2018-10-31



Tenho quebrado copos
é o que tenho feito
raramente me machuco embora uma vez sim
uma vez quebrei um copo com as mãos
era frágil demais foi o que pensei
era feito para quebrar-se foi o que pensei
e não: eu fui feita para quebrar
em geral eles apenas se espatifam
na pia entre a louça branca e os talheres
(esses não quebram nunca) ou no chão
espalhando-se então com um baque luminoso
tenho recolhido cacos
tenho observado brevemente seu formato
pensando que acontecer é irreversível
pensando em como é fácil destroçar
tenho embrulhado os cacos com jornal
para que ninguém se machuque
como minha mãe me ensinou
como se fosse mesmo possível
evitar os cortes
(mas que não seja eu a ferir)
tenho andado a tentar
não me ferir e não ferir os outros
enquanto esgoto o estoque de copos
mas não tenho quebrado minhas próprias mãos
golpeando os azulejos
não tenho passado a noite
deitada no chão de mármore
estudando as trocas de calor
não tenho mastigado o vidro
procurando separar na boca
o sabor do sangue o sabor do sabão
nem tenho feito uma oração
pelo destino variado
do que antes era um
e por minha força morre múltiplo
tenho quebrado copos
para isso parece deram-me mãos
tenho depois encontrado
cacos que não recolhi
e que identifico por um brilho súbito
no chão da cozinha de manhã
tenho andado com cuidado
com os olhos no chão
à procura de algo que brilhe
e tenho quebrado copos
é o que tenho feito



Ana Martins Marques, retirado daqui

2018-10-28


Penso que sonho. Se é dia, a luz não chega para alumiar o caminho pedregoso; se é noite, as estrelas derramam uma claridade desabitual.
Caminhamos e parece tudo morto: o tempo, ou se cansou já desta caminhada e adormeceu, ou morreu também. Esqueci a fisionomia da paisagem e apenas vejo um trémulo ondular de deserto, a silhueta carnuda e torcida dos cactos, as pedras ásperas da estrada.
Chove? Qualquer coisa como isso. E caminhando sempre, há em redor de nós a terra cheia de silêncio.
Será da própria condição das coisas serem silenciosas agora?


Carlos de Oliveira in "Terras da harmonia"

2018-10-26

profundíssimo

com o riso se ilude o medo

Assim o descreve Ricardo Araújo Pereira: "Não conheço melhor definição do trabalho do humorista. Fazer com que as pessoas se riam desta ideia: por mais que façam, vão morrer. Fornecer-lhes uma espécie de anestesia para esse pensamento. É um ofício belo, nobre, indispensável e inútil: sim, o riso tem o poder de esconjurar o medo, mas só durante algum tempo, talvez apenas durante o tempo que dura uma gargalhada, Às vezes, nem tanto."

in "A doença o sofrimento e a morte entram num bar"
Edição Tinta da China

2018-10-23


VOLTAR PARA CASA


Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
E seguir o rasto das árvores no chão,
Pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos
E as mãos nos bolsos como um apontamento antigo?
Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um,
E súbita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca,
Pronta a saltar e a arder todo o corpo?
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa,
Cabisbaixa?





Manuel Resende
Poesia reunida [de Em qualquer lugar], Cotovia, Lisboa, 2018.
Respigado daqui

2018-10-17

e afinal nem homens nem cidadãos


A educação actual e as actuais conveniências sociais premeiam o cidadão e imolam o homem. Nas condições modernas, os seres humanos vêm a ser identificados com as suas capacidades socialmente valiosas. A existência do resto da personalidade ou é ignorada ou, se admitida, é admitida somente para ser deplorada, reprimida ou, se a repressão falhar, sub-repticiamente rebuscada. Sobre todas as tendências humanas que não conduzem à boa cidadania, a moralidade e a tradição social pronunciam uma sentença de banimento. Três quartas partes do Homem são proscritas. O proscrito vive revoltado e comete vinganças estranhas. Quando os homens são criados para serem cidadãos e nada mais, tornam-se, primeiro, em homens imperfeitos e depois em homens indesejáveis.
A insistência nas qualidades socialmente valiosas da personalidade, com exclusão de todas as outras, derrota finalmente os seus próprios fins. O actual desassossego, descontentamento e incerteza de propósitos testemunham a veracidade disto. Tentámos fazer homens bons cidadãos de estados industriais altamente organizados: só conseguimos produzir uma colheita de especialistas, cujo descontentamento em não serem autorizados a ser homens completos faz deles cidadãos extremamente maus. Há toda a razão para supor que o mundo se tornará ainda mais completamente tecnicizado, ainda mais complicadamente arregimentado do que é presentemente; que graus cada vez mais elevados de especialização serão requeridos dos homens e mulheres individuais. O problema de reconciliar as reivindicações do homem e do cidadão tornar-se-á cada vez mais agudo. A solução desse problema será uma das principais tarefas da educação futura. Se irá ter êxito, e até mesmo se o êxito é possível, somente o evento poderá decidir.

Aldous Huxley, in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"

2018-10-16



#do filme "On the Beach at Night Alone" (2017)
Ontem no programa "Prós e Contras" da RTP, dedicado a debater o movimento #MeToo, vi demasiados adultos espantados - e a rejeitar com veemência - por alguém sugerir que não se devia obrigar uma criança a beijar alguém (no caso os avós) contra a sua vontade. 
É espantosa a incapacidade dos adultos em percepcionar e aceitar os limites de uma criança e chamar a isso educação.

2018-10-12


É preciso qualquer coisa no mundo que nos faça imaginar o outro e é só jogar esse pequeno jogo em que nos pomos esta pergunta: vamos supor que eu sou ele, ou ela ou eles. O que sentem? O que querem? De que têm medo? É um trabalho que parte da imaginação e da curiosidade. A curiosidade é o alimento da imaginação e a imaginação o alimento da curiosidade. As duas surgem quase sempre juntas. Acredito que se um ser humano for curioso, imaginativo e tiver algum sentido de humor, talvez seja imune ao fanatismo; talvez consiga desenvolver os antídotos contra o fanatismo.

AMOS OZ in Público

2018-10-11


Muito pouca



a morte é uma coisa muito pouca

em nada se compara ao crescimento das constelações

a morte não respira nem se expande desde o centro

como fazem as estações desde o coração da terra



e assim eu sei que um sorriso é precioso

porque respira e alarga-se dentro dos olhos

e quando chega ao lugar em que a mão se abre

é já uma forma de sossego uma lua coberta de luar

um modo certo de trocar nomes em dias de excepção



Vasco Gato
in  Um Mover de Mão, Assírio e Alvim, 2000.
[retirado daqui]

2018-10-10

a considerar


O aparente paradoxo na defesa de qualquer causa - dos negros, dos homossexuais ou das mulheres, é que devemos lutar para que essa marca identitária não se torne totalitária, dominante, totalmente determinante na nossa formação individual. Quando isso acontecer, quando essas marcas forem enriquecedoras da diversidade que somos sem serem socialmente penalizadoras, quando estiverem assimiladas unicamente como características individuais que apenas digam respeito à história de cada um, a causa triunfou e a democracia foi aprofundada. 

Nuno Artur Silva, aqui

com desenho


daqui

a ver se nos entendemos

Numa sociedade em que o "passa culpas" é o "pão nosso de cada dia", ainda há quem não entenda que, trazer ao presente violências de que se foi vítima há vinte, trinta anos, é necessário, ainda que doloroso para todos os envolvidos. Não é um ajuste de contas, é uma tentativa de reconciliação.

2018-10-09

da gente comum

Que aconteceu? Foi um homem, tocou-me. Que homem? Não sei, desapareceu. Desapareciam mesmo, nas horas de ponta, para lá das ruas visíveis, entre o mar de gente. E era por isso que se tornava muito difícil, a certa altura, distinguir os culpados dos inocentes.[aqui]

CÁLICE

2018-10-05





uma pausa ó único leitor

que na desordem em que está
a tua vida e a minha veio meter-se de novo
este livro antigo

paremos um pouco por fora dele eu
beberei desse vinho tu fumarás deste
tabaco

sequemos o suor subjectivo
e por um instante suspendamos o
um para um
em que se joga o jogo da poesia

não pedirás mais surpresas
não pedirei lambeduras e deslumbres

fiquemos pois quietos frente
ao silêncio verdadeiro eu despido de significados
tu sarado de conteúdos

nem tu nem eu somos essas figuras
fabulosas
parceiros sim na difícil escatologia
(mas até disso folguemos agora)

que a morte - e a vida - são um fingimento de Deus
que deveras cumprimos


Miguel-Manso in "Persianas"
Ed. Tinta da China

coisas muitos boas a acontecer por aí

2018-10-03

constata-se

Basta ler qualquer meia dúzia de comentários, sobre o "caso Ronaldo", para chegar à conclusão de que as reacções das vítimas de abuso sexual, desencadeadas pelo movimento #Me Too, não são de mais, muito pelo contrário, são de menos.

2018-10-02



MENDIGOS 

Há muitos anos que conheço este homem
Dantes, cheirava mal e tinha ataques de loucura
Agora senta-se, asseado e calmo
Nas esquinas da Baixa


Muito raramente dou-lhe uma moeda
Ele pede sempre 


Ontem, quando o encontrei, chamou-me:
Irmão! Amigo! Com uma voz estranha, vinda das profundas
Mas eu tinha os bolsos vazios e segui caminho
Não me pareceu sensato pagar-lhe com cartão de crédito


Voltei para casa ferido e pensativo
Com a voz do mendigo a remorder-me por dentro
No computador topei com um poema do meu amigo Mordechai
Onde ele escrevia um caso com um mendigo em Telavive


A coincidência assustadora e bela
Lembrou-me que estes dias são os dias terríveis
Pedi desculpa, então, pelo meu pecado
E dispus-me a procurar a reparação possível


Hoje, passei na mesma rua
E na mesma esquina vi as pernas dele
A espreitarem por detrás dum caixote do lixo
(estaria sentado no chão, encostado à parede)


Desta vez, encontrei no bolso uma moeda de 2 euros
Quantia não desprezível que ainda dá para uma sopa
Aproximei-me e estendi-lhe a esmola


Ele aceitou-a, olhou-me nos olhos
Disse: obrigado, e pude ver-lhe a cara
Era outro mendigo


João Paulo Esteves da Silva