
tradução Margarida Vale de Gato
Ed. Relógio D'Água

2017-05-07

Promessa




Na clara paisagem essencial e pobre
Viverei segundo a lei da liberdade
Segundo a lei da exacta eternidade.


Sophia de Mello Breyner Andresen

2017-05-06

Chet Baker | lament for the living


A mensagem de Deus não é uma mensagem para hoje, é uma mensagem para depois. [Fernando Santos, treinador]

Nestes dias de exaltação do catolicismo, seria bom que surgissem vozes a falar de uma mensagem atemporal, que não se esgota nos acontecimentos imediatos e mediatizados.
Mas continuar a insistir que a mensagem de Deus não é para viver no dia a dia, pelos homens e mulheres que por ela se sentem tocados, é a manifestação de uma igreja fechada nela própria e desligada da vida.

2017-05-05




imagem - László Moholy, aqui


Porque o Melhor, Enfim

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!
_ Sorrindo interiormente,
Co'as pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas. _
Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.
Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.
Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva
Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos

Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.
Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício
Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...
Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,
Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...
Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fraturam-se as maxilas...
E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

2017-05-03

uma vez sem exemplo


Diz-se que "não se cospe no prato em que se comeu" (quem acompanha este blogue desde o início percebe a que me refiro), mas é com indiferença total que vou lendo e vendo as diferentes notícias sobre Fátima -, visita do papa, canonização das crianças Francisco e Jacinta e demais folclore. Deus me guarde no caminho do deserto...e me permita saborear o silêncio dentro e fora de mim. Ámen!


imagem - Max Dupain, 1930

2017-04-28



O homem da cidade vive numa ficção climática para crianças e já não sabe quando e quanto deve chover. Ele acha, aliás, que nunca devia chover nem fazer frio. E que o céu devia ser azul para sempre. Ao serviço do homem da cidade, da sua ignorância e irresponsabilidade nesta matéria, estão os jornais, a televisão, a rádio, a publicidade, toda a informação, os poderes públicos, o poder político. Todas estas vozes — unânimes — o persuadiram de que um mundo feliz é aquele em que nem uma gota de água cai do céu e nem uma nuvem o escurece para vir perturbar os momentos de lazer ou dificultar a chegada ao emprego.



...e casas em ruínas

comovem as raízes expostas das árvores


imagem - Carleton Watkins
1883 – 1885


A emoção não justifica (não pensa) a realidade: acolhe-a como intimação perigosa ou como harmonia afectuosa e cordial, como se o mundo estivesse a enviar sinais para a consciência. Na emoção, a realidade fala directamente com e para a consciência. No acto emotivo, não existe constatação e construção do real, mas acolhimento ameaçante ou cordial.


Miguel Real in "Nova Teoria do Pecado"

2017-04-26

Vida



nesta vida vejo eu um milagre!



[...]
E nós: espectadores, em toda a parte,
sempre a tudo voltados, nunca fora!
Isso inunda-nos. Pomo-lo em ordem. Cai.
Damos-lhe ordem de novo e então ruímos.

Quem nos virou assim do avesso, que
o que quer que façamos temos ar
de alguém que se vai embora? Como esse
que se volta na colina mais distante
para ver todo o vale inda uma vez -,
assim vivemos sempre num adeus.


Rainer Maria Rilke, da 8ª elegia
Trad. Vasco Graça Moura

dizer mais o quê?!

2017-04-25

mas faria muito bem o Tony se, antes de rezar, meditasse nisto:



Todos nós damos vontade de rir. Somos uns pobres diabos. Usando um termo grosseiro: muita cagança, muita cagança e para quê? Somos pequeníssimos. Não é que uma pessoa tenha que aceitar a sua pequenez, mas parece-me bastante triste a vaidade, a presunção, o orgulho, tudo isso com que pretendemos ou queremos mostrar que somos mais do que efectivamente somos. Não será caricato ou ridículo, mas bastante triste. 




José Saramago, in 'Jornal de Letras, Artes e Ideias (2008)' 

uma contradição nada incomum

uma:

Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer quota-parte nessa causa.”

e outra:

“Disseram-me: ‘És muito miúdo. Não sabes que há verdades que não se podem dizer?’ Fez-se clique. Olhei para o gajo e disse assim: ‘Mas comigo é que não’.”


Daqui

25 de abril sempre!


2017-04-24




NÃO HÁ OUTRO CAMINHO
para o Vítor

Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência 
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então 
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá 
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.


Rui Pires Cabral, in Morada, ed. Assírio & Alvim 

2017-04-13



Tinha uns olhos tão tristes, tão tristes, como se neles se pudesse ver toda a tristeza do mundo. Inexorável o olhar daquele cão.

2017-04-09

nem o Eça ousaria tanto



É que habitualmente fala-se dos três pastorinhos, mas na verdade há dois processos a decorrer em fases muito distintas. Quando as pessoas rezam e relatam esses presumíveis milagres, referem-se aos três pastorinhos, ou só ao Francisco e à Jacinta, ou só à Lúcia?
 
Essa pergunta é interessantíssima, e se tiver a resposta agradeço-lhe imenso (risos)! Esta é a minha dificuldade agora, porque no nosso imaginário são os três pastorinhos, é muito difícil distinguir. Só ao Francisco ou só à Jacinta já há pouca gente a fazê-lo, até porque o meu papel é mesmo este, é difundir a santidade e dizer que eles estão juntos, e de facto as pessoas já os veem como os dois pastorinhos. O problema é que também incluem a Lúcia. Então, o meu papel é fazer perceber às pessoas que a Lúcia não é pastorinha, a Lúcia é Irmã Lúcia. É difícil, mas esta é a minha missão enquanto postuladora das duas causas. É mesmo dizer que se pedem aos três, em termos processuais, fico sem saber o que fazer. Não posso introduzir o caso.


Alela Diane - Lost Land

2017-04-08

porque hoje é sábado




Henri Cartier-Bresson
“Chez Gégène”, Joinville-le-Pont, France, 1938
From Images à la Sauvette (Verve, 1952), p. 16

© Henri Cartier-Bresson / Magnum Photos

2017-04-05

"o fruto permitido"


a ler os outros:

Em suma, perdemos a liberdade, a espontaneidade, a irresponsabilidade do animal. O fruto existe e por isso sabemos que não podemos arriscar tudo, comendo o que quisermos e a quantidade que quisermos. Há, pois, limites e precauções a tomar. Mas também sabemos que, não sendo clara a indicação do fruto, nada nos obriga a prescindir de qualquer um deles, sem termos de ficar presos à camisa de forças da culpa. Somos e não somos livres, somos e não somos racionais, somos e não somos totalmente conscientes do que fazemos, em simultâneo. Ser humano sempre foi assim e é assim que irá continuar a ser. Bom proveito.

2017-04-04



FÁTIMA



Estive na festa de Fátima. Vendo como se empurravam nas bermas

cães, burros, jornalistas, embaixadores, turistas,

e ao longo das estradas, de joelhos ligados,

em todo o asfalto, de cabeça perdida o povo se arrastava.



Com imprecações, gritos, lágrimas, gemidos,

por poças, montes de esterco, cacos de vidro,

arrastava-se para que a bênção de Fátima

viesse ao povo e o pudesse ajudar.



Arrastam-se camponeses, amargura no rosto enrugado

como haveria na mãe de Jesus Cristo

quando lhe devolveram, por fim, o filho crucificado,

tocando-lhe ao descer o seu corpo branco da cruz.



Arrastavam-se Madalenas, torciam-se, gemiam, ofegavam,

e semeavam lágrimas, confiando nessa sementeira,

mas só sorriam anjos rubros e impertinentes

arrastando a sementeira às costas, como rapazes traquinas.



E nos automóveis pretos, louvados os Apóstolos,

com buzinas que passavam pelos saloios arrastando-se na poeira,

corriam, como para o futebol, os ideólogos do andar de rastos,

os polícias de casse-tête sendo super-indulgentes.



E no estádio, com a voz forte da Phillips,

o comércio da fé deixava cair a sua palavra quente

sobre o mar de cabeças confusas e chapéus de jornal,

oscilando trémulas como um prato de pudim.



Apelava o comércio, estendendo as mãos bem cuidadas, 

na altura em que nas estradas de Deus pejadas,

que se arrastavam ao longe sobre joelhos invisíveis,

o poente se mostrava através duma neblina como sangue através de ligaduras.



E o povo arrastava-se. E os tristes camponeses não sabiam

que os pastores de rebanho, de submissa e simples fé,

não só não podem — tudo podem os grandes no mundo! —

como não pensam tirar os seus filhos da cruz...



Yevgeny Yevtushenko, traduzido por Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Soviética, Editorial Futura, pp. 166-167, 1973.



obrigada, Henrique

2017-04-03




A mulher inclina-se na raiz da praia,
rente à espuma. Espera que a água lhe 
suba pelos pés, atingindo a ponta das 
saias. O seu corpo é surpreendido pelo
vento. O sol cresta-lhe as mãos molhadas
desde a manhã. O cão aguarda ______

protege-a da maré viva que se aproxima,
olha à sua volta e roda, afugentando as 
gaivotas. Da colina que se encolhe para 
dentro do mar, uma força estranha
vem cobrir a mulher de claridade e só
depois a envolve com um véu, fazendo-a
relembrar um naufrágio.

Jaime Rocha
"mulher inclinada com cântaro"
Ed. volta d'mar

2017-03-28

assino por baixo



Se pesquisarmos Igreja portuguesa + violência doméstica obtemos os mesmos resultados que obteríamos se pesquisássemos Igreja portuguesa+dildos . Por outro lado, todos nos habituámos a ver e a ouvir clérigos portugueses a falar sobre tudo: política, troika, futebol, drogas etc.
Sendo que a grande maioria dos crimes contras as mulheres são cometidos em zonas rurais  ou semi-rurais, isto talvez cause admiração. Nas pessoas com défice de atenção.

A Igreja não usa o poder político e  mediático de que dispõe porque não quer. E não quer porque está historicamente  vinculada às bases mentais e culturais na quais assenta o pressuposto. A mulher tradicional, a mãe de família, tem por obrigação a obediência ao marido. O divórcio, a maior causa da morte das mulheres é, ainda, um inimigo da Igreja. Como dos maridos assassinos.
 
 

 
 

2017-03-27

no dia mundial do teatro



O nosso dia mundial do teatro não pode entretanto ignorar que, entre nós, e na Europa, se assiste a uma regressão do espaço de exercício da sua força institucional, voltando o teatro de novo a exercer-se em circuitos alternativos e marginais, estando por assim dizer acantonado, livre de existir na sua precária condição meio marginal, pelo menos aquele que não se vendeu conformando-se com um formato de existência e produção que de algum modo o nega. Há no teatro também um destino burocrático, mais de ritual da democracia do que ele próprio democratizante. Há muito folclore espectacular no seu lugar, muito não teatro, ou snobeira espectacular, que se faz em seu nome.
Com a austeridade novas formas de censura das liberdades do teatro surgiram e, mais que todas, aquelas que lhe tolhem o passo, pela via dos cortes, da censura económica. A austeridade significou uma limitação das liberdades e dos meios do seu exercício, uma limitação das fronteiras do teatro — também aqui se erguem muros, que, por muito bonitos que sejam são muros. Isso aconteceu ao teatro. E ainda não saímos desse golpe, num país em que, em boa verdade, o teatro, tal como ainda se pratica na Europa alargada que o inventou, desde a origem grega à invenção da encenação entre a França, a Alemanha e a Rússia, nunca teve um verdadeiro direito de cidade, tendo vivido, mesmo desde Abril, em circunstâncias de expressão pública muito limitadas, longe daquelas que devem propulsionar as suas potencialidades democráticas e de gosto estético, como arte social por excelência, como arte pública, como modo de qualificação dos portugueses. Estas potencialidades estão longe de ter sido exploradas de acordo com um verdadeiro propósito de cidadania e de liberdade de experimentação estética. O Estado nunca assumiu uma política cultural como componente da democracia, tal como em outras áreas, da educação à saúde.

da Mensagem do TEATRO DA RAINHA
  no DIA MUNDIAL DO TEATRO

#imagem do Espectáculo Europa 39

2017-03-26



NEFTA
 
Chegas ao oásis de Nefta
e num oásis
passa a haver dois.

Escorpiões e cobras
dormem sobre as pedras
- o horizonte é mais que infinito.

Confundo-te com uma palmeira:
bebo o teu sumo
e embriago-me do teu néctar.

No turbante de índigo
os teus olhos azuis
- e o amarelo brilhante do deserto sem fim.

Também o encantador de serpentes
se encantou
por ti.

Não disse a voz do profeta
que nas dunas do teu corpo
não há limites?

Inquieto-me quando te preparas para dormir
- sei bem de que sonhos
o meu desejo se alimenta.


Amadeu Baptista
"Fragmentos  Tunisinos"
Ed. volta d'mar

#imagem - Edward Steichen






2017-03-24



Não há cigarras nas árvores. Os besouros
fugiram. Apenas os grilos vêm beber aos
degraus das casas. O cão rodopia sobre 
si mesmo encantado com a luz, mas a 
mulher vive indiferente a tudo isso____

Se houvesse aqui monumentos antigos
junto ao mar, ruínas arcos, cemitérios,
mas não, não existe nada,
diz a mulher.

É o seu corpo agora que se enrola no 
vento à procura de um espaço pequeno
onde possa esconder os objectos e rezar.


Jaime Rocha
"Mulher inclinada com cântaro"
Ed. volta d'mar

 

2017-03-22

a explicação do espiritual




O azul move-se em colunas entre o mar e o céu,
espesso como o som das cigarras o dia inteiro.
Linguagens humanas várias movem-se
leves na mesma conversa;
as mulheres nadam ao largo,
os homens ficaram a falar em casa,
os do mar cuidam dos de terra,
os de terra cuidam dos do mar,
os conhecidos dos desconhecidos
e sobre todos paira a cítara que Hara lida no terraço.
O sol amassa todo o arquipélago num único ponto do tempo,
fora do presente.
Isto e nada mais são todos os deuses do Olimpo.
A explicação do espiritual é tão simples como uma salada grega:
a diversidade é o logos da unidade.


(Tinos, 28 de Julho de 2014)

Imagem: Ísis em Delos. © Porfírio Silva


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