2018-06-29




Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até na íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.

Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.


Fiama Hasse Pais Brandão

2018-06-27

a ler

[Embora não esteja aqui coligida a totalidade das suas colaborações, todos os textos deste livro foram publicados no Notícia - Semanário Ilustrado, no período em que Herberto Helder viveu em Luanda. Correspondem a pouco mais de um ano de colaboração - entre abril de 1971 e junho de 1972 - em que o poeta assinou como Herberto Helder e Luís Bernardes (ou respetivas iniciais).]

Em boa hora o decidiram realizar. É um regalo saborear o humor, o sentido crítico e a profunda humanidade com que o autor aborda quer pessoas quer situações sociais. 


2018-06-26


VAMOS A HACER LIMPIEZA GENERAL

Vamos a hacer limpieza general
y vamos a tirar todas las cosas
que no nos sirven para nada, esas
cosas que ya no utilizamos, esas
otras que no hacen más que coger polvo,
las que evitamos encontrarnos porque
nos traen los recuerdos más amargos,
las que nos hacen daño, ocupan sitio
o no quisimos nunca tener cerca.
Vamos a hacer limpieza general
o, mejor todavía, una mudanza
que nos permita abandonar las cosas
sin tocarlas siquiera, sin mancharnos,
dejándolas donde han estado siempre;
vamos a irnos nosotros, vida mía,
para empezar a acumular de nuevo.
O vamos a prenderle fuego a todo
y a quedarnos en paz, con esa imagen
de las brasas del mundo ante los ojos
y con el corazón deshabitado.


Amalia Bautista

2018-06-22

sempre actual


O segredo do demagogo é de se fazer passar por tão estúpido quanto a sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta quanto ele.

Karl Kraus

2018-06-21


até a natureza troça de mim: depois de regar abundantemente o jardim e de lavar o carro (os dois bem necessitados da minha atenção), começa a chover desalmadamente...

2018-06-19

destino

matamos lo que amamos. lo demás
no ha estado vivo nunca.
ninguno está tan cerca. a ningún otro hiere
un olvido, una ausencia, a veces menos.
matamos lo que amamos. ¡que cese esta asfixia
de respirar con un pulmón ajeno!
el aire no es bastante
para los dos. y no basta la tierra
para los cuerpos juntos
y la ración de la esperanza es poca
y el dolor no se puede compartir.

el hombre es anima de soledades,
ciervo con una flecha en el ijar
que huye y se desangra.

ah, pero el odio, su fijeza insomne
de pupilas de vidrio; su actitud
que es a la vez reposo y amenaza.

el ciervo va a beber y en el agua aparece
el reflejo del tigre.

el ciervo bebe el agua y la imagen. se vuelve
-antes que lo devoren- (cómplice, fascinado)
igual a su enemigo.

damos la vida sólo a lo que odiamos

Rosario Castellanos

da desumanidade

O que os EUA estão a fazer, ao separar  famílias imigrantes, é completamente desumano. E utilizar a Bíblia como argumento é absolutamente inqualificável.

2018-06-17




Se ao compor os meus poemas me fosse dado abrir o meu peito, agarrar os meus pensamentos, e com as minhas mãos, sem outro ingrediente, colocá-los nas tuas: então, para te confessar a verdade toda a exigência que brota da minha alma estaria satisfeita. E também a ti, amigo meu, quer-me parecer que nada te restaria que pudesses desejar: o homem sequioso, enquanto tal, não se interessa pela fruteira mas sim pela fruta que nela lhe trazem. Só porque o pensamento, para se manifestar, precisa de vir unido a algo mais grosseiro, de corpóreo, como aquelas substâncias químicas fugidias que não se deixam apresentar por si só: só por esse motivo me sirvo do discurso quando me quero comunicar à tua pessoa e só por isso mesmo preciso também dele para me entenderes.
Língua, ritmo, harmonia sonora, etc., por mais encantadoras que estas coisas sejam na medida em que dêem envolvimento ao espírito, nada são em si e por si, quando observadas deste ponto de vista superior, nada senão um verdadeiro mal, embora natural e necessário; e, no que a tais coisas diz respeito, a arte não pode ser senão o intento de, tanto quanto possível, fazê-las desaparecer [...]


Kleist, "Carta de um poeta a outro"
(transcrição no livro "Dia Alegre, Dia Pensante, Dias Fatais" de Maria Filomena Molder)

2018-06-14

mas o pior de tudo é não sentir

O Grito

Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos

se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse

se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre tem o direito de não sofrer

se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

se ao menos esta dor sangrasse

Renata Pallottini, in 'A Faca e a Pedra'

2018-06-12




Vivimos en el borde de las cosas
buscando vanamente no tocar el dolor.
Creemos que los bordes son una suerte
de corredor / esa distancia que nos pone a salvo.
Lo cierto es que en los bordes reside la tiranía de las cosas;
ellas ejercen allí y sólo desde allí
su pequeño y mortífero poder:
obligarnos a seguir su forma.
Corro a la par de la sombra de un pájaro que vuela:
no soy pájaro, no soy sombra/ apenas
me sujeto a la plumosa decisión de un ala,
al vaivén azaroso de la luz.
¡Si yo pudiera entrar en el temido corazón de la cosas!



Laura Ponce

2018-06-07



janela sobre uma mulher

Essa mulher é uma casa secreta.
Nos seus recantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, fumega.
Quem nela entra, dizem, nunca mais sai.
Eu atravesso o profundo fosso que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Aí está à minha espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato à porta, e espero.


Eduardo Galeano in "MULHERES"
Tradução - José Colaço Barreiros
Ed. Antígona




Jeanne Lee

2018-06-06


Introdução à arte das montanhas

Um animal passeia nas montanhas.
Arranha a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego
mas não desiste de chegar ao ponto mais alto.
De tanto andar fazendo esforço se torna
um organismo em movimento reagindo a passadas,
e só. Não sente fome nem saudade nem sede,
confia apenas nos instintos que o destino conduz.
Puxado sempre para cima, o animal é um íman,
numa escala de formiga, que as montanhas atraem.
Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume.
Sente-se disperso entre as nuvens,
acha que reconheceu seus limites. Mas não sabe,
ainda, que agora tem de aprender a descer.


Leonardo Fróes (aqui)

2018-06-04

sobre uma polémica com muito pouco sentido


Quanto maior for esta doentia necessidade de salvaguardar a identidade da mulher, de a proteger de todos os perigos e ameaças, mais se evidencia o facto de não ser a mulher, ao contrário do homem, apenas um género revestido de normalidade. (ver aqui)

O que te falta para seres feliz? - perguntava a si próprio o homem que anotava a cor dos cabelos das pessoas com quem se cruzava.
Tinha mulher e filhos, viviam numa casa modesta rodeados de monotonia, com o pó das estantes domesticado e uma ausência de paixão que salva os corpos do fracasso. Que mais poderia desejar?
No entanto, sentia-se só, talvez por ninguém à sua volta querer saber da sua solidão, por toda a gente olhá-lo como se fosse normal, natural, passar o tempo todo a anotar a cor do cabelo das pessoas. Não conseguia dialogar, porque sentia não haver quem quer que fosse à altura do seu desespero, preferia sentar-se na varanda, como quem caça lufadas de ar fresco, a anotar a cor dos cabelos.
Um dia, disse: vou-me embora. E toda a gente chorou, acorrentaram-no antes que ele pudesse dar o primeiro passo na direcção do voo, armadilharam-lhe as asas com o desprendimento dos criminosos que cometem crimes sem consciência de que estão a cometê-los. Ou então disfarçavam a tortura, fingindo nada perceberem, nada notarem, nada sentirem de anormal no homem que passava a vida a anotar a cor dos cabelos das pessoas com quem se cruzava.
[...]
Há na existência de um homem circunstâncias que tudo determinam, inclusive o tom da voz em silêncio, a degeneração da coluna numa curva abismal, o suor da palma das mãos sempre que se aproximam dois corpos. Talvez fosse vítima do amor que os outros lhe dedicavam, embora não conseguisse sentir esse amor senão como uma barreira, espécie de muro que o separava de si próprio e da afirmação da sua própria personalidade. Porque para o homem que passava a vida a anotar a cor dos cabelos das pessoas com quem se cruzava o amor era um acto falhado, a esperança era uma ilusão e o tempo era um mal ao qual todos estamos sujeitos. [...]

Henrique M. B. Fialho in  "A Festa dos Caçadores" (para ler mais, seguir as indicações)

2018-06-03



voltamos ao jardim
ao banco lavado pela chuva.
Pedimos o verde ao verde
a flor à flor
sem quebrar-lhe a haste. Bastaria a manhã
(Nossa presença desalinha ar e folhas
num frémito.)

Mas se nada pedimos
como quem dorme seguindo a linha natural
do corpo
respiramos o puro abandono:
um pássaro alveja o azul (sem par)
ultrapassa o muro do possível
e assim damos um ao outro
a súbita presença
do Céu.

Dora Ferreira da Silva (aqui)