2017-10-23

como livros fechados



Li há pouco: "um católico tem fé e a fé não desespera." E embrenho-me em cogitações e interrogações: um vaso é aquilo que contém? católico uma vez católico para sempre (mesmo que não esteja de acordo quanto a princípios nem comungue da vida da Igreja)? É possível possuir uma fé que seja mais que interrogação e espera?
CHUVA DOMÉSTICA

Concede o teu perdão àquele que foste ontem
e não te conhece hoje debaixo do chuveiro.
As casas não sabem nada de nós próprios 
e são paredes de hábitos,
casulos seculares.
Há vinte anos tu eras diferente, as casas não sabem nada,
dizia o outro e bem,
muito menos o que tu foste ontem sobre o que tu és hoje
debaixo do chuveiro.

O que tu foste ontem não tem nada a ver com essa barba grossa,
com essa dor no dedo grande do pé
e que te dizem ser gota, e essa excitação precoce
que te vem da memória
e começou agora extemporânea e ridícula, quando o dedo te dói
e o tempo, como se fosse um século, tem um dia de vida,
uma noite, e falavam do ébola a invadir a europa.

Toda esta chuva minúscula que te cai da  boca,
todo este desabar de água controlada e tépida te leva  a esquecer
o que é uma epidemia, foi ontem?
Que estranhas criaturas, hiper-protegidas,
desfilaram ontem como um sonho e hoje de manhã
são como um pesadelo?
A verdade é só uma, o que tu foste ontem
já não te conhece.

Não consintas que deus te sobreponha os dias
aos mistérios do tempo.
Exige a cada minuto o seu próprio prazer e desilusão.
Por alma dos que lá tens coça o dedo grande do pé
e fecha-me essa torneira. Tu ainda não reparaste,
mas a casa de banho é agora um lago.

Armando Silva Carvalho in A Sombra do Mar
Assírio & Alvim


2017-10-22

Montserrat Figueras - Yo soy la locura





Tenho dias em que a vida entra por mim devagarinho, quase sem eu dar por isso. Dias em que até a santidade me parece acessível, como colher um bom fruto, de tal modo acessível ao alcance da mão que me basta um pequeno salto que eu saltarei quando quiser. Dias em que todos me parecem bons e em que quase me convenço de que os homens se amam de facto uns aos outros. Mas passa uma noite e acorda-se já num outro mundo. Mundo de lassidão e de peso. Mundo que sinto nos ombros e me esmaga.


António Alçada Baptista - Peregrinação Interior
#imagem - Rufino Tamayo, 1977

2017-10-20

exatamente


Só um idiota urbano, daqueles que precisam de ser submetidos a 35 graus centígrados em meados de Outubro, depois de seis meses sem chover, para chegar à conclusão de que aquilo a que insistentemente chamaram “bom tempo” é uma catástrofe, é que não percebe que aquele mar verde de oliveiras a perder de vista, alimentadas para crescerem mais num ano do que os antigos olivais cresciam numa década, e ocupando o terreno com a mesma densidade que uma plantação de couves, consomem água e fertilizantes em porções criminosas. Em pouco tempo, a terra fica exaurida e o deserto cresce. Noutros lugares do Alentejo, os olivais com mil anos não precisam que lhes seja erguido um “memorial” porque são eles que transportam a memória do mundo.

António Guerreiro no Público

2017-10-19




A um Homem do Passado

Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?

Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.

Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.



Manuel António Pina

#imagem. Mimmo Jodice, Nápoles, 1980

tirem-me deste filme



Há homens grandes que se equipam a preceito, às quintas e domingos saem para os campos, e publicitam impantes as presas que andaram a criar em cativeiro, e dias antes soltaram para poder matar.

2017-10-15





Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.



Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas, Relógio d’Água

2017-10-14

o dia seguinte

No dia de ontem, obriguei-me a ver "a entrevista" (a esperança é a última a morrer), mas serviu apenas para reforçar um estado de náusea. Nunca é agradável percepcionar a manipulação. Reconhecer que alguém se serviu de um cargo público para alimentar a ânsia desmedida de posse, é desolador. Sim, por duas vezes contribui  com o meu voto para que José Sócrates fosse eleito para chefiar um governo, que eu acreditava ser o melhor para o país.  

Também no dia de ontem foi apresentado o orçamento de Estado para o próximo ano. Nos evangelhos é recomendado que "os mortos enterrem os seus mortos" - um convite a olharmos o futuro, mas torna-se ensurdecedor o silêncio do Partido Socialista sobre o que se passou entre 2005 e 2011.

porque hoje é sábado


# imagem de Ken Heyman

2017-10-02

no ano da graça de 2017, século XXI, portanto,



Isaltino de Morais é eleito presidente de Câmara de Oeiras. Hoje reparo que os suportes de papel higiénico, nas casas de banho do centro comercial da cidade, estão trancados a cadeado.