2017-01-30

porque não se pode ficar à espera que falem as pedras





"porque existe a ideia falsa de que as mulheres são espancadas ou violadas por uma determinada classe social, por um determinado tipo de homens que não são cultos, que são de um estrato social mais baixo, porque os outros são maravilhosos. Mas não é verdade. Tanto bate ou viola a mulher um médico, um advogado, um político, seja quem for, como um operário, camponês, e por aí fora. A mulher sempre apanhou e sempre foi violentada. As pessoas não encaram a violência do que se passa na cama, no ato sexual com o marido. Ainda hoje isso é muito difícil de perceber."






Grades da Linguagem

O círculo do olho entre as barras.

Animal cintilante a pálpebra
rema para cima,
liberta um olhar.

Íris, nadadora, sem sonhos e sem brilho:
o céu, cinzento-coração, deve estar por perto.

Inclinada, na ponta do ferro,
a limalha fumegante.
No sentido da luz
adivinhas a alma.

(Fora eu como tu. Foras tu como eu.
Não estávamos nós
sob uma monção?
Nós somos estranhos.)

A laje. Sobre ela,
muito apertadas, as duas
poças cinzento-coração:
duas
Bocas cheias de silêncio.


Paul Celan in "Não sabemos mesmo o que importa"
Trad. Gilda Lopes Encarnação
Relógio D'Água 


 

2017-01-27

pessoas



imagem - A woman who fled from clashes in Mosul waits in a car as she goes back to her house after the liberation of their area at Khazer camp, Iraq. REUTERS/Alaa Al-Marjani

2017-01-24



Não és Bom, nem és Mau

Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando num vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de acções sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demónio que ruge e um deus que chora. 



Olavo Bilac, in "Poesias"

2017-01-21

[a ler]

O antiamericanismo cego e primário sempre me pareceu um exagero, uma tolice, uma ilusão, um fator de bloqueio de uma compreensão mais completa, tolerante e útil do mundo e da humanidade. Muito injusto, aliás, para os milhões de  norte-americanos que, à sua maneira, se têm batido por uma sociedade melhor e até por um  mundo menos instável e desigual. Por este motivo é particularmente dramático o desastre politico que se abateu sobre os EUA e sobre o planeta com a eleição de Donald Trump, o personagem burlesco imposto aos seus concidadãos num contexto de manipulação da democracia pelos média. O seu americanismo cavernícola e agressivo contribuirá para revigorar o antiamericanismo mais visceral. Será difícil escapar-lhe e isso será mau para todos. God bless America. E a nós também.

Rui Bebiano, aqui

António Marujo, num gesto de coragem e de lucidez, fez esta comunicação no congresso dos jornalistas:


Suicidamo-nos enquanto profissionais quando misturamos informação e entretenimento; quando abdicamos de ser jornalistas e entregamos esse papel a comentadores que mais não são que políticos ou economistas com interesses a defender; quando destratamos a língua, adoptando o “economês”, o “politiquês” ou o inglês porque é mais sexy; quando nos encerramos cada vez mais numa bolha, sem conhecer a realidade de tantas vidas; quando as questões laborais passam a interessar quase só na sua vertente económica ou economicista; quando o emprego e o desemprego são estatísticas que se debitam sem rosto e sem nome; quando não somos críticos para com os verdadeiros poderes que hoje nos dominam e que ninguém elegeu – o financeiro e o económico.


[texto completo no blogue do Miguel Marujo]



2017-01-20



# Douma, Damascus suburb of Ghouta, Syria.
REUTERS/Bassam Khabieh

 

 

Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                   (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                   Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
                   E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                   E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                   Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                   Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
                   Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
                   Pagã triste e com flores no regaço. 



Ricardo Reis, in "Odes"


2017-01-18



Constantine Manos, Grecia

Radical e Reaccionário  vivem maritalmente como um casamento infeliz, 
formado por ambos, dependentes um do outro.
Mas nós, filhos deles, temos de nos libertar.
Cada problema clama pela sua linguagem própria.
Como o cão de caça segue o rasto deixado pela verdade.



Tomas Tranströmer
50 Poemas
trad. Alexandre Pastor
Relógio D'Água



2017-01-12

"é a solidão que dissipa o outro..."


O que nos torna desprezíveis? Certamente não serão os gestos repetidos dos dias, voltar para trás a verificar se fechámos correctamente as portas, aproveitar nesgas de calor para secar a roupa, passear o animal doméstico, mudar um pneu furado, oferecer ajuda a quem dela nos pareça precisado. O que nos torna desprezíveis é não termos com quem partilhar silêncios, é a solidão que dissipa o outro impondo distâncias, é não estarmos inclinados para jogos de tabuleiro nem fazermos o mínimo esforço na direcção do que se nos opõe.

daqui





Europa 2017


Migrants stand in line to receive free food outside a derelict customs warehouse in Belgrade, Serbia.
REUTERS/Marko Djurica

2017-01-10

Meryl Streep em nome da decência

as redes vivem disso



O parabolano tem pelo menos o mérito de nos fazer pensar os ínvios caminhos do moralismo na actualidade, a lógica rasteira, abstrusa e capciosa, diria mesmo burra do mais burro que pode haver, dos detentores da pós-verdade, enfim a palermice, o infantilismo, a patetice generalizada nas redes que proíbem maminhas ao léu mas aceitam todo o tipo de dejectos que um esgoto aceita sem que se verifique grandes incómodos com o estado da situação. De resto, são inúmeras as pessoas que tendem a aderir ao esgoto com evidente gosto e falta de espírito crítico. O que as torna apenas ainda mais coerentes com as suas práticas murídeas. Uma coisa é certa, quando morrerem ninguém o lamentará. 

2017-01-06

oh, my baby

quem sabe, sabe





Vós outros andais muito solícitos em redor do próximo, e a vossa solicitude exprime-se em belas palavras. Mas eu vos digo: o vosso amor ao próximo é apenas o vosso mau amor por vós próprios.
É para fugirdes de vós que andais em volta do próximo, e quereríeis converter isso numa virtude; mas pus a claro o vosso «desinteresse».

F. Nietzsche in "Assim falava Zaratustra

 

2017-01-03

há sempre um livro que me lê



Passaram velozes os meus dez anos de cárcere, já o disse.
De resto, a vida na prisão onde cumpri a minha sentença não era das mais duras. Os meses corriam serenamente iguais.
Tínhamos uma longa cerca onde, a certas horas, podíamos passear, sempre sob a vigilância dos guardas, que nos vigiavam misturados connosco e que às vezes até nos dirigiam a palavra.
A cerca terminava num grande muro, um grande paredão sobre uma rua larga - melhor: sobre uma espécie de largo onde se cruzavam várias ruas. Em frente - pormenor que se me gravou na memória - havia um quartel amarelo (ou talvez uma prisão).
O prazer maior de certos detidos, era de se debruçarem do alto do grande muro, e olharem para a rua; isto é: para a vida. Mas os carcereiros, mal os descobriam, logo brutalmente os mandavam retirar.
Eu poucas vezes me acercava do muro; apenas quando algum dos outros prisioneiros me chamava com insistência, por grandes gestos misteriosos, pois nada me poderia interessar do que havia para lá dele.
Mesmo, nunca soubera evitar um arrepio árido de pavor ao debruçar-me  a esse paredão e ao vê-lo esgueirar-se, duma grande altura - enegrecido, lezardento, escalavrado,  - sobre raros indícios duma velha pintura amarela.


Mário de Sá-Carneiro - Verso e Prosa
Assírio & Alvim