2017-05-12



MUSÉE DES BEAUX ARTS

Sobre o sofrimento tiveram sempre razão
Os Velhos Mestres;perceberam lindamente
A sua humana posição; como habitualmente ocorre
Enquanto outros comem ou abrem uma janela ou simplesmente passeiam;
Como, enquanto os idosos aguardam reverente e ardentemente
Pelo milagroso nascimento, tem de sempre haver
Crianças que não queriam especialmente que acontecesse, patinando
Num lagona orla da floresta;
Nunca esqueceram

Que até o atroz martírio deve decorrer
Algures a um canto, um local grosseiro
Onde os cães continuam a sua vida de cão e o cavalo do algoz
Esfrega atrás de uma árvore o inocente traseiro.

No Ícaro de Breughel, por exemplo, como tudo se desvia
Calmamente do desastre; o lavrador por certo teria
Ouvido o splash, o grito desvalido,
Mas para ele não era um fracasso importante; o Sol brilhava
Como devia nas pernas brancas que no mar esverdeado
Se sumiram; e o barco sumptuoso e delgado que terá vislumbrado
Algo de extraordinário, um rapaz do céu caído,
Tinha algures para onde ir e calmamente vogava.


W. H. Auden in "Outro Tempo"
tradução Margarida Vale de Gato
Ed. Relógio D'Água

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