2011-01-29

benditos

"Todos os homens buscam a paz. Por todo o lado, nas suas obras e de todas as maneiras, procuram a paz. Ah! Pudéssemos nós libertar-nos dessa busca e procurarmos, nós, a paz, no tormento. Só aí nasce a verdadeira paz, aquela que permanece e dura... Procuremos a paz na angústia, a alegria na tristeza, a simplicidade na multiplicidade, a consolação na contrariedade; é assim que nos tornaremos verdadeiras testemunhas de Deus".

Johann Tauler (1300-1361)

(imagem-Persona, Ingmar Bergman)

2011-01-27

quem é que consegue concorrer com a mãe ou até, pasme-se: com Deus Nosso Senhor?

Atentai nesta notícia! Um outro jovem,  a quem inquiri displicentemente, se estava a pensar fazer determinado  percurso sozinho, respondeu que a mãezinha lhe tinha um dia dito: que com ele  andava sempre Deus Nosso Senhor! As mães de meninas são mais desprendidas, eu acho! ;)

2011-01-26

o alívio da Fé

a m. escreveu isto no azul cobalto: Em dias como hoje, em que duas pessoas que fazem parte da minha vida passam por momentos de séria atribulação devida, em ambos os casos, à prepotência e má-fé de terceiros a quem um direito cego e iníquo confere o poder de lhes jogar as vidas como se fossem dados, gostaria de ter ao meu alcance o alívio da Fé.

Desinquieto-me sempre com o "alívio da Fé". Do Evangelho, vem-nos o reparo "se tivésseis fé do tamanho de um grão de mostarda" (Lc 17,6) e Paulo também nos diz que a (fé) transportamos em vasos de barro (2 Cor 4,7)...o que me sobra é que remamos todos no mesmo barco...e a tormenta toca a todos, não sendo a Fé o tal escudo invisível que nos resguarda de sentimentos de tristeza, frustração e desânimo. Nessas horas, que seja presente um abraço de quem estiver mais disponível e atento. A fé será  o  impulso que nos fará dizer, gritando ou a sussurrar: sozinho não sou capaz preciso de ajuda.

Um abraço à m.

mas quem manda convidar este passarinheiro para comentar seja o que for?

a “crise financeira não manifesta uma crise de valores”,(...)“Até há excesso de valores, mas eles estão desordenados”

o sempre presente problema do mal

A Cabala judaica ensina que o mal surgiu no mundo quando um escriba preguiçoso se equivocou na escuta  e transcreveu erradamente uma letra da Escritura Sagrada. Um rabino comentador da Cabala, Soloviel, afirma: «As duas vozes, aquela de Deus que não devemos nomear e a voz do mal, do mal inominável, são terrivelmente semelhantes. A diferença entre uma e outra é apenas o som de uma gota de chuva a cair no mar». Ambas são formas poéticas de interpretar a questão. Mas refletir sobre o mal, qualquer que seja a forma adotada, é já uma vitória, pois não raro ele nos aparece como austeríssimo lugar onde o pensamento entra em colapso.  

O mal toca universalmente as existências e constitui a todos os níveis um desafio. O importante, porém, como explica o filósofo Paul Ricoeur, não é tanto insistir em encontrar uma solução. Mais relevante que pensar donde vem o Mal é sim descobrir o que podemos fazer contra ele. A experiência do mal desafia à luta prática contra o próprio mal. Reorienta-se, assim, o olhar para um novo futuro.
Como é que o mal deixa de ser o irreparável? Quando aproveitamos o contexto de mal para um acontecimento doutra ordem. Quando deixamos apenas de perguntar: «Porque é que isto me aconteceu?». E investimos antes as nossas forças criadoras a decidir: «Como é que devo reagir vitalmente a isto que aconteceu?». Apetece citar aqui uma página do impressionante Diário de Etty Hillesum, um dos grandes testamentos espirituais do nosso tempo. Está lá tudo. «Foi lá [e a autora está a falar da sua experiência no campo de concentração], entre as barracas, repletas de gente agitada e perseguida, que achei a confirmação para o meu amor por esta vida. Não tive um único corte com a vida. Havia como que uma grande continuidade, plena de sentido. Como é que alguma vez vou conseguir descrever isto tudo? Descrever de modo que outros também consigam sentir como na realidade a vida é bela!».
É preciso contrapor à experiência do mal uma sabedoria, enriquecida pela meditação interior, que dialogue com as transformações pelas quais passamos. O modelo talvez seja realmente o dos trabalhos do luto. O luto é a aprendizagem gradual da perda até senti-la dentro de nós como possibilidade misteriosa de reencontro. Chegarmos a sentir, por exemplo, que a morte dos que amamos ainda pode gerar vida, no sentido de que não nos perdemos deles, mas continuamos a crescer e a maturar conjuntamente, só que de forma diferente. O luto, quando bem vivido, é um trabalho espiritual, uma mudança qualitativa que nos entreabre a um outro entendimento da vida. Em relação ao mal precisamos disso: aprender que a experiência do mal não é uma faca que nos decepa a vida.
Progressivamente, e sublinhe-se aqui a importância da progressividade, podemos ir percecionando que a experiência do mal não acarreta necessariamente a destruição de nós próprios. Tornamo-nos então capazes de semear de novo, apesar de tudo e contra tudo o que aconteceu. A ampliação da vida e o seu florescimento estão prontos para acontecer.

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias ( Madeira)


retirado daqui 
(Sublinhados meus)

2011-01-24

uma "primeira vez"

Fez dezoito anos em Setembro. Recensiou-se como eleitor. Com a elevação de quem assume, pela primeira vez, a sua qualidade de cidadão pleno, dirigiu-se ontem ao local do voto, a Escola Primária 101. Num gesto bonito e muito apropriado à dignidade da ocasião, as pessoas na mesa do voto deram-lhe os parabéns pela sua primeira vez.
Na cabine, descobriu que faltava a esferográfica. Depois de solicitar e receber uma nova, voltou à cabine e votou em branco.

(históroia não ficcional), aqui

2011-01-23

não tendo mais para vos dar...dou-vos música

parece que o tempo não é de pastores...e as ovelhas devoram-se mutuamente

«Quanto a vós, minhas ovelhas, assim fala o Senhor DEUS: Eis que vou julgar entre ovelhas e ovelhas - entre carneiros e bodes. 18Não era bastante alimentar-vos numa boa pastagem, para que calqueis ainda aos pés o resto do prado? Parece-vos pouco beber água límpida, para irdes turvar ainda o resto com os vossos pés? 19E as minhas ovelhas devem pastar o que pisastes com os pés e beber o que os vossos pés turvaram?»20Por isso, assim fala o Senhor DEUS: «Eis que julgarei entre a ovelha gorda e a ovelha magra. 21Porque feristes com o flanco e com as espáduas, e investistes com os chifres contra todas as ovelhas fracas até as atirar para fora, 22Eu virei em socorro das minhas ovelhas, para que elas sejam poupadas à pilhagem; vou julgar entre ovelhas e ovelhas.»
(Ezequiel 34, 21-22)

2011-01-14

2011-01-13

Rio de Janeiro

O coração dentro do peito

Milhões de olhos sufocam-se numa lágrima
Diversos estorvos – devidos ao complicado fado,
Deus, dá-me a tua espada!
Para cortar os nós górdios
Que enredam o divino tear do destino de todos os homens.
Não, eu não quero desnudar os teus punhos!
Eu somente te imploro
Que digas a cada bacilo: Não Matarás.
Proíbe os desastres
Banindo a sede de sangue de homens e bestas.
Pendura-me como um espantalho
Por sobre todos os vulcões da terra!
Põe-te como sentinela
Nos poros da pele
De modo que nenhuma doença ouse entrar.
Eu também sustentei o peso do dano causado por ti
Desafio-te: Sente!
Como nós, como eu
Se não, eu  aviso, que me manifestarei
E clamarei
Para que todos saibam,
Que Deus esqueceu o seu coração
Dentro do meu peito.

Abraham Joshua Heschel