2017-12-30


elegia

já nada é o que era 
e provavelmente nunca mais o será 
e mesmo que o fosse 
algo me diz que já não seria o que era 
porque o que era 
era o que era por ser o que era 
do que eu me lembro muito bem 
embora eu então não fosse o que agora sou 
mas o que agora sou 
ou estou a ser 
é deixar de ser o que sou 
porque eu sou deixando de ser 
deixar de ser é a minha maneira de ser 
sou a cada instante 
o que já não sou 
e o mesmo se deve passar com tudo o que é 
motivo por que não admira que assim seja 
quer dizer 
que nada seja o que era 
e se assim é 
ou já não é 
seja ou não seja 

Alberto Pimenta, in 'Ascensão de Dez Gostos à Boca' 

2017-12-21

(https://www.reuters.com/news/picture/editors-choice-pictures-idUSRTX3WN6B)



Perto ou longe, há sempre o olhar de uma criança que nos desafia a engolir as lágrimas. Aceitemos a esperança, que não para de nos surpreender. 

Boas Festas, caríssimos!



2017-12-20

oh, suprema ironia


Confrontada, numa reunião de trabalho, com a exposição de alguém que me pedia ajuda para concretizar o sonho de uma vida, apontei-lhe o caminho da burocracia. Com a suavidade possível e com clareza, fui-lhe enumerando os procedimentos e as diferentes entidades que teriam de se pronunciar sobre a viabilidade do que pretendia realizar. Senti-me uma idiota. Realista, mas idiota.

2017-12-19

 

 

Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,
que o absurdo, mesmo em pequenas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!
Se é verdade o aforismo faca afia faca
(não sabemos falar senão figuradamente
sinal de que somos pouco capazes de abstracção).
Se faca afia faca,
então que a faca do absurdo
venha afiar a faca da nossa embotada vontade,
venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado
e o dia-a-dia será nosso e diferente.
Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.
Mas tudo será melhor que este dia-a-dia.
Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.
Mas nós não queremos ser um povo feliz.
Para isso bastam os suíços, os suecos, que sei eu?
Bom proveito lhes faça!
Nós queremos a maleita do suíno,
a noiva que vê fugir o noivo,
a mulher que vê fugir o marido,
o órfão que é entregue à caridade pública,
o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital
onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou nenhuma.
Nós queremos ser o aleijado nas ruas,
a pedir esmola, a esbardalhar-se frente aos nossos olhos.
Queremos ser o pai desempregado que não sabe que Natal há-de dar aos seus.
Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia,
Um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.

Alexandre O'Neill

n.19/12/1924-m.21/08/1986

2017-12-16

que falta de discernimento


Não comento o caso concreto, (por total desconhecimento), nem a validade do juízo (pela mesma razão), mas a redutora observação  de que "uma mulher auto-suficiente e determinada se protegeria a si e aos filhos". 
Esta observação, só me leva a pensar, que quem a profere pode  ser alguém muito inteligente, mas não sabe nadinha da vida e muito menos das dinâmicas da violência doméstica e das suas vítimas.


porque hoje é sábado


#Bill Perlmutter

2017-12-14

cativante



OS ANOS SÃO SEMPRE OS RESPONSÁVEIS

Os anos deviam convocar a esta mesa
defraudada pela técnica
uma lição das coisas que fosse mais amável.
Com alguma beleza nos desastres 
do tempo
e daquilo que hoje por pobreza de espírito
chamamos o destino.
Com toda a mecânica fantasmática da memória.
Com as imagens singulares nas retinas
de outrora,
esses cavalos soberbos, erguidos contra os anos
e a relinchar as suas músicas
antes do abate.

Mas eu revejo o álbum dos anos e tudo são figuras
de folclore,
já não sinto vergonha em dizê-lo,
como escreveu o Drummond, minha matéria 
é o nada.
Pior que isso, foi o nada.

Eu e as lentes. Pensei que elas fossem os olhos
da ciência de ver, frias, mas que soubessem medir
a distância entre o prazer e os simples
acidentes do sexo.
Agora que uma névoa se espraia panorâmica
e muda à minha volta
e tudo me obriga a consultar
o facultativo.

Sempre me deixei levar pela cabeça
nas águas mais impróprias em que braços e pernas
me arrastavam junto ao que eu chamaria amor
e seria só sangue em desequilíbrio.
Eu soprava forte nessa arte pneumática
criada pelo desejo
e o ar, menos que o ar, levava tudo.

Repito: hoje o que procuro é a síntese do nada.
E alguma palavra antiga, escura
e melancólica,
que me traga, oculta, certos soluços de alma.
Já desisti dos teóricos, além de chatos
são duma vaidade insuportável.
Prefiro o ingénuo.
E neste Natal ainda sou capaz de ir beijar, disfarçadamente,
o pé ao Menino.


Armando Silva Carvalho in "A Sombra do Mar"
Assírio & Alvim
#imagem - Isabela Ginanneschi

2017-12-13

estamos irreconhecíveis

(imagem-Enzo Sellerio)


Escreve Miguel Real, na "Nova Teoria do Pecado" - Ed. D. Quixote:"Como é possível fundar uma civilização sobre uma categoria negativa como o pecado? Entre as várias respostas possíveis, uma recebe o acordo deste ensaio: porque existe antropologicamente no homem um sentimento de culpa, difuso e inconsciente, originado pela incapacidade de vencer definitivamente o mal e o medo por este criado: as quatro fontes do mal (carência, sofrimento psíquico, dor física e morte) e o medo como a mais sólida das emoções primárias."

Presentemente, e perante as mais diversas suspeitas e até acusações, o que mais se proclama é uma consciência limpa e tranquila. Será esta a característica base dos "nórdicos do séc. XXI"?


2017-12-10

E danço um tango com você

eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas

acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.



tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca vai chegar.
não sai nos jornais, inúmeras gentes – essas mulherzinhas também –
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.

toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

penso nas normalidades desses senhores

ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe – viver a vida

ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada

uma maria como todas as outras, pronta pra violação.

maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas

eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.

Nina Rizzi (lido no blogue do Henrique)


O assédio e a violência doméstica têm progredido sob o manto do silêncio. O silêncio envergonhado e o silêncio cúmplice. 
Romper esse manto nebuloso, indignar-se e manifestar-se contra preconceitos ignorantes que atravessam todo o tecido social, e se manifestam até em instituições que deveriam ser exemplares.


no reino fungi - na natureza tudo se convoca


andamos todos a dormir, certo?



Isto é surreal.

2017-12-06


Assisti ontem a esta conversa sobre as raízes judaico-cristãs. Soube-me a pouco, sobretudo pela narrativa do frei Fernando Ventura, para quem a dúvida se resume a uma dimensão transitória de regresso à fé.


janela indiscreta


As "novas" tecnologias fornecem os meios para que sejamos uma súcia de mirones maledicentes. Alegremente vivemos nisto.

2017-12-04

vale a pena ler

O corpo da mulher “provoca a incontrolabilidade masculina”, ou seja, “é desculpável que os homens se descontrolem perante a rejeição de uma mulher ou a possibilidade da perda do acesso à mulher”, explica a socióloga. “Isto é visível em muitas das nossas decisões judiciais. Lembro-me de um acórdão muito recente de um incendiário que teve uma pena suspensa e uma das argumentações era que ele estava bastante perturbado porque a mulher se tinha divorciado dele.” Este desconforto, frustração e potencial comportamento agressivo de alguns homens perante um não da mulher remetem-nos para as questões interrelacionadas do consentimento e da masculinidade hegemónica, que são centrais para descodificar as raízes do assédio e da violência de género no geral. “Uma das componentes da masculinidade hegemónica é a não-aceitação do não”, aliada “à crença de que assediar é um elogio”, nota Conceição Nogueira. Forçar a intimidade não é sedução nem flirt; é assédio. “A pessoa diz que não, mas é para se fazer de difícil, portanto deixa tentar mais duas ou três vezes, mais quatro ou cinco”, exemplifica Conceição.
...
porque o assédio é sempre um acto de poder, nem que seja simbólico.



suavíssimo