2018-03-29









[...]

Oh substância
Canto-te

Com a fragilidade de tudo que existe perante
uma eternidade demasiado noturna para os nossos
olhos infantis [...]


Ana Hatherly
Poemas de Eros Frenético e Contemporâneos
um calculador de improbabilidades

2018-03-28


#imagem-Rui Palha, Lisboa

Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

2018-03-25

que o silêncio se faça respeitar






Na primeira tentativa da flor há fealdade e ao mesmo tempo candura; depois, da noite para o dia uma gota de tinta como uma gota de leite. Basta que à névoa se misture o sol, para entreabrir, ainda informe. Todos os seres, antes de se vestir são abortos: têm medo de nascer belos. 
Às vezes basta um dia. De um instante para o outro, poeira azul, entontecimento, sonho...
E isto não é só material. Neste mistério há certa dor, certa tontura, há até espanto. É um olhar que se abre para o mundo. Pela emoção a árvore comunica com o universo e manifesta uma vontade que triunfa sobre a dor inconsciente.

Entre a árvore, o céu e a terra há um compromisso de ternura.


Raúl Brandão in Húmus

2018-03-23

"que bastava viver porosamente aberto"

A mentalidade científica quer que tudo tenha explicação, incluindo o maravilhoso. O que havemos de fazer, talvez seja assim: mas então, mal se aceita resignadamente esta suposta conquista total da realidade, o maravilhoso volta de pequenas coisas, o insólito resvala como uma gota de água ao longo de um copo de vidro e aqueles que merecem o comércio com essas presenças mínimas esquecem a sapiência e a consciência e passam-se para o outro lado e fazem coisas como por exemplo escutar a tosse de uma senhora alemã.

Em 1947, pouco depois do fim da guerra, Wilhelm Furtwängler dirigiu um concerto entre as ruínas de uma Alemanha derrotada, que a maioria dos seus vencedores começava a reabilitar a Oeste depois de a ter repudiado a Leste. Também Furtwängler tinha sido a princípio, repudiado, pela sua condescendência para com a me(ga)lomania de Adolfo Hitler, após o que parecia de bom-tom reabilitá-lo; assim terminam muitas guerras, o que explica que uns tempos depois voltem a eclodir, mas não é disso que vamos falar mas do concerto em que Yehudi Menuhin, convidado pelas forças de ocupação, tocou nessa noite o Concerto em Ré de Beethoven que o ilustre Furtwängler tirava uma vez mais da gaiola para mostrar o que era capaz de fazer com esse imperecível leopardo da música. A RIA (sigla da rádio Alemã) difundiu o concerto e além disso gravou-o com os meios técnicos disponíveis naquela altura, que não eram muitos. A gravação (disco, fio, fita magnetofónica?) ficou nos arquivos até que outro dia, mais de trinta anos depois, foi emprestada à rádio francesa que por sua vez a emprestou ao meu receptor sintonizado na France Musique. Um argentino em Paris ouviu assim uma orquestra  alemã e um violinista judeu que tocavam sob a batuta de um morto: tudo isso, que teria sido perfeitamente incompreensível há menos de um século, fazia e faz parte do ordinário, daquilo que a ciência explica às crianças nas escolas; tudo isso era quotidiano, simplesmente premir uns botões e instalar-se num cadeirão.

Talvez Menuhin nunca tenha tocado o concerto de Beethoven como nessa noite; tinha razões de sobra para o fazer tão prodigiosamente no mesmo lugar onde tinham sido exterminados sete milhões de judeus e onde talvez alguns dos seus exterminadores estivessem sentados na plateia do teatro e aplaudissem freneticamente. Do concerto em si, do seu intérprete e do seu maestro só é possível falar com admiração, mas não é disso que falamos mas daquele instante, creio que no segundo andamento, em que um pianíssimo da orquestra deixa passar uma tosse, um único golpe seco e claro de tosse que não se repetiria, uma tosse de mulher, a tosse de uma senhora que qualquer cálculo de probabilidades definiria como uma senhora alemã.


Durante mais de trinta anos essa pequena tosse anónima  tinha dormido nos arquivos da rádio; agora reiterava o seu diminuto fantasma em milhares de ouvidos que escutavam um concerto noutro tempo e noutro espaço. Impossível saber quem tossiu assim nessa noite; nenhuma ciência, nenhum cavalheiro Dupin podia determinar a sua origem. Sem a menor importância, sem o mais pequeno significado, essa tosse repetiu-se multiplicada por infinitos microfones para voltar a cair instantaneamente no nada; mas alguém que porventura tenha nascido para medir as coisas assim, com mais força do que as coisas grandes e duradouras, ouviu essa tosse e algo nele soube que o maravilhoso não tinha morrido, que bastava viver porosamente aberto a tudo o que habita e alenta entre o concreto e o definível para resvalar para o outro lado onde, de repente, na enorme massa catedralícia de um concerto beethoveniano, a breve tosse de uma senhora alemã era uma ponte e um signo e uma chamada. Quem era essa mulher, onde se sentou nessa noite, ainda está em viva em qualquer parte do mundo? Porque é que essa tosse faz nascer estas linhas noutro tempo, debaixo de outro céu? Até quando vamos continuar a acreditar que o maravilhoso não é mais do que um dos jogos da ilusão?


Julio Cortazár, 1979 in Papéis Inesperados
Edição Cavalo de Ferro



a leitora imperfeita



Agarrei no ar...

Agarrei no ar um véu
esmaecido de azul,
igual ao azul do céu
iluminado pela lua.

Eu passo a vida a sonhar
iluminado pela lua.

Ruy Cinatti

2018-03-20





"Gostaria de guardar toda aquela felicidade para o tempo que se aproxima. Mas o amor é como o sol, não se pode guardar no celeiro. Cada vez é única e morre como as ondas que voltam ao seio do oceano."

[Benoîte Groult in "os Vasos do Coração"]

#imagem-Pedro Luis Raota

2018-03-16

exactamente


A situação espiritual do nosso tempo — como se dizia outrora — deve muito a este exército de soldados da eloquência, mobilizados para uma marcha fútil e exuberante de frases e frases que, de certo modo, nada dizem. “De certo modo, nada”: esta expressão podia ser um tique de linguagem usado por estas milícias de jornalistas, intelectuais, professores e políticos em reciclagem. 

António Guerreiro, no Público

Marielle Franco


Mais uma vítima da barbárie. Inaceitável e preocupante.

2018-03-10

"eu quero o silêncio das línguas cansadas"

Que por Ti Perdi

O mar dentro da árvore, as nuvens 
dentro da terra sem fim, 
a luz. A luz dentro doutra luz 
que limitava as mãos e as abria 
para outras mãos dentro de um olhar. 

Batem na fornalha os ventos. 
Um cálice de vidro grosso com o licor 
de fermentação caseira. Um prato 
com avelãs e nozes e folhas de medronho. 
Nas margens as portadas corridas 
ganham um halo de candeeiros de rua 
que se difunde na fluorescência do televisor, 
na palidez rubra das pequenas luzes do rádio. 

A última claridade do dia mistura-se 
à primeira da noite. 
Este vento na auto-estrada onde rebenta a chuva 
não me vai forçar o coração; nem estas sebes 
ladeadas de cimento suspenderão o voo 
do que sou até ao que não és. Mas será 
a carícia que no cinto treme, o calor do pescoço 
descoberto, os vimes da cadeira donde te levantas 
quando estou quase para me sentar. 

Entre veios de relva desigual, 
valados por cuidar abrigam 
máquinas de desolação. 
Formações de patos atravessam 
o vidro polido do postigo. 
O dia bate no jornal pousado 
sobre a manta castanha que prende 
os joelhos no silêncio de interior. 
Outras vezes, as persianas já corridas, 
um globo de lona ilumina o livro 
na pequena mesa, um arame de flores 
pendurado numa trave e o armário 
com os objectos de estanho e meditação. 

A vida acumulou-se em roldanas ao redor de tudo, 
um fumo que sobe durante a noite sobre os mapas 
enrolados na parede despida, há tanto nos esquecemos 
de os desdobrar, de por eles chegar aos confins 
do nosso mundo. E já estamos a desaparecer. 

Joaquim Manuel Magalhães, in 'As Escadas não têm Degraus' 

porque hoje é sábado


#Inge Morath, Londres, 1954

2018-03-08

2018-03-07

2018-03-04

2018-03-02

O enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana. É uma das mais difíceis de definir. O ser humano tem uma raiz por sua participação real, activa e natural na existência de uma colectividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro.

Seria vão voltar as costas ao passado para só pensar no futuro. É uma ilusão perigosa acreditar que haja aí uma possibilidade. A oposição entre o futuro e o passado é absurda. O futuro não nos traz nada, não nos dá nada; nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo, dar-lhe a nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter, e não temos outra vida, outra seiva a não ser os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado.

Simone Weil, O Enraizamento