2018-09-30


Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica:
O amor, a fome, o átomo, o câncer.
Tudo vem a tempo no seu tempo.
Tenho pedido às crianças mais sossego
Menos risos e muita compreensão para o brinquedo.
O navio não é trem, o gato não é guizo.

Quero sentar-me e ler nesta noite calada.
A primeira vez que li Franz Kafka
Eu era uma menina. (A família chorava).
Quero sentar-me e ler mas o amigo me diz:
O mundo não comporta tanta gente infeliz.

Ah, como cansa querer ser marginal
Todos os dias.
Descansem anjos meus. Tudo vem a tempo
No seu tempo. Também é bom ser simples.
É bom ter nada. Dormir sem desejar
Não ser poeta. Ser mãe. Se não puder ser pai.

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica.
Mas o homem


Não cansa.


Hilda Hilst, in “Exercícios”

enfim...eat the music

o meu momento "Serralves"



Durante a tarde de hoje resolvi ir até ao FOLIO. Ao passar junto do Museu Municipal, apercebi-me de que havia uma exposição sobre Hilda Hilst. Entrei e dirigi-me ao funcionário que estava na recepção, para perguntar quando podia subir ao espaço da exposição, pois o acesso estava vedado. Na recepção estavam alguns livros para venda e reparei no livro da imagem acima, que instintivamente abri para observar o conteúdo. Imediatamente o funcionário me disse, com o olhar um pouco aflito, como se houvesse o risco de o livro me explodir nas mãos, que o livro tinha uma linguagem um tanto ou quanto vernacular. E eu:"ah!, tem alguns poemas e textos eróticos." 
 - "Sim, sim", dizia-me o homem aflito. Subi para ver a exposição de fotografias da mulher que tanto nos toca com as palavras como com a sua beleza muito particular, enquanto ria comigo própria e pensava: "Maria, deixaste de frequentar a Igreja, mas deves continuar com cara de beata."

2018-09-27

é isto

É importante salientar que a construção da imagem feminina e masculina no nosso país resulta em decisões desumanas como esta. Um país avançado em muitas matérias, mas ainda muito antiquado em outras, leva à constante desvalorização da violência sexual e do impacto que surge na vítima, o que é completamente inaceitável. Não há desculpa para haver abuso sexual.

in Público

2018-09-25

Dança o teu azar/enterra-o por aí

constata-se


Não sei se culpe a "internet", o "jornalismo", ou os "tempos de hoje", sei apenas que estamos a perder concentração, paciência e interesse pelo que acontece por cá e no mundo... [aqui]

Cada indivíduo vê o mundo - e o que este tem de acabado, de regular, de complexo e de perfeito - como se se tratasse apenas de um elemento da Natureza a partir do qual tivesse que constituir um outro mundo, particular, adaptado às suas necessidades. Os homens mais capazes tomam-no sem hesitações e procuram na medida do possível comportar-se de acordo com ele. Há outros que não se conseguem decidir e que ficam parados a olhar para ele. E há ainda os que chegam ao ponto de duvidar da existência do mundo.
Se alguém se sentisse tocado por esta verdade fundamental, nunca mais entraria em disputas e passaria a considerar, quer as representações que os outros possam fazer das coisas, quer a sua, como meros fenómenos. Porque de facto verificamos quase todos os dias que aquilo que um indivíduo consegue pensar com toda a facilidade pode ser impossível de pensar para um outro. E não apenas em relação a questões que tivessem uma qualquer influência no bem estar ou no sofrimento das pessoas, mas também a propósito de assuntos que nos são totalmente indiferentes.

Johann Wolfgang von Goethe, in "Máximas e Reflexões"

2018-09-14



Carmen Miranda, segundo Eduardo Galeano in "Mulheres"

 1946. Hollywood

Toda ela resplandecente de lantejoulas e colares, coroada por uma torre de bananas, Carmen Miranda ondula sobre um fundo de paisagem tropical em papelão.
Nascida em Portugal, filha de um barbeiro pobretanas que atravessou o mar, Carmen ainda é, hoje em dia, o principal produto de exportação do Brasil. O café vem logo atrás.
Esta petiza descarada tem pouca voz, e a pouca que tem desafina, mas canta com as ancas e com as mãos e com o piscar dos olhos, e isso já tem de sobra. É a mais bem paga de Hollywood; possui dez casas e oito poços de petróleo.
Mas a empresa Fox recusa-se a renovar-lhe o contrato. O senador Joseph McCarthy acusou-a de obscenidade, porque durante uma filmagem, em pleno baile, houve um fotógrafo que delatou uma nudez intolerável sob a sua saia voadora. E a imprensa revelou que já na sua tenra infância Carmen tinha actuado perante o Rei Alberto da Bélgica, acompanhando os versos com trejeitos de olhos que causaram um escândalo entre as freiras e prolongadas insónias ao monarca.

2018-09-12

nada sabemos




Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou o nosso anseio,
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem devia esperar-nos, nem quem
nos cabia a nós esperar no meio
da gare fria. Não sabemos nada.
Seguimos tacteando e sem saber
se isto que parece ser alegria
não será apenas o sinal claro
de que outra vez voltámos a enganar-nos.


Amalia Bautista

tradução Soledade Santos, aqui
#imagem daqui

2018-09-06

carcaças



Meia dúzia de vezes, deixei que os afectos determinassem que, outras tantas pessoas, estavam inocentes em acções que lhes eram imputadas. Mais cedo ou mais tarde, compreendi como tinha sido ingénua e tola a minha opção. Apreendi também que confiar numa pessoa implica aceitar que ela comete erros (tal como eu).
Esta mudança veio acompanhada de uma boa dose de descrença. Não permitir que esta alastre e sufoque tudo, é o presente desafio.


2018-09-04




a luz pousa nos azulejos
nasceu o que será o dia mais longo
ou o mais curto
a água dos rios evapora no vórtice
luminoso do Verão

passam as horas forjadas há muito
devagar

alguém fotografa um pavão
rodeado de escura ramaria
no declinar abafadiço da tarde junto
ao lago da noite

numa gaiola presa ao calcário
do muro o colóquio colorido de canoros
pássaros entremeia com os urros
ao longe de um punhado de rapazes

a câmara deste cantor faz o travelling
até à cisterna onde se banharam e secam já

um derradeiro verso daria ainda conta
na forma de um letreiro breve:

a noite pode tombar, hoje fomos felizes

miguel - manso in "persianas"

#imagem - convento de Cristo, Tomar

2018-09-01

2018 - o admirável mundo novo


É uma realidade constatável a que o  Henrique descreve. Não há espaço para o diálogo, nem para o silêncio e muito menos para a leitura. Mas ainda há espaço para nos surpreendermos e brincar até com este mundo do qual fazemos parte, mais ou menos "apanhados". 
Esta tarde, sentada na praia a ler, numa das vezes que levantei os olhos para olhar o mar, observei um adolescente que, no meio da família deitada nas toalhas, lia um livro com espessura razoável. Demorei o olhar no miúdo e eis que vejo vir, areal fora, um veículo "todo o terreno" com dois polícias dentro. Instintivamente, olhei à volta e não vi qualquer confusão, os diferentes veraneantes, olhavam para os ecrãs dos telemóveis ou dormitavam nas toalhas. Não sei se influenciada pela leitura que eu própria fazia, ocorreu-me que a polícia estava ali para levar os prevaricadores. Eu teria, decerto, o desconto da idade - na minha adolescência não existiam telemóveis, nem toda a restante parafernália tecnológica actual. Mas o miúdo rebelde, não escaparia - era ele que subiria para o ridículo  veículo em que se transportavam os dois polícias.

porque hoje é sábado


M. julho/2018