2017-02-27




Zurique, no hotel a Cegonha

Para Nelly Sachs


Falávamos do excesso, da
carência. Do Tu
e Contudo-Tu, do
turvo pela claridade, do
judaico, do
teu Deus.

Dis-
so.
No dia de uma ascensão, a
catedral ficava acolá, vinha
com algum ouro sobre as águas.

Falávamos do teu Deus, eu falava
contra ele, eu
deixei o coração que possuía
ter esperança:
na sua palavra suprema, agonizada, na sua
palavra quezilenta -

Teu olho fitou-me, desviou-se,
tua boca
seguiu o olho, eu escutei:

Nós
não sabemos mesmo, sabes,
nós
não sabemos mesmo 
o que
importa.


Paul Celan in "Não sabemos mesmo o que importa"
Trad-Gilda Lopes Encarnação



3 comentários:

  1. Excelente.

    Creio que já tinha lido neste blogue um poema de Nelly Sachs. Conheci-a aqui. E era excelente, como este. :)

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  2. sim, começa assim:

    "Vós que nos desertos
    buscais veios de água ocultos..."

    mas este é do Paul Celan e dá o título ao livro:"Não sabemos mesmo o que importa". Por estes dias diz-me bastante.

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