2020-05-24

UM HOMEM CALMO

Estendendo as mãos para fora da cama, Plume espantou-se por não encontrar a parede. «Vê lá tu, pensou, dir-se-á que as formigas a comeram...», e voltou a adormecer.
Pouco depois a mulher agarrou-o e sacudiu-o:«Vê mandrião!» - disse ela. - «Tu entretido, a dormir, e roubaram-nos a casa.» Realmente espalhava-se por todos os lados um céu intacto. «Ora, já não há remédio», pensou Plume.
Pouco depois ouviu-se um ruído. Era um comboio que lhes passava por cima a toda a velocidade. «Parece tão apressado, pensou Plume, que vai chegar com certeza antes de nós.» E voltou a adormecer.
A seguir acordou com frio. Estava todo ensopado em sangue. Ao pé dele jaziam vários pedaços da sua mulher. «Quando há sangue surgem muitos contratempos», pensou; «por bastante feliz me daria se este comboio não tivesse chegado a passar. No entanto, uma vez que passou...» - e adormeceu de novo.
- Vamos lá ver - dizia o juiz -; como é que explica que a sua mulher tenha ficado ferida ao ponto de a encontrarem dividida em oito pedaços sem o senhos, que estava ao lado, ter feito um gesto para o evitar, nem ter dado por nada. É este o mistério. E todo o caso se resume a isso.
- Pelo caminho que as coisas tomam não posso ajudá-lo - pensou Plume, e voltou a adormecer.
- A execução fica marcada para amanhã. Acusado! Tem alguma coisa a acrescentar?
- Desculpe, mas não segui o processo com atenção - respondeu Plume. E voltou a adormecer.


Henri Michaux in "Um Certo Plume"
Hiena Editora
Trad. Luís Matos da Costa

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