2017-02-02





Em quantas coisas não temos de confiar para poder viver o dia a dia sem nos afundarmos pela terra abaixo!
Confiar nos montes de neve que se agarram com força à vertente da montanha sobranceira à aldeia!
Confiar nas promessas de manter segredo e no sorriso de mútuo acordo, confiar em que o telegrama que comunica o acidente não se destina a nós, e que a inesperada pontada aguda não se fará sentir.
Confiar nos eixos das rodas que nos suportam na autoestrada, no meio de um enxame de aço trezentas vezes maior.
E, contudo, nada disto é merecedor de confiança da nossa parte.
Os cinco instrumentos de cordas dizem-nos que podemos confiar noutra coisa.
Em quê? Numa coisa diferente, e vêem connosco um bocado do caminho.
Como quando a meio da escada a luz se apaga, e a mão - confiante - segura o corrimão cego que nas trevas encontra o caminho.


Tomas Tranströmer in "50 Poemas"
Trad. Alexandre Pastor
Relógio D'Água



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