2019-04-14

(Santa Clara, Santarém - abril 2019)


Com convicção, já busquei a vida dentro
agora agiganta-se o desencontro
e, para falar a verdade,
nunca estive tão bem


2019-04-09



elogio da solidão

Uma casa para estrear e descobrir
em quantas salas se acomoda a solidão.
Cozinhou o jantar e come atentamente
como todos quantos dividem a comida em silêncio:
o náufrago, o mendigo, o oleiro na lancheira.

Coze o seu barro, um jeito de partir o pão
que deve ao tempo uma lentidão coalhada.
O ruído do vizinho não o incomoda.
Nenhuma fala ou resíduo humano leveda
uma página ao acaso. Pode decidir beber mais vinho
ou inaugurar a leitura de outro livro.
Mesmo sair para beber café e mastigar o frio.

No pasto, a chuva rega a placidez do boi;
abana a cabeça, fumegam as narinas,
desenha-se num fundo de pinhal que o vento
castiga; na caruma molhada pressente-se
o rumor de um cão absorto na ilusão
do que procura. Coisas mínimas, irrisórias,
vão salvar o resto da noite de presumir felicidade.

Lá fora a cidade está cercada na convicção
das suas vidas perdoáveis, mercando
um alimento longamente dispensável
- a respiração em vitualhas e sarcasmos,
a pobreza irresignável e irresolúvel,
o cansaço de não estar só e não querer estar.



José Alberto de Oliveira

2019-04-05

Teoria do Jardim

Nenhum jardim fala do seu dono:
aqui, uma pálida zona de rosas
que denunciam sua própria beleza;
uma fila de gladíolos amarelos, gerados
pela torção de espadas verdes
e ao pé do muro circundante
um sussurro húmido de violetas. Em nada disto
reconheço a minha política depressiva
nem na sua organização
as ironias do meu cérebro. A cena respira
ao ritmo inverso dos meus pulmões:
seu presente são folhas matizadas de sol
que apenas com o vento falam
enquanto, para sempre afastado desse reino,
meu passado jaz debaixo da erva.


Joaquin O. Guiannuzzi,
(Respigado do Henrique)

2019-03-28

aviso prévio



O hábito tem-lhe amortecido as quedas. Mas sentindo menos dor, perdeu a vantagem da dor como aviso e sintoma. Hoje em dia vive incomparavelmente mais sereno, porém, em grande perigo de vida: pode estar a um passo de morrer, a um passo de já ter morrido, e sem o benefício de seu próprio aviso prévio.


Clarice Lispector "Todas as Crónicas"
Ed. Relógio D'Água

2019-03-22

validações


Não sou de esquerda nem de direita porque essas são palavras que não exprimem a fé que tenho em Jesus. Cristo perdoou o homem de esquerda que dentro de mim odeia a moral, e Cristo perdoou o homem de direita que dentro de mim idolatra a moral. Já me dei mal a tentar ser bom em qualquer dos lados. Sou cristão e pronto. [Tiago Cavaco, aqui  ]

É sempre bom ver o testemunho de alguém que tenta afastar-se da bipolarização - a vida tem muitas escalas. Mas o ser "cristão" não é uma classe à parte, não pode ser. (Eu sei bem que é o que se vende nos bancos das igrejas e as faz subsistir.)
 

2019-03-21

Moçambique



Um homem nunca chora

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.


Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.


Agora tremo.
E agora choro.


Como um homem treme.
Como chora um homem!


José Craveirinha

2019-03-14



mulher de vermelho

o que será que ela quer
essa mulher de vermelho
alguma coisa ela quer
pra ter posto esse vestido
não pode ser apenas
uma escolha casual.
podia ser um amarelo
verde ou talvez azul
mas ela escolheu vermelho
ela sabe o que ela quer
e ela escolheu vestido
e ela é uma mulher
então com base nesses fatos
eu já posso afirmar
que conheço o seu desejo
caro watson, elementar:
o que ela quer sou euzinho
sou euzinho o que ela quer
só pode ser euzinho
o que mais podia ser

Angélica Freitas in "um útero é do tamanho de um punho", 2012

2019-03-12

exercício de humor - a vontade de poder


Quanta felicidade dá a grata suavidade das coisas! Como a vida é cintilante e de bela aparência! São as grandes falsificações, as grandes interpretações que sempre nos têm elevado acima da satisfação animal, até chegarmos ao humano. Inversamente: que nos trouxe a chiadeira do mecanismo lógico, a ruminação do espírito que se contempla ao espelho, a dissecação dos instintos?
Suponde vós que tudo era reduzido a fórmulas e que a vossa crença era confinada à apreciação de graus de verosimilhança, e que vos era insuportável viver com tais premissas... que fazíeis vós? Ser-vos-ia possível viver com tão má consciência?
No dia em que o homem sentir como falsidade revoltante a crença na bondade, na justiça e na verdade escondida das coisas, como se ajuizará ele a si mesmo, sendo como é parte fragmentária deste mundo? Como um ser revoltante e falso?

[Friedrich Nietzsche, in 'A Vontade de Poder']


... E a seguir confrontar com este texto (longo demais para o que pretende explanar).

2019-03-01



Para se deixar de beber, convém ir para outro sítio. O bem e o mal são uma das ficções mais bem montadas da nossa civilização. Não existe o bem, nem existe o mal. Pensei no anarquismo do coração, lugar onde o bem e o mal se evaporam e regressa a vida sem atributos. Meti-me assim no carro e fui para as montanhas. Atravessei para França, pelo porto de Somport. As aldeias francesas estão encalhadas no tempo. Quem quer que tenha passado pelas aldeias de Urdos, Bedous e Lescun e tenha conduzido por aquelas estradas sabe que aqueles lugares estão iguais a cinquenta anos atrás. Ali, naqueles vales pirenaicos, encontrei uma anulação da vida social, e vi os rios em pleno degelo, pois estávamos no mês de Junho.

Entrei num bar de Lescun e vi gente a beber cerveja.
Entrei no meu hotel de Canfranc e vi gente a beber vinho.

E eu bebia café com leite ou água com gás. Ficava a olhar para a água com gás, as bolhas dentro do copo. Quando não bebemos, os dias são mais longos, os pensamentos pesam mais, os lugares fortalecem-se, não esquecemos nada nos quartos dos hotéis, não riscamos o carro, não partimos os retrovisores ao estacionar, não nos cai o telemóvel na sanita, não confundimos os rostos das pessoas.

Penetrava nos bosques. Voltei a tocar a vida. Viajei até Ordesa, e pus-me a contemplar as montanhas. Vi com clareza os erros da minha vida e perdoei a mim mesmo tudo o que pude, mas não tudo. Precisava ainda de tempo.


Manuel Vilas in "Em tudo havia beleza"

2019-02-22

2019-02-17




Tragam-me um homem que me levante com
os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro 
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de 
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas 
novíssimas nuvens em pé.


Cláudia R. Sampaio, in Ver no Escuro, 
ed. Tinta da China 

2019-02-14

[...]
O mesmo se pode igualmente dizer das pessoas comuns – todos nós, afinal – que se diluem nas redes sociais no dia-a-dia como forma de dizer ‘eu sou’/‘eu estou aqui’. Quase que deixam de existir todos os dias, para voltarem, na manhã seguinte, a tentar ofegantemente respirar de olhos arregalados num novo post.

Os Toltecas faziam igualmente sacrifícios para que o sol nascesse depois de cada noite. A fé impunha a morte, mas agora o “temor e o tremor” parecem repetir-se. Compreender a fé é na realidade um absurdo, mas ainda mais absurdo é praticar uma fé (dir-se-á que é o caso dessa fé cega que consiste em ‘comunicar por comunicar’) num mundo que dela radicalmente se apeou, para dar lugar à liturgia da atenção inebriada.


Luis Carmelo (aqui)