2018-12-28

apontamentos de inverno



Já pensou em ser operado aos olhos?

Operado? Nem penses nisso. O que é que eu quero ver com oitenta anos? Eu quando vou ali à sala, onde estão os velhos todos, tiro os óculos para ver tudo nublado, para não me ver ao espelho...Aquilo é um pavor! A Isabel da Nóbrega, o Artur Ramos e a Fernanda, cunhada do Manuel Alegre, queriam levar-me a Coimbra para ser operado às cataratas. Não quero. Eu é que sei. Isso é suicidário. Quando eu quiser morrer vou a Coimbra. Depois levaram-me a um oftalmologista na Avenida da Liberdade. Diagnosticaram-me as cataratas. Tive de largar mil paus para umas gotas. Não me servem para nada. Caem-me para o nariz. Já tenho o quarto todo de cor...e o quarto está reduzido ao essencial...É uma experiência nova, não ver é uma experiência nova.


Entrevistas a Luiz Pacheco,
Tinta da China

2018-12-22

Feliz Natal, caríssimos!



Talvez Natal


Que a minha poesia
Jorre de novo em fonte.
Tu que fazes, Maria?
- Vou beijar-te na fronte.

Que a rosa da alegria
Volte a esfolhar-se em mim.
Tu que fazes, Maria?
- Colho-a no meu jardim.

Que eu tome cada dia
O alvor da comunhão.
Tu que fazes, Maria?
- O milagre do pão.

Que graça te alumia?
Quem te sublima em luz?
Tu que fazes, Maria?
- Trago ao colo Jesus.

António Manuel Couto Viana, in 'O Velho de Novo'


#imagem - Kristoffer Albrecht, 1984




2018-12-15

contem-me histórias



- Que bela saca de serapilheira!, disse-lhe, imaginando que seria sua.
- É a minha gabardine, respondeu com um sorriso malandro. E começou a desfiar uma breve história de vida, esticando o braço a mostrar a pequena casa onde nasceu, o irmão gémeo que tinha morrido há três meses. A entrada e saída na tropa em Mafra, os dois no mesmo dia. Tudo envolvido no mesmo sorriso contagiante, como se oitenta e sete anos de vida fossem um pequeno voo de melro, que agora partilhava ao sol de Outono com uma desconhecida.


 2
A minha proposta reduz-se a isto
nem mais um aluno para os liceus
o verdadeiro ensino está na vida
da pá e pica aos moinhos de vento


que sensaboria a História Antiga
com os seus heróis e os seus reis
tanto estudante a fingir que estuda
e faltam braços para o pastoreio


as artes nobres: varrer sachar empar
e outras: bordar coser fazer renda
não tenho nada contra a poesia
mas é mais útil a limpeza a seco



Fernando Assis Pacheco in "Desversos"

porque hoje é sábado



(autoria não identificada)

2018-12-06



AINDA VITA CONTEMPLATIVA
No comboio para Varsóvia

Pode acontecer em qualquer lugar, por vezes no comboio,
quando estou muito longe: subitamente a porta
abre e figuras esquecidas entram,
o meu sobrinho, que já não anda por cá,
mas que se aproxima, alegre, sorrindo,
e um determinado poeta chinês que amava
a música e as folhas das árvores no outono,
estudantes de teologia de Córdoba, ainda sem barba,
emergem de nenhures e saltam à vista,
retomando o debate sobre os atributos de Deus,
e a esplêndida vida surge como uma queda de água na primavera,
até que finalmente um telemóvel soa, inoportuno,
depois outro, e um terceiro, e todo este mundo excelente, estranho
se contrai e desaparece, exactamente como um rato de campo,
que, apercebendo-se do perigo, se retira habilmente para
o seu apartamento secreto. 


Adam Zagajewski,
respigado daqui 

2018-12-02

Em suma: representaram com grande vigor os papéis de homem e mulher durante dez minutos, passando em seguida a conversar naturalmente. A arquiduquesa (mas teremos de futuro de a tratar por arquiduque)contou a sua história - que era homem e sempre o havia sido; que se enamorara perdidamente ao ver um retrato de Orlando; que, para alcançar os seus fins, se vestira de mulher e se alojara em casa do padeiro; que ficara desolado quando ele fugira para a Turquia; que soubera da sua transformação e se apressara a vir oferecer-lhe os seus préstimos (aqui soltou uma intolerável risadinha). Porque para ele, dizia o arquiduque Harry, ela era e seria sempre o Primor, a Pérola, a Perfeição do seu sexo. Os três «p» teriam sido mais convincentes se não viessem entremeados dos mais bizarros risos e gargalhadinhas. «Se isto é amor», disse para consigo Orlando, mirando o arquiduque do outro lado da lareira, agora do ponto de vista feminino, «há no amor qualquer coisa de altamente ridículo.»


Virginia Woolf in "Orlando"
trad. Ana Luísa Faria
ed. Relógio D'Água

eu vi



2018-11-23

marcante


Emily Watson in Breaking the Waves
 
O género de aborrecimento de que sofre a população das cidades modernas está intimamente ligado à sua separação da vida da Terra. Essa separação torna o seu viver ardente, poeirento e ansioso, tal como uma peregrinação no deserto. Nos que são suficientemente ricos para escolher o seu género de vida, o estigma peculiar de insuportável aborrecimento que os distingue é devido, por muito paradoxal que isso possa parecer, ao seu medo do aborrecimento. Ao fugirem do aborrecimento que é fecundo, são vítimas de outro de natureza pior. Uma vida feliz deve ser, em grande medida, uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer.

Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"

2018-11-21


África


Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rolls-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de ‘strip-tease’ e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas de chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens inventaram
a confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux-Klan, Cato Manor e Sharpeville
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas ‘Made in Germany’
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho ‘cowboy’ do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, améns
e bíceps do meu povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.
 
José Craveirinha

2018-11-19


cada um está só sobre o coração da terra
trespassado por um raio de sol:
e de repente é noite.


Salvatore Quasimodo,
daqui
imagem- Edward Weston, 1947

2018-11-18

2018-11-14

Paco Ibáñez - Palabras para Julia

é só


daqui

ora, abóbora

Frequentemente, recebo pessoas que me apresentam os seus projectos de empreendedorismo, geralmente jovens, mas também pessoas com cinquenta e mais anos, escuto-os, elucido-os, falo dos riscos, da enorme resiliência que é preciso ter para vencer as dificuldades que, inevitavelmente, surgirão. 
A grande maioria tem uma dose de sonho superior a 95% e meios para a execução do projecto dentro dos cinco restantes. Quando tento fazer-lhes notar a desproporção, não aceitam e fazem saber, com mais ou menos ênfase, que o erro de análise é meu. Certo é que a maior parte não avança. Os restantes, é certo e sabido, que na execução do projecto, me vão dizer:"Se eu soubesse não me tinha metido nisto!"

2018-11-12


17
As coisas que procuro
Não têm nome.
A minha fala de amor
Não tem segredo.


Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.


Tive casa e jardim.
E rosa no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiro
O porquê do jasmim
— Sua brancura, o cheiro.


Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito.


  Hilda Hilst, in “Exercícios"

2018-11-10

Madredeus - Um Raio de Luz Ardente

as mulheres - que maçada

Também assisti, mais ou menos incrédula, ao espetáculo de uma deputada da Nação a tentar justificar o injustificável. Também já li por aí que a culpa é das quotas, que constrangem as direções partidárias a incluir mulheres nas suas listas de candidatos. Vão dar banho ao cão, o problema das escolhas não está dificultado pela questão de incluir mulheres (essas incapazes) nas listas, o que, para nossa desgraça, nos trama são os conluios, tribalismo e amiguismo sectário. O que não falta nos partidos é mulheres e homens que não se prestariam a estas figuras. Mas adivinho-lhes uma grave limitação - terão o hábito de pensar pela própria cabeça.

porque hoje é sábado


# imagem Leon Levinstein, EUA 1910-1988

2018-11-09

"A cultura pegada de cernelha é arte"

As questões da cultura andam aí — uma tourada — e conferem protagonismo. São tema atraente sem nunca ter sido um programa, uma política, desde 74. Já se disse que é tudo e por isso não é nada. 
[...]
A prazo tudo tem a ver com a democracia, ao contrário da concorrência selvagem e do primado da competição obcecada, da ideologia do sucesso. Essa exclui todos os mal-sucedidos, a maioria mais ampla e cria uma sociedade dependente do mais vulgar porno-star-sistema, confunde o real com o reality show, torna ministros “estrelas” porno. Esse esquema vive bem com qualquer fascismo, seja ele mais mediatizado e virtual nas suas manifestações de controlo e hiperconsumo?, seja ele mais realizado na rua e violentamente selvagem.

Fernando Mora Ramos in Público

2018-11-08





Uma vez uma mulher foi à floresta.
Os pássaros estavam em silêncio. Porquê? perguntou.
Trovoada, disseram-lhe,
a trovoada está a chegar.
Continuou a andar, e as árvores estavam escuras
e agitavam as folhas. Porquê? perguntou.
A grande tempestade, disseram-lhe,
a grande tempestade está a caminho.
Ela chegou ao rio, que corria
sem resposta, atravessou a ponte
e começou a subir
até ao cume, onde os penedos cinzentos
tinham perdido a cor à espera
da catástrofe que os racharia,
e onde ficava a cabana do eremita, do homem sábio
que vivia desde o princípio dos tempos.
Quando chegou à cabana
não havia lá ninguém.
Mas ouviu o machado dele.
E ouviu a floresta expectante.
Não se atreveu a seguir o som
do machado. Estaria
a derrubar a árvore do mundo?
Aquele seria o dia?



Denise Levertov (Inglaterra, 1923-EUA, 1997),
tradução de Soledade Santos (daqui)

2018-11-02

equilíbrios




Tenho por abominável mau gosto, a mania que alguns caminheiros e frequentadores da natureza têm de amontoar pedras em periclitante equilíbrio.  Mas este exemplar da foto acima é de outra ordem, interpela à contemplação.

Foto retirada daqui

agarrados


Muito bom...o facebook pode curar isso, sim. É mesmo o que andam por lá a fazer, os que eram agarrados nas leituras.

 (comentário a este post)

2018-11-01

recomendo


Este tempo desafia-nos mais do que outros?


Primeiro provoca em nós uma perplexidade aterradora. Esse foi o meu primeiro estado, há poucos anos. A sensação de que não percebia nada do que se estava a passar. Não conseguia nem pensar sobre as coisas. Acho que era pior nessa altura. Porque depois há que dar um golpe de rins, ter a coragem de pensar sobre as coisas. O primeiro passo é des-pensar. Dar-se conta de que os instrumentos, os termos do pensamento que usámos até aqui, não servem mais. E a coragem é precisa antes de tudo para destruir o nosso próprio vigamento interior e construí-lo de raiz. Esvaziar as nossas convicções e partir das observações que estamos a fazer hoje. Talvez não estejamos preparados para isso do mesmo modo que não evoluímos o suficiente para estarmos à altura de - não é dominar a tecnologia que, felizmente, por enquanto ainda dominamos -, acompanhar os avanços tecnológicos. 


Hélia Correia, numa entrevista aqui

num sonho que não sei contar

o sonho do excêntrico

O que é que lhe apetecia?

Uma casa agradável. Uma casa agradável onde eu pudesse estar sossegado e onde os meus filhos gostassem de me visitar aos fins-de-semana.


Entrevistas a Luiz Pacheco - O crocodilo que voa

2018-10-31



Tenho quebrado copos
é o que tenho feito
raramente me machuco embora uma vez sim
uma vez quebrei um copo com as mãos
era frágil demais foi o que pensei
era feito para quebrar-se foi o que pensei
e não: eu fui feita para quebrar
em geral eles apenas se espatifam
na pia entre a louça branca e os talheres
(esses não quebram nunca) ou no chão
espalhando-se então com um baque luminoso
tenho recolhido cacos
tenho observado brevemente seu formato
pensando que acontecer é irreversível
pensando em como é fácil destroçar
tenho embrulhado os cacos com jornal
para que ninguém se machuque
como minha mãe me ensinou
como se fosse mesmo possível
evitar os cortes
(mas que não seja eu a ferir)
tenho andado a tentar
não me ferir e não ferir os outros
enquanto esgoto o estoque de copos
mas não tenho quebrado minhas próprias mãos
golpeando os azulejos
não tenho passado a noite
deitada no chão de mármore
estudando as trocas de calor
não tenho mastigado o vidro
procurando separar na boca
o sabor do sangue o sabor do sabão
nem tenho feito uma oração
pelo destino variado
do que antes era um
e por minha força morre múltiplo
tenho quebrado copos
para isso parece deram-me mãos
tenho depois encontrado
cacos que não recolhi
e que identifico por um brilho súbito
no chão da cozinha de manhã
tenho andado com cuidado
com os olhos no chão
à procura de algo que brilhe
e tenho quebrado copos
é o que tenho feito



Ana Martins Marques, retirado daqui

2018-10-28


Penso que sonho. Se é dia, a luz não chega para alumiar o caminho pedregoso; se é noite, as estrelas derramam uma claridade desabitual.
Caminhamos e parece tudo morto: o tempo, ou se cansou já desta caminhada e adormeceu, ou morreu também. Esqueci a fisionomia da paisagem e apenas vejo um trémulo ondular de deserto, a silhueta carnuda e torcida dos cactos, as pedras ásperas da estrada.
Chove? Qualquer coisa como isso. E caminhando sempre, há em redor de nós a terra cheia de silêncio.
Será da própria condição das coisas serem silenciosas agora?


Carlos de Oliveira in "Terras da harmonia"

2018-10-26

profundíssimo

com o riso se ilude o medo

Assim o descreve Ricardo Araújo Pereira: "Não conheço melhor definição do trabalho do humorista. Fazer com que as pessoas se riam desta ideia: por mais que façam, vão morrer. Fornecer-lhes uma espécie de anestesia para esse pensamento. É um ofício belo, nobre, indispensável e inútil: sim, o riso tem o poder de esconjurar o medo, mas só durante algum tempo, talvez apenas durante o tempo que dura uma gargalhada, Às vezes, nem tanto."

in "A doença o sofrimento e a morte entram num bar"
Edição Tinta da China

2018-10-23


VOLTAR PARA CASA


Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
E seguir o rasto das árvores no chão,
Pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos
E as mãos nos bolsos como um apontamento antigo?
Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um,
E súbita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca,
Pronta a saltar e a arder todo o corpo?
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa,
Cabisbaixa?





Manuel Resende
Poesia reunida [de Em qualquer lugar], Cotovia, Lisboa, 2018.
Respigado daqui

2018-10-17

e afinal nem homens nem cidadãos


A educação actual e as actuais conveniências sociais premeiam o cidadão e imolam o homem. Nas condições modernas, os seres humanos vêm a ser identificados com as suas capacidades socialmente valiosas. A existência do resto da personalidade ou é ignorada ou, se admitida, é admitida somente para ser deplorada, reprimida ou, se a repressão falhar, sub-repticiamente rebuscada. Sobre todas as tendências humanas que não conduzem à boa cidadania, a moralidade e a tradição social pronunciam uma sentença de banimento. Três quartas partes do Homem são proscritas. O proscrito vive revoltado e comete vinganças estranhas. Quando os homens são criados para serem cidadãos e nada mais, tornam-se, primeiro, em homens imperfeitos e depois em homens indesejáveis.
A insistência nas qualidades socialmente valiosas da personalidade, com exclusão de todas as outras, derrota finalmente os seus próprios fins. O actual desassossego, descontentamento e incerteza de propósitos testemunham a veracidade disto. Tentámos fazer homens bons cidadãos de estados industriais altamente organizados: só conseguimos produzir uma colheita de especialistas, cujo descontentamento em não serem autorizados a ser homens completos faz deles cidadãos extremamente maus. Há toda a razão para supor que o mundo se tornará ainda mais completamente tecnicizado, ainda mais complicadamente arregimentado do que é presentemente; que graus cada vez mais elevados de especialização serão requeridos dos homens e mulheres individuais. O problema de reconciliar as reivindicações do homem e do cidadão tornar-se-á cada vez mais agudo. A solução desse problema será uma das principais tarefas da educação futura. Se irá ter êxito, e até mesmo se o êxito é possível, somente o evento poderá decidir.

Aldous Huxley, in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"

2018-10-16



#do filme "On the Beach at Night Alone" (2017)
Ontem no programa "Prós e Contras" da RTP, dedicado a debater o movimento #MeToo, vi demasiados adultos espantados - e a rejeitar com veemência - por alguém sugerir que não se devia obrigar uma criança a beijar alguém (no caso os avós) contra a sua vontade. 
É espantosa a incapacidade dos adultos em percepcionar e aceitar os limites de uma criança e chamar a isso educação.

2018-10-12


É preciso qualquer coisa no mundo que nos faça imaginar o outro e é só jogar esse pequeno jogo em que nos pomos esta pergunta: vamos supor que eu sou ele, ou ela ou eles. O que sentem? O que querem? De que têm medo? É um trabalho que parte da imaginação e da curiosidade. A curiosidade é o alimento da imaginação e a imaginação o alimento da curiosidade. As duas surgem quase sempre juntas. Acredito que se um ser humano for curioso, imaginativo e tiver algum sentido de humor, talvez seja imune ao fanatismo; talvez consiga desenvolver os antídotos contra o fanatismo.

AMOS OZ in Público

2018-10-11


Muito pouca



a morte é uma coisa muito pouca

em nada se compara ao crescimento das constelações

a morte não respira nem se expande desde o centro

como fazem as estações desde o coração da terra



e assim eu sei que um sorriso é precioso

porque respira e alarga-se dentro dos olhos

e quando chega ao lugar em que a mão se abre

é já uma forma de sossego uma lua coberta de luar

um modo certo de trocar nomes em dias de excepção



Vasco Gato
in  Um Mover de Mão, Assírio e Alvim, 2000.
[retirado daqui]

2018-10-10

a considerar


O aparente paradoxo na defesa de qualquer causa - dos negros, dos homossexuais ou das mulheres, é que devemos lutar para que essa marca identitária não se torne totalitária, dominante, totalmente determinante na nossa formação individual. Quando isso acontecer, quando essas marcas forem enriquecedoras da diversidade que somos sem serem socialmente penalizadoras, quando estiverem assimiladas unicamente como características individuais que apenas digam respeito à história de cada um, a causa triunfou e a democracia foi aprofundada. 

Nuno Artur Silva, aqui

com desenho


daqui

a ver se nos entendemos

Numa sociedade em que o "passa culpas" é o "pão nosso de cada dia", ainda há quem não entenda que, trazer ao presente violências de que se foi vítima há vinte, trinta anos, é necessário, ainda que doloroso para todos os envolvidos. Não é um ajuste de contas, é uma tentativa de reconciliação.

2018-10-09

da gente comum

Que aconteceu? Foi um homem, tocou-me. Que homem? Não sei, desapareceu. Desapareciam mesmo, nas horas de ponta, para lá das ruas visíveis, entre o mar de gente. E era por isso que se tornava muito difícil, a certa altura, distinguir os culpados dos inocentes.[aqui]

CÁLICE

2018-10-05





uma pausa ó único leitor

que na desordem em que está
a tua vida e a minha veio meter-se de novo
este livro antigo

paremos um pouco por fora dele eu
beberei desse vinho tu fumarás deste
tabaco

sequemos o suor subjectivo
e por um instante suspendamos o
um para um
em que se joga o jogo da poesia

não pedirás mais surpresas
não pedirei lambeduras e deslumbres

fiquemos pois quietos frente
ao silêncio verdadeiro eu despido de significados
tu sarado de conteúdos

nem tu nem eu somos essas figuras
fabulosas
parceiros sim na difícil escatologia
(mas até disso folguemos agora)

que a morte - e a vida - são um fingimento de Deus
que deveras cumprimos


Miguel-Manso in "Persianas"
Ed. Tinta da China

coisas muitos boas a acontecer por aí

2018-10-03

constata-se

Basta ler qualquer meia dúzia de comentários, sobre o "caso Ronaldo", para chegar à conclusão de que as reacções das vítimas de abuso sexual, desencadeadas pelo movimento #Me Too, não são de mais, muito pelo contrário, são de menos.

2018-10-02



MENDIGOS 

Há muitos anos que conheço este homem
Dantes, cheirava mal e tinha ataques de loucura
Agora senta-se, asseado e calmo
Nas esquinas da Baixa


Muito raramente dou-lhe uma moeda
Ele pede sempre 


Ontem, quando o encontrei, chamou-me:
Irmão! Amigo! Com uma voz estranha, vinda das profundas
Mas eu tinha os bolsos vazios e segui caminho
Não me pareceu sensato pagar-lhe com cartão de crédito


Voltei para casa ferido e pensativo
Com a voz do mendigo a remorder-me por dentro
No computador topei com um poema do meu amigo Mordechai
Onde ele escrevia um caso com um mendigo em Telavive


A coincidência assustadora e bela
Lembrou-me que estes dias são os dias terríveis
Pedi desculpa, então, pelo meu pecado
E dispus-me a procurar a reparação possível


Hoje, passei na mesma rua
E na mesma esquina vi as pernas dele
A espreitarem por detrás dum caixote do lixo
(estaria sentado no chão, encostado à parede)


Desta vez, encontrei no bolso uma moeda de 2 euros
Quantia não desprezível que ainda dá para uma sopa
Aproximei-me e estendi-lhe a esmola


Ele aceitou-a, olhou-me nos olhos
Disse: obrigado, e pude ver-lhe a cara
Era outro mendigo


João Paulo Esteves da Silva