2017-05-25

magnífica


Cita-se Simone Weil e a seguir vale tudo:

Esse é o momento de ser conseqüente. E de exigir o equilíbrio imediato da balança dos poderes. Agora, e não dentro de 170 anos. É tempo de retirar aos opressores o poder de oprimir. E, na democracia, o poder se exerce pelo voto. A suspensão temporária do poder do voto dos homens brancos é a única chance de produzir uma real alteração no mundo no espaço de apenas uma geração. Todos os dados demonstram que apenas 20 anos seria o suficiente, e os benefícios seriam universais, e não apenas para mulheres.

2017-05-22

por Ouologuem Yambo
Poesia Africana
Tradução de Manuel de Seabra
Lisboa, 1974

Todos pensam que eu sou um canibal
Mas bem sabem o que são as línguas

Todos vêem as minhas gengivas rubras
Mas quem as tem brancas
Vivam os tomates

Todos dizem que agora virão
Menos turistas
Mas bem sabem
Não estamos na América e de qualquer maneira
Somos todos tesos

Todos dizem que a culpa é minha e que têm medo
Mas vejam 
Os meus dentes são brancos não rubros
Eu não comi ninguém

As pessoas são más e dizem que eu engulo
Os turistas assados

Ou talvez grelhados
Assados ou grelhados perguntei
Ficaram calados e olharam com medo para as 
Minhas gengivas
Vivam os tomates

Todos sabem que um país arável tem agricultura
Vivam os tomates

Todos garantem que os vegetais
Não alimentam bem o agricultor
E que eu sou forte demais para um subdesenvolvido
Miserável insecto vivendo dos turistas
Abaixo os meus dentes

Todos se repente me cercaram
Prenderam
Prostaram
Aos pés da justiça

Canibal ou não canibal
Fala
Ah julgas que és muito esperto
E pões-te todo orgulhoso

Agora vamos ver o que te acontece
Qual é a tua última palavra
Pobre homem condenado

Eu gritei vivam os tomates

Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem
Havia uma no círculo que espreitava
Que com a sua voz raspante como a tampa duma panela
Gritava
Chiava
Abram-no ao meio
Estou certa de que o papá ainda está lá dentro

Como as facas estavam rombas
O que é compreensível entre vegetarianos
Como os Ocidentais
Pegaram numa lâmina Gillette
E pacientemente
Crisss
Crasss
Floccc
Abriram-me a barriga

Encontraram lá uma plantação de tomates
Irrigadas por riachos de vinho de palma
Vivam os tomates




rapinado daqui



2017-05-12



MUSÉE DES BEAUX ARTS

Sobre o sofrimento tiveram sempre razão
Os Velhos Mestres;perceberam lindamente
A sua humana posição; como habitualmente ocorre
Enquanto outros comem ou abrem uma janela ou simplesmente passeiam;
Como, enquanto os idosos aguardam reverente e ardentemente
Pelo milagroso nascimento, tem de sempre haver
Crianças que não queriam especialmente que acontecesse, patinando
Num lagona orla da floresta;
Nunca esqueceram

Que até o atroz martírio deve decorrer
Algures a um canto, um local grosseiro
Onde os cães continuam a sua vida de cão e o cavalo do algoz
Esfrega atrás de uma árvore o inocente traseiro.

No Ícaro de Breughel, por exemplo, como tudo se desvia
Calmamente do desastre; o lavrador por certo teria
Ouvido o splash, o grito desvalido,
Mas para ele não era um fracasso importante; o Sol brilhava
Como devia nas pernas brancas que no mar esverdeado
Se sumiram; e o barco sumptuoso e delgado que terá vislumbrado
Algo de extraordinário, um rapaz do céu caído,
Tinha algures para onde ir e calmamente vogava.


W. H. Auden in "Outro Tempo"
tradução Margarida Vale de Gato
Ed. Relógio D'Água

2017-05-07

Promessa




Na clara paisagem essencial e pobre
Viverei segundo a lei da liberdade
Segundo a lei da exacta eternidade.


Sophia de Mello Breyner Andresen

2017-05-06

Chet Baker | lament for the living


A mensagem de Deus não é uma mensagem para hoje, é uma mensagem para depois. [Fernando Santos, treinador]

Nestes dias de exaltação do catolicismo, seria bom que surgissem vozes a falar de uma mensagem atemporal, que não se esgota nos acontecimentos imediatos e mediatizados.
Mas continuar a insistir que a mensagem de Deus não é para viver no dia a dia, pelos homens e mulheres que por ela se sentem tocados, é a manifestação de uma igreja fechada nela própria e desligada da vida.

2017-05-05




imagem - László Moholy, aqui


Porque o Melhor, Enfim

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!
_ Sorrindo interiormente,
Co'as pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas. _
Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.
Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.
Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva
Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos

Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.
Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício
Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...
Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,
Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...
Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fraturam-se as maxilas...
E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

2017-05-03

uma vez sem exemplo


Diz-se que "não se cospe no prato em que se comeu" (quem acompanha este blogue desde o início percebe a que me refiro), mas é com indiferença total que vou lendo e vendo as diferentes notícias sobre Fátima -, visita do papa, canonização das crianças Francisco e Jacinta e demais folclore. Deus me guarde no caminho do deserto...e me permita saborear o silêncio dentro e fora de mim. Ámen!


imagem - Max Dupain, 1930