2018-07-16


Ando a ler o primeiro volume (o único publicado, tanto quanto sei) das Obras Completas de Maria Judite de Carvalho. E verifiquei que são justos todos os elogios que li sobre o trabalho da autora.
Envolvida na leitura, ocorreu-me o pensamento leviano: isto é a vida de algumas mulheres do século passado. Mulheres que se tornaram mulheres ainda na primeira metade do século. Depois, lembrei uma conversa ocorrida há dias.

Numa pausa, e à sombra duma imponente magnólia repleta de magníficas flores brancas, surgiram na conversa displicente alguns gostos e discretos prazeres femininos, como por exemplo, o conforto que os lençóis 100% de algodão proporcionam. 
Podem até ser brancos (coisa definitivamente demodê), afirmou a minha parceira de conversa, que de seguida aludiu a uma herança deixada por uma familiar, que morreu há uns meses, com pouco mais de sessenta anos.
A herança consistiu numa casa e no seu recheio. E uma gata entregue aos cuidados de uma vizinha. Do recheio fazia parte uma boa quantidade de lençóis de algodão da marca SampedroE continuou a descrever a vida, da sua familiar.
Era a mais nova de vários irmãos, oriunda duma aldeia do interior e, ainda jovem, decidiu ir procurar trabalho para uma zona turística afastada algumas centenas de quilómetros do local de residência da família. Trabalhava na lavandaria de uma unidade hoteleira, que tem preços de diárias superiores ao ordenado mínimo nacional. 
Sofria de uma doença cardíaca que a levou ao internamento num hospital da região, e, tendo declarado no hospital que não tinha família próxima, quando morreu foi enterrada numa vala comum do cemitério, sem a presença de qualquer familiar ou amigo.

2018-07-13

do fio da memória

"Ela recitava-me ladainhas para curar todos os males, misturas de ervas para tratar enfermidades, responsos para afastar os demónios. Fazia-o para que eu me aprendesse a proteger agora que tinha saído debaixo da saia dela. Eu escrevia tudo, tudo, tudo." Só muito mais tarde perceberia o tesouro que estava a receber nas mãos. Nesses cadernos de 1950 há orações para afastar bruxas, outras para desviar as alcateias, há mezinhas para curar dores de garganta, azares sucessivos e os dias de solidão - estes, por exemplo, resolvem-se fervendo um caldo de urze, mel e uma pedra apanhada à porta de casa.


Trabalho jornalístico no DN

2018-07-10


Goza em paz o que de mim recebeste; não to reclamo, não to exijo. Basta-me saber que te fui útil. [Séneca in "Cartas a Lucílio"]

No ritual da despedida,  verbalizou um "obrigado" que, num primeiro instante, me deixou confusa e embaraçada - eu não tinha feito nem dito nada que merecesse gratidão. No encontro seguinte, entre as várias expressões usuais de cordialidade, surge de novo um "obrigado" que não contesto mas aumenta a minha confusão. 
O passo seguinte foi procurar descobrir o significado da gratidão. E perceber que o meu embaraço era injustificado porque não estava a ser avaliado o que eu tinha feito ou deixado de fazer. Eu apenas era testemunha de alguém que tinha descoberto o valor da gratidão. E quem o descobriu, não faz contas nem avalia, vive agradecido.

2018-07-03


Falésias


Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual ele vem como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.

Luís Miguel Nava, in 'Como Alguém Disse'