2017-04-04



FÁTIMA



Estive na festa de Fátima. Vendo como se empurravam nas bermas

cães, burros, jornalistas, embaixadores, turistas,

e ao longo das estradas, de joelhos ligados,

em todo o asfalto, de cabeça perdida o povo se arrastava.



Com imprecações, gritos, lágrimas, gemidos,

por poças, montes de esterco, cacos de vidro,

arrastava-se para que a bênção de Fátima

viesse ao povo e o pudesse ajudar.



Arrastam-se camponeses, amargura no rosto enrugado

como haveria na mãe de Jesus Cristo

quando lhe devolveram, por fim, o filho crucificado,

tocando-lhe ao descer o seu corpo branco da cruz.



Arrastavam-se Madalenas, torciam-se, gemiam, ofegavam,

e semeavam lágrimas, confiando nessa sementeira,

mas só sorriam anjos rubros e impertinentes

arrastando a sementeira às costas, como rapazes traquinas.



E nos automóveis pretos, louvados os Apóstolos,

com buzinas que passavam pelos saloios arrastando-se na poeira,

corriam, como para o futebol, os ideólogos do andar de rastos,

os polícias de casse-tête sendo super-indulgentes.



E no estádio, com a voz forte da Phillips,

o comércio da fé deixava cair a sua palavra quente

sobre o mar de cabeças confusas e chapéus de jornal,

oscilando trémulas como um prato de pudim.



Apelava o comércio, estendendo as mãos bem cuidadas, 

na altura em que nas estradas de Deus pejadas,

que se arrastavam ao longe sobre joelhos invisíveis,

o poente se mostrava através duma neblina como sangue através de ligaduras.



E o povo arrastava-se. E os tristes camponeses não sabiam

que os pastores de rebanho, de submissa e simples fé,

não só não podem — tudo podem os grandes no mundo! —

como não pensam tirar os seus filhos da cruz...



Yevgeny Yevtushenko, traduzido por Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Soviética, Editorial Futura, pp. 166-167, 1973.



obrigada, Henrique

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