2018-03-23

"que bastava viver porosamente aberto"

A mentalidade científica quer que tudo tenha explicação, incluindo o maravilhoso. O que havemos de fazer, talvez seja assim: mas então, mal se aceita resignadamente esta suposta conquista total da realidade, o maravilhoso volta de pequenas coisas, o insólito resvala como uma gota de água ao longo de um copo de vidro e aqueles que merecem o comércio com essas presenças mínimas esquecem a sapiência e a consciência e passam-se para o outro lado e fazem coisas como por exemplo escutar a tosse de uma senhora alemã.

Em 1947, pouco depois do fim da guerra, Wilhelm Furtwängler dirigiu um concerto entre as ruínas de uma Alemanha derrotada, que a maioria dos seus vencedores começava a reabilitar a Oeste depois de a ter repudiado a Leste. Também Furtwängler tinha sido a princípio, repudiado, pela sua condescendência para com a me(ga)lomania de Adolfo Hitler, após o que parecia de bom-tom reabilitá-lo; assim terminam muitas guerras, o que explica que uns tempos depois voltem a eclodir, mas não é disso que vamos falar mas do concerto em que Yehudi Menuhin, convidado pelas forças de ocupação, tocou nessa noite o Concerto em Ré de Beethoven que o ilustre Furtwängler tirava uma vez mais da gaiola para mostrar o que era capaz de fazer com esse imperecível leopardo da música. A RIA (sigla da rádio Alemã) difundiu o concerto e além disso gravou-o com os meios técnicos disponíveis naquela altura, que não eram muitos. A gravação (disco, fio, fita magnetofónica?) ficou nos arquivos até que outro dia, mais de trinta anos depois, foi emprestada à rádio francesa que por sua vez a emprestou ao meu receptor sintonizado na France Musique. Um argentino em Paris ouviu assim uma orquestra  alemã e um violinista judeu que tocavam sob a batuta de um morto: tudo isso, que teria sido perfeitamente incompreensível há menos de um século, fazia e faz parte do ordinário, daquilo que a ciência explica às crianças nas escolas; tudo isso era quotidiano, simplesmente premir uns botões e instalar-se num cadeirão.

Talvez Menuhin nunca tenha tocado o concerto de Beethoven como nessa noite; tinha razões de sobra para o fazer tão prodigiosamente no mesmo lugar onde tinham sido exterminados sete milhões de judeus e onde talvez alguns dos seus exterminadores estivessem sentados na plateia do teatro e aplaudissem freneticamente. Do concerto em si, do seu intérprete e do seu maestro só é possível falar com admiração, mas não é disso que falamos mas daquele instante, creio que no segundo andamento, em que um pianíssimo da orquestra deixa passar uma tosse, um único golpe seco e claro de tosse que não se repetiria, uma tosse de mulher, a tosse de uma senhora que qualquer cálculo de probabilidades definiria como uma senhora alemã.


Durante mais de trinta anos essa pequena tosse anónima  tinha dormido nos arquivos da rádio; agora reiterava o seu diminuto fantasma em milhares de ouvidos que escutavam um concerto noutro tempo e noutro espaço. Impossível saber quem tossiu assim nessa noite; nenhuma ciência, nenhum cavalheiro Dupin podia determinar a sua origem. Sem a menor importância, sem o mais pequeno significado, essa tosse repetiu-se multiplicada por infinitos microfones para voltar a cair instantaneamente no nada; mas alguém que porventura tenha nascido para medir as coisas assim, com mais força do que as coisas grandes e duradouras, ouviu essa tosse e algo nele soube que o maravilhoso não tinha morrido, que bastava viver porosamente aberto a tudo o que habita e alenta entre o concreto e o definível para resvalar para o outro lado onde, de repente, na enorme massa catedralícia de um concerto beethoveniano, a breve tosse de uma senhora alemã era uma ponte e um signo e uma chamada. Quem era essa mulher, onde se sentou nessa noite, ainda está em viva em qualquer parte do mundo? Porque é que essa tosse faz nascer estas linhas noutro tempo, debaixo de outro céu? Até quando vamos continuar a acreditar que o maravilhoso não é mais do que um dos jogos da ilusão?


Julio Cortazár, 1979 in Papéis Inesperados
Edição Cavalo de Ferro



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