2017-09-03

21 de Agosto de 1909


Minha querida Nora,

Parece-me que estás apaixonada por mim, não estás? Dá-me prazer pensar que estás a ler os meus versos (embora tenhas levado cinco anos a descobri-los). Quando os escrevi, eu era um rapaz estranho e solitário, que passeava pelas ruas à noite, sozinho, e pensava que um dia seria amado por uma rapariga. Mas nunca conseguia falar com as raparigas que encontrava em casa das pessoas. As maneiras delas eram tão artificiais que me paralisavam. Depois tu vieste ao meu encontro. Em certo sentido, não eras a rapariga com quem eu sonhara e para quem tinha escrito os versos que hoje te parecem tão encantadores. Essa (tal como eu a imaginava) era talvez uma rapariga de uma estranha beleza grave, assim moldada pela cultura das gerações anteriores, a mulher para quem escrevi poemas como «Gentle lady» ou «Thou leanest to the shell of night». Mas depois vi que a beleza da tua alma eclipsava a dos meus versos. Havia em ti algo mais elevado do que tudo o que eu tinha posto neles. Por essa razão, esse livro de poemas é para ti. Ele exprime o anseio da minha juventude, e tu, querida, foste a satisfação desse anseio.
Fui cruel contigo? De uma crueldade, pelo menos, não me podes acusar. Não destruí o amor cálido, impetuoso e vivificante que há dentro de ti. Examina agora as profundezas do teu coração, querida, e diz-me que ele não endureceu nem envelheceu ao longo destes anos que passaste comigo. Não, és hoje capaz de sentimentos mais belos e profundos do que no início. Diz-me, minha querida Nora, que a minha companhia foi boa para ti, e eu dir-te-ei o que a tua significou para mim.
[...]

Jim


James Joyce in "Cartas a Nora"
trad. José Miguel Silva
Relógio D'Água

4 comentários:

  1. É interessante vislumbrar aquilo que Joyce era para além do escritor que conhecemos. Adoro estes pequenos vislumbres.

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    1. É verdade. Estas cartas (em que numa delas o escritor pedia que a destinatária guardasse bem para não serem acessíveis a outros olhos) são um bom documento humano. James Joyce que nos deu "O retrato do artista enquanto jovem" e..."Ulises" para falar talvez dos maiores, era um jovem e um homem reservado, com dificuldades no diálogo presencial (ele menciona isso numa das cartas...quando tão juntos ficam em silêncio um perante o outro.)

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    2. Eu certamente identifico-me nesse campo da dificuldade do diálogo presencial :) É capaz de ser uma das razões para apreciar tanto os livros dele.

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  2. "quando estão juntos" queria eu dizer :)

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