2018-04-30

a verdade não é espetacular


Há dias, participei como testemunha numa audiência em tribunal. Foi-me pedido, como é próprio do rito, que jurasse dizer apenas a verdade. Fi-lo com a consciência de que não tinha nada a omitir, ou razões para mentir.
Quando chegou a vez do advogado da ré me inquirir, o objectivo de apuramento da verdade, rapidamente se tornou um espetáculo de imaginação e ilusão, numa retórica de subversão de valores.

Não faço ideia de qual será a decisão. Apesar de, exaustivamente, ter tentado esclarecer quem tem de julgar, duvido que a clareza da minha exposição, e das restantes testemunhas que testemunharam no mesmo sentido, tenha mais força do que a fantasia argumentativa da defesa. 



o que ando a ouvir

2018-04-26


aprende a falar - diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros 
os caminhos. põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. então falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue, de assombro em
assombro.

Manuel Gusmão

2018-04-20






a busca da luz

Uma Beleza Dificílima

O silêncio 
abre 
o coração das sombras. 
Por tal sossego, as árvores 
caminham. Mas são as mulheres quem lhes assegura 
a elegância do porte. 

A harmonia vem do peso da luz 
sob a cabeça. Das mãos em arco: os ramos seguram. 
Altas são as folhas. Simples. 
Lisa a copa. 

Não há rumor na terra. 
As feras não nasceram ainda. Apenas os peixes. 
Fora de água 
respiram. 

Sim. 
O mundo pode ser belo, 
apesar de só. 

Basta-lhe o fulgor no mais escalvado da noite 
e meninos esbeltos e 
gelados no sol. 
E uma beleza dificílima. E um cauteloso 
azul nas garças abatidas pelo céu. 
E um primeiro espanto, 
uma primeira alegria nas fendas 
em direcção 
ao pó. 

Eduarda Chiote, in 'A Celebração do Pó' 

2018-04-17





Nasce uma criança, o mundo pára e o nosso centro descola-se para ela. Acolhê-la, ampará-la, contemplá-la, não encontro melhor imagem de eternidade.

2018-04-13

e o contraste


O silêncio não pertence a este lugar. Ninguém aqui sabe falar baixo. A voz humana deixa de o ser, tal é a sobreposição de sons. Passado algum tempo: só grunhidos aquilo que consigo ouvir.

do manuel a. domingos

2018-04-10

num corpo feito razão

uma palavra que se impõe

este blogue teve início, diria eu, noutra vida, andou meio descuidado, porque me deixei seduzir por outra rede social, e agora vive alimentado pelas palavras, imagens e músicas, de que me vou apropriando. 
observo que há seguidores fiéis que me acompanham, quase desde o início deste atrevimento, e há novas pessoas a seguir o blogue. perante uns e outros, a minha perplexidade. e gratidão!

o poeta do dia - Sebastião da Gama, no 94º aniversário do seu nascimento


Poesia Depois da Chuva

                         A Maria Guiomar 

Depois da chuva o Sol - a graça. 
Oh! a terra molhada iluminada! 
E os regos de água atravessando a praça 
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase. 

Canta, contente, um pássaro qualquer. 
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça. 
O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça. 

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar. 

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado 
antes do Sol, não duvidava agora.) 
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual 
às manhãs do princípio! 

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro. 
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde... 
Flor levada nas águas, mansamente... 

(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...) 

Sebastião da Gama, in 'Pelo Sonho é que Vamos' 

2018-04-02

DEDICATÓRIA

A todos os que nas noites tempestuosas das revoltas procuram uma lua infantil
aos que já não tinham tempo, aos que foram esquecidos
na doçura do sono quanto todos nos tinham abandonado
aos espelhos onde nos fitámos, aos mares que não navegaremos
aos caminhos que percorremos apaixonados e a que talvez não tenhamos voltado
ao destino, à bela juventude, aos viajantes
(e eu, aonde ia? e era assim tanto o que pedia? Mas agora é tarde – é tempo de partir)
às aves de arribação, às locomotivas a vapor que se cansaram e se viraram de lado para dormir
às espigas que a luz ilumina, às raparigas que despem a saia para entrarem no céu,
às cartas de um anjo para um menino, aos que se atrasaram, aos que nunca voltarão
à mulher que deita as cartas, ao velho que chora
à Odisseia que vive o poeta ao escrever o mais pequeno poema
ao instante luminoso que viveu um homem vivendo uma vida inteira…



Tasos Leivatidis - traduzido por Manuel Resende 
via Bibliotecário de Babel