2017-04-13



Tinha uns olhos tão tristes, tão tristes, como se neles se pudesse ver toda a tristeza do mundo. Inexorável o olhar daquele cão.

2017-04-09

nem o Eça ousaria tanto



É que habitualmente fala-se dos três pastorinhos, mas na verdade há dois processos a decorrer em fases muito distintas. Quando as pessoas rezam e relatam esses presumíveis milagres, referem-se aos três pastorinhos, ou só ao Francisco e à Jacinta, ou só à Lúcia?
 
Essa pergunta é interessantíssima, e se tiver a resposta agradeço-lhe imenso (risos)! Esta é a minha dificuldade agora, porque no nosso imaginário são os três pastorinhos, é muito difícil distinguir. Só ao Francisco ou só à Jacinta já há pouca gente a fazê-lo, até porque o meu papel é mesmo este, é difundir a santidade e dizer que eles estão juntos, e de facto as pessoas já os veem como os dois pastorinhos. O problema é que também incluem a Lúcia. Então, o meu papel é fazer perceber às pessoas que a Lúcia não é pastorinha, a Lúcia é Irmã Lúcia. É difícil, mas esta é a minha missão enquanto postuladora das duas causas. É mesmo dizer que se pedem aos três, em termos processuais, fico sem saber o que fazer. Não posso introduzir o caso.


Alela Diane - Lost Land

2017-04-08

porque hoje é sábado




Henri Cartier-Bresson
“Chez Gégène”, Joinville-le-Pont, France, 1938
From Images à la Sauvette (Verve, 1952), p. 16

© Henri Cartier-Bresson / Magnum Photos

2017-04-05

"o fruto permitido"


a ler os outros:

Em suma, perdemos a liberdade, a espontaneidade, a irresponsabilidade do animal. O fruto existe e por isso sabemos que não podemos arriscar tudo, comendo o que quisermos e a quantidade que quisermos. Há, pois, limites e precauções a tomar. Mas também sabemos que, não sendo clara a indicação do fruto, nada nos obriga a prescindir de qualquer um deles, sem termos de ficar presos à camisa de forças da culpa. Somos e não somos livres, somos e não somos racionais, somos e não somos totalmente conscientes do que fazemos, em simultâneo. Ser humano sempre foi assim e é assim que irá continuar a ser. Bom proveito.

2017-04-04



FÁTIMA



Estive na festa de Fátima. Vendo como se empurravam nas bermas

cães, burros, jornalistas, embaixadores, turistas,

e ao longo das estradas, de joelhos ligados,

em todo o asfalto, de cabeça perdida o povo se arrastava.



Com imprecações, gritos, lágrimas, gemidos,

por poças, montes de esterco, cacos de vidro,

arrastava-se para que a bênção de Fátima

viesse ao povo e o pudesse ajudar.



Arrastam-se camponeses, amargura no rosto enrugado

como haveria na mãe de Jesus Cristo

quando lhe devolveram, por fim, o filho crucificado,

tocando-lhe ao descer o seu corpo branco da cruz.



Arrastavam-se Madalenas, torciam-se, gemiam, ofegavam,

e semeavam lágrimas, confiando nessa sementeira,

mas só sorriam anjos rubros e impertinentes

arrastando a sementeira às costas, como rapazes traquinas.



E nos automóveis pretos, louvados os Apóstolos,

com buzinas que passavam pelos saloios arrastando-se na poeira,

corriam, como para o futebol, os ideólogos do andar de rastos,

os polícias de casse-tête sendo super-indulgentes.



E no estádio, com a voz forte da Phillips,

o comércio da fé deixava cair a sua palavra quente

sobre o mar de cabeças confusas e chapéus de jornal,

oscilando trémulas como um prato de pudim.



Apelava o comércio, estendendo as mãos bem cuidadas, 

na altura em que nas estradas de Deus pejadas,

que se arrastavam ao longe sobre joelhos invisíveis,

o poente se mostrava através duma neblina como sangue através de ligaduras.



E o povo arrastava-se. E os tristes camponeses não sabiam

que os pastores de rebanho, de submissa e simples fé,

não só não podem — tudo podem os grandes no mundo! —

como não pensam tirar os seus filhos da cruz...



Yevgeny Yevtushenko, traduzido por Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Soviética, Editorial Futura, pp. 166-167, 1973.



obrigada, Henrique

2017-04-03




A mulher inclina-se na raiz da praia,
rente à espuma. Espera que a água lhe 
suba pelos pés, atingindo a ponta das 
saias. O seu corpo é surpreendido pelo
vento. O sol cresta-lhe as mãos molhadas
desde a manhã. O cão aguarda ______

protege-a da maré viva que se aproxima,
olha à sua volta e roda, afugentando as 
gaivotas. Da colina que se encolhe para 
dentro do mar, uma força estranha
vem cobrir a mulher de claridade e só
depois a envolve com um véu, fazendo-a
relembrar um naufrágio.

Jaime Rocha
"mulher inclinada com cântaro"
Ed. volta d'mar

2017-03-28

assino por baixo



Se pesquisarmos Igreja portuguesa + violência doméstica obtemos os mesmos resultados que obteríamos se pesquisássemos Igreja portuguesa+dildos . Por outro lado, todos nos habituámos a ver e a ouvir clérigos portugueses a falar sobre tudo: política, troika, futebol, drogas etc.
Sendo que a grande maioria dos crimes contras as mulheres são cometidos em zonas rurais  ou semi-rurais, isto talvez cause admiração. Nas pessoas com défice de atenção.

A Igreja não usa o poder político e  mediático de que dispõe porque não quer. E não quer porque está historicamente  vinculada às bases mentais e culturais na quais assenta o pressuposto. A mulher tradicional, a mãe de família, tem por obrigação a obediência ao marido. O divórcio, a maior causa da morte das mulheres é, ainda, um inimigo da Igreja. Como dos maridos assassinos.
 
 

 
 

2017-03-27

no dia mundial do teatro



O nosso dia mundial do teatro não pode entretanto ignorar que, entre nós, e na Europa, se assiste a uma regressão do espaço de exercício da sua força institucional, voltando o teatro de novo a exercer-se em circuitos alternativos e marginais, estando por assim dizer acantonado, livre de existir na sua precária condição meio marginal, pelo menos aquele que não se vendeu conformando-se com um formato de existência e produção que de algum modo o nega. Há no teatro também um destino burocrático, mais de ritual da democracia do que ele próprio democratizante. Há muito folclore espectacular no seu lugar, muito não teatro, ou snobeira espectacular, que se faz em seu nome.
Com a austeridade novas formas de censura das liberdades do teatro surgiram e, mais que todas, aquelas que lhe tolhem o passo, pela via dos cortes, da censura económica. A austeridade significou uma limitação das liberdades e dos meios do seu exercício, uma limitação das fronteiras do teatro — também aqui se erguem muros, que, por muito bonitos que sejam são muros. Isso aconteceu ao teatro. E ainda não saímos desse golpe, num país em que, em boa verdade, o teatro, tal como ainda se pratica na Europa alargada que o inventou, desde a origem grega à invenção da encenação entre a França, a Alemanha e a Rússia, nunca teve um verdadeiro direito de cidade, tendo vivido, mesmo desde Abril, em circunstâncias de expressão pública muito limitadas, longe daquelas que devem propulsionar as suas potencialidades democráticas e de gosto estético, como arte social por excelência, como arte pública, como modo de qualificação dos portugueses. Estas potencialidades estão longe de ter sido exploradas de acordo com um verdadeiro propósito de cidadania e de liberdade de experimentação estética. O Estado nunca assumiu uma política cultural como componente da democracia, tal como em outras áreas, da educação à saúde.

da Mensagem do TEATRO DA RAINHA
  no DIA MUNDIAL DO TEATRO

#imagem do Espectáculo Europa 39

2017-03-26



NEFTA
 
Chegas ao oásis de Nefta
e num oásis
passa a haver dois.

Escorpiões e cobras
dormem sobre as pedras
- o horizonte é mais que infinito.

Confundo-te com uma palmeira:
bebo o teu sumo
e embriago-me do teu néctar.

No turbante de índigo
os teus olhos azuis
- e o amarelo brilhante do deserto sem fim.

Também o encantador de serpentes
se encantou
por ti.

Não disse a voz do profeta
que nas dunas do teu corpo
não há limites?

Inquieto-me quando te preparas para dormir
- sei bem de que sonhos
o meu desejo se alimenta.


Amadeu Baptista
"Fragmentos  Tunisinos"
Ed. volta d'mar

#imagem - Edward Steichen






2017-03-24



Não há cigarras nas árvores. Os besouros
fugiram. Apenas os grilos vêm beber aos
degraus das casas. O cão rodopia sobre 
si mesmo encantado com a luz, mas a 
mulher vive indiferente a tudo isso____

Se houvesse aqui monumentos antigos
junto ao mar, ruínas arcos, cemitérios,
mas não, não existe nada,
diz a mulher.

É o seu corpo agora que se enrola no 
vento à procura de um espaço pequeno
onde possa esconder os objectos e rezar.


Jaime Rocha
"Mulher inclinada com cântaro"
Ed. volta d'mar

 

2017-03-22

a explicação do espiritual




O azul move-se em colunas entre o mar e o céu,
espesso como o som das cigarras o dia inteiro.
Linguagens humanas várias movem-se
leves na mesma conversa;
as mulheres nadam ao largo,
os homens ficaram a falar em casa,
os do mar cuidam dos de terra,
os de terra cuidam dos do mar,
os conhecidos dos desconhecidos
e sobre todos paira a cítara que Hara lida no terraço.
O sol amassa todo o arquipélago num único ponto do tempo,
fora do presente.
Isto e nada mais são todos os deuses do Olimpo.
A explicação do espiritual é tão simples como uma salada grega:
a diversidade é o logos da unidade.


(Tinos, 28 de Julho de 2014)

Imagem: Ísis em Delos. © Porfírio Silva


daqui


2017-03-19



as palavras têm o seu peso

quando dizemos amor
a palavra levita como uma pena
no regaço de uma brisa de verão
quando dizemos ódio
a palavra cai na terra e levanta pó
é como uma pedra
arremessada sem perdão

mas se dissermos silêncio
quem por nós erguerá tamanho peso?
é palavra tão sem medida
que mil braços humanos não chegariam
para levantá-la um milímetro que fosse
desse chão onde o ódio nos espatifa

queria uma grua que levantasse o silêncio
à altura do nosso amor
para que daqui onde me encontro
pudesse continuar a olhar-te
à distância de um sonho

onde fosse autêntico como um punhal
cada vocábulo deste triste quadro
os teus lábios são um navio de esperança
a minha boca um porto de abrigo
e à deriva andamos ambos na ausência um do outro
enquanto reclamamos
de ser tudo como dantes:
tão indolente que parece morto
tão indolente que parece morto


do olhar do Henrique sobre uma grua numa obra abandonada. Um olhar particular sobre objectos e paisagens quotidianas, mas também sobre a cidade dos homens e os paradoxos que os habitam. 
Antes de ler "A GRUA", poder ouvir ontem os versos lidos pelo autor e pelo actor Fernando Mora Ramos, bem como ouvir do Henrique as motivações para a composição poética, é saborear com redobrado deleite cada imagem poética que nos é oferecida generosamente pelo poeta.

2017-03-14





POEMA DE AMOR 

Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nos olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada. 

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas. 

Tardará muito, se é que as horas contam, 
ver-te, de novo, perto de mim, longe, 
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 
um dia a menos, o da tua chegada. 
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... - 
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles 
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 
na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
ou num jardim um leito de flores!...


Ruy Cinatti, in Obra Poética, ed. Assírio & Alvim 

 

2017-03-09




no melhor pano cai a nódoa, ou já não há pano, apenas a dita?







METAFÍSICA


Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.


Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo das flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.


Fiama Hasse Pais Brandão, daqui

2017-03-07



Diante do teu rosto tardio
So-
litário entre
noites que também me transformam,
algo que outrora já entre nós estivera,
se instalou, in-
tocado por pensamentos.


Paul Celan in "Não sabemos mesmo o que importa"
Trad. Gilda Lopes Encarnação

2017-02-27




Zurique, no hotel a Cegonha

Para Nelly Sachs


Falávamos do excesso, da
carência. Do Tu
e Contudo-Tu, do
turvo pela claridade, do
judaico, do
teu Deus.

Dis-
so.
No dia de uma ascensão, a
catedral ficava acolá, vinha
com algum ouro sobre as águas.

Falávamos do teu Deus, eu falava
contra ele, eu
deixei o coração que possuía
ter esperança:
na sua palavra suprema, agonizada, na sua
palavra quezilenta -

Teu olho fitou-me, desviou-se,
tua boca
seguiu o olho, eu escutei:

Nós
não sabemos mesmo, sabes,
nós
não sabemos mesmo 
o que
importa.


Paul Celan in "Não sabemos mesmo o que importa"
Trad-Gilda Lopes Encarnação



2017-02-22



Nós combatemos a nossa superficialidade, a nossa mesquinhez, para tentarmos chegar aos outros sem esperanças utópicas, sem uma carga de preconceitos ou de expectativas ou de arrogância, o mais desarmados possível, sem canhões, sem metralhadoras, sem armaduras de aço com dez centímetros de espessura; aproximamo-nos deles de peito aberto, na ponta dos dez dedos dos pés, em vez de estraçalhar tudo com as nossas pás de catterpillar, aceitamo-los de mente aberta, como iguais, de homem para homem, como se costuma dizer, e, contudo, nunca os percebemos, percebemos tudo ao contrário.
Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário.
Como, com eles, acontece a mesma coisa em relação a nós, na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão. E, contudo, que fazer com esta coisa terrivelmente significativa que são os outros, que é esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado lúdico; estaremos todos tão mal preparados para conseguirmos ver as acções íntimas e os objectivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso - estão com sorte.

Philip Roth, in 'Pastoral Americana'

2017-02-17

o essencial




"Falamos tanto, falamos excessivamente. De onde vem esta necessidade de falar? Um tipo que escreva como fala é um chato, um tipo que pense como escreve é um tonto, um tipo que fale como pensa é insensato. Aprecio cada vez mais as formas de comunicação dos bichos, o mundo reduzido a um som que anuncia perigo ou prazer, fome ou assalto. O essencial."

[O Henrique a dar à escrita o que me vai cá dentro, ou seja: estamos uns bons bichos do mato. Mas o "mundo" está inundado de opinião sobre o acessório. Calemo-nos.] 


 

2017-02-15



A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação directa com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me. 

 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

2017-02-14




¿A qué dios le reza usted? Pues a un dios universal. A un dios que no es católico, musulmán o judío. Las religiones me parecen sectarias y excluyentes. Cada una de ellas está convencida de que las otras no sirven. Por eso, más que de religión, prefiero hablar de espiritualidad, porque esta siempre logra sobrevolar esos sectarismos.

[e muito mais, aqui ]

2017-02-08





Eu minto mas minha voz não mente
Minha voz soa exactamente
De onde no corpo da alma de uma pessoa
Se produz a palavra eu

aparentemente




As pessoas passeiam cães ao colo, marcam encontros no Tinder, divertem-se no Facebook, voam em lowcost para hotéis baratos, comem antidepressivos ao pequeno-almoço, participam em reuniões e em jantares. E, no entanto, parecem felizes. 

retirado daqui



 


Poema Agreste

Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.

Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.

Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender meus passos nesse limite.

Glória de Sant'Anna, in 'Poemas do Tempo Agreste'

2017-02-04




É perfeitamente normal que prestemos mais atenção aos sucessos do que aos fracassos, tanto nos percursos individuais como nos grupos a que pertencemos. 
Tenho lido alguns comentários de católicos mais ortodoxos sobre o filme "Silêncio" de Martin Scorsese e, sem surpresa, constato como lhes é difícil aceitar que no percurso de qualquer crente, tudo é possível, inclusive a apostasia.

Por outro lado, acomodar Deus em qualquer silêncio, como se fosse um cofre e nos bastasse usar uma chave sempre acessível, é algo para o qual o mesmo filme, ou os desertos que percorremos, torna insano.


 

levanta-se o olhar


2017-02-02





Em quantas coisas não temos de confiar para poder viver o dia a dia sem nos afundarmos pela terra abaixo!
Confiar nos montes de neve que se agarram com força à vertente da montanha sobranceira à aldeia!
Confiar nas promessas de manter segredo e no sorriso de mútuo acordo, confiar em que o telegrama que comunica o acidente não se destina a nós, e que a inesperada pontada aguda não se fará sentir.
Confiar nos eixos das rodas que nos suportam na autoestrada, no meio de um enxame de aço trezentas vezes maior.
E, contudo, nada disto é merecedor de confiança da nossa parte.
Os cinco instrumentos de cordas dizem-nos que podemos confiar noutra coisa.
Em quê? Numa coisa diferente, e vêem connosco um bocado do caminho.
Como quando a meio da escada a luz se apaga, e a mão - confiante - segura o corrimão cego que nas trevas encontra o caminho.


Tomas Tranströmer in "50 Poemas"
Trad. Alexandre Pastor
Relógio D'Água