2011-06-03

estado dos dias

O Segredo é Amar 

O segredo é amar. Amar a Vida
com tudo o que há de bom e mau em nós.
Amar a hora breve e apetecida,
ouvir os sons em cada voz
e ver todos os céus em cada olhar.

Amar por mil razões e sem razão.
Amar, só por amar,
com os nervos, o sangue, o coração.
Viver em cada instante a eternidade
e ver, na própria sombra, claridade.

O segredo é amar, mas amar com prazer,
sem limites, fronteiras, horizonte.
Beber em cada fonte,
florir em cada flor,
nascer em cada ninho,
sorver a terra inteira como o vinho.

Amar o ramo em flor que há-de nascer,
de cada obscura, tímida raiz.
Amar em cada pedra, em cada ser,
S. Francisco de Assis.

Amar o tronco, a folha verde,
amar cada alegria, cada mágoa,
pois um beijo de amor jamais se perde
e cedo refloresce em pão, em água!

  Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"

2011-06-02

de momento

ó dor, minha irmã!

a felicidade possível.

Este silêncio interior que me acompanha nasce do curso lento que conduz o dia a este outro dia. Que posso eu querer mais além deste quarto aberto sobre a planície, com os seus móveis antigos e as suas rendas de croché? Tenho todo o céu na minha frente e este rodopio dos dias parece-me que poderia segui-lo sem cessar, imóvel, rodopiando com eles. Impregno-me da única felicidade de que sou capaz - uma consciência atenta e amigável. Passeio durante todo o dia: da colina desço para Vicência ou então vou mais além pelos campos. Cada ser encontrado, cada cheiro desta rua, tudo me serve de pretexto para amar sem limites. Raparigas que vigiam uma colónia de férias, a corneta dos vendedores de gelados (os seus carros são gôndolas montadas sobre rodas e munidas de varais) os estendais de fruta, melancias vermelhas de pevides negras, uvas translúcidas e pegajosas - outros tantos apoios para quem já não sabe estar só. (1) Mas a flauta estridente e terna das cigarras, a doçura das águas e das estrelas que se descobre nas noites de Setembro, os caminhos perfumados, entre os lentiscos e os juncos, outros tantos sinais de amor para quem é forçado a estar só.(1) Assim passam os dias.

(1) Isto é, toda a gente.

Albert Camus - "O Avesso e o Direito"

2011-05-28

não contar só com a ganância do padeiro

Um dos clássicos da economia moderna, Adam Smith, resumia desta maneira pragmática o funcionamento do sistema económico: devemos o nosso pão fresco diário não ao altruísmo do padeiro, mas  à sua ganância.  É graças à ambição do ganho, que os bens de que precisamos chegam às prateleiras dos supermercados. Esse dado é, de resto, comummente aceite e consensualmente aceitável.
O facto que hoje se coloca, sempre com maior urgência, é, porém, de outra natureza. Claro que não perde validade a justa expectativa de que a atividade laboral produza o seu lucro, mas o que se coloca às nossas sociedades é a questão da sua capacidade para resolver, ainda que de modo não completamente perfeito, os desequilíbrios que elas próprias geram e que ameaçam a sua preservação. Ora, este processo de reajuste e maturação do sistema não parece que possa ficar unicamente dependente daquilo que Adam Smith chamou “a ganância do padeiro”.
A difícil situação atual mostra-nos, sem margem para hesitações, como se tornou urgente e vital introduzir alternativas de fundo num campo que é económico e financeiro, mas também é humano e cultural. Nesse sentido, vale a pena olhar para os três pontos propostos recentemente por Tim Jackson, professor da Universidade de Surrey, que nos desafia a redefinirmos o que entendemos por prosperidade.
O primeiro ponto prende-se com a necessidade de nos consciencializarmos todos de que o crescimento económico tem limites. O segundo passa por aceitarmos distribuir os lucros não apenas segundo critérios financeiros, mas também em função de um benefício social e ambiental.O terceiro ponto diz-nos que é preciso mudar a lógica cultural dominante, que identifica prosperidade com enriquecimento material.
Hoje são os próprios economistas a recordar-nos que temos de enriquecer as nossas existências por outros meios e em outras dimensões. Por exemplo, a espiritual.
José Tolentino Mendonça

2011-05-24

cá em casa não é estrangeiro

Hoje vou descobrir-lhe o "Avesso e o direito".

Quando falham as oportunidades de vencer a estupidez

O marido (presumo) solícito, veio trazer a garrafa de água que ficou esquecida no carro. Olhou em redor, e ao ver as dezenas de pessoas que aguardavam no átrio, atirou para o ar:"Isto é só política! É só para a estatística" E saiu, sem resposta. Deduzi que ia esperar sentado no carro.
Elas continuaram a falar dos  chás e tisanas, dos netos, da Nossa Sra de Fátima,  dos beatos recentes, e não tardou que a sexagenária, cujo marido (presumido) tinha feito a avaliação que cito acima, dizia a intervalos, olhando em redor:"Isto é só política! É para a estatística!".
À terceira repetição, inquiri:A senhora também vai receber um certificado? - Vou, respondeu. Alguém fez o trabalho por si, ou frequentou as sessões de formação? Claro que não! Afirmou, convicta.
Então para que está aí a repetir que isto é só política...?
Na sessão, vi que recebeu  certificação do 9º Ano. Um certificado desperdiçado.

2011-05-21

exemplar

O CIDADÃO DESCONHECIDO

A
JS/07/M/378

O ESTADO ERGUEU ESTE MONUMENTO DE MÁRMORE
Pelo Gabinete de Estatísticas foi considerado
Alguém que oficialmente nunca foi alvo de intriga,
E os relatos da sua conduta comprovam por unanimidade
Que, no sentido moderno de uma palavra antiga,
Era um santo, servindo em tudo a Grande Comunidade.
À excepção da guerra, até ao dia em que se reformou
Trabalhou numa fábrica e nunca ninguém o expulsou,
Mas satisfazia os patrões, a Fudge Motors Cia.
Não era, porém, fura-greves nem de ideias remotas,
Pois o seu Sindicato declara que pagava as quotas,
(Os nossos estudos sobre o sindicato garantem a sua idoneidade)
E em Psicologia Social, uma equipa da especialidade
Diz-nos que se dava bem com os colegas e socialmente bebia.
Atesta a Imprensa que diariamente comprava o jornal
E que reagia aos anúncios de um modo normal.
As apólices em seu nome dão-no como precavido
E o seu Boletim diz que, uma vez hospitalizado, saiu restabelecido.
Os Comités da Produção e da Qualidade de Vida são do parecer 
científico
Que aderia perfeitamente às vantagens da Compra a Prestações
E tinha tudo o que necessita um homem nas modernas condições,
Um gira-discos, um rádio, um carro e um frigorífico.
Referem os nossos investigadores da Opinião Pública
Que tinha as opiniões certas para o estado que havia:
Havendo paz, defendia-a; havendo guerra, lá ia.
Casou-se e acrescentou cinco crianças à população,
O que, segundo o nosso eugenista, era o número certo para a sua
geração,
E dizem os nossos professores que nunca interferiu na sua educação.
Seria livre? Feliz? É absurda a questão.
Por certo que saberíamos de alguma contradição.

W. H. AUDEN "Outro Tempo" 
Tradução de Margarida Vale de Gato

Complicadíssima teia

2011-05-20

José Augusto Mourão

A procura da verdade, mesmo em ciência, leva ao anátema e à exclusão: é a máquina da verdade que produz a máquina da inquisição. 


e ela (a violência) anda mesmo por aí

Nestes últimos dias, tenho pensado muito neste texto da Ana Cássia. É bom lê-lo sem complexos,  despido(a) de preconceitos e com objectividade. De que modo somos mulheres: na cama e fora dela. Até que ponto nos submetemos e que escolhas fazemos. E temos alternativas?

A violência e abuso de poder pode ser exercida de modos muito diversos. Em muitas empresas, geralmente dirigidas por homens, uma mulher decidir ter um filho e beneficiar dos direitos inerentes, pode ser um passaporte para a violência psicológica e exclusão. Para muitas mentes masculinas, a emancipação feminina é um tema tabu. Só podem existir na condição de submissão. Se quiserem que fiquem com os sonhos...essa pieguice. Sonhem. Enquanto as fodemos. E jogamos com o termo "sexo consentido"...independentemente da força exercida.

2011-05-18

para o campeão em desperdício de oportunidades

Nunca hei-de entender uma questão essencial no ensino português, e essa questão nem tem que ver propriamente com o ensino. Está mais relacionada com a forma como as pessoas encaram a escola. Fui professor durante 10 anos. Vendi habilitações no ensino secundário e em cursos de formação profissional (níveis III e IV). Repugna-me um discurso tão snobe quanto ignorante relativamente ao ensino técnico-profissional e ao programa Novas Oportunidades. Normalmente ouço dizer que se trata de escapes, formas fáceis de adquirir diplomas, habilitações literárias, meio caminho andado para a incompetência. Ora, pergunto-me sobre o que seja o ensino regular. Devo dizer, e digo-o com a maior honestidade que me é possível, que o melhor aluno que apanhei em 10 anos de docência (era uma aluna) foi, precisamente, num curso técnico-profissional. Ninguém é bom ou mau em função das marcas que veste, mas sim em consequência do esforço e do empenho que demonstra. O problema é precisamente este, começa aqui: em Portugal tudo se avalia pelo estatuto, nada pelo mérito. E o mérito é indiferente aos cursos, ao tipo de ensino, às escolas, está exclusivamente relacionado com a dedicação individual. Quem não entende isto, bem pode continuar convencido de que o investimento em formas alternativas de ensino é desperdício. Estará redondamente equivocado. A prová-lo estão os milhares de incompetentes, inúteis, imbecis, grunhos e basbaques que todos os anos saem das universidades com canudos debaixo do braço. 



Vou, no próximo dia vinte e quatro, receber o meu diploma de certificação do 12º Ano. 
E vou de consciência tranquila porque não fico a dever nada a ninguém por ele. Muito menos um voto.
Por razões que não são para aqui chamadas, aos dezasseis anos interrompi a formação escolar regular. Podia tê-la retomado alguns anos mais tarde, mas o meu projecto de vida e prioridades eram outras.

Há um ano inscrevi-me num Centro de Novas Oportunidades. Integrei uma turma onde era a pessoa mais velha. Em dois meses completei o trabalho a apresentar. O que me consumiu todos os fins-de-semana e muitas horas diárias depois do trabalho.

O que é que aprendi neste processo? Que todo o meu percurso de vida podia e devia ser avaliado. Que todas as leituras, reflexões, diálogos, abertura ao "outro", experiências pessoais e profissionais me deram (e dão) competências. Foram avaliadas por vários profissionais e, sem complexos de qualquer espécie, vou receber a respectiva certificação.




2011-05-14

bom fim-de-semana

dito isto, não vale  a pena determinar se se deve classificar Zenóbia entre as cidades felizes ou entre as infelizes. Não é nestas duas espécies que faz sentido dividir a cidade, mas noutras duas: as que continuam através dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos ou conseguem aniquilar a cidade ou são eles aniquilados.

Italo Calvino "As Cidades Invisíveis" 
(As cidades subtis. 2)

2011-05-10

uma herança para explorar

O vazio verde

Um dia, quando se fizer a história do catolicismo português que nos é agora contemporâneo, há de ver-se, em toda a clareza, que um dos seus atores magistrais foi, afinal, um frade e poeta, quase clandestino, que morreu esta manhã em Lisboa. Chamava-se José Augusto Mourão, e pertencia à Ordem dos Dominicanos. Nasceu em Vila Real em 1947, e construiu uma inscrição absolutamente invulgar na universidade e na cultura portuguesas. Foi professor na Universidade Nova de Lisboa, especializando-se no campo da semiótica, e prestando uma contínua atenção a expressões de vanguarda que transformam os próprios dispositivos da criação (por exemplo, as mutações da literatura na época de cibernética ou as diversas formas de hipertextualidade ou de hiperficção que a nossa alta modernidade tem gerado). Aí deixa uma obra que, sob muitos aspetos, se pode considerar seminal e profética. 

Mas ele transportou também o mesmo espírito de profecia para aquela que é a opera magna da sua existência: a impressionante ponte (apetece escrever a “impossível ponte”) que ele, quase marginalmente, desenha entre o campo da fé e o da razão, entre a liturgia e a poética, entre a regra e o desejo. Por alguma razão, ele nunca foi um criador confortável, nem para o campo católico, nem para os parâmetros da cultura dominante. Os ouvidos crentes só a custo se abriam, porque ele operava com uma gramática inusual e exigente, buscava metáforas vivas, que é como quem diz, novas metáforas. Do mesmo modo, ele nunca obteve a visibilidade que certamente merece da parte da cultura. A sua poesia é, por exemplo, litúrgica, coisa que, em Portugal, é imediatamente catalogada de género menor. E alguns dos seus textos mais fundamentais são homilias: ora, as últimas homilias que a cultura portuguesa ouviu foram as do Padre António Vieira! Talvez um dia se reconheça a originalidade e a marca deste homem e se possa então valorizar o que ele hoje nos deixa em herança. Para já sentimos o grande vazio que a sua morte representa, que, como aponta o título do seu primeiro livro de poemas, somos desafiados a viver como um “Vazio Verde”.
José Augusto Mourão morreu no dia 5 de maio.

José Tolentino Mendonça
In Página 1 


daqui

2011-05-08

convite

28Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. 29*Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. (Lc 24, 26-29)

2011-05-07

abram-se os nossos olhos



O que Deus tem para nos dar já o temos, não há mais que esperar.

O tempo de ser

Para nós, como para outros fugitivos,
Como as inúmeras flores que não sabem contar
E todos os bichos que não precisam de lembrar,
É no presente que estamos vivos.

Tantos que tentam dizer Agora Não,
Tantos que perderam a memória
De dizer Eu Sou, e em havendo ocasião
Se dariam por perdidos na história.

Inclinando-se, por exemplo, com tanta graça a preceito
Ante a bandeira certa num certo lugar
Balbuciando, como velhos pelas escadas a tropeçar,
Sobre o Meu e o Teu ou o Nosso ou o que Lhes diz respeito.


Como se fora o tempo o que costumavam querer
Quando ainda tinha o dom da possessão,
Como se não tivessem razão,
Em já não desejarem pertencer.


Não espanta então que tantos morram de amargura,
Tantos tão sós na hora de morrer;
Ninguém nunca acreditou ou gostou da impostura,
Um outro tempo tem outras vidas que viver.


W. H. Auden, "Outro Tempo" - XXX
Tradução Margarida Vale de Gato

meu corpo

2011-05-05

uma presença que ilumina

vigiar

desafiai o deserto
a fuga mundi
a desistência
 
arrancai ao caos
o canto livre
 
deixai a prisão
que pisa aos pés a vida
em nome da pós-vida
 
entrai no abismo do silêncio
que ilumina
 
esclarecei a distância
entre o poder e as verdades
 
pensai o acontecimento
a excepção, a mudança
 
entrai no Aberto
que a Palavra tece
 
querei o não-querer
que faz o pobre
 
largai a técnica
da autoflagelação
e do cálculo
 
o claro está no escuro
e na limitação passiva
do que nele fulgura
e leva ao Dia
 
meditai na vida
não na morte
 
a Páscoa está na dor
que ressuscita

Frei José Augusto Mourão op

2011-05-04

 Ferrnando Lemos, Lygia Fagundes Telles, s/d, s/l
Fernando Lemos © Colecção Fundação Cupertino de Miranda




 

A CHESTER KALLMAN


Hão-de os olhos chorar solitários
Até à derrota do Meu Querer.

Mas o Meu Querer pode apartar-se,
Que não tem o tacto necessário
Para se defender do Meu Saber,
Mas o Meu Querer pode apartar-se.


Então crescerão juntos os Eus,
Eu sou porque Eu Amo,
Eu não Possuo Eu Sou Amado,
Então crescerão juntos os Eus.


Até à derrota do Meu Querer
Hão-de os Eus chorar solitários.

W.H. Auden "Outro Tempo"
tradução Margarida Vale de Gato

complicamos o que deveria ser tão simples: nascemos para a alegria e o amor. Foi esse o sonho que sonharam para nós.

- Na tua opinião o que é que importa num homem?
- A plenitude maravilhosa que eu sinto ao estar com ele, e isso nas coisas mais fúteis da existência. O sopro de alegria que ele me transmite. É assim  que uma pessoa pode reconhecer a riqueza do amor que um homem encerra.
Ah, a odiosa, a detestável mania daquele tipo! Lá estava ele outra vez a falar-lhe de alegria! Acreditaria ele naquilo? Não haveria para ele outra coisa no mundo? Como encontrar nesta terra mil vezes posta a saque e incendiada pelos homens um recanto qualquer de amor e de paz? Só um canalha podia contentar-se com tais futilidades. Ou um doido afortunado. E todavia Heikal não era  um pulha nem um doido. Queria divertir o povo e ensiná-lo a rir dos tiranos. Era fácil dizê-lo. Mas o povo precisava aprender outras coisas. Taher pensou em todas as coisas que tinha ainda de ensinar ao povo, e a imensidão da tarefa pô-lo de súbito doente de desespero.

Albert Cossery - "A violência e o Escárnio"

2011-05-01

1º de Maio e o sentido de ser cristão

O cristão, membro do Corpo de Cristo, não pode considerar-se, portanto, um ser isolado que se baste a si mesmo, pois participa do bem ou do mal-estar do conjunto:"se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele ou se um membro recebe glória, todos os membros se regozijam com ele" (1Cor 12,26).

A unidade dos homens em Cristo supõe o amor de uns para com os outros como condição indispensável para a vida e saúde do conjunto. E assim se compreende que Jesus, vindo revelar aos homens a misericórdia do Senhor que se dignou fazê-los participantes da mesma natureza divina, não podia deixar de impor-lhes o mandamento novo do amor,. "Amai-vos uns aos outros, disse Jesus na Última Ceia, e que assim como Eu vos amei, vos ameis também uns aos outros".

O amor dos cristãos não é, porém, sentimento, nem pode ser vago desejo de bem-estar alheio. É vida, é doação, é sacrifício.

Por definição, o cristão tem, portanto, deveres para com todos os seus irmãos, para com todos os homens, deveres que dimanam directamente do conceito da vida de Cristo em nós.

Abel Varzim "Entre o ideal e o possível"

hoje e sempre



é de ti, mãe, que aprendo que não há ferida, por mais profunda que seja, que impeça a vida de se abrir ao amor.
Foste mulher e mãe num contexto bem mais duro e difícil do que eu. Mas  sei que não viverei o suficiente para aprender a ver a beleza do mundo e das pessoas como o tu sabias.
Disseram-me no outro dia que eras uma mulher triste. Eu recordo-te como uma mulher transparente. E a mais corajosa que conheci.

2011-04-30

Ernesto Sabato 24/06/1911 - 30/04/2011

Hoje procurei um livro dele. Não sabia que tinha morrido.

"Graças ao amor a gente pode desejar e até atingir a eternidade".

Ernesto Sabato principio de Sobre Héroes y tumbas - 2da Part

Ernesto Sabato principio de Sobre Héroes y tumbas - 1ra Part

a importância do saber

- Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal.
- São talvez as que eu próprio sei.
- Sem dúvida. É por isso que aqui estou, e é por isso que podemos falar com toda a franqueza.
- Diz-me então a primeira dessas coisas. Sou todo ouvidos.
- A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.
- Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?
- A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.

Albert Cossery "A violência e o Escárnio" pag. 63
(Antígona)

2011-04-29

é a hora

“No te rindas”

No te rindas, aún estás a tiempo
De alcanzar y comenzar de nuevo,
Aceptar tus sombras,
Enterrar tus miedos,
Liberar el lastre,
Retomar el vuelo.
No te rindas que la vida es eso,
Continuar el viaje,
Perseguir tus sueños,
Destrabar el tiempo,
Correr los escombros,
Y destapar el cielo.
No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se esconda,
Y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma
Aún hay vida en tus sueños.
Porque la vida es tuya y tuyo también el deseo
Porque lo has querido y porque te quiero
Porque existe el vino y el amor, es cierto.
Porque no hay heridas que no cure el tiempo.
Abrir las puertas,
Quitar los cerrojos,
Abandonar las murallas que te protegieron,
Vivir la vida y aceptar el reto,
Recuperar la risa,
Ensayar un canto,
Bajar la guardia y extender las manos
Desplegar las alas
E intentar de nuevo,
Celebrar la vida y retomar los cielos.
No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se ponga y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma,
Aún hay vida en tus sueños
Porque cada día es un comienzo nuevo,
Porque esta es la hora y el mejor momento.
Porque no estás solo, porque yo te quiero

(Mario Benedetti)

retirado daqui

2011-04-21

 No facebook partilha-se este vídeo.  Para além do grotesco, falta de gosto, javardice de toda a cena e discurso, ressalta a expressão "mangas arregaçadas".

Para desenjoar do vídeo...e de outras cenas que fazem o viver diário do  país, fica um extracto delicioso do livro de Albert Cossery. O tema central do livro, é o combate que se faz a um governador despótico e violento, através do escárnio disfarçado de bajulação.



Mestre Abdu, de maquineta em punho, aproximou-se do asno com o olhar nevrótico do artista que ia finalmente atirar-se a obra de monta. Porém, antes de poder dar início ao cometimento, Karim, detendo-o com um gesto, erguera-se do mocho.
- Então que é isso, homem? Já cá estava antes dele. E tenho pressa.
- Vais desculpar-me, Efêndi, disse o barbeiro. Mas é um velho freguês não posso fazê-lo esperar.
- Ele que espere. Repito-te que estou com pressa.
- Este burro tem mais pressa do que tu, meu rapaz, interveio o carroceiro.
- Então porquê? inquiriu Karim. Vai a alguma boda?
-A gente não tem tempo para andar em bodas, replicou o carroceiro, grandiloquente. A gente trabalha.
O burro recomeçou a zurrar, como se sentisse orgulhoso das prerrogativas de que era objecto.
O barbeiro passou-lhe a máquina de barbear pelo lombo, cantarolando-lhe gentilezas em voz baixa. Karim, embora fingindo indignação, começava a ficar irritado com todas aquelas atenções de que o burro era alvo. Que raio seria aquele animal? Um burro governamental, porventura um ministro, deslocando-se ali incógnito para observar in loco o estado de espírito dos seus administrados? Não seria nada de espantar tendo em conta o tratamento excepcional que o barbeiro lhe dava. A situação parecia a Karim uma coisa de doidos; enfiara-se num labirinto e tinha de arranjar maneira de se pirar dali sem muito estrago. Não podia, contudo ir-se embora assim, sem insistir deixando atrás de si tão delicioso torrão de dialéctica a pedir que o fecundassem. Semelhante ocasião talvez não voltasse a surgir durante todo o dia.
Ergueu a ponta da manga do casaco, fingiu consultar o relógio de pulso e voltou à carga, dizendo ao barbeiro:
- Vê lá tu, ó homem de Deus, no que te metes! Eu com encontro marcado com o governador e tu a fazeres passar um burro à minha frente!
- Qual governador? perguntou logo o carroceiro, francamente espantado por ouvir falar de um tal personagem.
- Qual governador?! Homessa! explodiu  Karim. O governador desta cidade, nem mais nem menos!
- Com que então esta cidade é governada! fez o carroceiro. Não me digas isso a mim, meu rapaz, que eu não vou em cantigas.
- Ora aqui está uma prova da nossa degradação! exclamou Karim. É gente como tu que faz de nós um povo de selvagens!
A maluqueira chegava ao cúmulo, mas Karim não conseguia deter o mecanismo que a desencadeara. Um familiar demónio levava-o a enfiar-se ainda mais no visco, para ver até onde iria a tresloucada conversa. Além disso, ainda hesitava em sair do fresco para cair na tórrida atmosfera da avenida e das chatices dum interrogatório de polícia.
- Vou-me embora, acabou ele por dizer, sem grande convicção. Mas não se mexia, à espera não sabia bem de quê, como se daquela situação devesse brotar um clarão fulgurante, capaz de lhe revelar a face secreta da humanidade.
- Espera aí, Efêndi, acudiu o barbeiro, que ia extraindo do burro, com a máquina, grandes tufos de pêlos. Estou quase a acabar, a seguir és tu.
- Jamais aceitarei ser servido depois de um burro, respondeu Karim altivamente. Bem me parece que não sabes com quem estás a falar!
O barbeiro reflectiu um instante, com a tosquiadora erguida e as feições atormentadas por uma certa apreensão. Intrigado, perguntou:
- Quem és tu, Efêndi?
- Não vou perder tempo a explicar-to, atirou-lhe Karim com desenvoltura. Trata lá do burro. É a clienetela que mereces!
- Estarás tu por acaso a insultar-me o Jerico? vociferou logo o carroceiro, de carão feroz. Quem julgas tu que és para vires para aqui insultar um trabalhador?
Ali estava esparramado o palavrão: um trabalhador! Na mente daquela deplorável ralé, se o burro tinha direito ao respeito, não era por ser um animal, era por via da sua nobre condição de trabalhador. Durante uns segundos Karim ficou maravilhado com a enorme suculência da réplica, que por fim o compensava do tempo perdido. E, voltando as costas aos dois homens, atirou-se deliberadamente para a fornalha. Quanto à saúde do mundo, bem podia ir descansado.

Albert Cossery "A Violência e o Escárnio"




contemplação versus acção - as duas faces da mesma moeda

Há cada vez mais pessoas que não estão satisfeitas com o mundo em que vivemos. Raras são, porém, aquelas que fazem alguma coisa para o transformar.

Continua aqui

2011-04-20

registo

Hoje ouvi (de alguém que faz parte da denominada "geração à rasca"): "Não existe opção entre ser ou não ser honesto - é uma questão de princípios!".

Acrescento que um valor só é verdadeiro se alguém o pratica. No caso, é um facto. Fica registado.

2011-04-19

foi você que pediu um Reinaldo?!

Eu Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia


Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia Que partout, everywhere, em toda a parte, A vida égale, idêntica, the same, É sempre um esforço inútil, Um voo cego a nada. Mas dancemos; dancemos Já que temos A valsa começada E o Nada Deve acabar-se também, Como todas as coisas. Tu pensas Nas vantagens imensas De um par Que paga sem falar; Eu, nauseado e grogue, Eu penso, vê lá bem, Em Arles e na orelha de Van Gogh... E assim entre o que eu penso e o que tu sentes A ponte que nos une - é estar ausentes.
Reinaldo Ferreira

"já Platão dizia..." o diálogo começa em nós mesmos

2011-04-18

a alternativa ao altar vazio...pode ser um perigo que nem sonhamos

Hoy día (...) Ninguna fuerza crea valores de ilusión, acaso con la excepción de la codicia; pero la codicia, por sí sola, únicamente reproduce el baile alrededor del Becerro de Oro al ritmo de un frenético presente continuo.
En el horizonte, aparentemente, no hay pretendientes capaces de ocupar el altar vacío. Podría suceder que el altar ya se hubiera quedado vacío para siempre y que nos hayamos adentrado en una humanidad ajena a las ilusiones, por apatía, por escarmiento o por sano escepticismo.

Sin embargo, también es posible -y probable- que ahora mismo, a pesar de nuestra ignorancia al respecto, se esté incubando el nuevo aspirante a ocupar el altar del dios desconocido. Y que de la naturaleza de ese dios dependa que nos encaminemos a una Edad Oscura o pongamos rumbo hacia un Renacimiento.

aqui

Y todos los días los diarios (...) publican porquerias

2011-04-17

indignai-vos. é precioso.

Assim  escreve Stéphane Hessel, 93 anos, herói da resistência francesa e um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos Humanos: "A minha longa vida deu-me uma série de motivos para me indignar.
Esses motivos nasceram não tanto de uma emoção, mas de um desejo de envolvimento."

Nestes tempos em que cada um deseja é tratar da sua "vidinha", Stéphane Hessel com singular lucidez alerta:

 A indiferença: a pior das atitudes

É verdade que, actualmente, os motivos para nos indignarmos possam parecer menos lineares, ou que o mundo possa parecer demasiado complexo. Quem comanda? Quem decide? Nem sempre é fácil distinguir todas as correntes que nos governam. Já não estamos perante uma pequena elite cujas motivações são fáceis de compreender. Sentimos perfeitamente que se trata de um mundo vasto em que tudo é interdependente. Vivemos numa inter-conectividade como nunca se viu anteriormente. Mas neste mundo existem coisas insuportáveis. Para o ver, é preciso olhar e procurar com atenção. Eu digo aos jovens: procurem um pouco, irão descobrir. A pior das atitudes é a indiferença, dizer «como não posso fazer nada, desenvencilho-me como posso». Este tipo de atitude conduz à perda de uma das componentes essenciais do ser humano. Uma das componentes indispensáveis: a capacidade de indignação e a consequente militância.
(...) Aos jovens, eu digo: olhem em redor e encontrarão os temas que justificam a vossa indignação - o tratamento dado aos imigrantes, aos indocumentados, aos ciganos. Encontrarão situações concretas que vos levarão a dar curso a uma acção forte em prol da cidadania. Procurem e encontrarão!

e improvavelmente ser feliz

2011-04-15

Que "Nova Evangelização"?

A minha resposta a este inquérito, também, publicada aqui.


1. Essas transformações foram portadoras de autonomia para o homem. Que é chamado a viver a experiência religiosa, não como uma necessidade ou de forma condicionada pelas estruturas religiosas, mas em liberdade criativa.
Mas a complexidade é própria do viver humano. "Assim o que realizo, não o entendo: pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço." (Rm 7, 15). Todos os actos e realizações humanas vivem a tensão da luz e das sombras. Só Deus é criação pura. Ter consciência disso, ajuda-nos a olhar para nós próprios, para o nosso grupo religioso e para a sociedade, não através de um modelo ideal que se persegue (e nunca se conseguirá alcançar), mas sabendo que é a actividade do nosso caminhar que nos humaniza.
É, ainda, desavisado e imprudente utilizar um único modelo religioso e social (e é isto que, quanto a mim, o documento do Papa reflecte) para avaliar a espiritualidade e religiosidade contemporâneas.

2. As leituras são sempre múltiplas. Mas temos como base deste inquérito o documento papal, que reflecte o olhar de uma hierarquia que vive à margem da sociedade e até das comunidades católicas e vive apoiada numa estrutura centralizadora.
A secularização é o sinal de que já não é possível viver mais esse modelo. Perante ela temos vários caminhos. Ou se teima em alimentar e fomentar o mesmo esquema doutrinal e institucional (com as consequências que se vão verificando: comunidades reduzidas a idosos e a práticas ritualistas que já não dizem nada do que pretendem ser:"sal da terra", "fermento na massa", "ressurreição"). Ou aceitamos o desafio do tempo que vivemos que, a par de desenvolvimentos técnicos, científicos e humanos, configura uma grave "injustiça globalizada". E o cristianismo tem um largo espaço de acção neste campo.
O espanto dos evangelhos é apresentarem-nos um Jesus próximo, companheiro, interpelador. Quantos são os bispos efectivamente presentes nas suas comunidades? E no meio social que é todo o espaço da diocese?

3. A expressão é dúbia. Têm-se em conta as diferentes realidades? Parece-me que não. Uma evangelização que não tenha em conta a pluralidade do paradigma actual - económico, multirracial, multi -religioso, feminista, espaço privado da consciência - não pode ser considerada nova.
E muito menos será nova, apenas, por utilizar os meios informáticos e tecnológicos de que dispomos. Utilizar novos meios e manter a estrutura é desperdiçar oportunidades.

4. E quando é que se dá esse "início"? Eu diria que é um início que está sempre acontecendo. Um cristão (ou um grupo) "corre para a meta" não é a "meta".
"Eu sou a ressurreição e a vida! (Jo 11,25) Jesus pôde afirmá-lo com propriedade e verdade. Nós, crentes cristãos, descobriremos com humildade que a nossa vida está marcada pela finitude e pela morte. Quanto maior for a nossa consciência de peregrinos, mais percebemos que a nossa adesão a Jesus não nos faz diferentes de ninguém. Todos fazemos parte do Todo. Então, individualmente e como grupo religioso, aprenderemos a dialogar e a descobrir o que é a vida.

5. Por tudo o que disse acima facilmente se conclui que concordo com o Papa: não implica “uma única fórmula igual para todas as circunstâncias”.
Desconhecia o debate sobre "estratégias e métodos." Não quero ser muito negativista, mas como não sê-lo com uma Conferência Episcopal tão discreta, tão alinhada à estrutura eclesial dominante? Sem alterar a estrutura não há linguagem, nem métodos que não passem de episódios voluntaristas.
Não posso ignorar, porém, que um pouco (ou muito) à margem da "estrutura" existem já grupos e indivíduos que vivem um modo diferente de ser Igreja e ser cristão.
O Espírito continua a soprar e a vivificar no mistério.

2011-04-10

em memória

Desafiar o medo e ousar a esperança é perigoso: pode custar a vida e o esquecimento.

regressar ao lugar sem sombras

DESAMORDAZARME Y REGRESARME
 
¿Quién soy yo? Voy repitiendo
la pregunta año tras año.
 
Descarto lo que, sin duda,
sé que no soy.
Ni este cuerpo vulnerable
ni los enloquecidos pensamientos
ni los veleidosos sentimientos.
 
Como tantas veces, nada en mi cuerpo,
en mi mente, en mi corazón,
que pueda llamar yo, considerar yo
sin fisuras o incertezas.
 
Ni la mano que escribe
ni la boca que sonríe y besa
ni los ojos que miran.
Nada… nada…  ¿nada?
 
Quizá deba empezar de nuevo;
ir más allá de los ojos,
desamordazar los ojos,
deshacerlos, quedarme con su esencia…
 
Tal vez sea, en primer lugar,
la mirada que contempla,
que taladra y desvela,
que une lo observado y el que observa…
 
Acaso deba hacer así con todo;
desamordazar la boca,
que ríe, besa y alienta,
capaz de pronunciar
palabras que sanen o verdades…
 
Desmordazar la mano que escribe,
que nombra y silencia,
que pregunta y contesta
a la vez, mano que baila
porque oye en el temblor de una garganta
la voz del universo…
 
Acaso deba hacer así con todo;
ir siempre más allá de la apariencia,
desmontar las tramoyas, los telones,
y encontrar lo que soy,
creciendo libre.
 
(Eugenia DOMÍNGUEZ, Vocación de diamante,
Torremozas, Madrid 2005, pp.38-39).

2011-04-05

Oooooh!!!



Tirem-me deste filme!

imagem - Kathe Kollwitz

era uma vez...

...um país de coveiros. Apertados uns contra os outros abriam as respectivas covas dos inimigos, correspondendo fielmente à sua mútua inimizade. As pás subiam e desciam brilhantes rítmicas, e a terra era atirada de uma cova para outra, numa chuvada feericamente pesada. Nesse país todos estavam loucos pelo desejo de  retribuir a retribuição. Tinham muito sangue português.

Ana Hatherly - (Tisana 212)

2011-04-03

Adélia Prado: "você só tem a sua vidinha"

exilada

A catecúmena

Se o que está prometido é a carne incorruptível,
é isso mesmo que eu quero, disse e acrescentou:
mais o sol numa tarde com tanajuras,
o vestido amarelo com desenhos semelhando urubus,
um par de asas em maio e imprescindível,
multiplicado ao infinito, o momento em que
palavra alguma serviu à perturbação do amor.
Assim quero "venha a nós o vosso reino".
Os doutores da Lei, estranhados de fé tão ávida,
disseram delicadamente:
vamos olhar a possibilidade de uma nova exegese
deste texto. Assim fizeram.
Ela foi admitida, com reservas.

Adélia Prado, in Bagagem



2011-04-01

resistir inútil

 No regresso a casa ouço, com espanto, uns sons tirados sem ritmo e com sentido esforço de um instrumento de sopro. Reflicto um momento e entendo de onde vêm: O senhor João (octogenário)  era um exímio tocador de trompete. Chego a casa e leio:

Para existir é preciso assimilar a diversidade do paradigma universal que é feito de um tecido de ritmos. Cada elemento traz a assinatura de uma apetência essencial que consiste em resistir ao não-ser. Mas tudo quer ser tudo: por isso a flor incita o insecto e o insecto a flor tentando não desaparecer enquanto o grande jardineiro controla com desvelo a violência da entrega.

(ana hatherly - 463 tisanas)

2011-03-27

tão bela observação ao arrepio da desumanização legalista reinante

Nada melhor que após um frutuoso entendimento uma das partes acolhe serenamente não desejar nada que pertença à outra parte... Tão belo o amor na hora da consumação da ruptura fraterna.

daqui

catolicidade

Costumo dizer e sentir que Roma fica muito longe como objectivo da minha fé. Alguém que admiro (e nunca vi) e vive a muitos quilómetros de distância, oferece-me a sua amizade sincera. E sinto-me tão perto.

porque hoje é domingo

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento! ...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento ...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

2011-03-26

independentemente da opção, não se elimine é a tensão do que significa viver

Una determinada ética cristiana considera absoluto el valor de la vida por encima de cualquier otro
La eutanasia es un tema incómodo para la ética, quizá por una concepción sacral e idealizada de la vida y por una imagen trágica de la muerte y del miedo a la nada. Y no debiera ser así porque, si bien la vida no es un valle de lágrimas, tampoco es un jardín de delicias, y porque la buena muerte -ese es el significado etimológico de la palabra- es la consecuencia lógica de la propuesta ética del bien vivir y de la calidad de vida, defendida por todas las filosofías morales.

daqui
Gn 12, 1*O SENHOR disse a Abrão: "Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar."

Ocorre, ocasionalmente, escutar algo que não era suposto ouvir. Tal como acontecia tantas vezes na infância. Penso: tenho possibilidade de escolha. Será?











dos muitos modos de iludir a fome

O meu jardim é um antijardim. Estou aqui porque não posso estar noutro lugar. Sigo por uma álea lateral. Numa curva do caminho vejo um gato que corre atrás dum pássaro: é um gato malhado. A cerca de cinco metros de distância de mim ambos estacam de repente. O gato espalma-se contra a relva, bate com a cauda nervosamente enquanto o pássaro está parado diante dele a cerca de um metro. Eu estaco aguardando os acontecimentos. Espero o ataque do gato. O pássaro numa extraordinária demonstração de confiança está parado diante do gato que treme mas não se mexe. Então o pássaro dá uns saltinhos para a direita e para a esquerda. Não levanta voo. Fica ali diante dele provocando-o. Um minuto, dois talvez. O gato continua com o ventre colado à relva fria batendo com a cauda agora mais lentamente. De repente surge outro pássaro. Pára também diante do gato. Por fim como o toureiro depois de dominado o touro o primeiro pássaro volta as costas ao gato exibindo o seu desprezo altivo. Nesse momento avanço para dar um álibi ao gato.

Ana Hatherly - "463 tisanas"

2011-03-22

há ainda olhos que não mentem

- Gostas, sim! vê-se nos teus olhos.
- (...)
- A tua cabeça diz uma coisa, mas o coração diz outra.
- (...)
- Eu sei ler nos olhos. E os teus dizem que gostas dele.

Não resisti a voltar-me para trás e conhecer os olhos e a boca que se exprimiam com tanta convicção.
Três pré-adolescentes (afinal ainda há disso... que se lixe a porra do País mais os políticos que nos cabem em sorte...) esperavam  vez para pagar as guloseimas.


2011-03-19

as partidas da vida

o que dizem os tops

O livro “Jesus de Nazaré – Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição”, de Joseph Ratzinger, encontra-se no 2.º lugar do top Bertrand, é o 2.º mais vendido do El Corte Inglés e está no 4.º lugar na tabela da Fnac.

Conclusões: Jesus é uma presença viva e actuante no séc. XXI. Os cristãos e, sobretudo, os católicos são quem mais lê em Portugal. A Igreja católica não tem razão quando diz que, estão erradicados da sociedade os valores cristãos, e esta está cada vez mais secularizada.

enquanto não é possível enterrar os mortos

O modo poético

Quando se passam alguns dias
e o vento balança as placas numeradas
na cabeceira das covas e bate
um calor amarelo sobre inscrições e lápides,
e quando se olha os retratos e se consegue
dizer com límpida voz:
ele gostava deste terno branco
e quando se entra na fila das viúvas,
batendo papo e cabo de sombrinha,
é que a poeira misericordiosa recobriu coisa e dor,
deu o retoque final.
Pode-se compreender de novo
que esteve tudo certo, o tempo todo
e dizer sem soberba ou horror:
é em sexo, morte e Deus
que eu penso invariavelmente todo o dia.
É na presença d'Ele que eu me dispo
e muito mais, d'Ele que não é púdico
e não se ofende com as posições do amor.
Quando tudo se recompõe,
é saltitantes que vamos
cuidar de horta e gaiola.
A mala, a cuia, o chapéu
enchem o nosso coração
como uns amados brinquedos reencontrados.
Muito maior que a morte é a vida.
Um poeta sem orgulho é um homem de dores
muito mais é de alegrias.
A seu cripto modo anuncia,
às vezes, quase inaudível
em delicado código:
"Cuidado, entre as gretas do muro
está nascendo a erva..."
Que a fonte da vida é Deus,
há infinitas maneiras de entender.

Adélio Prado in "Bagagem" 

2011-03-17

a comunidade não pode anular o indivíduo. Nem o contrário...

Ele [Jesus] utiliza uma linguagem que não é fechada nem de sentido único, mas sempre com uma semântica plural, uma diversidade de sentidos. Isso dá à sua palavra uma riqueza enorme e uma responsabilidade de apropriação, no sentido que cada leitor, cada ouvinte, é chamado também a apropriar-se de uma forma original daquilo que lê e ouve.

daqui

liberdade condicional

Não era a primeira vez que a imagem dos raios de sol a incidir no orvalho depositado nas ervas, me causava espanto. Não era um olhar de ver. Era um olhar de "ser com". Foi com violência que desprendi o olhar e segui em frente. A vontade era ficar, ali, a dissolver-me gota-a-gota.

2011-03-15

"O dia da Ira"

O país vai como se sabe. E eu numa terça- feira igual a tantas outras não fosse  a aquisição de mais um livro da Adélia Prado. E ser testemunha, entre coisas menos boas, do balbuciar de alívio de um homem que à saída do consultório, repetia ora para mim (perfeita desconhecida) ora para a companheira:"Estou limpo! Estou limpo! só vou voltar daqui a cinco anos. Finalmente... consegui!"

As coisas tristíssimas,
o rolomag , o teste de Cooper,
a mole carne tremente entre as coxas,
vão desaparecer quando soar a trombeta.
Levantaremos como deuses,
com a beleza das coisas que nunca pecaram,
como árvores, como pedras,
exactos e dignos de amor.
Quando o anjo passar,
o furacão ardente do seu vôo
vai secar as feridas,
as secreções desviadas dos seus vasos
e as lágrimas.
As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera dos seus nomes.

Adélia Prado


2011-03-12

tentações

Em Jesus  manifesta-se um Deus que não se deixa manipular, e um homem que não tem de manipular a Deus nem a outros homens  e tão pouco deixar-se manipular por alguma coisa, se quer alcançar a verdadeira plenitude humana.

e o Japão aqui

tão perto

um desafio com sentido

Do Blogue confessionário, chega-me este desafio. Tem demasiadas regras e formalidades (à boa maneira romana) mas o importante é o conteúdo e o sentido da iniciativa

À luz da figura bíblica de  Abraão encontro uma mensagem que ilumina o percurso que é desafiado a renovar-se todos os dias.

Vou transmitir o testemunho ao Vitor. Por variadas razões. É só ler o último post dele e compreende-se... ;)


 

Regras da quadragésima.com:
  1. Ao receber a “quadragésima.com” o blogger deve reflectir na sua relação com Deus e descobrir uma frase bíblica que a defina
    1.1- só se admitem frases retiradas, com citação, da Bíblia;
    1.2- as frases devem ser o mais curtas possíveis;
  2. Depois de o fazer deve re-escrever num post estas regras, as frases já assinaladas pelos anteriores bloggers (com o respectivo link), e escrever a sua;
  3. No post deve incluir quem deseja convidar (pode e deve manifestá-lo no blog da pessoa convidada);
  4. Não é permitido fazer mais que um convite ao mesmo tempo;
  5. O blogger que, recebendo a “quadragésima.com”, não estiver interessado em aceitá-la, deve indicá-lo ao seu emissário para que este lhe dê seguimento através de outro blogger;
  6. Não podem aceitar mais que uma vez a “quadragésima.com”; se o convite aparecer, mesmo vindo de outra “frente”, devem igualmente informar o emissário do segundo convite;
  7. Baseada nalgumas das principais figuras da liturgia da Quaresma, a “quadragésima.com” realiza-se em 3 frentes: frente “Adão” (I Domingo); frente “Abraão” (II Domingo); frente “David” (IV Domingo); estas frentes funcionarão quase como equipas, para tentar chegar ao maior número de bloggers possível (não se trata de encontrar vencedores, mas empenhados)
  8. A “quadragésima.com” será encerrada na Sexta-feira Santa, dia 22 de Abril, pelas 12.00 horas, hora em que o último blogger receptor deve endereçá-la, já com a sua frase, a este endereço, para publicitarmos todas as frases que definem a nossa relação com Deus nesta Quaresma de 2011.
  9. Os “anónimos” interessados em participar nesta “quadragésima.com”, podem escrever as suas frases no sítio do Confessionário dum Padre, aqui, identificando-se.


E a minha citação/mensagem é:

 
Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. (Jo 10, 10)

2011-03-09

 A Poética do Precário

Ela só pode lidar com as coisas
incompletas. Fascinam-lhe a
incompletude e as sobras,
as coisas abandonadas,
as epístolas de palha.



Por isso, no Evangelho, só quer
aprender a carta de Tiago, por
Lutero esconjurada.
Esconjurada por
Lutero.



Ela é a esconjurada.



Outro dia, quis testar
a lei da gravidade,
coitada.



Saltou em plena rua,
no canteiro no meio
da avenida.



Pensou poder chegar
ao terceiro andar ou
ao terceiro empíreo.



Na verdade, ergueu-se
uns trinta centímetros
do chão, a combalida.



Sequer ainda tem impulsão.
Sequer tem impulsão ainda.



Pulou com a cabeça erguida,
contemplando o céu, assustada,
puta da vida e ansiosa, como quem
fosse mergulhar no azul do mar acima.
Acima, no azul do mar.



Chegou à conclusão que o
Infinito a empurrara para
trás, para trás a empurrara.



Ela era mesmo a esconjurada.
Esconjurada era ela por Lutero.
Mal-amada-pelo-Céu-de-aço
-feito-Inferno. Assim era ela.



Talvez houvesse um jeito de
dar um passo maior um salto
um pouco maior, avançar um
pouco além de Tiago, de Jesus
irmão. Tiago o irmão de Jesus.



Talvez pudesse ler o Evangelho
de Marcos, por ser o mais curto.



Seu fôlego é limitado.
E ela gosta das coisas
curtas. Ela é a esconjurada por
Lutero e mal-amada-pelo-céu
-de-aço-feito-inferno. Assim é
ela. Ela é a sobra. Nada
encantadora.



E o Evangelho de
Marcos é o mais
pobre. A pobreza
lhe cai bem. Ela é
talhada para o
vestido pobre.



Para andar nua ou rasgada,
por Lutero, a esconjurada,
rasgada por Lutero. Eis a
luterana, enfim.
A última das
moicanas.



Quando ela chora,
eu a tranquilizo e
lhe empresto um
trapo. Depois
cobro.



Eu mesmo, outro
esconjurado.



O mesmo outro,
o outro mesmo,
também por Lutero
mal-amado.



Assim, ela gosta de mim,
mesmo quando lhe empresto
meu lenço, já
assoado.



E lhe asseguro que
o Evangelho de Marcos
é o melhor. É o mais curto.



Não subestima os defeitos
dos Apóstolos, o olhar encolerizado
de Jesus contra o formalismo farisaico.



Sentada na calçada, por algumas horas,
ela pode se atracar com esse texto.
Se eu por ali passar, lhe empresto
meu lenço. E ambos puxamos um
fumo e uma salva de palmas a
Lutero que nos esconjurou.
Que esconjurou a ambos.
Ficamos com Marcos.



A ela interessam os defeitos
humanos, a ela interessa a
imperfeição que aos homens
dá contorno em cada situação.



A imperfeição que dá contorno
aos homens todos. Por isso fica
com Marcos. Ficamos. Cuspimos
no resto. Tropeçamos os dois no
mesmo tropeço. Ficamos com o
Evangelho mais curto e com a
carta de Tiago, a epístola de
palha. Somos dois palhaços.



E a imperfeição nos dá
contorno. Andamos por
aí, andando andamos.



Andando por aí como
uma vadia, perambulando e
assoando o nariz no meu lenço
já grudando nos dedos, ela nada
sabe de formalidades, não pode
entendê-las nem atendê-las se
por acaso batem à porta ou a
assaltam à sombra. Chuta uma
ali, uma formalidade, cospe noutra,
sem nem bem se dar conta do que
faz, quase sem querer. Ou delibera
chutá-las, nos seus momentos mais
lúcidos luciféricos anti-luteranos.



Nos seus melhores momentos,
quando seus olhos faíscam e
ateiam fogo ao pó e ao cisco.



Pandora trouxe todas as armas
e armadilhas ao mundo, a filha
da puta. Ela as detecta, tropeçando.



Ela é o avesso de Pandora, a portadora
da confusão, a traiçoeira. Ela é o avesso
d'Aquela: pisa na ratoeira e sai, com um
dedo a menos, mancando, ainda mais bela.



Assim é ela, que emerge da confusão
mancando, que da confusão emerge,
aparentemente sem direcção e sem
dedos, logo logo. Mancamos ambos.



Fidalguia pura. Bizarrice e meiga
tolice. Pura beleza feita de recortes
e retalhos. Arte pobre. Poética do
Precário. Sempre que posso lhe
empresto meu lenço, beijo-lhe
o rosto, as mãos e saio.
 
Marcelo Novaes



roubado daqui



2011-03-05

apontamento

Grande consolação: esquece-se a dor de dentes porque se solta a película da chaga e esta volta a verter...
Em que Deus pensamos quando imaginamos ou propomos que amando menos a um ser humano o amamos mais a Ele?

"uma carta aberta ao Papa - a propósito de um livro, aqui"

2011-03-03


Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu próprio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.

Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!

Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!

E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento

António Botto
(1897-1959)

2011-03-01

nada pior para a vida do que a ideia da perfeição

 Porém ao Mestre o que serviram foram os olhos da Discípula num prato, num prato de osso, talvez de marfim. Provavelmente no marfim dos cem vezes trinta e dois dentes da Discípula.
A Discípula trazia os olhos em ofertório. Ou ex-voto. Pô-los no altar do Mestre e ficou contemplando-o incessantemente, porque está claro, não tinha pálpebras, o que é muito perturbante. O Mestre a certa altura já via os olhos da Discípula por toda a parte: por cima das paredes, no meio do lenço de assoar, na ponta da escova de dentes, enfim, em toda a parte. Os olhos dos discípulos são muito indiscretos - não há nada mais perturbante do que a candura. Alguém que nos admira e nos coloca num pedestal é o nosso maior inimigo - a gente nunca tem possibilidade de se apear do plinto e comer amendoins. Ah, os olhos dos discípulos devotos, dedicados, amantes até ao sacrifício, perseguindo-nos até ao complexo de inferioridade, ao tic, à mania da perseguição, à claustrofobia, ao horror da vida em geral! Aquelas pessoas que nos consideram os mais belos, os mais perfeitos, os mais direitos, ou os mais redondos ou os mais bicudos ou os mais quadrados ou o não sei mais o quê e não nos deixam um minuto no quarto minguante!  A gente não consegue fazer-lhes entender que as fases são necessárias e que lá porque de vez em quando a gente diminui um bocado não quer dizer que a lua deixou de ser redonda, é uma questão de a gente pôr um bocado da alma à sombra para arrefecer, não acham?

Ana Hatherly, "O Mestre"

quando uma palavra nos lembra a imensidão da nossa vida...

Li a palavra "plinto". Soou-me completamente estranha.  O dicionário da Priberam diz que, entre outras coisas, é um aparelho de ginástica. Há uma eternidade saltava por cima de um...