2018-05-31


Hoje o exército invadiu o parque. Nem só o exército - enquanto o atravessei encontrei mais carros do que bancos onde me sentar.
Mas voltando ao exército, a acção envolveu carros, carrinhas, carros pesados, palanques, cadeiras e uma unidade móvel estacionada junto ao lago, com material publicitário e a mensagem: INSCREVE-TE! Olhando à volta, viam-se a caminhar placidamente, jovens pais com as suas crianças, alguns septuagenários e na relva espalhavam-se uns quantos jovens, com ar de quem estava tão interessado na carreira militar quanto eu, a sentir-me estrangeira e a leste daquilo tudo.
Vou tendo notícias de que o parque, depois que passou a ser gerido pela Câmara Municipal, começou a ser palco para tudo: feiras, "festival do cavalo", actividades que deslocam milhares de pessoas para um local que foi criado como jardim, com árvores, ruas de saibro e um museu que fica abafado, no meio do frenesim de uma cidade que em termos culturais não sabe ser nem estar.

onde repousam meus olhos



2018-05-28

porque não há escolhas limpinhas, limpinhas


[...]não deixo de refletir em relação a um mundo e uma sociedade em que se vão inscrevendo supostos direitos individuais enquanto se ignoram direitos coletivos. Numa prática ideológica que consagra a atomização do indivíduo e a sua responsabilização por todas as situações sociais, como se elas não decorressem de uma determinada sociedade. Será despenalizada a morte assistida, mas não são responsabilizados política e socialmente aqueles que destroem o Serviço Nacional de Saúde e antecipam, de facto, a morte de milhões de pessoas por falta de cuidados de saúde. Saúde, educação, habitação, emprego são direitos que deixaram de o ser. São considerados heranças arcaicas de uma sociedade não livre. Livre é o mercado. Liberalizar o mercado de emprego significa despedir livremente. A palavra “liberdade” transformou-se nas regras que garantem o poder dos mais fortes e que liquidam os direitos da maioria da população, que muitas vezes foram falsamente trocados por “direitos” individuais.

Nuno Ramos de Almeida, aqui

2018-05-26

motivo secreto



Tudo segue o seu curso segundo leis que ignoramos, não as férreas, embora a essas tanto faça conhecê-las como não, vencem-nos sempre, mas as outras, as leis que vêm de todos os fios que se cruzam no nosso corpo desde que nascemos, os fios, a água que vem da música do que se viveu e das saudades.


Maria Filomena Molder in "Dia Alegre, Dia Pensante, Dias Fatais"

porque hoje é sábado


retirada daqui

2018-05-25

ignorar a ignorância

 Greta Garbo, por Nickolas Muray, 1929


Quando ouço, em tom condescendente, "olha, fulano está a ser acusado de assédio sexual", já sei que é uma batalha perdida para a ignorância.

2018-05-24

a ler


Afinal, quantos génios produz o mundo num século? Não seria, no mínimo, exigível que tendo eles sofrido o que de sofrimento pode ser exigido a um ser que cria e se recria e inventa, não seria, no pelo menos mínimo dos mínimos, expectável ou digno de se ver que esses seres raríssimos pudessem pelo menos morrer em paz e conforto, quer dizer, no consolo burguês de não terem despesa e a fome saciada à mão de semear? Parece haver uma incompatibilidade entre o génio e o consolo, entre a criação e o conforto.

escreve o Henrique, a propósito de João Gilberto, aqui 

2018-05-22

20 anos depois (do local da Expo 98)







Por causa da notícia da sua morte, descobri a [alguma] poesia de Assionara Souza. Fiquei com vontade de descobrir mais...


As ruas, seus espasmos de luz em meio às sombras
Tatuagens sutis de conversas e risos
Duas realidades dispersas
Não sei se foi pra ti que confessei
Minha compaixão por Caim
Sua humanidade diante do fracasso em agradar Deus
E o peso das últimas consequências
Vejo você negociar com o destino
"Esperava mais. Não consigo sentir o suficiente.
Faça-me sentir o suficiente até adormecer e sonhar"
Estou dentro do barco e ele desliza em meio a águas confusas
Caim amou sem precedentes
Sua cegueira não lhe dava acesso à lucidez
Somente olhos para Deus
Todo ouvidos e pés correndo para junto de seu amado
O que não conseguimos tocar está prenhe de símbolo
A poesia oscilando entre sono e vigília
Por nada saber, revisar o vivido feito cego tateando o ar
Louco por converter perfume em substância
Coisa tangível ao tato e paladar
A árvore frondosa de Baudelaire
Com suas raízes e galhos violentos furando o chão e rasgando o ar
Enquanto nos vê passar

2018-05-19



NEM TANTA COISA DEPENDE

preferes o canto, o lugar oculto
a folhagem, a sombra, o quarto, este
saco de trigo: ouro de um texto
sobre a velha escrivaninha do real

lá fora o clarão do arvoredo
atalhos para a tingidura da paisagem
cá dentro menos caminho, outro

panorama; a presença tão-só
desabitada de uma pessoa, mistério sem
atributo ou função

sempre a desfeita de um coração
o cultivo intensivo das figuras
e sobram tristeza e dias ao corpo que escreve
no calabouço de uma manhã muito larga

reluzente de gotas de mel
enquanto os gatos lambem o sábado
e sentado, sapo de ouro, permites-te pôr no mundo
(mas porquê)outro poema

Migue-Manso
[in Ensinar o Caminho ao Diabo, edição do autor 2012]

respigado daqui

porque hoje é sábado


#Edouard Boubat

2018-05-16

dizem



Dizem
que depois dos 30 as mulheres envelhecem depressa
mal humoradas
padecem de males nunca antes pensados
não se resignam
e sofrem ao comparar-se com as rosas murchas
pétalas caídas, a beleza a finar-se,
ou então resignam-se
e viram os espelhos
preferem serões na meia-luz
fogem das vidraças
até dos charcos de água
quando há lua cheia.
Dizem que
depois dos 30 as mulheres
aprendem a fazer amor
e a sua ansiedade espanta
ávidas de orgasmos
ninfomaníacas
são substitutas em camas alheias
mulheres fáceis
ou então começam a secar
enojadas e receosas
dos seus desejos (ávidos, urgentes)
têm falta de homem diz-se.
Putas ou reprimidas
vem a dar no mesmo. É o que se diz.



Giovana Pollarolo (Peru, n. 1952), tradução de Soledade Santos
daqui

2018-05-13

inexoralvelmente

volto a Húmus: É a essa ninharia que é a vida, a que deito as mãos com desespero. A vida é nada - é esta cor, esta tinta, esta desgraça. É saudade e ternura. É tudo.

Sem o verbalizarmos -  tudo o que pudéssemos dizer  seriam banalidades circunstanciais, sabíamos que ela tinha descoberto o segredo. E tinha feito de todos nós beneficiários dele.
Há seres assim, que vão muito além das suas circunstâncias. Foi com esta confiança que nos consolamos, mutuamente, nos últimos dias, e com a memória dela continuaremos, sabendo que fomos testemunhas da vida de uma grande mulher.

(Eu vou sentir muita falta das tuas histórias...e do teu carinho, querida C.)


2018-05-09


Assisto impotente à sua agonia, que me interpela com impetuosa animalidade. De seguida, sento-me e a cadela insinua-se, dengosa no meu colo. A cada dia que passa sinto-a mais humanizada.

2018-05-05

é isto


“Todos somos um poço de contradições. A realidade que conhecemos é rala e reles. As pessoas que não têm dinheiro para acabar o mês, os soldados na guerra... Parecendo que não, é um dado quotidiano. Há uma música de fundo, mas é uma música de guerra, de conquista, de luta pelos recursos do planeta. É essa a nossa ralidade. É nessa realidade que a gente vive e contra a qual temos de afirmar o nosso eu; temos de reagir. Isto é profundamente político."


Manuel Resende entrevistado por Isabel Lucas in Público


porque hoje é sábado


#imagem de Alain Laboile

2018-05-02



Retrato de Mulher Triste


Vestiu-se para um baile que não há. 
Sentou-se com suas últimas jóias. 
E olha para o lado, imóvel. 

Está vendo os salões que se acabaram, 
embala-se em valsas que não dançou, 
levemente sorri para um homem. 
O homem que não existiu. 

Se alguém lhe disser que sonha, 
levantará com desdém o arco das sobrancelhas, 
Pois jamais se viveu com tanta plenitude. 

Mas para falar de sua vida 
tem de abaixar as quase infantis pestanas, 
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas. 


Cecília Meireles in Poemas (1942-1959) 

temos de mudar



Diz também que em Portugal ainda persistem o estigma e os preconceitos associados às doenças mentais. 
 
Sim. A maior parte das pessoas ainda estão convencidas de que nas doenças mentais não há nada a fazer. Se falar até com pessoas em altas posições no Ministério da Saúde [e outros organismos] encontra muitas que estão convencidas de que não há muito a fazer. E, se tiverem alguém na família [com doença mental], têm vergonha em falar disso. Entre os profissionais de saúde mental o estigma é muito grande também. Até entre os doentes… Há muitas pessoas que têm doenças mentais que não vão tratar-se porque têm vergonha.


José Caldas de Almeida in Público

2018-05-01

a ler os outros



Ousar pensar é resistir e saber decifrar os mecanismos, sempre em mudança, da manipulação. Mas não nos movimentamos na direcção da complexidade nem da felicidade e o movimento dado a ver é um simulacro, pois quase tudo apela à imobilidade, condição da mediocridade e da manipulação. Os mais capazes, os mais audazes, aqueles, portanto, que conseguem alcançar a consciência da força libertadora do conhecimento, poderão acabar destruídos pela função praticamente elementar que a linguagem tem já na sociedade; sentir-se-ão, esses que sabem o que significa o pensamento complexo e dele fazem o insubstituível uso, a falar sozinhos num deserto insuportável de ruído estéril onde a comunicação recíproca é elementar e a crítica uma impossibilidade ou uma ousadia punível. Um dia estaremos irreconhecíveis sem nos darmos conta desse vazio, sem nos darmos conta dos significados.



Jorge Muchagato, aqui

pelo direito ao trabalho



Da caravana de emigrantes da América Central, que tentam entrar nos EUA. Foto Reuters-Edgar Garrido, Tijuana.