2018-11-23

marcante


Emily Watson in Breaking the Waves
 
O género de aborrecimento de que sofre a população das cidades modernas está intimamente ligado à sua separação da vida da Terra. Essa separação torna o seu viver ardente, poeirento e ansioso, tal como uma peregrinação no deserto. Nos que são suficientemente ricos para escolher o seu género de vida, o estigma peculiar de insuportável aborrecimento que os distingue é devido, por muito paradoxal que isso possa parecer, ao seu medo do aborrecimento. Ao fugirem do aborrecimento que é fecundo, são vítimas de outro de natureza pior. Uma vida feliz deve ser, em grande medida, uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer.

Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"

2018-11-21


África


Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rolls-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de ‘strip-tease’ e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas de chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens inventaram
a confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux-Klan, Cato Manor e Sharpeville
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas ‘Made in Germany’
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho ‘cowboy’ do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, améns
e bíceps do meu povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.
 
José Craveirinha

2018-11-19


cada um está só sobre o coração da terra
trespassado por um raio de sol:
e de repente é noite.


Salvatore Quasimodo,
daqui
imagem- Edward Weston, 1947

2018-11-18

2018-11-14

Paco Ibáñez - Palabras para Julia

é só


daqui

ora, abóbora

Frequentemente, recebo pessoas que me apresentam os seus projectos de empreendedorismo, geralmente jovens, mas também pessoas com cinquenta e mais anos, escuto-os, elucido-os, falo dos riscos, da enorme resiliência que é preciso ter para vencer as dificuldades que, inevitavelmente, surgirão. 
A grande maioria tem uma dose de sonho superior a 95% e meios para a execução do projecto dentro dos cinco restantes. Quando tento fazer-lhes notar a desproporção, não aceitam e fazem saber, com mais ou menos ênfase, que o erro de análise é meu. Certo é que a maior parte não avança. Os restantes, é certo e sabido, que na execução do projecto, me vão dizer:"Se eu soubesse não me tinha metido nisto!"

2018-11-12


17
As coisas que procuro
Não têm nome.
A minha fala de amor
Não tem segredo.


Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.


Tive casa e jardim.
E rosa no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiro
O porquê do jasmim
— Sua brancura, o cheiro.


Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito.


  Hilda Hilst, in “Exercícios"

2018-11-10

Madredeus - Um Raio de Luz Ardente

as mulheres - que maçada

Também assisti, mais ou menos incrédula, ao espetáculo de uma deputada da Nação a tentar justificar o injustificável. Também já li por aí que a culpa é das quotas, que constrangem as direções partidárias a incluir mulheres nas suas listas de candidatos. Vão dar banho ao cão, o problema das escolhas não está dificultado pela questão de incluir mulheres (essas incapazes) nas listas, o que, para nossa desgraça, nos trama são os conluios, tribalismo e amiguismo sectário. O que não falta nos partidos é mulheres e homens que não se prestariam a estas figuras. Mas adivinho-lhes uma grave limitação - terão o hábito de pensar pela própria cabeça.

porque hoje é sábado


# imagem Leon Levinstein, EUA 1910-1988

2018-11-09

"A cultura pegada de cernelha é arte"

As questões da cultura andam aí — uma tourada — e conferem protagonismo. São tema atraente sem nunca ter sido um programa, uma política, desde 74. Já se disse que é tudo e por isso não é nada. 
[...]
A prazo tudo tem a ver com a democracia, ao contrário da concorrência selvagem e do primado da competição obcecada, da ideologia do sucesso. Essa exclui todos os mal-sucedidos, a maioria mais ampla e cria uma sociedade dependente do mais vulgar porno-star-sistema, confunde o real com o reality show, torna ministros “estrelas” porno. Esse esquema vive bem com qualquer fascismo, seja ele mais mediatizado e virtual nas suas manifestações de controlo e hiperconsumo?, seja ele mais realizado na rua e violentamente selvagem.

Fernando Mora Ramos in Público

2018-11-08





Uma vez uma mulher foi à floresta.
Os pássaros estavam em silêncio. Porquê? perguntou.
Trovoada, disseram-lhe,
a trovoada está a chegar.
Continuou a andar, e as árvores estavam escuras
e agitavam as folhas. Porquê? perguntou.
A grande tempestade, disseram-lhe,
a grande tempestade está a caminho.
Ela chegou ao rio, que corria
sem resposta, atravessou a ponte
e começou a subir
até ao cume, onde os penedos cinzentos
tinham perdido a cor à espera
da catástrofe que os racharia,
e onde ficava a cabana do eremita, do homem sábio
que vivia desde o princípio dos tempos.
Quando chegou à cabana
não havia lá ninguém.
Mas ouviu o machado dele.
E ouviu a floresta expectante.
Não se atreveu a seguir o som
do machado. Estaria
a derrubar a árvore do mundo?
Aquele seria o dia?



Denise Levertov (Inglaterra, 1923-EUA, 1997),
tradução de Soledade Santos (daqui)

2018-11-02

equilíbrios




Tenho por abominável mau gosto, a mania que alguns caminheiros e frequentadores da natureza têm de amontoar pedras em periclitante equilíbrio.  Mas este exemplar da foto acima é de outra ordem, interpela à contemplação.

Foto retirada daqui

agarrados


Muito bom...o facebook pode curar isso, sim. É mesmo o que andam por lá a fazer, os que eram agarrados nas leituras.

 (comentário a este post)

2018-11-01

recomendo


Este tempo desafia-nos mais do que outros?


Primeiro provoca em nós uma perplexidade aterradora. Esse foi o meu primeiro estado, há poucos anos. A sensação de que não percebia nada do que se estava a passar. Não conseguia nem pensar sobre as coisas. Acho que era pior nessa altura. Porque depois há que dar um golpe de rins, ter a coragem de pensar sobre as coisas. O primeiro passo é des-pensar. Dar-se conta de que os instrumentos, os termos do pensamento que usámos até aqui, não servem mais. E a coragem é precisa antes de tudo para destruir o nosso próprio vigamento interior e construí-lo de raiz. Esvaziar as nossas convicções e partir das observações que estamos a fazer hoje. Talvez não estejamos preparados para isso do mesmo modo que não evoluímos o suficiente para estarmos à altura de - não é dominar a tecnologia que, felizmente, por enquanto ainda dominamos -, acompanhar os avanços tecnológicos. 


Hélia Correia, numa entrevista aqui

num sonho que não sei contar

o sonho do excêntrico

O que é que lhe apetecia?

Uma casa agradável. Uma casa agradável onde eu pudesse estar sossegado e onde os meus filhos gostassem de me visitar aos fins-de-semana.


Entrevistas a Luiz Pacheco - O crocodilo que voa