2018-02-27

O meu pai deixou em poemas, palavras sobre o amor, sobre o tempo, sobre a morte, sobre tantas coisas, sobre o cosmos presente num quotidiano errático. Minha mãe desenhou caminhos para a liberdade, mostrou-nos, aos quatro, a força e a determinação da alegria, da vontade, da coragem. Transmitia-nos uma energia enigmática, funda, irrecusável. Era esta uma das suas faces. Era uma generosidade que não queria retorno. Silêncio. Ensinou-nos o que não se explica, o intraduzível em palavras, talvez em coisa nenhuma, uma condição de humanidade em aberto, onde o futuro é vislumbrado pela curiosidade e pela criatividade. Mostrou-nos a arte da vida, mesmo nos momentos mais duros e difíceis. Deixou-nos a dignidade maior.

Duarte Belo, aqui

2018-02-22

sou toda cicatrizes e cansaços

Por defeito ou feitio nunca valorizei os sinais religiosos exteriores, quer para expressar a minha religiosidade ou a de outrem. Nos dias que correm muito menos. Mas esta notícia inquieta-me. Se fosse alguém a pretender impor os crucifixos a minha perplexidade seria idêntica.

Manifestação de interesses, considero o Ricardo Alves uma pessoa inteligente, por quem tenho simpatia (que restou do tempo em que trocávamos galhardias ateus/crentes, quando a bloga fervilhava de discussão e emoção a rodos).

acontece

Ouço os rapazes debaterem com fervor os direitos das mulheres, proclamando a igualdade e o respeito, apelando ao que é urgente fazer. Vou para participar, dizer do que sei e preciso, esclarecer-lhes dúvidas, explicar certos receios e sentimentos, más memórias, atavismos, obstáculos. Mas eles mal me ouvem. Pois sendo embora solidário o seu discurso, não escutam ainda voz alguma além da deles.

2018-02-18

morreu Maria Teresa, a mulher que o poeta amou

[...]

Talvez dentro de séculos se não fale já de ti
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples  recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém [...]


do poema "Elogio de Maria Teresa", Ruy Belo

2018-02-14

Frei Bento Domingues, a demonstrar que há vozes "desalinhadas" na Igreja, mesmo dentro da hierarquia.

A nota do patriarca é um passo acertado com os tempos atuais ou é um passo atrás?
 
É um passo que não devia existir. É o casal quem deve decidir a sua vida íntima. Nenhum padre, nenhum bispo, ninguém se pode intrometer. É ridículo!


daqui

2018-02-12


Há encantamentos que não se explicam. Trago o Nuno Bragança no coração, sem nunca o ter conhecido ou sequer visto, apenas pela leitura do que dele foi publicado e pelas memórias da Joana Lopes. No blogue hoje está a partilha de mais uma memória e o link para este documentário.

ternura

(desconheço autoria)

precisamente


Solidão

Que venham todos os pobres da Terra
os ofendidos e humilhados
os torturados
os loucos:
meu abraço é cada vez mais largo
envolve-os a todos!

Ó minha vontade, ó meu desejo
— os pobres e os humilhados
todos
se quedaram de espanto!...

(A luz do Sol beija e fecunda
mas os místicos andaram pelos séculos
construindo noites
geladas solidões.)


Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"

2018-02-08


Como dizia o outro "o amor é fodido" e ser bispo católico também o é. Alertada pelas notas dos jornais fui à fonte para compreender o contexto. Nada de novo. O divórcio, entre a ortodoxia e o corpo, o sexo, as alegrias e dores dos homens e mulheres contemporâneos, mantém-se.  Para mim, é semelhante a um ruído que ouço muito ao longe, mas não causa qualquer perturbação. Fiquem na deles e sejam felizes.

2018-02-07


A noite deixou-me outra vez transtornada 
lentamente a manhã se enche
de palavras que eu sei de certeza que significavam alguma coisa, 
mas o quê?
que ontem significavam alguma coisa.
Andar é balançar sobre os pés,
vejo na rua os seres de sangue quente
que tiveram também a inexplicável coragem
de se levantarem
em vez de ficarem deitados.

Nunca ninguém tem a certeza de nada,
de ser amado, de ser abandonado
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.

Agora me lembro o que queria dizer:
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.

Judith Herzberg 
#imagem - Helena Almeida

2018-02-05

voltemos à vaca fria

Um artigo bastante equilibrado da Fernanda Câncio:

Ora é precisamente porque nas relações íntimas as coisas se passam com subtileza, sem papéis assinados nem certidões, porque o desejo é algo de fluído, misterioso e inconstante e o que queremos ou julgamos querer num momento pode mudar no seguinte, e também porque vivemos num quadro cultural de ascendente dos homens sobre as mulheres do qual faz parte - não dá para negar isso, certo? -- a ameaça da violência masculina, que o caso Ansari, ao invés de ser uma prova da alegada histeria do #metoo, é um tão excelente ponto de partida para a nossa conversa. Vamos falar, meus senhores? [artigo completo]

2018-02-04

primícia



Dia de Descanso

Hoje reservo o dia inteiro para chorar
É o domingo decadente em que muitos
esperam pela morte de pé
É o dia do sarro que vem à boca da mediocridade
circular dos gestos que andam disfarçados de gestos
dos amores que deram em estribilhos
das correrias pederásticas para o futebol em calções
mais o melhor fato e a mesquinhez nacional dos 10%
de desconto em todo o vestuário

E choro   choro   porque a coragem
não me falta para tudo isto e assisto
na nega de me ceder ao braço dado

Precisarei de um cansaço mas
lá estavam espertas
as mil e não sei quantas lojas abertas
para mo vender!

Mas hoje é domingo
Lá está o chão reluzente de martírio
e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter
já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser

E choro de coragem isto é
as lágrimas hão-de cair secas nas minhas mãos
Falo cristalinamente sozinho
procurando entre as paredes e as varandas que vão cair
algum acaso isto é
o eco, de qualquer drama vazio

Espero como quem espera
o momento de posse entre dois ponteiros
de torneira em torneira nas súplicas febris
em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas
para as não cortar em gritos
Espero e entretanto o mundo não se cansa
de me dar drogas para dormir e criar
novelos de lã à volta do coração
Não me lastimo grito
Quero que estas correntes da boca se tornem úteis
e não ficar pr'aqui moldado estátua
em verdete de ser chorado
A tropeçar onde não há perigo
com calçado duro a pisar as nuvens
neste tão estreitado mundo

Choro hoje o dia todo e lembro-me o que disso
podem pensar os homens das ideias revolucionárias
e choro
choro de coragem e para os microfones da revolução
As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um

Cá do meu alto não se desce por escadas mas por desalento
por amor ao chão de terra que me pisam

e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução
alheia às tais guerras de papel químico

Espero sem esperança mas certo
do que espero como de saber que um homem
não chora e choro

Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar
porque é domingo e o que espero não é a morte de pé
talvez a coragem de que o mundo não esteja certo

Uma vez era ainda pequeno
chorei ao ver um prédio desabitado
Moro nele mesmo aos domingos e rio-me
das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas
Sei que nada adianta
Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno
Nele me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar
ao choro da coragem de esperar

E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado
um grito afinal terá assim o seu eco

Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente
até que a noite me venha
cobrir o corpo de abafo quente

Então sairei à procura da prostituta cega
para lhe contar junto ao peito
como as pessoas se comportam aos domingos

Fernando Lemos in "Teclado Universal"

2018-02-01

Desterro
 
Eu ia triste, triste, com a tristeza discreta dos fatigados,
com a tristeza torpe dos que partiram tendo despedidas,
tão preso aos lugares
de onde o trem já me afastara estradas arrastadas,
que talvez eu não estivesse todo inteiro presente
no horror dessa viagem.
Mas a minha tristeza pesava mais do que todos os pesos,
e era por causa de mim, da minha fadiga desolada,
que a locomotiva, lá adiante, ridícula e honesta,
bracejava,
puxando com esforço vagões quase vazios,
com almas cheias de distância, a penetrar no longe.
A tarde subiu do chão para a paisagem sem casas,
e o comboio seguia,
cada vez mais longe, mais fundo, a terra mais vermelha,
o esforço maior, as montanhas mais duras,
como sabem ser duros os caminhos,
pelos quais a gente vai, só pensando na volta…
Coagulada em preto,
a noite isolou as coisas dentro da tarde,
e o barulho do trem foi um rumor de soçobro
no fundo de um mar sem tona.
Nem mesmo foi a noite: foi a ausência
brusca e absurda do dia.
Tão definitiva e estranha, que eu me alegrei, esperando
o não continuar da vida,
o não-regresso da luz, o não-andar-mais do trem…


João Guimarães Rosa, do livro “Magma”.