Hoje procurei um livro dele. Não sabia que tinha morrido.
"Graças ao amor a gente pode desejar e até atingir a eternidade".
2011-04-30
a importância do saber
- Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal.
- São talvez as que eu próprio sei.
- Sem dúvida. É por isso que aqui estou, e é por isso que podemos falar com toda a franqueza.
- Diz-me então a primeira dessas coisas. Sou todo ouvidos.
- A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.
- Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?
- A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.
Albert Cossery "A violência e o Escárnio" pag. 63
(Antígona)
- São talvez as que eu próprio sei.
- Sem dúvida. É por isso que aqui estou, e é por isso que podemos falar com toda a franqueza.
- Diz-me então a primeira dessas coisas. Sou todo ouvidos.
- A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.
- Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?
- A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.
Albert Cossery "A violência e o Escárnio" pag. 63
(Antígona)
2011-04-29
é a hora
“No te rindas”
No te rindas, aún estás a tiempo
De alcanzar y comenzar de nuevo,
Aceptar tus sombras,
Enterrar tus miedos,
Liberar el lastre,
Retomar el vuelo.
No te rindas que la vida es eso,
Continuar el viaje,
Perseguir tus sueños,
Destrabar el tiempo,
Correr los escombros,
Y destapar el cielo.
No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se esconda,
Y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma
Aún hay vida en tus sueños.
Porque la vida es tuya y tuyo también el deseo
Porque lo has querido y porque te quiero
Porque existe el vino y el amor, es cierto.
Porque no hay heridas que no cure el tiempo.
Abrir las puertas,
Quitar los cerrojos,
Abandonar las murallas que te protegieron,
Vivir la vida y aceptar el reto,
Recuperar la risa,
Ensayar un canto,
Bajar la guardia y extender las manos
Desplegar las alas
E intentar de nuevo,
Celebrar la vida y retomar los cielos.
No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se ponga y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma,
Aún hay vida en tus sueños
Porque cada día es un comienzo nuevo,
Porque esta es la hora y el mejor momento.
Porque no estás solo, porque yo te quiero
(Mario Benedetti)
retirado daqui
No te rindas, aún estás a tiempo
De alcanzar y comenzar de nuevo,
Aceptar tus sombras,
Enterrar tus miedos,
Liberar el lastre,
Retomar el vuelo.
No te rindas que la vida es eso,
Continuar el viaje,
Perseguir tus sueños,
Destrabar el tiempo,
Correr los escombros,
Y destapar el cielo.
No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se esconda,
Y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma
Aún hay vida en tus sueños.
Porque la vida es tuya y tuyo también el deseo
Porque lo has querido y porque te quiero
Porque existe el vino y el amor, es cierto.
Porque no hay heridas que no cure el tiempo.
Abrir las puertas,
Quitar los cerrojos,
Abandonar las murallas que te protegieron,
Vivir la vida y aceptar el reto,
Recuperar la risa,
Ensayar un canto,
Bajar la guardia y extender las manos
Desplegar las alas
E intentar de nuevo,
Celebrar la vida y retomar los cielos.
No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se ponga y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma,
Aún hay vida en tus sueños
Porque cada día es un comienzo nuevo,
Porque esta es la hora y el mejor momento.
Porque no estás solo, porque yo te quiero
(Mario Benedetti)
retirado daqui
2011-04-27
2011-04-26
desapego
Afortunadamente não dispomos de qualquer guião para a vida. A cada passo dado realiza-se a vida.
2011-04-22
2011-04-21
No facebook partilha-se este vídeo. Para além do grotesco, falta de gosto, javardice de toda a cena e discurso, ressalta a expressão "mangas arregaçadas".
Para desenjoar do vídeo...e de outras cenas que fazem o viver diário do país, fica um extracto delicioso do livro de Albert Cossery. O tema central do livro, é o combate que se faz a um governador despótico e violento, através do escárnio disfarçado de bajulação.
Para desenjoar do vídeo...e de outras cenas que fazem o viver diário do país, fica um extracto delicioso do livro de Albert Cossery. O tema central do livro, é o combate que se faz a um governador despótico e violento, através do escárnio disfarçado de bajulação.
Mestre Abdu, de maquineta em punho, aproximou-se do asno com o olhar nevrótico do artista que ia finalmente atirar-se a obra de monta. Porém, antes de poder dar início ao cometimento, Karim, detendo-o com um gesto, erguera-se do mocho.
- Então que é isso, homem? Já cá estava antes dele. E tenho pressa.
- Vais desculpar-me, Efêndi, disse o barbeiro. Mas é um velho freguês não posso fazê-lo esperar.
- Ele que espere. Repito-te que estou com pressa.
- Este burro tem mais pressa do que tu, meu rapaz, interveio o carroceiro.
- Então porquê? inquiriu Karim. Vai a alguma boda?
-A gente não tem tempo para andar em bodas, replicou o carroceiro, grandiloquente. A gente trabalha.
O burro recomeçou a zurrar, como se sentisse orgulhoso das prerrogativas de que era objecto.
O barbeiro passou-lhe a máquina de barbear pelo lombo, cantarolando-lhe gentilezas em voz baixa. Karim, embora fingindo indignação, começava a ficar irritado com todas aquelas atenções de que o burro era alvo. Que raio seria aquele animal? Um burro governamental, porventura um ministro, deslocando-se ali incógnito para observar in loco o estado de espírito dos seus administrados? Não seria nada de espantar tendo em conta o tratamento excepcional que o barbeiro lhe dava. A situação parecia a Karim uma coisa de doidos; enfiara-se num labirinto e tinha de arranjar maneira de se pirar dali sem muito estrago. Não podia, contudo ir-se embora assim, sem insistir deixando atrás de si tão delicioso torrão de dialéctica a pedir que o fecundassem. Semelhante ocasião talvez não voltasse a surgir durante todo o dia.
Ergueu a ponta da manga do casaco, fingiu consultar o relógio de pulso e voltou à carga, dizendo ao barbeiro:
- Vê lá tu, ó homem de Deus, no que te metes! Eu com encontro marcado com o governador e tu a fazeres passar um burro à minha frente!
- Qual governador? perguntou logo o carroceiro, francamente espantado por ouvir falar de um tal personagem.
- Qual governador?! Homessa! explodiu Karim. O governador desta cidade, nem mais nem menos!
- Com que então esta cidade é governada! fez o carroceiro. Não me digas isso a mim, meu rapaz, que eu não vou em cantigas.
- Ora aqui está uma prova da nossa degradação! exclamou Karim. É gente como tu que faz de nós um povo de selvagens!
A maluqueira chegava ao cúmulo, mas Karim não conseguia deter o mecanismo que a desencadeara. Um familiar demónio levava-o a enfiar-se ainda mais no visco, para ver até onde iria a tresloucada conversa. Além disso, ainda hesitava em sair do fresco para cair na tórrida atmosfera da avenida e das chatices dum interrogatório de polícia.
- Vou-me embora, acabou ele por dizer, sem grande convicção. Mas não se mexia, à espera não sabia bem de quê, como se daquela situação devesse brotar um clarão fulgurante, capaz de lhe revelar a face secreta da humanidade.
- Espera aí, Efêndi, acudiu o barbeiro, que ia extraindo do burro, com a máquina, grandes tufos de pêlos. Estou quase a acabar, a seguir és tu.
- Jamais aceitarei ser servido depois de um burro, respondeu Karim altivamente. Bem me parece que não sabes com quem estás a falar!
O barbeiro reflectiu um instante, com a tosquiadora erguida e as feições atormentadas por uma certa apreensão. Intrigado, perguntou:
- Quem és tu, Efêndi?
- Não vou perder tempo a explicar-to, atirou-lhe Karim com desenvoltura. Trata lá do burro. É a clienetela que mereces!
- Estarás tu por acaso a insultar-me o Jerico? vociferou logo o carroceiro, de carão feroz. Quem julgas tu que és para vires para aqui insultar um trabalhador?
Ali estava esparramado o palavrão: um trabalhador! Na mente daquela deplorável ralé, se o burro tinha direito ao respeito, não era por ser um animal, era por via da sua nobre condição de trabalhador. Durante uns segundos Karim ficou maravilhado com a enorme suculência da réplica, que por fim o compensava do tempo perdido. E, voltando as costas aos dois homens, atirou-se deliberadamente para a fornalha. Quanto à saúde do mundo, bem podia ir descansado.
Albert Cossery "A Violência e o Escárnio"
contemplação versus acção - as duas faces da mesma moeda
Há cada vez mais pessoas que não estão satisfeitas com o mundo em que vivemos. Raras são, porém, aquelas que fazem alguma coisa para o transformar.
Continua aqui
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2011-04-20
registo
Hoje ouvi (de alguém que faz parte da denominada "geração à rasca"): "Não existe opção entre ser ou não ser honesto - é uma questão de princípios!".
Acrescento que um valor só é verdadeiro se alguém o pratica. No caso, é um facto. Fica registado.
Acrescento que um valor só é verdadeiro se alguém o pratica. No caso, é um facto. Fica registado.
2011-04-19
foi você que pediu um Reinaldo?!
Eu Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia
Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia Que partout, everywhere, em toda a parte, A vida égale, idêntica, the same, É sempre um esforço inútil, Um voo cego a nada. Mas dancemos; dancemos Já que temos A valsa começada E o Nada Deve acabar-se também, Como todas as coisas. Tu pensas Nas vantagens imensas De um par Que paga sem falar; Eu, nauseado e grogue, Eu penso, vê lá bem, Em Arles e na orelha de Van Gogh... E assim entre o que eu penso e o que tu sentes A ponte que nos une - é estar ausentes.Reinaldo Ferreira
2011-04-18
a alternativa ao altar vazio...pode ser um perigo que nem sonhamos
Hoy día (...) Ninguna fuerza crea valores de ilusión, acaso con la excepción de la codicia; pero la codicia, por sí sola, únicamente reproduce el baile alrededor del Becerro de Oro al ritmo de un frenético presente continuo.
En el horizonte, aparentemente, no hay pretendientes capaces de ocupar el altar vacío. Podría suceder que el altar ya se hubiera quedado vacío para siempre y que nos hayamos adentrado en una humanidad ajena a las ilusiones, por apatía, por escarmiento o por sano escepticismo.
Sin embargo, también es posible -y probable- que ahora mismo, a pesar de nuestra ignorancia al respecto, se esté incubando el nuevo aspirante a ocupar el altar del dios desconocido. Y que de la naturaleza de ese dios dependa que nos encaminemos a una Edad Oscura o pongamos rumbo hacia un Renacimiento.
aqui
En el horizonte, aparentemente, no hay pretendientes capaces de ocupar el altar vacío. Podría suceder que el altar ya se hubiera quedado vacío para siempre y que nos hayamos adentrado en una humanidad ajena a las ilusiones, por apatía, por escarmiento o por sano escepticismo.
Sin embargo, también es posible -y probable- que ahora mismo, a pesar de nuestra ignorancia al respecto, se esté incubando el nuevo aspirante a ocupar el altar del dios desconocido. Y que de la naturaleza de ese dios dependa que nos encaminemos a una Edad Oscura o pongamos rumbo hacia un Renacimiento.
aqui
2011-04-17
indignai-vos. é precioso.
Assim escreve Stéphane Hessel, 93 anos, herói da resistência francesa e um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos Humanos: "A minha longa vida deu-me uma série de motivos para me indignar.
Esses motivos nasceram não tanto de uma emoção, mas de um desejo de envolvimento."
Nestes tempos em que cada um deseja é tratar da sua "vidinha", Stéphane Hessel com singular lucidez alerta:
A indiferença: a pior das atitudes
É verdade que, actualmente, os motivos para nos indignarmos possam parecer menos lineares, ou que o mundo possa parecer demasiado complexo. Quem comanda? Quem decide? Nem sempre é fácil distinguir todas as correntes que nos governam. Já não estamos perante uma pequena elite cujas motivações são fáceis de compreender. Sentimos perfeitamente que se trata de um mundo vasto em que tudo é interdependente. Vivemos numa inter-conectividade como nunca se viu anteriormente. Mas neste mundo existem coisas insuportáveis. Para o ver, é preciso olhar e procurar com atenção. Eu digo aos jovens: procurem um pouco, irão descobrir. A pior das atitudes é a indiferença, dizer «como não posso fazer nada, desenvencilho-me como posso». Este tipo de atitude conduz à perda de uma das componentes essenciais do ser humano. Uma das componentes indispensáveis: a capacidade de indignação e a consequente militância.
(...) Aos jovens, eu digo: olhem em redor e encontrarão os temas que justificam a vossa indignação - o tratamento dado aos imigrantes, aos indocumentados, aos ciganos. Encontrarão situações concretas que vos levarão a dar curso a uma acção forte em prol da cidadania. Procurem e encontrarão!
Esses motivos nasceram não tanto de uma emoção, mas de um desejo de envolvimento."
Nestes tempos em que cada um deseja é tratar da sua "vidinha", Stéphane Hessel com singular lucidez alerta:
A indiferença: a pior das atitudes
É verdade que, actualmente, os motivos para nos indignarmos possam parecer menos lineares, ou que o mundo possa parecer demasiado complexo. Quem comanda? Quem decide? Nem sempre é fácil distinguir todas as correntes que nos governam. Já não estamos perante uma pequena elite cujas motivações são fáceis de compreender. Sentimos perfeitamente que se trata de um mundo vasto em que tudo é interdependente. Vivemos numa inter-conectividade como nunca se viu anteriormente. Mas neste mundo existem coisas insuportáveis. Para o ver, é preciso olhar e procurar com atenção. Eu digo aos jovens: procurem um pouco, irão descobrir. A pior das atitudes é a indiferença, dizer «como não posso fazer nada, desenvencilho-me como posso». Este tipo de atitude conduz à perda de uma das componentes essenciais do ser humano. Uma das componentes indispensáveis: a capacidade de indignação e a consequente militância.
(...) Aos jovens, eu digo: olhem em redor e encontrarão os temas que justificam a vossa indignação - o tratamento dado aos imigrantes, aos indocumentados, aos ciganos. Encontrarão situações concretas que vos levarão a dar curso a uma acção forte em prol da cidadania. Procurem e encontrarão!
2011-04-15
Que "Nova Evangelização"?
A minha resposta a este inquérito, também, publicada aqui.
1. Essas transformações foram portadoras de autonomia para o homem. Que é chamado a viver a experiência religiosa, não como uma necessidade ou de forma condicionada pelas estruturas religiosas, mas em liberdade criativa.
Mas a complexidade é própria do viver humano. "Assim o que realizo, não o entendo: pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço." (Rm 7, 15). Todos os actos e realizações humanas vivem a tensão da luz e das sombras. Só Deus é criação pura. Ter consciência disso, ajuda-nos a olhar para nós próprios, para o nosso grupo religioso e para a sociedade, não através de um modelo ideal que se persegue (e nunca se conseguirá alcançar), mas sabendo que é a actividade do nosso caminhar que nos humaniza.
É, ainda, desavisado e imprudente utilizar um único modelo religioso e social (e é isto que, quanto a mim, o documento do Papa reflecte) para avaliar a espiritualidade e religiosidade contemporâneas.
2. As leituras são sempre múltiplas. Mas temos como base deste inquérito o documento papal, que reflecte o olhar de uma hierarquia que vive à margem da sociedade e até das comunidades católicas e vive apoiada numa estrutura centralizadora.
A secularização é o sinal de que já não é possível viver mais esse modelo. Perante ela temos vários caminhos. Ou se teima em alimentar e fomentar o mesmo esquema doutrinal e institucional (com as consequências que se vão verificando: comunidades reduzidas a idosos e a práticas ritualistas que já não dizem nada do que pretendem ser:"sal da terra", "fermento na massa", "ressurreição"). Ou aceitamos o desafio do tempo que vivemos que, a par de desenvolvimentos técnicos, científicos e humanos, configura uma grave "injustiça globalizada". E o cristianismo tem um largo espaço de acção neste campo.
O espanto dos evangelhos é apresentarem-nos um Jesus próximo, companheiro, interpelador. Quantos são os bispos efectivamente presentes nas suas comunidades? E no meio social que é todo o espaço da diocese?
3. A expressão é dúbia. Têm-se em conta as diferentes realidades? Parece-me que não. Uma evangelização que não tenha em conta a pluralidade do paradigma actual - económico, multirracial, multi -religioso, feminista, espaço privado da consciência - não pode ser considerada nova.
E muito menos será nova, apenas, por utilizar os meios informáticos e tecnológicos de que dispomos. Utilizar novos meios e manter a estrutura é desperdiçar oportunidades.
4. E quando é que se dá esse "início"? Eu diria que é um início que está sempre acontecendo. Um cristão (ou um grupo) "corre para a meta" não é a "meta".
"Eu sou a ressurreição e a vida! (Jo 11,25) Jesus pôde afirmá-lo com propriedade e verdade. Nós, crentes cristãos, descobriremos com humildade que a nossa vida está marcada pela finitude e pela morte. Quanto maior for a nossa consciência de peregrinos, mais percebemos que a nossa adesão a Jesus não nos faz diferentes de ninguém. Todos fazemos parte do Todo. Então, individualmente e como grupo religioso, aprenderemos a dialogar e a descobrir o que é a vida.
5. Por tudo o que disse acima facilmente se conclui que concordo com o Papa: não implica “uma única fórmula igual para todas as circunstâncias”.
Desconhecia o debate sobre "estratégias e métodos." Não quero ser muito negativista, mas como não sê-lo com uma Conferência Episcopal tão discreta, tão alinhada à estrutura eclesial dominante? Sem alterar a estrutura não há linguagem, nem métodos que não passem de episódios voluntaristas.
Não posso ignorar, porém, que um pouco (ou muito) à margem da "estrutura" existem já grupos e indivíduos que vivem um modo diferente de ser Igreja e ser cristão.
O Espírito continua a soprar e a vivificar no mistério.
Mas a complexidade é própria do viver humano. "Assim o que realizo, não o entendo: pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço." (Rm 7, 15). Todos os actos e realizações humanas vivem a tensão da luz e das sombras. Só Deus é criação pura. Ter consciência disso, ajuda-nos a olhar para nós próprios, para o nosso grupo religioso e para a sociedade, não através de um modelo ideal que se persegue (e nunca se conseguirá alcançar), mas sabendo que é a actividade do nosso caminhar que nos humaniza.
É, ainda, desavisado e imprudente utilizar um único modelo religioso e social (e é isto que, quanto a mim, o documento do Papa reflecte) para avaliar a espiritualidade e religiosidade contemporâneas.
2. As leituras são sempre múltiplas. Mas temos como base deste inquérito o documento papal, que reflecte o olhar de uma hierarquia que vive à margem da sociedade e até das comunidades católicas e vive apoiada numa estrutura centralizadora.
A secularização é o sinal de que já não é possível viver mais esse modelo. Perante ela temos vários caminhos. Ou se teima em alimentar e fomentar o mesmo esquema doutrinal e institucional (com as consequências que se vão verificando: comunidades reduzidas a idosos e a práticas ritualistas que já não dizem nada do que pretendem ser:"sal da terra", "fermento na massa", "ressurreição"). Ou aceitamos o desafio do tempo que vivemos que, a par de desenvolvimentos técnicos, científicos e humanos, configura uma grave "injustiça globalizada". E o cristianismo tem um largo espaço de acção neste campo.
O espanto dos evangelhos é apresentarem-nos um Jesus próximo, companheiro, interpelador. Quantos são os bispos efectivamente presentes nas suas comunidades? E no meio social que é todo o espaço da diocese?
3. A expressão é dúbia. Têm-se em conta as diferentes realidades? Parece-me que não. Uma evangelização que não tenha em conta a pluralidade do paradigma actual - económico, multirracial, multi -religioso, feminista, espaço privado da consciência - não pode ser considerada nova.
E muito menos será nova, apenas, por utilizar os meios informáticos e tecnológicos de que dispomos. Utilizar novos meios e manter a estrutura é desperdiçar oportunidades.
4. E quando é que se dá esse "início"? Eu diria que é um início que está sempre acontecendo. Um cristão (ou um grupo) "corre para a meta" não é a "meta".
"Eu sou a ressurreição e a vida! (Jo 11,25) Jesus pôde afirmá-lo com propriedade e verdade. Nós, crentes cristãos, descobriremos com humildade que a nossa vida está marcada pela finitude e pela morte. Quanto maior for a nossa consciência de peregrinos, mais percebemos que a nossa adesão a Jesus não nos faz diferentes de ninguém. Todos fazemos parte do Todo. Então, individualmente e como grupo religioso, aprenderemos a dialogar e a descobrir o que é a vida.
5. Por tudo o que disse acima facilmente se conclui que concordo com o Papa: não implica “uma única fórmula igual para todas as circunstâncias”.
Desconhecia o debate sobre "estratégias e métodos." Não quero ser muito negativista, mas como não sê-lo com uma Conferência Episcopal tão discreta, tão alinhada à estrutura eclesial dominante? Sem alterar a estrutura não há linguagem, nem métodos que não passem de episódios voluntaristas.
Não posso ignorar, porém, que um pouco (ou muito) à margem da "estrutura" existem já grupos e indivíduos que vivem um modo diferente de ser Igreja e ser cristão.
O Espírito continua a soprar e a vivificar no mistério.
2011-04-12
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