2017-06-29

dimensão



O ser humano é uma gigantesca superfície pantanosa. Se o entusiasmo se apodera dele, isso corresponde, no plano do todo, ao movimento em que, algures num recanto desse pântano, uma pequena rã salta para a água verde.



F. Kafka in Parábolas e Fragmentos,
seleção, tradução e prefácio de João barrento
Assírio & Alvim

coisas que não interessam nem ao menino jesus



Não sei como é que se pode afirmar que num debate sobre a existência de Deus, entre crentes e não crentes, um dos lados ganhou o debate.

(A propósito deste post do Ouriquense)

2017-06-28



The "Milky Way" is seen across the sky in the early morning hours at the Takhin Tal National Park, part of the Great Gobi B Strictly Protected Area, in south-west Mongolia, June 23, 2017. Picture taken June 23, 2017. REUTERS/David W Cerny

2017-06-26



A imperfeição é aquilo que me fascina.


[Pedro Jóia, aqui]


Sabemos hoje que a depressão é uma dor muda. Nick Drake deu-lhe voz, fê-la cantar. Estranho é que nos apazigúe ouvi-lo, tanto quanto nos comove. As suas canções são a expressão de uma tristeza e de uma dor que reivindica a nossa cumplicidade, estabelecendo entre o intérprete e os ouvintes pontes apenas concebíveis no domínio da arte. Em vida, tais pontes falham. Em vida, a tristeza permanecerá invariavelmente isolada numa das margens. A mais obscura. Ninguém a convidará para dançar.  

[Um excelente texto do Henrique sobre Nick Drake...e não só.]


2017-06-24

precioso

depois quer ser levada a sério


A Direita encontrou o seu mártir - Sebastião Pereira.

o infantilismo católico


porque hoje é sábado



Kati Horna, Guerra/Revolução 1936-1939

2017-06-21

coisas pequenas




luz/sombra


[Os Ocidentais] nas divisões das casas, evitam os recantos o mais que podem, pintam de branco o tecto e as paredes que os rodeiam. Até no desenho dos jardins, onde nós arranjamos bosquezinhos sombrios, eles estendem amplos relvados planos.
Qual poderá ser a origem de uma diferença de gostos tão radical? Pensando bem, é porque nós, Orientais, procuramos acomodar-nos aos limites que nos são impostos, que desde sempre nos satisfizemos com a nossa presente condição; consequentemente, não sentimos repulsa alguma pelo que é obscuro, resignamo-nos a ele como algo de inevitável: se a luz é fraca, pois que o seja! Mais, afundamo-nos com delícia nas trevas e descobrimos-lhe uma beleza própria.


Junichirõ Tanizaki in Elogio da Sombra
Relógio D'Água
Trad. Margarida Gil Moreira

#imagem - Hashimoto Gaho, 1835-1908

2017-06-18


O sol embaciado pelo fumo, a cinza que polvilha o chão do quintal e o silêncio pesado, apenas cortado, a espaços, pelos trinados das aves, fazem memória de todos os que perderam a vida ou lutam por ela. É tão frágil o que nos sustém. 

2017-06-17

(com)pasión

em busca da paz de espírito



De cada vez que, num mosteiro de Kyoto ou de Nara, me indicam o caminho das retretes construídas à maneira de outros tempos, meio escuras e no entanto de uma limpeza meticulosa, sinto intensamente a qualidade rara da arquitetura japonesa. Um pavilhão de chá é um local agradável, admito, mas as retretes em estilo japonês, isso sim, é algo que verdadeiramente foi concebido para a paz de espírito. Sempre à parte do edifício principal, estão colocadas ao abrigo de um bosquezinho de onde nos chega um aroma de folhagem verde e musgo; depois de, para lá chegar, se ter seguido por uma galeria coberta, de cócoras na penumbra, envoltos na luz suave dos shõji e mergulhados em pensamentos, experimenta-se, contemplando o espetáculo do jardim que se esconde sob a janela, uma emoção impossível de descrever. 


Junichirõ Tanizaki in Elogio da Sombra

porque hoje é sábado





# Edward Steichen. Dana’s hands and grasses. Long Island, New-York 1923

2017-06-16


POESIA VISUAL
todos os poemas são visuais
porque são para ser lidos
com os olhos que vêem
por fora as letras e os espaços
mas não há nada de novo
em tudo o que está escrito
é só o alfabeto repetido
por ordens diferentes
letras palavras formas
tão ocas como as nozes
recortadas em curvas e lóbulos
do cérebro vegetal: nozes
os olhos é que vêem nas letras
e nas suas combinações
fantásticas referências
vozes sobretudo da ausência
que é a imagem cheia
que a escrita inflama
até ao fogo dos sentidos
e que os escritos reclamam
para se chamarem o que são
ilusões fechadas para
os olhos abertos verem

E.M. de Melo e Castro

2017-06-14



Santiago de Compostela

Una fina llovizna, como si el Atlántico
hiciera examen de conciencia
Noviembre ya ha dejado de fingir
La lluvia ha apagado las hogueras y las chispas
Santiago es la capital secreta de España
De día y de noche patrullas van hacia ella
Por las calles deambulan los peregrinos, cansados
o muy vivaces, como cualquier turista
Junto a la catedral vi a una mujer
que se había reclinado en su mochila y lloraba
La peregrinación había acabado
Adónde iba a ir ella ahora
La catedral son solo piedras
Las piedras no conocen el movimiento
Se aproxima la noche
y el invierno


Adam Zagajewski, prémio Princesa das Astúrias 2017




2017-06-12

uma nova "versão" (será que existe?)


“Hoje vai ser diferente. Hoje, vou estar presente no momento. Hoje, sempre que falar com alguém, vou fitar a pessoa nos olhos e escutar com toda a atenção. Hoje, vou jogar um jogo de tabuleiro com o Timby. Vou tomar a iniciativa e fazer sexo com o Joe. Hoje, vou ter brio na minha aparência. Vou tomar banho, vestir uma roupa como deve ser e só vou enfiar o fato do ioga para a aula de ioga, à qual irei mesmo. Hoje, não vou dizer palavrões. Não vou falar de dinheiro. Hoje, terei um ar descontraído. O meu rosto estará relaxado, em repouso terá um sorriso. Hoje, vou irradiar serenidade. Serei um portento de bondade e autocontrolo. Hoje, só vou comprar produtos locais. Hoje, encarnarei o melhor de mim, a pessoa que sou capaz de ser. Hoje vai ser diferente.”

2017-06-07



As árvores 


Pois nós somos como troncos de árvores na neve. Temos a impressão de que assentam sobre ela, e que com um pequeno empurrão seríamos capazes de os deslocar. Não, não somos capazes, porque eles estão firmemente presos à terra. Mas - quem diria? - até isso é ilusório.


Franz Kafka in "Parábolas e Fragmentos"
Trad. João Barrento
Ed. Assírio & Alvim

#imagem - Harry Callahan, Chicago, 1950

2017-06-06




Edward Steichen (1879-1973)
Dana and the Apple, New York
1922

Caminharemos de Olhos Deslumbrados

Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos lábios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

Onde estivermos, há-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, há-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.

No ritual do verão descobriremos
O segredo dos deuses interditos
E marcados na testa exaltaremos
Estátuas de heróis castrados e malditos.

Ó deus do sangue! deus de misericórdia!
Ó deus das virgens loucas
Dos amantes com cio,
Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas,
Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,
Fustiga-nos os membros como um látego doido,
Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,
Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,
Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,
Atapeta de flores a estrada que seguimos
E carrega de aromas a brisa que nos toca.

Nus e ensanguentados dançaremos a glória
Dos nossos esponsais eternos com o estio
E coroados de apupos teremos a vitória
De nos rirmos do mundo num leito vazio.


Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

2017-06-01


É inenarrável esperar a morte em Portugal. 

Há meia dúzia de meses que acompanho a luta da C. para resistir à morte que, entre internamentos e convalescenças em casa, não para de a rondar, como na segunda feira dizia, sem  já conseguir reconhecer-me.

A C. é a prova provada de que não é o doente, e sobretudo o doente idoso, que está no cerne das decisões, das políticas de saúde em Portugal.