2018-03-02

O enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana. É uma das mais difíceis de definir. O ser humano tem uma raiz por sua participação real, activa e natural na existência de uma colectividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro.

Seria vão voltar as costas ao passado para só pensar no futuro. É uma ilusão perigosa acreditar que haja aí uma possibilidade. A oposição entre o futuro e o passado é absurda. O futuro não nos traz nada, não nos dá nada; nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo, dar-lhe a nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter, e não temos outra vida, outra seiva a não ser os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado.

Simone Weil, O Enraizamento 

5 comentários:

  1. Esta senhora era uma sábia, tanto que viveu e observou... concordo com tudo o que diz.

    E por muito que se tente, não se consegue apagar o passado, pelo que se deve aproveitar todas as suas lições, para seguirmos em frente.

    abraço Maria

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  2. tudo o que diz neste extracto, certo? é que compreender toda a produção filosófica da SW para mim é uma dificuldade. Tenho dificuldades na compreensão intelectual e depois numa dinâmica de vivência. Ela viveu num período de dificuldades que eu não experimentei, guerra, luta sindical, doença etc.

    Quanto ao tratamento a dar ao passado, claro que não se pode viver o presente como se ele não tivesse existido. Temos fases da vida, adolescência e juventude, em que nos iludimos que o nosso presente é melhor que qualquer passado, somos melhores, fazemos melhor, em suma, vivemos melhor...faz parte.

    Aqui (no texto) o sentido de passado não é apenas individual e familiar, mas um passado que mergulha nos primórdios, num "tempo" antes do tempo até, e que nos constitui como seres humanos e nos permite viver o presente.

    Abraço Luis

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    1. Sim, só me referia ao texto, Maria.

      Embora conheça a sua história de vida, não a conheço profundamente...

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  3. Não sei se viste aqui ligação ao que tinhas escrito. O que eu quis dizer, ao apontar para este texto, é que vivendo nós a situação que vivamos no presente, ela enraíza sempre num passado comum. Se existe algo que nos esmaga no presente tendemos a hiper valorizá-lo diminuindo tudo o resto. Mas isto sou eu a falar que nem imagino o que é viver ou ver alguém próximo viver situações idênticas. Falo estando de fora.

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