2017-03-28

assino por baixo



Se pesquisarmos Igreja portuguesa + violência doméstica obtemos os mesmos resultados que obteríamos se pesquisássemos Igreja portuguesa+dildos . Por outro lado, todos nos habituámos a ver e a ouvir clérigos portugueses a falar sobre tudo: política, troika, futebol, drogas etc.
Sendo que a grande maioria dos crimes contras as mulheres são cometidos em zonas rurais  ou semi-rurais, isto talvez cause admiração. Nas pessoas com défice de atenção.

A Igreja não usa o poder político e  mediático de que dispõe porque não quer. E não quer porque está historicamente  vinculada às bases mentais e culturais na quais assenta o pressuposto. A mulher tradicional, a mãe de família, tem por obrigação a obediência ao marido. O divórcio, a maior causa da morte das mulheres é, ainda, um inimigo da Igreja. Como dos maridos assassinos.
 
 

 
 

2017-03-27

no dia mundial do teatro



O nosso dia mundial do teatro não pode entretanto ignorar que, entre nós, e na Europa, se assiste a uma regressão do espaço de exercício da sua força institucional, voltando o teatro de novo a exercer-se em circuitos alternativos e marginais, estando por assim dizer acantonado, livre de existir na sua precária condição meio marginal, pelo menos aquele que não se vendeu conformando-se com um formato de existência e produção que de algum modo o nega. Há no teatro também um destino burocrático, mais de ritual da democracia do que ele próprio democratizante. Há muito folclore espectacular no seu lugar, muito não teatro, ou snobeira espectacular, que se faz em seu nome.
Com a austeridade novas formas de censura das liberdades do teatro surgiram e, mais que todas, aquelas que lhe tolhem o passo, pela via dos cortes, da censura económica. A austeridade significou uma limitação das liberdades e dos meios do seu exercício, uma limitação das fronteiras do teatro — também aqui se erguem muros, que, por muito bonitos que sejam são muros. Isso aconteceu ao teatro. E ainda não saímos desse golpe, num país em que, em boa verdade, o teatro, tal como ainda se pratica na Europa alargada que o inventou, desde a origem grega à invenção da encenação entre a França, a Alemanha e a Rússia, nunca teve um verdadeiro direito de cidade, tendo vivido, mesmo desde Abril, em circunstâncias de expressão pública muito limitadas, longe daquelas que devem propulsionar as suas potencialidades democráticas e de gosto estético, como arte social por excelência, como arte pública, como modo de qualificação dos portugueses. Estas potencialidades estão longe de ter sido exploradas de acordo com um verdadeiro propósito de cidadania e de liberdade de experimentação estética. O Estado nunca assumiu uma política cultural como componente da democracia, tal como em outras áreas, da educação à saúde.

da Mensagem do TEATRO DA RAINHA
  no DIA MUNDIAL DO TEATRO

#imagem do Espectáculo Europa 39

2017-03-26



NEFTA
 
Chegas ao oásis de Nefta
e num oásis
passa a haver dois.

Escorpiões e cobras
dormem sobre as pedras
- o horizonte é mais que infinito.

Confundo-te com uma palmeira:
bebo o teu sumo
e embriago-me do teu néctar.

No turbante de índigo
os teus olhos azuis
- e o amarelo brilhante do deserto sem fim.

Também o encantador de serpentes
se encantou
por ti.

Não disse a voz do profeta
que nas dunas do teu corpo
não há limites?

Inquieto-me quando te preparas para dormir
- sei bem de que sonhos
o meu desejo se alimenta.


Amadeu Baptista
"Fragmentos  Tunisinos"
Ed. volta d'mar

#imagem - Edward Steichen






2017-03-24



Não há cigarras nas árvores. Os besouros
fugiram. Apenas os grilos vêm beber aos
degraus das casas. O cão rodopia sobre 
si mesmo encantado com a luz, mas a 
mulher vive indiferente a tudo isso____

Se houvesse aqui monumentos antigos
junto ao mar, ruínas arcos, cemitérios,
mas não, não existe nada,
diz a mulher.

É o seu corpo agora que se enrola no 
vento à procura de um espaço pequeno
onde possa esconder os objectos e rezar.


Jaime Rocha
"Mulher inclinada com cântaro"
Ed. volta d'mar

 

2017-03-22

a explicação do espiritual




O azul move-se em colunas entre o mar e o céu,
espesso como o som das cigarras o dia inteiro.
Linguagens humanas várias movem-se
leves na mesma conversa;
as mulheres nadam ao largo,
os homens ficaram a falar em casa,
os do mar cuidam dos de terra,
os de terra cuidam dos do mar,
os conhecidos dos desconhecidos
e sobre todos paira a cítara que Hara lida no terraço.
O sol amassa todo o arquipélago num único ponto do tempo,
fora do presente.
Isto e nada mais são todos os deuses do Olimpo.
A explicação do espiritual é tão simples como uma salada grega:
a diversidade é o logos da unidade.


(Tinos, 28 de Julho de 2014)

Imagem: Ísis em Delos. © Porfírio Silva


daqui


2017-03-19



as palavras têm o seu peso

quando dizemos amor
a palavra levita como uma pena
no regaço de uma brisa de verão
quando dizemos ódio
a palavra cai na terra e levanta pó
é como uma pedra
arremessada sem perdão

mas se dissermos silêncio
quem por nós erguerá tamanho peso?
é palavra tão sem medida
que mil braços humanos não chegariam
para levantá-la um milímetro que fosse
desse chão onde o ódio nos espatifa

queria uma grua que levantasse o silêncio
à altura do nosso amor
para que daqui onde me encontro
pudesse continuar a olhar-te
à distância de um sonho

onde fosse autêntico como um punhal
cada vocábulo deste triste quadro
os teus lábios são um navio de esperança
a minha boca um porto de abrigo
e à deriva andamos ambos na ausência um do outro
enquanto reclamamos
de ser tudo como dantes:
tão indolente que parece morto
tão indolente que parece morto


do olhar do Henrique sobre uma grua numa obra abandonada. Um olhar particular sobre objectos e paisagens quotidianas, mas também sobre a cidade dos homens e os paradoxos que os habitam. 
Antes de ler "A GRUA", poder ouvir ontem os versos lidos pelo autor e pelo actor Fernando Mora Ramos, bem como ouvir do Henrique as motivações para a composição poética, é saborear com redobrado deleite cada imagem poética que nos é oferecida generosamente pelo poeta.

2017-03-14





POEMA DE AMOR 

Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nos olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada. 

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas. 

Tardará muito, se é que as horas contam, 
ver-te, de novo, perto de mim, longe, 
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 
um dia a menos, o da tua chegada. 
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... - 
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles 
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 
na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
ou num jardim um leito de flores!...


Ruy Cinatti, in Obra Poética, ed. Assírio & Alvim 

 

2017-03-09




no melhor pano cai a nódoa, ou já não há pano, apenas a dita?







METAFÍSICA


Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.


Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo das flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.


Fiama Hasse Pais Brandão, daqui

2017-03-07



Diante do teu rosto tardio
So-
litário entre
noites que também me transformam,
algo que outrora já entre nós estivera,
se instalou, in-
tocado por pensamentos.


Paul Celan in "Não sabemos mesmo o que importa"
Trad. Gilda Lopes Encarnação