2017-03-19



as palavras têm o seu peso

quando dizemos amor
a palavra levita como uma pena
no regaço de uma brisa de verão
quando dizemos ódio
a palavra cai na terra e levanta pó
é como uma pedra
arremessada sem perdão

mas se dissermos silêncio
quem por nós erguerá tamanho peso?
é palavra tão sem medida
que mil braços humanos não chegariam
para levantá-la um milímetro que fosse
desse chão onde o ódio nos espatifa

queria uma grua que levantasse o silêncio
à altura do nosso amor
para que daqui onde me encontro
pudesse continuar a olhar-te
à distância de um sonho

onde fosse autêntico como um punhal
cada vocábulo deste triste quadro
os teus lábios são um navio de esperança
a minha boca um porto de abrigo
e à deriva andamos ambos na ausência um do outro
enquanto reclamamos
de ser tudo como dantes:
tão indolente que parece morto
tão indolente que parece morto


do olhar do Henrique sobre uma grua numa obra abandonada. Um olhar particular sobre objectos e paisagens quotidianas, mas também sobre a cidade dos homens e os paradoxos que os habitam. 
Antes de ler "A GRUA", poder ouvir ontem os versos lidos pelo autor e pelo actor Fernando Mora Ramos, bem como ouvir do Henrique as motivações para a composição poética, é saborear com redobrado deleite cada imagem poética que nos é oferecida generosamente pelo poeta.

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