2019-04-29



Estar, à sombra
da chaga no ar.

Estar-para-ninguém-e-nada.
Incógnito,

para ti.

Com tudo o que nisso tem lugar,
também sem linguagem.


Paul Celan in "Não Sabemos Mesmo O Que Importa"
Trad. Gilda Lopes Encarnação
Edição - Relógio D'Água

2019-04-22






ABSOLVIÇÃO

Ajoelhávamos
naquele escuro sítio de madeira, 
a fronte curvada, diante de um
sombrio quadrado pontilhado de
furos, que dissimulavam vestes
negras e um rosto oculto. Nessa
encenação da culpa, balbuciávamos
os nossos crimes infantis: faltei
duas vezes à missa. Disse nomes
feios. Desobedeci a minha mãe. Só não
sabíamos quase nenhuma palavra 
do corpo. Por isso nunca dizíamos
o número de vezes que nos tínhamos 
masturbado, jubilosos e tementes
daquela sabedoria secreta
que havíamos roubado
aos adultos. Assim tomávamos
o Senhor, em pecado mortal, 
com a vaga tristeza de
não podermos ser pecadores


arrependidos. 

Inês Lourenço (retirado daqui)
#imagem - Igreja Sta Clara, Santarém (abril 2019)

2019-04-14

(Santa Clara, Santarém - abril 2019)


Com convicção, já busquei a vida dentro
agora agiganta-se o desencontro
e, para falar a verdade,
nunca estive tão bem


2019-04-09



elogio da solidão

Uma casa para estrear e descobrir
em quantas salas se acomoda a solidão.
Cozinhou o jantar e come atentamente
como todos quantos dividem a comida em silêncio:
o náufrago, o mendigo, o oleiro na lancheira.

Coze o seu barro, um jeito de partir o pão
que deve ao tempo uma lentidão coalhada.
O ruído do vizinho não o incomoda.
Nenhuma fala ou resíduo humano leveda
uma página ao acaso. Pode decidir beber mais vinho
ou inaugurar a leitura de outro livro.
Mesmo sair para beber café e mastigar o frio.

No pasto, a chuva rega a placidez do boi;
abana a cabeça, fumegam as narinas,
desenha-se num fundo de pinhal que o vento
castiga; na caruma molhada pressente-se
o rumor de um cão absorto na ilusão
do que procura. Coisas mínimas, irrisórias,
vão salvar o resto da noite de presumir felicidade.

Lá fora a cidade está cercada na convicção
das suas vidas perdoáveis, mercando
um alimento longamente dispensável
- a respiração em vitualhas e sarcasmos,
a pobreza irresignável e irresolúvel,
o cansaço de não estar só e não querer estar.



José Alberto de Oliveira

2019-04-05

Teoria do Jardim

Nenhum jardim fala do seu dono:
aqui, uma pálida zona de rosas
que denunciam sua própria beleza;
uma fila de gladíolos amarelos, gerados
pela torção de espadas verdes
e ao pé do muro circundante
um sussurro húmido de violetas. Em nada disto
reconheço a minha política depressiva
nem na sua organização
as ironias do meu cérebro. A cena respira
ao ritmo inverso dos meus pulmões:
seu presente são folhas matizadas de sol
que apenas com o vento falam
enquanto, para sempre afastado desse reino,
meu passado jaz debaixo da erva.


Joaquin O. Guiannuzzi,
(Respigado do Henrique)