2017-09-22

temos a louca mania de relativizar tudo à nossa volta



As coisas



A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.

Jorge Luis Borges

2017-09-13


E, no entanto, nada existe no mundo que possa impedir o homem de sentir-se nascido para a liberdade. O que quer que advenha, jamais ele poderá aceitar a servidão, pois nele existe o pensamento. Jamais cessou de sonhar uma liberdade sem limites, quer sob a forma de uma felicidade passada, da qual, por castigo, teria sido privado, quer como felicidade vindoura, que lhe seria devida através de uma espécie de pacto com uma providência misteriosa. O comunismo concebido por Marx é a forma mais recente deste sonho. Tal sonho, como todos os sonhos, sempre permaneceu vão, e se através dele alguma consolação adveio foi semelhante àquela oferecida pelo ópio; é já tempo de renunciar a apenas sonhar a liberdade e decidir concebê-la.

Simone Weil
em Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social, tradução de Maria de Fátima Sedas Nunes, Lisboa: Antígona, 2017, p. 73.


retirado do blogue de manuel a. domingos

2017-09-10

onde é que já eu ouvi isto?



Entre outras coisas, a “comida limpa” veio confirmar o quão vulneráveis e perdidos milhões de nós se sentem relativamente ao regime alimentar – ou seja, relativamente ao nosso corpo. Estamos tão desorientados que depositamos as nossas esperanças numa qualquer entidade que nos prometa que também nós podemos ser puros e bons.

jornal Público

2017-09-08

"a tirania da luz"


Estamos submetidos a uma tirania da luz, mas essa tirania não começou no nosso tempo nem é explicável apenas como um resultado da urbanização generalizada e da colonização tecnológica: ela tem atrás de si uma longa história filosófica, cultural e política. 

António Guerreiro no Público


2017-09-05



Ó olha, olha-te ao espelho,
Olha em tua inquietação;
Já não sabes bendizer
Mas a vida é uma bênção.

[W.H. Auden]


M., três anos a descobrir.

2017-09-03



#Sally Mann
21 de Agosto de 1909


Minha querida Nora,

Parece-me que estás apaixonada por mim, não estás? Dá-me prazer pensar que estás a ler os meus versos (embora tenhas levado cinco anos a descobri-los). Quando os escrevi, eu era um rapaz estranho e solitário, que passeava pelas ruas à noite, sozinho, e pensava que um dia seria amado por uma rapariga. Mas nunca conseguia falar com as raparigas que encontrava em casa das pessoas. As maneiras delas eram tão artificiais que me paralisavam. Depois tu vieste ao meu encontro. Em certo sentido, não eras a rapariga com quem eu sonhara e para quem tinha escrito os versos que hoje te parecem tão encantadores. Essa (tal como eu a imaginava) era talvez uma rapariga de uma estranha beleza grave, assim moldada pela cultura das gerações anteriores, a mulher para quem escrevi poemas como «Gentle lady» ou «Thou leanest to the shell of night». Mas depois vi que a beleza da tua alma eclipsava a dos meus versos. Havia em ti algo mais elevado do que tudo o que eu tinha posto neles. Por essa razão, esse livro de poemas é para ti. Ele exprime o anseio da minha juventude, e tu, querida, foste a satisfação desse anseio.
Fui cruel contigo? De uma crueldade, pelo menos, não me podes acusar. Não destruí o amor cálido, impetuoso e vivificante que há dentro de ti. Examina agora as profundezas do teu coração, querida, e diz-me que ele não endureceu nem envelheceu ao longo destes anos que passaste comigo. Não, és hoje capaz de sentimentos mais belos e profundos do que no início. Diz-me, minha querida Nora, que a minha companhia foi boa para ti, e eu dir-te-ei o que a tua significou para mim.
[...]

Jim


James Joyce in "Cartas a Nora"
trad. José Miguel Silva
Relógio D'Água

2017-09-01

escute-se o poeta


De resto, o mundo devia parar aos fins-de-semana. As pessoas deviam ser proibidas de morrer aos fins-de-semana. Numa sociedade ideal, aos fins-de-semana os parques ficariam cheios de famílias e namorados, as ruas seriam como que o sistema nervoso central do amor.

iniciarei setembro assim


a saber o que me espera