2017-04-28



O homem da cidade vive numa ficção climática para crianças e já não sabe quando e quanto deve chover. Ele acha, aliás, que nunca devia chover nem fazer frio. E que o céu devia ser azul para sempre. Ao serviço do homem da cidade, da sua ignorância e irresponsabilidade nesta matéria, estão os jornais, a televisão, a rádio, a publicidade, toda a informação, os poderes públicos, o poder político. Todas estas vozes — unânimes — o persuadiram de que um mundo feliz é aquele em que nem uma gota de água cai do céu e nem uma nuvem o escurece para vir perturbar os momentos de lazer ou dificultar a chegada ao emprego.



...e casas em ruínas

comovem as raízes expostas das árvores


imagem - Carleton Watkins
1883 – 1885


A emoção não justifica (não pensa) a realidade: acolhe-a como intimação perigosa ou como harmonia afectuosa e cordial, como se o mundo estivesse a enviar sinais para a consciência. Na emoção, a realidade fala directamente com e para a consciência. No acto emotivo, não existe constatação e construção do real, mas acolhimento ameaçante ou cordial.


Miguel Real in "Nova Teoria do Pecado"

2017-04-26

Vida



nesta vida vejo eu um milagre!



[...]
E nós: espectadores, em toda a parte,
sempre a tudo voltados, nunca fora!
Isso inunda-nos. Pomo-lo em ordem. Cai.
Damos-lhe ordem de novo e então ruímos.

Quem nos virou assim do avesso, que
o que quer que façamos temos ar
de alguém que se vai embora? Como esse
que se volta na colina mais distante
para ver todo o vale inda uma vez -,
assim vivemos sempre num adeus.


Rainer Maria Rilke, da 8ª elegia
Trad. Vasco Graça Moura

dizer mais o quê?!

2017-04-25

mas faria muito bem o Tony se, antes de rezar, meditasse nisto:



Todos nós damos vontade de rir. Somos uns pobres diabos. Usando um termo grosseiro: muita cagança, muita cagança e para quê? Somos pequeníssimos. Não é que uma pessoa tenha que aceitar a sua pequenez, mas parece-me bastante triste a vaidade, a presunção, o orgulho, tudo isso com que pretendemos ou queremos mostrar que somos mais do que efectivamente somos. Não será caricato ou ridículo, mas bastante triste. 




José Saramago, in 'Jornal de Letras, Artes e Ideias (2008)' 

uma contradição nada incomum

uma:

Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer quota-parte nessa causa.”

e outra:

“Disseram-me: ‘És muito miúdo. Não sabes que há verdades que não se podem dizer?’ Fez-se clique. Olhei para o gajo e disse assim: ‘Mas comigo é que não’.”


Daqui

25 de abril sempre!


2017-04-24




NÃO HÁ OUTRO CAMINHO
para o Vítor

Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência 
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então 
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá 
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.


Rui Pires Cabral, in Morada, ed. Assírio & Alvim 

2017-04-13



Tinha uns olhos tão tristes, tão tristes, como se neles se pudesse ver toda a tristeza do mundo. Inexorável o olhar daquele cão.

2017-04-09

nem o Eça ousaria tanto



É que habitualmente fala-se dos três pastorinhos, mas na verdade há dois processos a decorrer em fases muito distintas. Quando as pessoas rezam e relatam esses presumíveis milagres, referem-se aos três pastorinhos, ou só ao Francisco e à Jacinta, ou só à Lúcia?
 
Essa pergunta é interessantíssima, e se tiver a resposta agradeço-lhe imenso (risos)! Esta é a minha dificuldade agora, porque no nosso imaginário são os três pastorinhos, é muito difícil distinguir. Só ao Francisco ou só à Jacinta já há pouca gente a fazê-lo, até porque o meu papel é mesmo este, é difundir a santidade e dizer que eles estão juntos, e de facto as pessoas já os veem como os dois pastorinhos. O problema é que também incluem a Lúcia. Então, o meu papel é fazer perceber às pessoas que a Lúcia não é pastorinha, a Lúcia é Irmã Lúcia. É difícil, mas esta é a minha missão enquanto postuladora das duas causas. É mesmo dizer que se pedem aos três, em termos processuais, fico sem saber o que fazer. Não posso introduzir o caso.


Alela Diane - Lost Land

2017-04-08

porque hoje é sábado




Henri Cartier-Bresson
“Chez Gégène”, Joinville-le-Pont, France, 1938
From Images à la Sauvette (Verve, 1952), p. 16

© Henri Cartier-Bresson / Magnum Photos

2017-04-05

"o fruto permitido"


a ler os outros:

Em suma, perdemos a liberdade, a espontaneidade, a irresponsabilidade do animal. O fruto existe e por isso sabemos que não podemos arriscar tudo, comendo o que quisermos e a quantidade que quisermos. Há, pois, limites e precauções a tomar. Mas também sabemos que, não sendo clara a indicação do fruto, nada nos obriga a prescindir de qualquer um deles, sem termos de ficar presos à camisa de forças da culpa. Somos e não somos livres, somos e não somos racionais, somos e não somos totalmente conscientes do que fazemos, em simultâneo. Ser humano sempre foi assim e é assim que irá continuar a ser. Bom proveito.

2017-04-04



FÁTIMA



Estive na festa de Fátima. Vendo como se empurravam nas bermas

cães, burros, jornalistas, embaixadores, turistas,

e ao longo das estradas, de joelhos ligados,

em todo o asfalto, de cabeça perdida o povo se arrastava.



Com imprecações, gritos, lágrimas, gemidos,

por poças, montes de esterco, cacos de vidro,

arrastava-se para que a bênção de Fátima

viesse ao povo e o pudesse ajudar.



Arrastam-se camponeses, amargura no rosto enrugado

como haveria na mãe de Jesus Cristo

quando lhe devolveram, por fim, o filho crucificado,

tocando-lhe ao descer o seu corpo branco da cruz.



Arrastavam-se Madalenas, torciam-se, gemiam, ofegavam,

e semeavam lágrimas, confiando nessa sementeira,

mas só sorriam anjos rubros e impertinentes

arrastando a sementeira às costas, como rapazes traquinas.



E nos automóveis pretos, louvados os Apóstolos,

com buzinas que passavam pelos saloios arrastando-se na poeira,

corriam, como para o futebol, os ideólogos do andar de rastos,

os polícias de casse-tête sendo super-indulgentes.



E no estádio, com a voz forte da Phillips,

o comércio da fé deixava cair a sua palavra quente

sobre o mar de cabeças confusas e chapéus de jornal,

oscilando trémulas como um prato de pudim.



Apelava o comércio, estendendo as mãos bem cuidadas, 

na altura em que nas estradas de Deus pejadas,

que se arrastavam ao longe sobre joelhos invisíveis,

o poente se mostrava através duma neblina como sangue através de ligaduras.



E o povo arrastava-se. E os tristes camponeses não sabiam

que os pastores de rebanho, de submissa e simples fé,

não só não podem — tudo podem os grandes no mundo! —

como não pensam tirar os seus filhos da cruz...



Yevgeny Yevtushenko, traduzido por Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Soviética, Editorial Futura, pp. 166-167, 1973.



obrigada, Henrique

2017-04-03




A mulher inclina-se na raiz da praia,
rente à espuma. Espera que a água lhe 
suba pelos pés, atingindo a ponta das 
saias. O seu corpo é surpreendido pelo
vento. O sol cresta-lhe as mãos molhadas
desde a manhã. O cão aguarda ______

protege-a da maré viva que se aproxima,
olha à sua volta e roda, afugentando as 
gaivotas. Da colina que se encolhe para 
dentro do mar, uma força estranha
vem cobrir a mulher de claridade e só
depois a envolve com um véu, fazendo-a
relembrar um naufrágio.

Jaime Rocha
"mulher inclinada com cântaro"
Ed. volta d'mar