2018-12-28

apontamentos de inverno



Já pensou em ser operado aos olhos?

Operado? Nem penses nisso. O que é que eu quero ver com oitenta anos? Eu quando vou ali à sala, onde estão os velhos todos, tiro os óculos para ver tudo nublado, para não me ver ao espelho...Aquilo é um pavor! A Isabel da Nóbrega, o Artur Ramos e a Fernanda, cunhada do Manuel Alegre, queriam levar-me a Coimbra para ser operado às cataratas. Não quero. Eu é que sei. Isso é suicidário. Quando eu quiser morrer vou a Coimbra. Depois levaram-me a um oftalmologista na Avenida da Liberdade. Diagnosticaram-me as cataratas. Tive de largar mil paus para umas gotas. Não me servem para nada. Caem-me para o nariz. Já tenho o quarto todo de cor...e o quarto está reduzido ao essencial...É uma experiência nova, não ver é uma experiência nova.


Entrevistas a Luiz Pacheco,
Tinta da China

2018-12-22

Feliz Natal, caríssimos!



Talvez Natal


Que a minha poesia
Jorre de novo em fonte.
Tu que fazes, Maria?
- Vou beijar-te na fronte.

Que a rosa da alegria
Volte a esfolhar-se em mim.
Tu que fazes, Maria?
- Colho-a no meu jardim.

Que eu tome cada dia
O alvor da comunhão.
Tu que fazes, Maria?
- O milagre do pão.

Que graça te alumia?
Quem te sublima em luz?
Tu que fazes, Maria?
- Trago ao colo Jesus.

António Manuel Couto Viana, in 'O Velho de Novo'


#imagem - Kristoffer Albrecht, 1984




2018-12-15

contem-me histórias



- Que bela saca de serapilheira!, disse-lhe, imaginando que seria sua.
- É a minha gabardine, respondeu com um sorriso malandro. E começou a desfiar uma breve história de vida, esticando o braço a mostrar a pequena casa onde nasceu, o irmão gémeo que tinha morrido há três meses. A entrada e saída na tropa em Mafra, os dois no mesmo dia. Tudo envolvido no mesmo sorriso contagiante, como se oitenta e sete anos de vida fossem um pequeno voo de melro, que agora partilhava ao sol de Outono com uma desconhecida.


 2
A minha proposta reduz-se a isto
nem mais um aluno para os liceus
o verdadeiro ensino está na vida
da pá e pica aos moinhos de vento


que sensaboria a História Antiga
com os seus heróis e os seus reis
tanto estudante a fingir que estuda
e faltam braços para o pastoreio


as artes nobres: varrer sachar empar
e outras: bordar coser fazer renda
não tenho nada contra a poesia
mas é mais útil a limpeza a seco



Fernando Assis Pacheco in "Desversos"

porque hoje é sábado



(autoria não identificada)

2018-12-06



AINDA VITA CONTEMPLATIVA
No comboio para Varsóvia

Pode acontecer em qualquer lugar, por vezes no comboio,
quando estou muito longe: subitamente a porta
abre e figuras esquecidas entram,
o meu sobrinho, que já não anda por cá,
mas que se aproxima, alegre, sorrindo,
e um determinado poeta chinês que amava
a música e as folhas das árvores no outono,
estudantes de teologia de Córdoba, ainda sem barba,
emergem de nenhures e saltam à vista,
retomando o debate sobre os atributos de Deus,
e a esplêndida vida surge como uma queda de água na primavera,
até que finalmente um telemóvel soa, inoportuno,
depois outro, e um terceiro, e todo este mundo excelente, estranho
se contrai e desaparece, exactamente como um rato de campo,
que, apercebendo-se do perigo, se retira habilmente para
o seu apartamento secreto. 


Adam Zagajewski,
respigado daqui 

2018-12-02

Em suma: representaram com grande vigor os papéis de homem e mulher durante dez minutos, passando em seguida a conversar naturalmente. A arquiduquesa (mas teremos de futuro de a tratar por arquiduque)contou a sua história - que era homem e sempre o havia sido; que se enamorara perdidamente ao ver um retrato de Orlando; que, para alcançar os seus fins, se vestira de mulher e se alojara em casa do padeiro; que ficara desolado quando ele fugira para a Turquia; que soubera da sua transformação e se apressara a vir oferecer-lhe os seus préstimos (aqui soltou uma intolerável risadinha). Porque para ele, dizia o arquiduque Harry, ela era e seria sempre o Primor, a Pérola, a Perfeição do seu sexo. Os três «p» teriam sido mais convincentes se não viessem entremeados dos mais bizarros risos e gargalhadinhas. «Se isto é amor», disse para consigo Orlando, mirando o arquiduque do outro lado da lareira, agora do ponto de vista feminino, «há no amor qualquer coisa de altamente ridículo.»


Virginia Woolf in "Orlando"
trad. Ana Luísa Faria
ed. Relógio D'Água

eu vi