2019-03-28

aviso prévio



O hábito tem-lhe amortecido as quedas. Mas sentindo menos dor, perdeu a vantagem da dor como aviso e sintoma. Hoje em dia vive incomparavelmente mais sereno, porém, em grande perigo de vida: pode estar a um passo de morrer, a um passo de já ter morrido, e sem o benefício de seu próprio aviso prévio.


Clarice Lispector "Todas as Crónicas"
Ed. Relógio D'Água

2019-03-22

validações


Não sou de esquerda nem de direita porque essas são palavras que não exprimem a fé que tenho em Jesus. Cristo perdoou o homem de esquerda que dentro de mim odeia a moral, e Cristo perdoou o homem de direita que dentro de mim idolatra a moral. Já me dei mal a tentar ser bom em qualquer dos lados. Sou cristão e pronto. [Tiago Cavaco, aqui  ]

É sempre bom ver o testemunho de alguém que tenta afastar-se da bipolarização - a vida tem muitas escalas. Mas o ser "cristão" não é uma classe à parte, não pode ser. (Eu sei bem que é o que se vende nos bancos das igrejas e as faz subsistir.)
 

2019-03-21

Moçambique



Um homem nunca chora

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.


Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.


Agora tremo.
E agora choro.


Como um homem treme.
Como chora um homem!


José Craveirinha

2019-03-14



mulher de vermelho

o que será que ela quer
essa mulher de vermelho
alguma coisa ela quer
pra ter posto esse vestido
não pode ser apenas
uma escolha casual.
podia ser um amarelo
verde ou talvez azul
mas ela escolheu vermelho
ela sabe o que ela quer
e ela escolheu vestido
e ela é uma mulher
então com base nesses fatos
eu já posso afirmar
que conheço o seu desejo
caro watson, elementar:
o que ela quer sou euzinho
sou euzinho o que ela quer
só pode ser euzinho
o que mais podia ser

Angélica Freitas in "um útero é do tamanho de um punho", 2012

2019-03-12

exercício de humor - a vontade de poder


Quanta felicidade dá a grata suavidade das coisas! Como a vida é cintilante e de bela aparência! São as grandes falsificações, as grandes interpretações que sempre nos têm elevado acima da satisfação animal, até chegarmos ao humano. Inversamente: que nos trouxe a chiadeira do mecanismo lógico, a ruminação do espírito que se contempla ao espelho, a dissecação dos instintos?
Suponde vós que tudo era reduzido a fórmulas e que a vossa crença era confinada à apreciação de graus de verosimilhança, e que vos era insuportável viver com tais premissas... que fazíeis vós? Ser-vos-ia possível viver com tão má consciência?
No dia em que o homem sentir como falsidade revoltante a crença na bondade, na justiça e na verdade escondida das coisas, como se ajuizará ele a si mesmo, sendo como é parte fragmentária deste mundo? Como um ser revoltante e falso?

[Friedrich Nietzsche, in 'A Vontade de Poder']


... E a seguir confrontar com este texto (longo demais para o que pretende explanar).

2019-03-01



Para se deixar de beber, convém ir para outro sítio. O bem e o mal são uma das ficções mais bem montadas da nossa civilização. Não existe o bem, nem existe o mal. Pensei no anarquismo do coração, lugar onde o bem e o mal se evaporam e regressa a vida sem atributos. Meti-me assim no carro e fui para as montanhas. Atravessei para França, pelo porto de Somport. As aldeias francesas estão encalhadas no tempo. Quem quer que tenha passado pelas aldeias de Urdos, Bedous e Lescun e tenha conduzido por aquelas estradas sabe que aqueles lugares estão iguais a cinquenta anos atrás. Ali, naqueles vales pirenaicos, encontrei uma anulação da vida social, e vi os rios em pleno degelo, pois estávamos no mês de Junho.

Entrei num bar de Lescun e vi gente a beber cerveja.
Entrei no meu hotel de Canfranc e vi gente a beber vinho.

E eu bebia café com leite ou água com gás. Ficava a olhar para a água com gás, as bolhas dentro do copo. Quando não bebemos, os dias são mais longos, os pensamentos pesam mais, os lugares fortalecem-se, não esquecemos nada nos quartos dos hotéis, não riscamos o carro, não partimos os retrovisores ao estacionar, não nos cai o telemóvel na sanita, não confundimos os rostos das pessoas.

Penetrava nos bosques. Voltei a tocar a vida. Viajei até Ordesa, e pus-me a contemplar as montanhas. Vi com clareza os erros da minha vida e perdoei a mim mesmo tudo o que pude, mas não tudo. Precisava ainda de tempo.


Manuel Vilas in "Em tudo havia beleza"