2017-11-23

Daqui

Hesitei se devia publicar esta foto. Não sou dada a considerar que uma imagem define uma pessoa ou situação. Mas é uma imagem forte, portanto, aqui fica.

2017-11-22

o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar

TERRA NAVEGÁVEL

Vamos pela tarde fora à procura de deus.
Depois do dia ter falhado com as suas promessas
o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar.

Transporto no coração a contagem dos passos
e na cabeça a língua que se prende
por engano ao céu da boca.

Será sempre preciso navegar em terra,
agarrar o que resta pela cintura e disfarçar o corpo
nu entre os rochedos.

Cada palavra é um remo, cada abraço perdido
uma bóia a menos no costado.
Os aparelhos da fala excrementos das gaivotas.

A tarde recolheu os últimos sinais da divindade.
Avançamos à procura da água
prometida.

Confundimos as ondas com os limos da garganta,
as cavernas com as muitas moradas, o destino
com mais um precipício antes da noite.


Armando Silva Carvalho in "A Sombra Do Mar"
Assírio & Alvim

2017-11-16


#refugiados Rohingya - Reuters/Navesh Chitrakar

Dies Irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

2017-11-05

Not Dark Yet - Bob Dylan

ALGUMA ETERNIDADE

Um nome é uma vida, um sangue, um coração absoluto,
o estremecer de alguma eternidade.

Tudo tem direito a um nome.
Até uma lagarta que se move entre as frescura das couves
e os restos amarelos do que já apodreceu,
com todos os seus gestos lentos de cocotte,
não despedaça o seu nome na lama.
A boca de deus chamará
por ela.


Olhai toda a natureza exuberante
que merece o esplendor de uma outra nomenclatura.
A não-nomenclatura que existe antes do verbo,
todo esse despertar do mal e bem entre a matéria,
da exaltação da flora desumana,
da língua branca e fria
e glaciar,
da boca aberta da lava,
dos avós asteróides, da desordem do ser e do silêncio,
da igualdade da morte, da monotonia
da vida.

Os nomes não queimam o tudo e todos
que a eles têm direito.
É a língua da carne em chamas,
no frio da casa obscura,
feita de nós, por nós, ociosos de deus,
criada de apelos verbais,
pois quem finge que chama, chama para dividir
e reinar,
nunca saberá olhar a sombra do seu próprio monstro,
e ser também a simples partícula do bem
suspenso no vazio do seu nome.


Armando Silva Carvalho in "A Sombra do Mar"


2017-11-03

quem não gosta é uma folha de couve

ademais

Os homens, reconhecendo a inconveniência de aceitar a natureza feia como ela às vezes se apresenta, deliberaram, de comum concerto, pôr-lhe máscara.


Camilo Castelo Branco in "O Que Fazem as Mulheres"

abrir os olhos é preciso


Temo, temo seriamente, que tanta indignação com os casos mais mediáticos de violência doméstica e de assédio, sirvam apenas para aliviar algumas consciências. E todas as mulheres e crianças, que não têm nome para aparecer nos jornais ou redes sociais, continuem no anonimato a ser tão vítimas quanto o foram antes.

2017-10-23

como livros fechados



Li há pouco: "um católico tem fé e a fé não desespera." E embrenho-me em cogitações e interrogações: um vaso é aquilo que contém? católico uma vez católico para sempre (mesmo que não esteja de acordo quanto a princípios nem comungue da vida da Igreja)? É possível possuir uma fé que seja mais que interrogação e espera?
CHUVA DOMÉSTICA

Concede o teu perdão àquele que foste ontem
e não te conhece hoje debaixo do chuveiro.
As casas não sabem nada de nós próprios 
e são paredes de hábitos,
casulos seculares.
Há vinte anos tu eras diferente, as casas não sabem nada,
dizia o outro e bem,
muito menos o que tu foste ontem sobre o que tu és hoje
debaixo do chuveiro.

O que tu foste ontem não tem nada a ver com essa barba grossa,
com essa dor no dedo grande do pé
e que te dizem ser gota, e essa excitação precoce
que te vem da memória
e começou agora extemporânea e ridícula, quando o dedo te dói
e o tempo, como se fosse um século, tem um dia de vida,
uma noite, e falavam do ébola a invadir a europa.

Toda esta chuva minúscula que te cai da  boca,
todo este desabar de água controlada e tépida te leva  a esquecer
o que é uma epidemia, foi ontem?
Que estranhas criaturas, hiper-protegidas,
desfilaram ontem como um sonho e hoje de manhã
são como um pesadelo?
A verdade é só uma, o que tu foste ontem
já não te conhece.

Não consintas que deus te sobreponha os dias
aos mistérios do tempo.
Exige a cada minuto o seu próprio prazer e desilusão.
Por alma dos que lá tens coça o dedo grande do pé
e fecha-me essa torneira. Tu ainda não reparaste,
mas a casa de banho é agora um lago.

Armando Silva Carvalho in A Sombra do Mar
Assírio & Alvim


2017-10-22

Montserrat Figueras - Yo soy la locura





Tenho dias em que a vida entra por mim devagarinho, quase sem eu dar por isso. Dias em que até a santidade me parece acessível, como colher um bom fruto, de tal modo acessível ao alcance da mão que me basta um pequeno salto que eu saltarei quando quiser. Dias em que todos me parecem bons e em que quase me convenço de que os homens se amam de facto uns aos outros. Mas passa uma noite e acorda-se já num outro mundo. Mundo de lassidão e de peso. Mundo que sinto nos ombros e me esmaga.


António Alçada Baptista - Peregrinação Interior
#imagem - Rufino Tamayo, 1977

2017-10-20

exatamente


Só um idiota urbano, daqueles que precisam de ser submetidos a 35 graus centígrados em meados de Outubro, depois de seis meses sem chover, para chegar à conclusão de que aquilo a que insistentemente chamaram “bom tempo” é uma catástrofe, é que não percebe que aquele mar verde de oliveiras a perder de vista, alimentadas para crescerem mais num ano do que os antigos olivais cresciam numa década, e ocupando o terreno com a mesma densidade que uma plantação de couves, consomem água e fertilizantes em porções criminosas. Em pouco tempo, a terra fica exaurida e o deserto cresce. Noutros lugares do Alentejo, os olivais com mil anos não precisam que lhes seja erguido um “memorial” porque são eles que transportam a memória do mundo.

António Guerreiro no Público

2017-10-19




A um Homem do Passado

Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?

Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.

Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.



Manuel António Pina

#imagem. Mimmo Jodice, Nápoles, 1980

tirem-me deste filme



Há homens grandes que se equipam a preceito, às quintas e domingos saem para os campos, e publicitam impantes as presas que andaram a criar em cativeiro, e dias antes soltaram para poder matar.

2017-10-15





Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.



Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas, Relógio d’Água

2017-10-14

o dia seguinte

No dia de ontem, obriguei-me a ver "a entrevista" (a esperança é a última a morrer), mas serviu apenas para reforçar um estado de náusea. Nunca é agradável percepcionar a manipulação. Reconhecer que alguém se serviu de um cargo público para alimentar a ânsia desmedida de posse, é desolador. Sim, por duas vezes contribui  com o meu voto para que José Sócrates fosse eleito para chefiar um governo, que eu acreditava ser o melhor para o país.  

Também no dia de ontem foi apresentado o orçamento de Estado para o próximo ano. Nos evangelhos é recomendado que "os mortos enterrem os seus mortos" - um convite a olharmos o futuro, mas torna-se ensurdecedor o silêncio do Partido Socialista sobre o que se passou entre 2005 e 2011.

porque hoje é sábado


# imagem de Ken Heyman

2017-10-02

no ano da graça de 2017, século XXI, portanto,



Isaltino de Morais é eleito presidente de Câmara de Oeiras. Hoje reparo que os suportes de papel higiénico, nas casas de banho do centro comercial da cidade, estão trancados a cadeado.

2017-09-27


Obscurecer


Que paraíso
poderei extrair de tantas ruínas
sem nelas me perder?

Aproximei-me do vidro e obscureci
com a fome do ver
a noite que se iluminava em diante.



Luís Quintais in "Mais espesso que a água"
Ed. Livros Cotovia

um rosto, um mundo


Fernando Lemos, aqui

2017-09-22

temos a louca mania de relativizar tudo à nossa volta



As coisas



A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.

Jorge Luis Borges

2017-09-13


E, no entanto, nada existe no mundo que possa impedir o homem de sentir-se nascido para a liberdade. O que quer que advenha, jamais ele poderá aceitar a servidão, pois nele existe o pensamento. Jamais cessou de sonhar uma liberdade sem limites, quer sob a forma de uma felicidade passada, da qual, por castigo, teria sido privado, quer como felicidade vindoura, que lhe seria devida através de uma espécie de pacto com uma providência misteriosa. O comunismo concebido por Marx é a forma mais recente deste sonho. Tal sonho, como todos os sonhos, sempre permaneceu vão, e se através dele alguma consolação adveio foi semelhante àquela oferecida pelo ópio; é já tempo de renunciar a apenas sonhar a liberdade e decidir concebê-la.

Simone Weil
em Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social, tradução de Maria de Fátima Sedas Nunes, Lisboa: Antígona, 2017, p. 73.


retirado do blogue de manuel a. domingos

2017-09-10

onde é que já eu ouvi isto?



Entre outras coisas, a “comida limpa” veio confirmar o quão vulneráveis e perdidos milhões de nós se sentem relativamente ao regime alimentar – ou seja, relativamente ao nosso corpo. Estamos tão desorientados que depositamos as nossas esperanças numa qualquer entidade que nos prometa que também nós podemos ser puros e bons.

jornal Público

2017-09-08

"a tirania da luz"


Estamos submetidos a uma tirania da luz, mas essa tirania não começou no nosso tempo nem é explicável apenas como um resultado da urbanização generalizada e da colonização tecnológica: ela tem atrás de si uma longa história filosófica, cultural e política. 

António Guerreiro no Público


2017-09-05



Ó olha, olha-te ao espelho,
Olha em tua inquietação;
Já não sabes bendizer
Mas a vida é uma bênção.

[W.H. Auden]


M., três anos a descobrir.

2017-09-03



#Sally Mann
21 de Agosto de 1909


Minha querida Nora,

Parece-me que estás apaixonada por mim, não estás? Dá-me prazer pensar que estás a ler os meus versos (embora tenhas levado cinco anos a descobri-los). Quando os escrevi, eu era um rapaz estranho e solitário, que passeava pelas ruas à noite, sozinho, e pensava que um dia seria amado por uma rapariga. Mas nunca conseguia falar com as raparigas que encontrava em casa das pessoas. As maneiras delas eram tão artificiais que me paralisavam. Depois tu vieste ao meu encontro. Em certo sentido, não eras a rapariga com quem eu sonhara e para quem tinha escrito os versos que hoje te parecem tão encantadores. Essa (tal como eu a imaginava) era talvez uma rapariga de uma estranha beleza grave, assim moldada pela cultura das gerações anteriores, a mulher para quem escrevi poemas como «Gentle lady» ou «Thou leanest to the shell of night». Mas depois vi que a beleza da tua alma eclipsava a dos meus versos. Havia em ti algo mais elevado do que tudo o que eu tinha posto neles. Por essa razão, esse livro de poemas é para ti. Ele exprime o anseio da minha juventude, e tu, querida, foste a satisfação desse anseio.
Fui cruel contigo? De uma crueldade, pelo menos, não me podes acusar. Não destruí o amor cálido, impetuoso e vivificante que há dentro de ti. Examina agora as profundezas do teu coração, querida, e diz-me que ele não endureceu nem envelheceu ao longo destes anos que passaste comigo. Não, és hoje capaz de sentimentos mais belos e profundos do que no início. Diz-me, minha querida Nora, que a minha companhia foi boa para ti, e eu dir-te-ei o que a tua significou para mim.
[...]

Jim


James Joyce in "Cartas a Nora"
trad. José Miguel Silva
Relógio D'Água

2017-09-01

escute-se o poeta


De resto, o mundo devia parar aos fins-de-semana. As pessoas deviam ser proibidas de morrer aos fins-de-semana. Numa sociedade ideal, aos fins-de-semana os parques ficariam cheios de famílias e namorados, as ruas seriam como que o sistema nervoso central do amor.

iniciarei setembro assim


a saber o que me espera