2011-07-28

um Deus terno



Entretanto, Eu ensinava Efraim a andar,
trazia-o nos meus braços,
mas não reconheceram
que era Eu quem cuidava deles.
Segurava-os com laços humanos,
com laços de amor,
fui para eles como os que levantam
uma criancinha contra o seu rosto;
inclinei-me para ele para lhe dar de comer.


Oseias (11, 3-4)


imagem- Marc Chagall (Sacrifício de Isaac)

outra Igreja é possível?

Na Igreja há muitos indignados. O problema é não saberem o que fazer neste momento.



daqui

2011-07-25

2011-07-23

o lugar do coração

Se Deus nos aparecesse em sonhos e dissesse: “Pede o que quiseres”, que quereríamos? A saúde para nós ou para quem amamos, o euromilhões para ter uma vida descansada, um emprego, uma casa digna, fama e poder? Necessidades ou excessos, que bem justificaríamos. O rei Salomão, muito novo e inexperiente, pediu “um coração inteligente, para saber distinguir o bem do mal”. Ainda que jovem, já descobrira que o projecto de Deus não é escolher em vez de nós, nem dar-nos aquilo que podemos alcançar, mas erguer-nos à grandeza de escolhas livres e responsáveis. O coração, no contexto bíblico, não é apenas o lugar da afectividade e dos sentimentos. É o centro da identidade pessoal, onde se unem a capacidade de amar, o conhecimento e a inteligência. O que Salomão pede é uma inteligência fundada no amor, capaz de ver para além do imediato e da aparência, e assim melhor servir o seu povo.

P. Vitor Gonçalves, aqui

2011-07-19

parece uma questão marginal

mas não é. Pertinente, é também, a incapacidade para ler e entender um texto (que algumas pessoas demonstram nos comentários) que é claro quanto à sua forma e conteúdo. Um mal que se entenderia em pessoas menos letradas e com baixo nível de escolaridade, mas que se encontra em pessoas com elevados graus académicos. Surpreendente.

2011-07-17

o amor não tem pressa

com paciência

26É assim que também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que havemos de pedir, para rezarmos como deve ser; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. 27E aquele que examina os corações conhece as intenções do Espírito, porque é de acordo com Deus que o Espírito intercede pelos santos.

Rm 8, 26-27

2011-07-16

mais outra

mulher a ler.

mulher a ler

 
1. Existe um livro que relerias várias vezes?

Existem vários. Já o fiz e penso continuar a fazê-lo. Por diversas razões. Sendo a principal que o diálogo entre mim e ele(s) não está encerrado.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

 Mais do que numa primeira impressão enumeraria. Alguns não desisti deles. Estão ainda à espera de nova(s) oportunidade(s).

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?

Um...bem, só um é difícil a escolha. Alguns dos profetas do Antigo Testamento. Os quatro evangelhos. Vários de poesia.

3A. Se escolhesses uma vida para meter num livro, qual seria?

 Aqui vou esticar-me um bocadinho. Numa vida cabem vários livros. Mas nenhuma vida caberia num livro. (A pergunta pressupõe um ponto de vista redutor) 
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste? 
Mas quem é que inventou este questionário?! Se não li, como é que sei que gostaria de ter lido? Tenho uma lista mental de livros que quero ler. Uns lerei outros não. 

4A. Que livro gostarias de não ter lido mas que, por algum motivo, leste?
 
Já li algum lixo  (classificação própria) e que foram tratados como tal (quando fiz mudanças ou precisei de espaço nas prateleiras). Mas se não é abuso perguntar: que fixação será esta do livro único.


 5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?

  Assim, de repente, e mesmo forçando muito, não estou assim a ver "cena final" nenhuma. Lembro-me de   algumas "cenas" e das repercussões que tiveram em mim.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Aprendi a ler aos sete anos. Entrava-se na escola no dia sete de Outubro de cada ano.
Mas ainda não me entregava a muitas leituras. Com dez anos, sim. Comecei com o vício. Que já perdi. Vou dizer do que não gostava: biografias. Durante muito tempo achei que era um disparate encher livros a contar a vida das pessoas. E perder tempo a lê-los. Mudei de opinião, e, mesmo atendendo à resposta que dei na pergunta 3A, comecei a gostar de conhecer pessoas através da autobiografia ou biografia que fizeram, e fazem, delas.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim. Porquê?  

Se fosse só um! (Que mania) A razão é que fico sempre à espera que apareça o instante da redenção. Umas vezes tenho alguma sorte. A maioria das vezes, não.

7A. Qual o livro que achaste tão bom tão bom tão bom mas que ainda assim o mandaste logo para o lixo ?

Passo.


8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Não posso. Estão vários nas prateleiras atrás de mim. Citar alguns e deixar os outros, não me parece apropriado. Nem sequer um autor.  O gosto expresso  nas minhas  leituras são como o  meu coração - ecléctico.

8A. Que livro é que incluirias no plano internacional de leitura?
As minhas influências não vão para além da família e amigos. Vou oferecendo alguns na esperança de que os leiam.

9. Que livro estás a ler?
 
  Estou a ler as Ondas. Há muuuuuito tempo. Dois de poesia. Acabei de ler As Cidades Invisíveis e o Avesso e o Direito.

9A. Que livro é que não estás a ler?

Todos os outros. E mais alguns.



Como, não citei o Merton. Se citei alguém e não mencionei, foi  sem querer. É suposto passar a corrente. Vou passar a dois senhores: ao Lino (gosta de poesia como eu...e de malhar no Papa) e ao ON (para desenjoar de outros afazeres e actualizar o blogue).

2011-07-14

profetas do quotidiano

Santa Teresa fala de pessoas que têm uma vida muito ativa, dispersa numa multiplicidade de empenhos, e que, no entanto, conseguem uma vitalidade espiritual. Há, de facto, um mal-entendido de séculos que opõe, no interior da nossa cultura, para não dizer da nossa própria consciência, a contemplação à ação. Como se a vida ativa necessariamente nos desertificasse, atirando-nos para longe de nós próprios e de Deus. Ora, falando às suas irmãs contemplativas, Santa Teresa critica esta ideia e diz que a exterioridade pode até fecundar a experiência espiritual mais profunda. Mesmo o gesto exterior mais comezinho ou ínfimo, mesmo os gestos sem nenhum relevo como são os da rotina da cozinha (serão mesmo sem relevo?), ainda esses devem ser compreendidos de outra forma, pois o Deus Todo-Poderoso, o Grande Senhor do Universo move-se pela nossa cozinha, entre púcaros, vasilhas e panelas. Fomos habituados a pensar a vida espiritual como uma representação, um enredo que se passa unicamente num espaço nobre e ordenado, um intervalo sobreposto à vida. A existência quotidiana, ínfima, banal, rotineira achamos que não é para Deus, nem a consideramos capaz de ligar-nos a isso que é o sagrado. Contudo, diz-nos Santa Teresa: “Deus move-se entre os tachos”.

aqui

Facundo Cabral - 27/05/1937 - 09/07/2011

2011-07-10

o amor não engana: aqui sou feliz

Começou por ser uma bola e o excesso é apenas aparente. Porque também está um piu-piu, um gato, o pai, a mãe...um peixe, uma cobra e  a avó.

2011-07-08

Paris, 8 de Julho de 1921


“Se eu fosse guiado só pela luz da razão, diria que o mundo vai rumo à catástrofe. Mas, na história da humanidade, existe o imprevisto, o facto inesperado que muda o curso das coisas. Eis porque, no fundo, sou optimista.”

Edgar Morin

2011-07-03

boas propostas de reflexão e discussão


O elogio da Fraternidade por Manuel Carvalho da Silva from Pastoral da Cultura on Vimeo.

uma luta nada light

A que travo com os melros. Aqui fica a ilustração dos despojos, resgatados à voracidade dos malvados.

Onde está o meu Deus

«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos" (Mt 11,28) 

A forma que as religiões têm encontrado para se impor, é contrapondo a finitude, a perplexidade, a fragilidade do viver humano,  ao  poder divino. Para ser mais específica: Opondo Natureza e Graça.
Para o homem ser digno aos olhos de Deus, não lhe chega ser homem: tem de ser santo.
São secundárias as relações humanas, os instantes de gozo, as circunstâncias comezinhas da vida, porque tudo isso é nada frente ao poder de Deus.
Mas este discurso da maioria das religiões, e, sobretudo, do cristianismo, colide com o testemunho de vida de Jesus Cristo. E resume-se o mesmo a que Deus não é alheio, indiferente, distante da natureza humana, de cada homem. 
As lutas que cada pessoa, individualmente e socialmente, trava, não são entre a natureza humana e o poder divino. São consequência daquilo que somos: finitos. Mas se esta finitude nos impede de viver de forma plena, não quer dizer que nos estejam vedados instantes de redentora eternidade. O caminho é combater os discursos formatados, venham de onde vierem. Centrar a nossa vida no instante presente. Descobrir quem somos...e viver de coração aberto. Rasgado, mesmo!
 

2011-06-30

que o afã de construir não cerre nossos olhos

Quem chega a Tecla, pouco vê da cidade, por detrás dos tapumes de madeira, dos abrigos de serapilheira, dos andaimes, das armações metálicas, das pontes de madeira suspensas por cabos ou seguras por cavaletes, dos escadotes, dos postes. À pergunta: - Porque demora tanto tempo a construção de Tecla? - os habitantes sem deixarem de içar baldes, de soltar fios de prumo, de mover para baixo e para cima longas trinchas, respondem: - Para que não comece a destruição. E inquiridos se temem que assim que se retirarem os andaimes a cidade comece a esboroar-se e a cair aos bocados, acrescentam à pressa, em voz baixa: - Não só a cidade.
E se, insatisfeito com a resposta, alguém aplicar o olho à greta de uma paliçada, vê gruas que elevam outras gruas, andaimes que revestem outros andaimes, traves que escoram outras traves. - Que sentido tem o vosso construir? - pergunta. - Qual é o fim de uma cidade em construção se não uma cidade? Onde está o plano que seguem, o projecto?
- Mostrar-to-emos assim que acabar o dia; agora não podemos interromper-nos - respondem.
O trabalho cessa ao pôr do sol. Desce a noite sobre a obra. É uma noite estrelada. - Eis o projecto - dizem.

Italo Calvino - "As Cidades Invisíveis"
As cidades e o céu. 3

2011-06-26

HADEWIJCH de Bruno Dumont

uma só Igreja que vai para além das diferentes expressões cultuais

É difícil encontrar em “Roma” ou nas outras expressões cultuais do cristianismo a tal “boa nova” do carpinteiro Jesus (no seu texto é pedreiro, para o caso não interessa nada). Sobretudo, quando pretendem, cada um à sua maneira, defender que há um único modelo de Igreja fundada por Jesus, o nazareno, dos Evangelhos (canónicos ou apócrifos).
A preocupação de Jesus não é fundar alguma Igreja. É ser agente de “inclusão”, dizemos numa linguagem actual, de todos, sobretudo dos mais marginalizados, encontramos nos evangelhos canónicos.
Viver uma vida uma vida espiritual é compatível com a radicalidade evangélica. Jesus é o cabal exemplo disso mesmo. Certos modelos de cristianismo tornaram antagónicas as duas dimensões da vida humana.

a minha resposta a este post do Val, in "aspirina b"

"a dança das feridas" ou o modo de nada saber

Declaração

Moro nas sarças. Raramente saio daqui.
Gosto de por aqui ficar.
Há sempre alguém por perto,
alguém que nos diz não vás longe,
Alguém a quem chega a maresia,
a erva, o espectro duma ave  rapina
adejando sobre a leveza da sombra.

Aqui há sempre alguém por perto,
alguém com quem falar
do que nada importa,
alguém que nos abre, isso mesmo,
a porta, alguém que diz fica
e nós ficamos porque sabe bem ficar
a falar do que não importa:
dos moinhos, dos pastores,
dos amoladores, da pescaria,
dos vários tipos de isco
que o peixe exige ao largo das sarças.

Sabe bem ficar neste horizonte
de não pretender entrar.
Sabe bem dizer não
a quem lá no fundo acena.
Aqui sabe muito bem encostar a cabeça
ao ombro das rasuras,
voltar para dentro do cuspo
a desmesura dos gestos,
tricotar a pele dos regressos,
a mesma que endurece
sempre que alguém, lá de longe,
nos promete, isso mesmo, uma conquista.

Aqui sabe bem dizer não
e declinar os convites.
Ficar, isso mesmo, pela solidão.
Como quem fica, isso mesmo, pelos acepipes.

Mas a ti, meu amor,
por ti de tudo me desfaço, me renovo,
por ti  tudo perco e perco-me nesse perder
como quem ganha tudo
o que pode ganhar.
Isso mesmo: o amor
das almas que se encontram
sem nunca terem pretendido encontrar.


Henrique Manuel Bento Fialho; "A Dança da Feridas"

2011-06-23

um banquete para todos

DARSE A LOS DEMÁS, SIN TRUCOS DE MAGIA

 
La eucaristía es una realidad muy profunda y compleja, que forma parte de la más antigua tradición. Tal vez sea la realidad cristiana más difícil de comprender y de explicar. Podemos quedarnos en la superficialidad del rito y perder así su verdadera riqueza.
 
Para que veáis que no exagero, voy a contar dos anécdotas que me han sucedido en mi relación con dos representantes de la jerarquía.
 
El primero me dice: “te exigimos que no metas ninguna morcilla en la celebración de la eucaristía”. Todos sabéis lo que es un “morcilla”, además de un embutido, claro. El diccionario dice: “añadido que hace por su cuenta el actor de teatro cuando representa un papel”. Da por supuesto que estoy haciendo teatro y lo que se me pide es que represente bien mi papel. No le contesté.
 
El otro me dice: “tienes que ser como el farmacéutico, que reparte pastillas al cliente sin contarle el proceso del laboratorio”. Aquí si hubo comentario, porque le dije: “la aspirina produce su efecto automáticamente, aunque el paciente no sepa nada del ácido acetilsalicílico; pero la comunión está a años luz de ese pretendido automatismo. Si el comulgante no se entera de lo que está haciendo, no le servirá de nada”.
 
Lo grave no es que dos vicarios piensen eso de la eucaristía. Lo gravísimo es que todos hemos pensado –y algunos siguen pensando- así de los sacramentos.
 
Debemos superar muchas visiones raquíticas o erróneas sobre este sacramento.
 
1º.- La eucaristía no es magia. Claro que ningún cristiano aceptaría que al celebrar una  eucaristía estamos haciendo magia. Pero si leemos la definición de magia de cualquier diccionario, descubriremos que le viene  como anillo al dedo a lo que la inmensa mayoría de los cristianos pensamos de la eucaristía:
 
Una persona revestida con ropajes especiales e investida de poderes divinos, realizando unos gestos y pronunciando unas palabras “mágicas”, obliga a Dios a producir un cambio sustancial en una realidad material como es el pan y el vino. 


 
Cuando se piensa y se dice, que en la consagración se produce un milagro, estamos hablando de magia.
 
Trento afirma: “La Iglesia designa con el término muy adecuado de transubstanciación esta conversión eucarística”. Pero debemos advertir que “substancia” y “accidente” son conceptos metafísicos; no hacen referencia a ninguna realidad física. Además, esos conceptos no se emplean ya nunca con sentido metafísico.
 
2º.- No debemos confundir la eucaristía con la comunión. La comunión es sólo la última parte del rito y tiene que estar siempre referida a la celebración de una eucaristía. Tanto la eucaristía sin comunión, como la comunión sin referencia a la eucaristía dejan al sacramento incompleto. Ir a misa y dejar de comulgar, es sencillamente un absurdo. Ir a misa con el único fin de comulgar, sin ninguna referencia a lo que significa el sacramento, sino buscando una religiosidad intimista, es un autoengaño.
 
Esta distinción entre eucaristía y comunión explica la diferencia de lenguaje entre los sinópticos en la cena y Juan en el discurso del pan de vida que hemos leído. Juan dice hace referencia al alimento, pero fíjate bien, alimentarse lo identifica con, el que cree en mí, el que viene a mí.
 
3º.- En las palabras de la consagración, “cuerpo” no significa cuerpo; “sangre” no significa sangre. No se trata del sacramento de la carne y de la sangre físicas de Cristo.
 
Me explico. En la antropología judía, el ser humano no está compuesto por alma y cuerpo (concepción griega). El hombre es una unidad indivisible, pero podemos descubrir en él cuatro aspectos: Hombre-carne, hombre-cuerpo, hombre-alma, hombre-espíritu.
 
Hombre-cuerpo, para los judíos del tiempo de Jesús, es el ser humano en cuanto sujeto de relaciones con los demás. El concepto más cercano hoy, sería lo que nosotros llamamos persona. Cuando Jesús dice: “esto es mi cuerpo”, está diciendo: esto soy yo, esto es mi persona, estoy aquí para dejarme comer.
 
En el caso de la sangre: Para los judíos la sangre era la vida. ¡Ojo! No se trata de que fuese símbolo de la vida. No, era la vida misma. Cuando Jesús dice: “esto es mi sangre, que se derrama”, está diciendo que su vida, no su muerte, está entregada a los demás. Todo lo que él es, está al servicio de todos.
 
4º.- La eucaristía no la celebra el sacerdote, sino la comunidad. El cura puede decir misa. Sólo la comunidad puede hacer presente el don de sí mismo que Jesús significó en la última cena y que es lo que significa el sacramento.
 
Es el sacramento del amor. No puede haber signo de amor en ausencia del otro. Por eso dice Mateo: “donde dos o más estén reunidos en mi nombre, allí estoy yo en medio de ellos”.
 
5º.- La comunión nos es un premio para los buenos “que están en gracia”, sino un remedio para los desgraciados que necesitamos descubrir el amor gratuito de Dios. Solo si me siento pecador estoy necesitado de celebrar el sacramento.
 
Cuando más necesitamos el signo del amor de Dios es cuando nos sentimos separados de Él. Hemos llegado al absurdo de dejar de comulgar cuando más lo necesitábamos.
 
6º.- Lo significado en el pan y el vino no es Jesús en sí mismo, sino Jesús como don. El don de sí mismo que ha manifestado durante toda su vida y que le ha llevado a su plenitud, identificándole con el Padre. Ese es el verdadero significado que yo tengo que hacer mío.
 
Queda claro que la eucaristía no es un producto más de consumo que me proporciona seguridades a cambio de nada.  Podemos oír misa sin que eso nos obligue a nada, pero no se puede celebrar la eucaristía impunemente. No se puede salir de misa lo mismo que se entró, es decir, como si no hubiera pasado nada. Si la celebración no cambia mi vida en nada, es que la he reducido a simple rito folclórico.
 
7º.-Haced esto, no se refiere a que perpetuemos un acto de culto. Jesús no dio importancia al culto. Jesús quiso decir que repitamos el significado de lo que acaba de hacer. Esto soy yo que me parto y me reparto, que me dejo comer... Haced también vosotros esto. Entregad la propia persona y la propia vida a los demás como he hecho yo.
 
8ª.- los signos de la eucaristía no son el pan y el vino sino el pan partido y el vino derramado. Durante siglos, se llamó a la eucaristía “la fracción del pan”. No se trata del pan como cosa, sino del gesto de partir y comer.
 
Al partirse y dejarse comer, Jesús está haciendo presente a Dios, porque Dios es don infinito, entrega total a todos y siempre. Esto tenéis que ser vosotros. Si queréis ser cristianos tenéis que partiros, repartiros, dejaros comer, triturar, asimilar, desapare­cer en beneficio de los demás. Una comunión sin este compromi­so es una farsa, un garabato, como todo signo que no signifique nada.
 
Todavía es más tajante el signo del vino. Cuando Jesús dice: esto es mi sangre, está diciendo esto es mi vida que se está derramando, consumiendo,  en beneficio de todos.
 
Eso que los judíos tenían por la cosa más horrorosa, apropiarse de la vida (la sangre) de otro, eso es lo que pretende Jesús. Tenéis que hacer vuestra, mi propia vida. Tenéis que vivir la misma vida que yo vivo.
 
Nuestra vida sólo será cristiana si se derrama, si se consume, en beneficio de los demás. En la Eucaristía estamos confesando que ser cristiano es ser para los demás. Todas las estructu­ras que están basadas en el interés personal o de grupo, no son cristianas.
 
Una celebración de la Eucaristía compatible con nuestros egoísmos, con nuestro desprecio por los demás, con nuestros odios y rivalidades, con nuestros complejos de superioridad, sean personales o grupales, no tiene nada que ver con lo que Jesús quiso expresar en la última cena.
 
Celebrar la eucaristía es comprometerse a ser fermento de unidad, de armonía, de amor, de paz.
 
La eucaristía es un sacramento. Y los sacramentos ni son milagros ni son magia. El concilio de Trento dice: “Es común a la santísima Eucaristía con los demás Sacramentos, ser símbolo o significación de una cosa sagrada”.
 
Se produce un sacramento cuando el signo (una realidad que entra por los sentidos) está conectado con una realidad trascendente que no podemos ver ni oír ni tocar. Esa realidad significada, es lo que nos debe interesar de verdad.
 
La hacemos presente por medio del signo. No se puede hacer presente de otra manera. Pero las realidades trascendentes, ni se crean ni se destruyen; ni se traen ni se llevan; ni se ponen ni se quitan. Están siempre ahí. Son inmutables y eternas.
 
La eucaristía concentra todo el mensaje de Jesús.
 
El ser humano no tiene que salvar su "ego", a partir de ejercicios de piedad sino liberarse del "ego" que es precisamente lo contrarío. Sólo cuando hayamos descubierto nuestro verdadero ser, descubriremos la falsedad de nuestro yo individual y egoísta que se cree independiente del resto de la creación.
 
Imaginad una habitación llena de globos; si los pinchamos todos descubriremos que lo único que marcaba la diferencia, la fina película de caucho coloreado, no era prácticamen­te nada. Todos eran sustancialmente lo mismo, aire, el mismo aire.     

ó sagrado banquete...

convite

subi as ruas do sangue, dolorosas
e avistareis leões no rasto do Ungido
a presa bebe em nós a água e a sua sombra
come-se a Páscoa na alegria diferida

vinde ao banquete do vinho, não da pedra
onde a doença da morte dorme, recostada
sentai-vos junto do fogo que vos lembre o voo
histórias de perfumes e manhãs de linho

só um vestido nos falta para entrar:
a Deus vai-se despido de roupagens
revista-nos a graça da nudez primeira
a desmesura da abordagem imprevista

comparecei à partilha da Palavra
à memória a que devemos estar presentes
enchei a mesa do dom do corpo entregue
do túmulo vazio o pão do dia rompe

vinde ver o lugar do sangue aberto
o tesouro guardado, indestrutível
ide dizer que o perfume encheu a casa
acordai as alusões esquecidas, as fogueiras

José Augusto Mourão, em: «Dizer Deus – ao (des)abrigo do Nome»
12 de Junho de 2011


retirado daqui

2011-06-17

dedicada

Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia

Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria

Desde então a lavrar
No meu peito a alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia

Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia

Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo

2011-06-16

Travessia do Deserto

Que caminho tão longo!
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande
Sem fronteira nem medida!

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte

Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga

viver "entre"

Fronteira: linha do fim ou do começo? (3) from Pastoral da Cultura on Vimeo.

2011-06-15

Poema da Eterna Presença

Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva,
de olhos postos no céu, e reparo, com alegria,
que as dimensões do infinito não me perturbam.
(O infinito!
Essa incomensurável distância de meio metro
que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!)

O que me perturba é que o todo possa caber na parte,
que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote.

O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim,
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo.
E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas
porque eu não sou braço nem sou perna.

Se eu tivesse a memória das pedras
que logo entram em queda assim que se largam no espaço
sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair;
se eu tivesse a memória da luz
que mal começa, na sua origem, logo se propaga,
sem que nenhuma se esquecesse de propagar;
os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminharam sobre a Terra,
os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram
continentes,
a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a
Terra.

Mas não esqueci tudo.
Guardei a memória da treva, do medo espavorido
do homem da caverna
que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz;
guardei a memória da fome;
da fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo;
guardei a memória do amor,
dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez desejar a mulher do próximo e do distante;
guardei a memória do infinito,
daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos,
em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado,
à formação do Universo.

Tudo se passou defronte de partes de mim.
E aqui estou eu feito carne para o demonstrar,
porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim.
Já cá estavam.
Estão.
E estarão.

António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'
 

2011-06-13

eis-me aqui

um pequeno espaço de férias  (merecidas e necessárias) que iriam terminar num momento especial de celebração da vida, tornaram-se, de modo imprevisto, num tempo intenso de abertura e acolhimento de momentos de alegria e profundo sofrimento. Em todos eles recebi fortes testemunhos de amor.


Hoje apetecia-me a oração do "fariseu": Senhor, dou-te graças, por ser quem sou. E por todas as pessoas que se "cruzam" no meu caminhar.

2011-06-03

um homem/mulher um voto

Podemos convidar a ruína e elevar o cinismo a uma arte menor, mas só um país com uma doença moral profunda reelegerá Sócrates. Isto é importante, porque é a minha única certeza.

Porque não cultivo o mito do "bode expiatório". Porque os seis anos de Governo não se limitaram a uma única pessoa, mas a um colectivo que executou políticas e acções em contexto quase sempre desfavorável e adverso. Porque sei identificar algumas opções erradas, mas também as que significaram  coragem e inovação. Porque não se me oferece alternativa credível e melhor: no dia 5 voto PS (e em Sócrates, claro!)

imagem: Mário Botas

"o respeito deve ser às pessoas e não às ideias"

estado dos dias

O Segredo é Amar 

O segredo é amar. Amar a Vida
com tudo o que há de bom e mau em nós.
Amar a hora breve e apetecida,
ouvir os sons em cada voz
e ver todos os céus em cada olhar.

Amar por mil razões e sem razão.
Amar, só por amar,
com os nervos, o sangue, o coração.
Viver em cada instante a eternidade
e ver, na própria sombra, claridade.

O segredo é amar, mas amar com prazer,
sem limites, fronteiras, horizonte.
Beber em cada fonte,
florir em cada flor,
nascer em cada ninho,
sorver a terra inteira como o vinho.

Amar o ramo em flor que há-de nascer,
de cada obscura, tímida raiz.
Amar em cada pedra, em cada ser,
S. Francisco de Assis.

Amar o tronco, a folha verde,
amar cada alegria, cada mágoa,
pois um beijo de amor jamais se perde
e cedo refloresce em pão, em água!

  Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"

2011-06-02

de momento

ó dor, minha irmã!

a felicidade possível.

Este silêncio interior que me acompanha nasce do curso lento que conduz o dia a este outro dia. Que posso eu querer mais além deste quarto aberto sobre a planície, com os seus móveis antigos e as suas rendas de croché? Tenho todo o céu na minha frente e este rodopio dos dias parece-me que poderia segui-lo sem cessar, imóvel, rodopiando com eles. Impregno-me da única felicidade de que sou capaz - uma consciência atenta e amigável. Passeio durante todo o dia: da colina desço para Vicência ou então vou mais além pelos campos. Cada ser encontrado, cada cheiro desta rua, tudo me serve de pretexto para amar sem limites. Raparigas que vigiam uma colónia de férias, a corneta dos vendedores de gelados (os seus carros são gôndolas montadas sobre rodas e munidas de varais) os estendais de fruta, melancias vermelhas de pevides negras, uvas translúcidas e pegajosas - outros tantos apoios para quem já não sabe estar só. (1) Mas a flauta estridente e terna das cigarras, a doçura das águas e das estrelas que se descobre nas noites de Setembro, os caminhos perfumados, entre os lentiscos e os juncos, outros tantos sinais de amor para quem é forçado a estar só.(1) Assim passam os dias.

(1) Isto é, toda a gente.

Albert Camus - "O Avesso e o Direito"

2011-05-28

não contar só com a ganância do padeiro

Um dos clássicos da economia moderna, Adam Smith, resumia desta maneira pragmática o funcionamento do sistema económico: devemos o nosso pão fresco diário não ao altruísmo do padeiro, mas  à sua ganância.  É graças à ambição do ganho, que os bens de que precisamos chegam às prateleiras dos supermercados. Esse dado é, de resto, comummente aceite e consensualmente aceitável.
O facto que hoje se coloca, sempre com maior urgência, é, porém, de outra natureza. Claro que não perde validade a justa expectativa de que a atividade laboral produza o seu lucro, mas o que se coloca às nossas sociedades é a questão da sua capacidade para resolver, ainda que de modo não completamente perfeito, os desequilíbrios que elas próprias geram e que ameaçam a sua preservação. Ora, este processo de reajuste e maturação do sistema não parece que possa ficar unicamente dependente daquilo que Adam Smith chamou “a ganância do padeiro”.
A difícil situação atual mostra-nos, sem margem para hesitações, como se tornou urgente e vital introduzir alternativas de fundo num campo que é económico e financeiro, mas também é humano e cultural. Nesse sentido, vale a pena olhar para os três pontos propostos recentemente por Tim Jackson, professor da Universidade de Surrey, que nos desafia a redefinirmos o que entendemos por prosperidade.
O primeiro ponto prende-se com a necessidade de nos consciencializarmos todos de que o crescimento económico tem limites. O segundo passa por aceitarmos distribuir os lucros não apenas segundo critérios financeiros, mas também em função de um benefício social e ambiental.O terceiro ponto diz-nos que é preciso mudar a lógica cultural dominante, que identifica prosperidade com enriquecimento material.
Hoje são os próprios economistas a recordar-nos que temos de enriquecer as nossas existências por outros meios e em outras dimensões. Por exemplo, a espiritual.
José Tolentino Mendonça

2011-05-24

cá em casa não é estrangeiro

Hoje vou descobrir-lhe o "Avesso e o direito".

Quando falham as oportunidades de vencer a estupidez

O marido (presumo) solícito, veio trazer a garrafa de água que ficou esquecida no carro. Olhou em redor, e ao ver as dezenas de pessoas que aguardavam no átrio, atirou para o ar:"Isto é só política! É só para a estatística" E saiu, sem resposta. Deduzi que ia esperar sentado no carro.
Elas continuaram a falar dos  chás e tisanas, dos netos, da Nossa Sra de Fátima,  dos beatos recentes, e não tardou que a sexagenária, cujo marido (presumido) tinha feito a avaliação que cito acima, dizia a intervalos, olhando em redor:"Isto é só política! É para a estatística!".
À terceira repetição, inquiri:A senhora também vai receber um certificado? - Vou, respondeu. Alguém fez o trabalho por si, ou frequentou as sessões de formação? Claro que não! Afirmou, convicta.
Então para que está aí a repetir que isto é só política...?
Na sessão, vi que recebeu  certificação do 9º Ano. Um certificado desperdiçado.

2011-05-21

exemplar

O CIDADÃO DESCONHECIDO

A
JS/07/M/378

O ESTADO ERGUEU ESTE MONUMENTO DE MÁRMORE
Pelo Gabinete de Estatísticas foi considerado
Alguém que oficialmente nunca foi alvo de intriga,
E os relatos da sua conduta comprovam por unanimidade
Que, no sentido moderno de uma palavra antiga,
Era um santo, servindo em tudo a Grande Comunidade.
À excepção da guerra, até ao dia em que se reformou
Trabalhou numa fábrica e nunca ninguém o expulsou,
Mas satisfazia os patrões, a Fudge Motors Cia.
Não era, porém, fura-greves nem de ideias remotas,
Pois o seu Sindicato declara que pagava as quotas,
(Os nossos estudos sobre o sindicato garantem a sua idoneidade)
E em Psicologia Social, uma equipa da especialidade
Diz-nos que se dava bem com os colegas e socialmente bebia.
Atesta a Imprensa que diariamente comprava o jornal
E que reagia aos anúncios de um modo normal.
As apólices em seu nome dão-no como precavido
E o seu Boletim diz que, uma vez hospitalizado, saiu restabelecido.
Os Comités da Produção e da Qualidade de Vida são do parecer 
científico
Que aderia perfeitamente às vantagens da Compra a Prestações
E tinha tudo o que necessita um homem nas modernas condições,
Um gira-discos, um rádio, um carro e um frigorífico.
Referem os nossos investigadores da Opinião Pública
Que tinha as opiniões certas para o estado que havia:
Havendo paz, defendia-a; havendo guerra, lá ia.
Casou-se e acrescentou cinco crianças à população,
O que, segundo o nosso eugenista, era o número certo para a sua
geração,
E dizem os nossos professores que nunca interferiu na sua educação.
Seria livre? Feliz? É absurda a questão.
Por certo que saberíamos de alguma contradição.

W. H. AUDEN "Outro Tempo" 
Tradução de Margarida Vale de Gato

Complicadíssima teia

2011-05-20

José Augusto Mourão

A procura da verdade, mesmo em ciência, leva ao anátema e à exclusão: é a máquina da verdade que produz a máquina da inquisição. 


e ela (a violência) anda mesmo por aí

Nestes últimos dias, tenho pensado muito neste texto da Ana Cássia. É bom lê-lo sem complexos,  despido(a) de preconceitos e com objectividade. De que modo somos mulheres: na cama e fora dela. Até que ponto nos submetemos e que escolhas fazemos. E temos alternativas?

A violência e abuso de poder pode ser exercida de modos muito diversos. Em muitas empresas, geralmente dirigidas por homens, uma mulher decidir ter um filho e beneficiar dos direitos inerentes, pode ser um passaporte para a violência psicológica e exclusão. Para muitas mentes masculinas, a emancipação feminina é um tema tabu. Só podem existir na condição de submissão. Se quiserem que fiquem com os sonhos...essa pieguice. Sonhem. Enquanto as fodemos. E jogamos com o termo "sexo consentido"...independentemente da força exercida.

2011-05-18

para o campeão em desperdício de oportunidades

Nunca hei-de entender uma questão essencial no ensino português, e essa questão nem tem que ver propriamente com o ensino. Está mais relacionada com a forma como as pessoas encaram a escola. Fui professor durante 10 anos. Vendi habilitações no ensino secundário e em cursos de formação profissional (níveis III e IV). Repugna-me um discurso tão snobe quanto ignorante relativamente ao ensino técnico-profissional e ao programa Novas Oportunidades. Normalmente ouço dizer que se trata de escapes, formas fáceis de adquirir diplomas, habilitações literárias, meio caminho andado para a incompetência. Ora, pergunto-me sobre o que seja o ensino regular. Devo dizer, e digo-o com a maior honestidade que me é possível, que o melhor aluno que apanhei em 10 anos de docência (era uma aluna) foi, precisamente, num curso técnico-profissional. Ninguém é bom ou mau em função das marcas que veste, mas sim em consequência do esforço e do empenho que demonstra. O problema é precisamente este, começa aqui: em Portugal tudo se avalia pelo estatuto, nada pelo mérito. E o mérito é indiferente aos cursos, ao tipo de ensino, às escolas, está exclusivamente relacionado com a dedicação individual. Quem não entende isto, bem pode continuar convencido de que o investimento em formas alternativas de ensino é desperdício. Estará redondamente equivocado. A prová-lo estão os milhares de incompetentes, inúteis, imbecis, grunhos e basbaques que todos os anos saem das universidades com canudos debaixo do braço. 



Vou, no próximo dia vinte e quatro, receber o meu diploma de certificação do 12º Ano. 
E vou de consciência tranquila porque não fico a dever nada a ninguém por ele. Muito menos um voto.
Por razões que não são para aqui chamadas, aos dezasseis anos interrompi a formação escolar regular. Podia tê-la retomado alguns anos mais tarde, mas o meu projecto de vida e prioridades eram outras.

Há um ano inscrevi-me num Centro de Novas Oportunidades. Integrei uma turma onde era a pessoa mais velha. Em dois meses completei o trabalho a apresentar. O que me consumiu todos os fins-de-semana e muitas horas diárias depois do trabalho.

O que é que aprendi neste processo? Que todo o meu percurso de vida podia e devia ser avaliado. Que todas as leituras, reflexões, diálogos, abertura ao "outro", experiências pessoais e profissionais me deram (e dão) competências. Foram avaliadas por vários profissionais e, sem complexos de qualquer espécie, vou receber a respectiva certificação.




2011-05-14

bom fim-de-semana

dito isto, não vale  a pena determinar se se deve classificar Zenóbia entre as cidades felizes ou entre as infelizes. Não é nestas duas espécies que faz sentido dividir a cidade, mas noutras duas: as que continuam através dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos ou conseguem aniquilar a cidade ou são eles aniquilados.

Italo Calvino "As Cidades Invisíveis" 
(As cidades subtis. 2)

2011-05-10

uma herança para explorar

O vazio verde

Um dia, quando se fizer a história do catolicismo português que nos é agora contemporâneo, há de ver-se, em toda a clareza, que um dos seus atores magistrais foi, afinal, um frade e poeta, quase clandestino, que morreu esta manhã em Lisboa. Chamava-se José Augusto Mourão, e pertencia à Ordem dos Dominicanos. Nasceu em Vila Real em 1947, e construiu uma inscrição absolutamente invulgar na universidade e na cultura portuguesas. Foi professor na Universidade Nova de Lisboa, especializando-se no campo da semiótica, e prestando uma contínua atenção a expressões de vanguarda que transformam os próprios dispositivos da criação (por exemplo, as mutações da literatura na época de cibernética ou as diversas formas de hipertextualidade ou de hiperficção que a nossa alta modernidade tem gerado). Aí deixa uma obra que, sob muitos aspetos, se pode considerar seminal e profética. 

Mas ele transportou também o mesmo espírito de profecia para aquela que é a opera magna da sua existência: a impressionante ponte (apetece escrever a “impossível ponte”) que ele, quase marginalmente, desenha entre o campo da fé e o da razão, entre a liturgia e a poética, entre a regra e o desejo. Por alguma razão, ele nunca foi um criador confortável, nem para o campo católico, nem para os parâmetros da cultura dominante. Os ouvidos crentes só a custo se abriam, porque ele operava com uma gramática inusual e exigente, buscava metáforas vivas, que é como quem diz, novas metáforas. Do mesmo modo, ele nunca obteve a visibilidade que certamente merece da parte da cultura. A sua poesia é, por exemplo, litúrgica, coisa que, em Portugal, é imediatamente catalogada de género menor. E alguns dos seus textos mais fundamentais são homilias: ora, as últimas homilias que a cultura portuguesa ouviu foram as do Padre António Vieira! Talvez um dia se reconheça a originalidade e a marca deste homem e se possa então valorizar o que ele hoje nos deixa em herança. Para já sentimos o grande vazio que a sua morte representa, que, como aponta o título do seu primeiro livro de poemas, somos desafiados a viver como um “Vazio Verde”.
José Augusto Mourão morreu no dia 5 de maio.

José Tolentino Mendonça
In Página 1 


daqui

2011-05-08

convite

28Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. 29*Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. (Lc 24, 26-29)

2011-05-07

abram-se os nossos olhos



O que Deus tem para nos dar já o temos, não há mais que esperar.

O tempo de ser

Para nós, como para outros fugitivos,
Como as inúmeras flores que não sabem contar
E todos os bichos que não precisam de lembrar,
É no presente que estamos vivos.

Tantos que tentam dizer Agora Não,
Tantos que perderam a memória
De dizer Eu Sou, e em havendo ocasião
Se dariam por perdidos na história.

Inclinando-se, por exemplo, com tanta graça a preceito
Ante a bandeira certa num certo lugar
Balbuciando, como velhos pelas escadas a tropeçar,
Sobre o Meu e o Teu ou o Nosso ou o que Lhes diz respeito.


Como se fora o tempo o que costumavam querer
Quando ainda tinha o dom da possessão,
Como se não tivessem razão,
Em já não desejarem pertencer.


Não espanta então que tantos morram de amargura,
Tantos tão sós na hora de morrer;
Ninguém nunca acreditou ou gostou da impostura,
Um outro tempo tem outras vidas que viver.


W. H. Auden, "Outro Tempo" - XXX
Tradução Margarida Vale de Gato

meu corpo

2011-05-05

uma presença que ilumina

vigiar

desafiai o deserto
a fuga mundi
a desistência
 
arrancai ao caos
o canto livre
 
deixai a prisão
que pisa aos pés a vida
em nome da pós-vida
 
entrai no abismo do silêncio
que ilumina
 
esclarecei a distância
entre o poder e as verdades
 
pensai o acontecimento
a excepção, a mudança
 
entrai no Aberto
que a Palavra tece
 
querei o não-querer
que faz o pobre
 
largai a técnica
da autoflagelação
e do cálculo
 
o claro está no escuro
e na limitação passiva
do que nele fulgura
e leva ao Dia
 
meditai na vida
não na morte
 
a Páscoa está na dor
que ressuscita

Frei José Augusto Mourão op

2011-05-04

 Ferrnando Lemos, Lygia Fagundes Telles, s/d, s/l
Fernando Lemos © Colecção Fundação Cupertino de Miranda




 

A CHESTER KALLMAN


Hão-de os olhos chorar solitários
Até à derrota do Meu Querer.

Mas o Meu Querer pode apartar-se,
Que não tem o tacto necessário
Para se defender do Meu Saber,
Mas o Meu Querer pode apartar-se.


Então crescerão juntos os Eus,
Eu sou porque Eu Amo,
Eu não Possuo Eu Sou Amado,
Então crescerão juntos os Eus.


Até à derrota do Meu Querer
Hão-de os Eus chorar solitários.

W.H. Auden "Outro Tempo"
tradução Margarida Vale de Gato

complicamos o que deveria ser tão simples: nascemos para a alegria e o amor. Foi esse o sonho que sonharam para nós.

- Na tua opinião o que é que importa num homem?
- A plenitude maravilhosa que eu sinto ao estar com ele, e isso nas coisas mais fúteis da existência. O sopro de alegria que ele me transmite. É assim  que uma pessoa pode reconhecer a riqueza do amor que um homem encerra.
Ah, a odiosa, a detestável mania daquele tipo! Lá estava ele outra vez a falar-lhe de alegria! Acreditaria ele naquilo? Não haveria para ele outra coisa no mundo? Como encontrar nesta terra mil vezes posta a saque e incendiada pelos homens um recanto qualquer de amor e de paz? Só um canalha podia contentar-se com tais futilidades. Ou um doido afortunado. E todavia Heikal não era  um pulha nem um doido. Queria divertir o povo e ensiná-lo a rir dos tiranos. Era fácil dizê-lo. Mas o povo precisava aprender outras coisas. Taher pensou em todas as coisas que tinha ainda de ensinar ao povo, e a imensidão da tarefa pô-lo de súbito doente de desespero.

Albert Cossery - "A violência e o Escárnio"

2011-05-01

1º de Maio e o sentido de ser cristão

O cristão, membro do Corpo de Cristo, não pode considerar-se, portanto, um ser isolado que se baste a si mesmo, pois participa do bem ou do mal-estar do conjunto:"se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele ou se um membro recebe glória, todos os membros se regozijam com ele" (1Cor 12,26).

A unidade dos homens em Cristo supõe o amor de uns para com os outros como condição indispensável para a vida e saúde do conjunto. E assim se compreende que Jesus, vindo revelar aos homens a misericórdia do Senhor que se dignou fazê-los participantes da mesma natureza divina, não podia deixar de impor-lhes o mandamento novo do amor,. "Amai-vos uns aos outros, disse Jesus na Última Ceia, e que assim como Eu vos amei, vos ameis também uns aos outros".

O amor dos cristãos não é, porém, sentimento, nem pode ser vago desejo de bem-estar alheio. É vida, é doação, é sacrifício.

Por definição, o cristão tem, portanto, deveres para com todos os seus irmãos, para com todos os homens, deveres que dimanam directamente do conceito da vida de Cristo em nós.

Abel Varzim "Entre o ideal e o possível"

hoje e sempre



é de ti, mãe, que aprendo que não há ferida, por mais profunda que seja, que impeça a vida de se abrir ao amor.
Foste mulher e mãe num contexto bem mais duro e difícil do que eu. Mas  sei que não viverei o suficiente para aprender a ver a beleza do mundo e das pessoas como o tu sabias.
Disseram-me no outro dia que eras uma mulher triste. Eu recordo-te como uma mulher transparente. E a mais corajosa que conheci.