2011-09-09

A importância do olhar

“Antes que eu penetrasse no Zen,
as montanhas nada mais eram senão montanhas
e os rios nada a não ser rios.
Quando aderi ao Zen,
as montanhas não eram mais montanhas
nem os rios eram rios.
Mas, quando compreendi o Zen,
as montanhas eram só montanhas
e os rios, só rios”
  
(Sentença Zen)
 
(Num artigo de Faustino Teixeira, aqui)

complacência

Ao eu julgador opõe uma remediada complacência:"Ninguém se faz!". Abstenho-me de comentar. Existo de modo diverso.

2011-09-06

boa desculpa

Se o mundo nasceu de um capricho de Deus, então a mulher é o ser em que o Supremo artífice quis manifestar da melhor maneira o lado imprevisível da sua insondável natureza.

Arthur Schopenhauer in "A arte de lidar com as mulheres"

em boa verdade

Um mestre disse a outro: Sabes tu o que Deus é? Não, disse ele, eu não sei o que Deus seja. O tanto que sei dele é que sei o que ele não é, pois ninguém pode conhecer a Deus a não ser na natureza de Deus.

Mestre Eckhart, Sermão 95

2011-09-05

As Caldas - um olhar de emoção e razão

I.C.: Gosto das Caldas, sim. Sinto-me triste com o presente mas há que ter esperança no futuro. Afinal as Caldas é uma cidade igual a tantas outras cidades de dimensão semelhante neste país que, em certo período, se deslumbraram com um aparente desenvolvimento, um sub-urbanismo descaracterizador, esquecendo que os seus centros são as suas verdadeiras marcas existenciais. Talvez ainda seja possível repensar a opção adoptada e valorizar o que nos torna diferentes, seja a Praça da Fruta, as trouxas, o Parque, as cavacas, a Senhora do Pópulo, o CCC, as termas, a cerâmica… Façamo-nos valer do que faz a nossa diferença e não apostemos na boçalidade banal.

Isabel Castanheira em entrevista, aqui

mulheres

 O infinito

Sempre gratas me foram esta colina tão só
E esta sebe alta e extensa
Que não me deixa ver o último horizonte.
Mas quando me demoro a contemplá-la
O meu espírito gera para além dela
Intermináveis espaços, silêncios sobre-humanos
Uma paz escura, profunda; e pouco falta
Para o terror me assaltar o coração. E quando
Ouço o vento sussurrar nas plantas
Comparo o infinito de tanto silêncio
A esta voz, e lembro-me da eternidade
Das estações mortas, do tempo presente
E vivo, do seu murmúrio brando. Assim
Se aniquila o meu espírito na imensidão:
E é-me grato naufragar neste mar.


Giacomo Leopardi
Trad. Ernesto Sampaio

2011-09-04

porque hoje é domingo #2

5Acaso é esse o jejum que me agrada,
no dia em que o homem se mortifica?
Curvar a cabeça como um junco,
deitar-se sobre saco e cinza?
Podeis chamar a isto jejum
e dia agradável ao SENHOR?
6O jejum que me agrada é este:
libertar os que foram presos injustamente,
livrá-los do jugo que levam às costas,
pôr em liberdade os oprimidos,
quebrar toda a espécie de opressão,
7*repartir o teu pão com os esfomeados,
dar abrigo aos infelizes sem casa,
atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão.
8*Então, a tua luz surgirá como a aurora,
e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se.
A tua justiça irá à tua frente,
e a glória do SENHOR atrás de ti.
9Então invocarás o SENHOR e Ele te atenderá,
pedirás auxílio e te dirá: «Aqui estou!»
Se retirares da tua vida toda a opressão,
o gesto ameaçador e o falar ofensivo,
10se repartires o teu pão com o faminto
e matares a fome ao pobre,
a tua luz brilhará na tua escuridão,
e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio dia.


(Isaías 58, 5-10)

porque hoje é domingo

Furto

Roubaram Deus.


O céu está vazio.

O ladrão ainda não foi
(Nunca será) detido.


Furto

Hanno rubato Dio.

Il cielo è vuoto.

Il ladro non è ancora stato
(non lo sarà mai) arrestato.

Giorgio Caproni
traduzi

2011-09-03

Anna Arendt - um olhar que é preciso seguir


A era moderna trouxe consigo a glorificação teórica do trabalho, e resultou na transformação efectiva de toda a sociedade numa sociedade operária. Assim, a realização do desejo, como sucede nos contos de fadas, chega num instante em que só poder ser contraproducente. A sociedade que está para ser libertada dos grilhões do trabalho é uma sociedade de trabalhadores, uma sociedade que já não conhece essas actividades superiores e mais importantes em benefício das quais valeria a pena conquistar essa liberdade. Dentro desta sociedade, que é igualitária porque é próprio do trabalho nivelar os homens, já não existem classes nem uma aristocracia de natureza política ou espiritual da qual pudesse ressurgir a restauração de outras capacidades do homem. Até mesmo presidentes, reis e primeiros-ministros concebem os seus cargos como tarefas necessárias à vida da sociedade; e, entre os intelectuais, somente alguns indivíduos isolados consideram ainda o que fazem em termos de trabalho, e não como meio de ganhar o próprio sustento. O que se nos depara, portanto, é a possibilidade de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única actividade que lhes resta. Certamente nada poderia ser pior.

Hannah Arendt in "A Condição Humana"

diminuindo o homem anula-se o próprio Deus

Num acto religioso ouvi, sem surpresa, dizer que a discussão sobre "se há Deus" "não há Deus"; "não interessa nada".
Pretender negar a possibilidade de alguém  questionar e discutir das razões para acreditar no transcendente ou não, é tornar a própria fé um acto desencarnado da vida e contrário à própria experiência biblíca.

religião

...Ao contrário da ideia corrente, no domínio religioso, Deus não é figura primeira e determinante a não ser para um determinado tipo de religião: a religião monoteísta. É célebre, neste contexto, a afirmação de Leeuw: "Deus é um fruto tardio na história religiosa." O conteúdo central da religião é o absoluto, o transcendente, o abrangente, o numinoso.
(...)
Para o homem religioso, a realidade não se esgota na sua imediatidade empírica: para a sua compreensão adequada, a realidade mesma aparece-lhe como incluindo uma Presença que não se vê em si mesma, mas implicada no que se vê. Mediante certas características - a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido -, a própria realidade se mostra implicando essa Presença sagrada, divina, como seu fundamento e sentido últimos.

Anselmo Borges, in DN

2011-09-02

legado

Hoje presenteei-me com um livro da Hannah Arendt (A condição humana). Não sei o que  me vai ensinar sobre as criaturas que somos. Sei, sim, o que aprendi nestes últimos anos de convivência com a Maria da Conceição que enterrámos hoje. Aos noventa e dois anos vivia de forma autónoma e com um grande amor pela vida, expresso no cuidado da pequena horta e jardim.
Aprendi dela que o cuidado amoroso vale por si só, independentemente dos ecos que provoque.

2011-09-01

é ele que diz. eu só tenho um aperto no peito. palavras nenhumas

Ficar sem uma costela no Paraíso até se admite: a causa era boa. Ser privado de uma parcela de intelecto na Terra é algo que o macho considera intolerável. A sua tese de furto, apesar de obtusa, leva-o a clamar por justiça e a usar a força para que a justiça seja feita. Os crimes passionais – e as diversas formas de violência contra as mulheres – constituem, em grande parte, a expressão indirecta dessa radical, perversa e insuportável sede de vingança.

 daqui,
um blogue dos bons, descobri através deste, que é o espelho de um homem magnífico (não estou tão mal como pensava)!
 

1, 2, 3...experiência

o blogger promete uma interface actualizada. eu não prometo nada. por uns dias, vou entregar o corpo e a alma à preguiça. E seja o que Deus quiser...

2011-08-28

Larghetto dos Prazeres - Pedro Caldeira Cabral

porque hoje é domingo

Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir;
Vós me dominastes e vencestes.
Em todo o tempo sou objecto de escárnio,
toda a gente se ri de mim;
porque sempre que falo é para gritar e proclamar:
«Violência e ruína!»
E a palavra do Senhor tornou-se para mim
ocasião permanente de insultos e zombarias.
Então eu disse:
«Não voltarei a falar n’Ele,
não falarei mais em seu nome».
Mas havia no meu coração um fogo ardente,
comprimido dentro dos meus ossos.
Procurava contê-lo, mas não podia.

(Jer 20, 7-9)

2011-08-27

a metanoia necessária...

A expressão “para que todos sejam um”, em João 17, indicativa do propósito da unidade, não significa uniformidade, mas fidelidade ao núcleo central: o exercício do amor a Deus e ao próximo.

daqui 


2011-08-26

Madredeus - As Cores do Sol

As Cores Do Sol

Ao cair da tarde
Penso sempre mais
E a luz que me invade
São as cores naturais

Cada figura
que passa por mim
nem me perturba
e eu fico assim

Longe me leva este silêncio
é o sentir que se altera
são as cores do sol

E eu fico encantada
e eu sinto-me a arder
quando o dia se apaga
deixa tanto por ver

2011-08-23

Amália Rodrigues - "Cansaço"

a considerar: a questão não é a crença em diferentes deuses, mas aprender a considerar as diferentes expressões religiosas

A pluralidade religiosa é um dos traços mais característicos do século XXI. Não há como desconsiderar ou relativizar o traço da diversidade religiosa no tempo atual. Trata-se de um fenômeno irreversível, que tende a sublinhar a presença diversificada do outro como provocação permanente para a construção da identidade. O grande desafio está em compreender essa pluralidade religiosa não como um dado conjuntural passageiro ou fruto de cegueira problemática dos seres humanos, mas como um mistério transbordante, um dom que corresponde a um misterioso desígnio de Deus para a humanidade. A espiritualidade é um dos caminhos frutuosos para a percepção do valor da diversidade. Ela possibilita a afirmação da humildade, da abertura desarmada para o outro e igualmente uma consciência viva da vulnerabilidade dos caminhos que levam a Deus no tempo. Talvez seja um dos campos mais propícios para a percepção do valor da interreligiosidade, da dinâmica de dom que envolve a relação e a comunhão entre as diversas religiões, preservando os traços essenciais que as distinguem.

Faustino Teixeira, aqui

2011-08-21

porque hoje é domingo #2

porque hoje é domingo


Luz e sombras de amor ressuscitado

Tristemente convivo com a tua ausência
sobrevivo à distância que nos nega
enquanto contorno a fronteira entre  os
dois mundos
sem decidir qual deles pode dar-me
a calma que me exijo para amar-te
sem sofrer pela tua indiferença.
A minha retirada preventiva
duma batalha que já sei perdida
resoluto a não mais entrar em ti
mas não à tortura de evitar-te.

Lois Pereiro  (tradução minha)

2011-08-18

Depois da cinza morta destes dias

Depois da cinza morta destes dias,
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.


 Sophia de Mello Breyner Andresen


2011-08-16

e assim se perde o cristianismo...

“Estamos num tempo em que é preciso poupar e levar um estilo de vida diferente, as pessoas vivem acima das suas possibilidades e precisam de alguém que as chame à realidade"

Surpreendo-me com as declarações do Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, Carlos Azevedo, que fala para uma realidade que não é única no país, nem sequer devia ser a que lhe merecia mais atenção. Da Igreja, espera-se que, em primeiro lugar, tenha atenão aos mais pobres. Carlos Azevedo foi o promotor da iniciativa de criar um fundo de apoio aos mais carenciados neste contexto de crise económica. Mas com estas declarações lá fico com a imagem da caridadezinha. É diferente uma opção de acção pelos mais pobres e medidas extemporâneas de quem dá o que lhe sobra.

2011-08-15


A fé é um milagre; no entanto ninguém  dela está excluído; porque é na paixão que toda a vida humana encontra a sua unidade, e a fé é uma paixão.

S. Kierkgaard - "Temor e Tremor"

2011-08-07


A Casa de Deus (está assente no chão)
Sophia de Mello Breyner Andresen

Desenho de Arpad Szenes.

A casa de Deus está assente no chão
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza

Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras de pedreiro
Mãos hábeis de carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem

Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito

A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reunem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada

É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nosssa invenção nosso conhecimento
Os homens constroem na terra

Situada no tempo
Para habitação da eternidade

Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco

Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa

Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria

Páscoa de 1990


(in Igreja de Santa Maria,
Marco de Canaveses; poema
oferecido por Sophia à igreja;
in «Correntes D'Escritas», nº.
2, Fevereiro, 2003)


imagem daqui

reagir ao pacote de medidas para os pobrezinhos

Tempos de crise exigem medidas excepcionais: aí está uma verdade que o senhor de La Palice poderia subscrever. E tudo o que pudermos fazer para evitar a fome, a pobreza, a exclusão, parece mais do que justificado. Mas se, ao mesmo tempo que se oferece um almoço a alguém, há milhares de pessoas empurradas para o desemprego e para um custo de vida insuportável, então no fim do ciclo de excepção (diz o minstro que no fim de 2014) vamos ter um número de pobres muito maior do que o de hoje.

2011-08-06

jamais alguém O viu

Naqueles dias,
o profeta Elias chegou ao monte de Deus, o Horeb,
e passou a noite numa gruta.
O Senhor dirigiu-lhe a palavra, dizendo:
«Sai e permanece no monte à espera do Senhor».
Então, o Senhor passou.
Diante d’Ele, uma forte rajada de vento
fendia as montanhas e quebrava os rochedos;
mas o Senhor não estava no vento.
Depois do vento, sentiu-se um terramoto;
mas o Senhor não estava no terramoto.
Depois do terramoto, acendeu-se um fogo;
mas o Senhor não estava no fogo.
Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa.
Quando o ouviu, Elias cobriu o rosto com o manto,
saiu e ficou à entrada da gruta.

(1 Reis 19,9a.11-13a)

2011-08-02

la luna

                         A María Kodama

Hay tanta soledad en ese oro.
La luna de las noches no es la luna
que vio el primer Adán. Los largos siglos
de la vigilia humana la han colmado
de antiguo llanto. Mírala. Es tu espejo.


Jorge Luis Borges - Poesía completa

2011-07-28

um Deus terno



Entretanto, Eu ensinava Efraim a andar,
trazia-o nos meus braços,
mas não reconheceram
que era Eu quem cuidava deles.
Segurava-os com laços humanos,
com laços de amor,
fui para eles como os que levantam
uma criancinha contra o seu rosto;
inclinei-me para ele para lhe dar de comer.


Oseias (11, 3-4)


imagem- Marc Chagall (Sacrifício de Isaac)

outra Igreja é possível?

Na Igreja há muitos indignados. O problema é não saberem o que fazer neste momento.



daqui

2011-07-25

2011-07-23

o lugar do coração

Se Deus nos aparecesse em sonhos e dissesse: “Pede o que quiseres”, que quereríamos? A saúde para nós ou para quem amamos, o euromilhões para ter uma vida descansada, um emprego, uma casa digna, fama e poder? Necessidades ou excessos, que bem justificaríamos. O rei Salomão, muito novo e inexperiente, pediu “um coração inteligente, para saber distinguir o bem do mal”. Ainda que jovem, já descobrira que o projecto de Deus não é escolher em vez de nós, nem dar-nos aquilo que podemos alcançar, mas erguer-nos à grandeza de escolhas livres e responsáveis. O coração, no contexto bíblico, não é apenas o lugar da afectividade e dos sentimentos. É o centro da identidade pessoal, onde se unem a capacidade de amar, o conhecimento e a inteligência. O que Salomão pede é uma inteligência fundada no amor, capaz de ver para além do imediato e da aparência, e assim melhor servir o seu povo.

P. Vitor Gonçalves, aqui

2011-07-19

parece uma questão marginal

mas não é. Pertinente, é também, a incapacidade para ler e entender um texto (que algumas pessoas demonstram nos comentários) que é claro quanto à sua forma e conteúdo. Um mal que se entenderia em pessoas menos letradas e com baixo nível de escolaridade, mas que se encontra em pessoas com elevados graus académicos. Surpreendente.

2011-07-17

o amor não tem pressa

com paciência

26É assim que também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que havemos de pedir, para rezarmos como deve ser; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. 27E aquele que examina os corações conhece as intenções do Espírito, porque é de acordo com Deus que o Espírito intercede pelos santos.

Rm 8, 26-27

2011-07-16

mais outra

mulher a ler.

mulher a ler

 
1. Existe um livro que relerias várias vezes?

Existem vários. Já o fiz e penso continuar a fazê-lo. Por diversas razões. Sendo a principal que o diálogo entre mim e ele(s) não está encerrado.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

 Mais do que numa primeira impressão enumeraria. Alguns não desisti deles. Estão ainda à espera de nova(s) oportunidade(s).

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?

Um...bem, só um é difícil a escolha. Alguns dos profetas do Antigo Testamento. Os quatro evangelhos. Vários de poesia.

3A. Se escolhesses uma vida para meter num livro, qual seria?

 Aqui vou esticar-me um bocadinho. Numa vida cabem vários livros. Mas nenhuma vida caberia num livro. (A pergunta pressupõe um ponto de vista redutor) 
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste? 
Mas quem é que inventou este questionário?! Se não li, como é que sei que gostaria de ter lido? Tenho uma lista mental de livros que quero ler. Uns lerei outros não. 

4A. Que livro gostarias de não ter lido mas que, por algum motivo, leste?
 
Já li algum lixo  (classificação própria) e que foram tratados como tal (quando fiz mudanças ou precisei de espaço nas prateleiras). Mas se não é abuso perguntar: que fixação será esta do livro único.


 5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?

  Assim, de repente, e mesmo forçando muito, não estou assim a ver "cena final" nenhuma. Lembro-me de   algumas "cenas" e das repercussões que tiveram em mim.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Aprendi a ler aos sete anos. Entrava-se na escola no dia sete de Outubro de cada ano.
Mas ainda não me entregava a muitas leituras. Com dez anos, sim. Comecei com o vício. Que já perdi. Vou dizer do que não gostava: biografias. Durante muito tempo achei que era um disparate encher livros a contar a vida das pessoas. E perder tempo a lê-los. Mudei de opinião, e, mesmo atendendo à resposta que dei na pergunta 3A, comecei a gostar de conhecer pessoas através da autobiografia ou biografia que fizeram, e fazem, delas.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim. Porquê?  

Se fosse só um! (Que mania) A razão é que fico sempre à espera que apareça o instante da redenção. Umas vezes tenho alguma sorte. A maioria das vezes, não.

7A. Qual o livro que achaste tão bom tão bom tão bom mas que ainda assim o mandaste logo para o lixo ?

Passo.


8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Não posso. Estão vários nas prateleiras atrás de mim. Citar alguns e deixar os outros, não me parece apropriado. Nem sequer um autor.  O gosto expresso  nas minhas  leituras são como o  meu coração - ecléctico.

8A. Que livro é que incluirias no plano internacional de leitura?
As minhas influências não vão para além da família e amigos. Vou oferecendo alguns na esperança de que os leiam.

9. Que livro estás a ler?
 
  Estou a ler as Ondas. Há muuuuuito tempo. Dois de poesia. Acabei de ler As Cidades Invisíveis e o Avesso e o Direito.

9A. Que livro é que não estás a ler?

Todos os outros. E mais alguns.



Como, não citei o Merton. Se citei alguém e não mencionei, foi  sem querer. É suposto passar a corrente. Vou passar a dois senhores: ao Lino (gosta de poesia como eu...e de malhar no Papa) e ao ON (para desenjoar de outros afazeres e actualizar o blogue).

2011-07-14

profetas do quotidiano

Santa Teresa fala de pessoas que têm uma vida muito ativa, dispersa numa multiplicidade de empenhos, e que, no entanto, conseguem uma vitalidade espiritual. Há, de facto, um mal-entendido de séculos que opõe, no interior da nossa cultura, para não dizer da nossa própria consciência, a contemplação à ação. Como se a vida ativa necessariamente nos desertificasse, atirando-nos para longe de nós próprios e de Deus. Ora, falando às suas irmãs contemplativas, Santa Teresa critica esta ideia e diz que a exterioridade pode até fecundar a experiência espiritual mais profunda. Mesmo o gesto exterior mais comezinho ou ínfimo, mesmo os gestos sem nenhum relevo como são os da rotina da cozinha (serão mesmo sem relevo?), ainda esses devem ser compreendidos de outra forma, pois o Deus Todo-Poderoso, o Grande Senhor do Universo move-se pela nossa cozinha, entre púcaros, vasilhas e panelas. Fomos habituados a pensar a vida espiritual como uma representação, um enredo que se passa unicamente num espaço nobre e ordenado, um intervalo sobreposto à vida. A existência quotidiana, ínfima, banal, rotineira achamos que não é para Deus, nem a consideramos capaz de ligar-nos a isso que é o sagrado. Contudo, diz-nos Santa Teresa: “Deus move-se entre os tachos”.

aqui

Facundo Cabral - 27/05/1937 - 09/07/2011

2011-07-10

o amor não engana: aqui sou feliz

Começou por ser uma bola e o excesso é apenas aparente. Porque também está um piu-piu, um gato, o pai, a mãe...um peixe, uma cobra e  a avó.

2011-07-08

Paris, 8 de Julho de 1921


“Se eu fosse guiado só pela luz da razão, diria que o mundo vai rumo à catástrofe. Mas, na história da humanidade, existe o imprevisto, o facto inesperado que muda o curso das coisas. Eis porque, no fundo, sou optimista.”

Edgar Morin

2011-07-03

boas propostas de reflexão e discussão


O elogio da Fraternidade por Manuel Carvalho da Silva from Pastoral da Cultura on Vimeo.

uma luta nada light

A que travo com os melros. Aqui fica a ilustração dos despojos, resgatados à voracidade dos malvados.

Onde está o meu Deus

«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos" (Mt 11,28) 

A forma que as religiões têm encontrado para se impor, é contrapondo a finitude, a perplexidade, a fragilidade do viver humano,  ao  poder divino. Para ser mais específica: Opondo Natureza e Graça.
Para o homem ser digno aos olhos de Deus, não lhe chega ser homem: tem de ser santo.
São secundárias as relações humanas, os instantes de gozo, as circunstâncias comezinhas da vida, porque tudo isso é nada frente ao poder de Deus.
Mas este discurso da maioria das religiões, e, sobretudo, do cristianismo, colide com o testemunho de vida de Jesus Cristo. E resume-se o mesmo a que Deus não é alheio, indiferente, distante da natureza humana, de cada homem. 
As lutas que cada pessoa, individualmente e socialmente, trava, não são entre a natureza humana e o poder divino. São consequência daquilo que somos: finitos. Mas se esta finitude nos impede de viver de forma plena, não quer dizer que nos estejam vedados instantes de redentora eternidade. O caminho é combater os discursos formatados, venham de onde vierem. Centrar a nossa vida no instante presente. Descobrir quem somos...e viver de coração aberto. Rasgado, mesmo!
 

2011-06-30

que o afã de construir não cerre nossos olhos

Quem chega a Tecla, pouco vê da cidade, por detrás dos tapumes de madeira, dos abrigos de serapilheira, dos andaimes, das armações metálicas, das pontes de madeira suspensas por cabos ou seguras por cavaletes, dos escadotes, dos postes. À pergunta: - Porque demora tanto tempo a construção de Tecla? - os habitantes sem deixarem de içar baldes, de soltar fios de prumo, de mover para baixo e para cima longas trinchas, respondem: - Para que não comece a destruição. E inquiridos se temem que assim que se retirarem os andaimes a cidade comece a esboroar-se e a cair aos bocados, acrescentam à pressa, em voz baixa: - Não só a cidade.
E se, insatisfeito com a resposta, alguém aplicar o olho à greta de uma paliçada, vê gruas que elevam outras gruas, andaimes que revestem outros andaimes, traves que escoram outras traves. - Que sentido tem o vosso construir? - pergunta. - Qual é o fim de uma cidade em construção se não uma cidade? Onde está o plano que seguem, o projecto?
- Mostrar-to-emos assim que acabar o dia; agora não podemos interromper-nos - respondem.
O trabalho cessa ao pôr do sol. Desce a noite sobre a obra. É uma noite estrelada. - Eis o projecto - dizem.

Italo Calvino - "As Cidades Invisíveis"
As cidades e o céu. 3

2011-06-26

HADEWIJCH de Bruno Dumont

uma só Igreja que vai para além das diferentes expressões cultuais

É difícil encontrar em “Roma” ou nas outras expressões cultuais do cristianismo a tal “boa nova” do carpinteiro Jesus (no seu texto é pedreiro, para o caso não interessa nada). Sobretudo, quando pretendem, cada um à sua maneira, defender que há um único modelo de Igreja fundada por Jesus, o nazareno, dos Evangelhos (canónicos ou apócrifos).
A preocupação de Jesus não é fundar alguma Igreja. É ser agente de “inclusão”, dizemos numa linguagem actual, de todos, sobretudo dos mais marginalizados, encontramos nos evangelhos canónicos.
Viver uma vida uma vida espiritual é compatível com a radicalidade evangélica. Jesus é o cabal exemplo disso mesmo. Certos modelos de cristianismo tornaram antagónicas as duas dimensões da vida humana.

a minha resposta a este post do Val, in "aspirina b"

"a dança das feridas" ou o modo de nada saber

Declaração

Moro nas sarças. Raramente saio daqui.
Gosto de por aqui ficar.
Há sempre alguém por perto,
alguém que nos diz não vás longe,
Alguém a quem chega a maresia,
a erva, o espectro duma ave  rapina
adejando sobre a leveza da sombra.

Aqui há sempre alguém por perto,
alguém com quem falar
do que nada importa,
alguém que nos abre, isso mesmo,
a porta, alguém que diz fica
e nós ficamos porque sabe bem ficar
a falar do que não importa:
dos moinhos, dos pastores,
dos amoladores, da pescaria,
dos vários tipos de isco
que o peixe exige ao largo das sarças.

Sabe bem ficar neste horizonte
de não pretender entrar.
Sabe bem dizer não
a quem lá no fundo acena.
Aqui sabe muito bem encostar a cabeça
ao ombro das rasuras,
voltar para dentro do cuspo
a desmesura dos gestos,
tricotar a pele dos regressos,
a mesma que endurece
sempre que alguém, lá de longe,
nos promete, isso mesmo, uma conquista.

Aqui sabe bem dizer não
e declinar os convites.
Ficar, isso mesmo, pela solidão.
Como quem fica, isso mesmo, pelos acepipes.

Mas a ti, meu amor,
por ti de tudo me desfaço, me renovo,
por ti  tudo perco e perco-me nesse perder
como quem ganha tudo
o que pode ganhar.
Isso mesmo: o amor
das almas que se encontram
sem nunca terem pretendido encontrar.


Henrique Manuel Bento Fialho; "A Dança da Feridas"

2011-06-23

um banquete para todos

DARSE A LOS DEMÁS, SIN TRUCOS DE MAGIA

 
La eucaristía es una realidad muy profunda y compleja, que forma parte de la más antigua tradición. Tal vez sea la realidad cristiana más difícil de comprender y de explicar. Podemos quedarnos en la superficialidad del rito y perder así su verdadera riqueza.
 
Para que veáis que no exagero, voy a contar dos anécdotas que me han sucedido en mi relación con dos representantes de la jerarquía.
 
El primero me dice: “te exigimos que no metas ninguna morcilla en la celebración de la eucaristía”. Todos sabéis lo que es un “morcilla”, además de un embutido, claro. El diccionario dice: “añadido que hace por su cuenta el actor de teatro cuando representa un papel”. Da por supuesto que estoy haciendo teatro y lo que se me pide es que represente bien mi papel. No le contesté.
 
El otro me dice: “tienes que ser como el farmacéutico, que reparte pastillas al cliente sin contarle el proceso del laboratorio”. Aquí si hubo comentario, porque le dije: “la aspirina produce su efecto automáticamente, aunque el paciente no sepa nada del ácido acetilsalicílico; pero la comunión está a años luz de ese pretendido automatismo. Si el comulgante no se entera de lo que está haciendo, no le servirá de nada”.
 
Lo grave no es que dos vicarios piensen eso de la eucaristía. Lo gravísimo es que todos hemos pensado –y algunos siguen pensando- así de los sacramentos.
 
Debemos superar muchas visiones raquíticas o erróneas sobre este sacramento.
 
1º.- La eucaristía no es magia. Claro que ningún cristiano aceptaría que al celebrar una  eucaristía estamos haciendo magia. Pero si leemos la definición de magia de cualquier diccionario, descubriremos que le viene  como anillo al dedo a lo que la inmensa mayoría de los cristianos pensamos de la eucaristía:
 
Una persona revestida con ropajes especiales e investida de poderes divinos, realizando unos gestos y pronunciando unas palabras “mágicas”, obliga a Dios a producir un cambio sustancial en una realidad material como es el pan y el vino. 


 
Cuando se piensa y se dice, que en la consagración se produce un milagro, estamos hablando de magia.
 
Trento afirma: “La Iglesia designa con el término muy adecuado de transubstanciación esta conversión eucarística”. Pero debemos advertir que “substancia” y “accidente” son conceptos metafísicos; no hacen referencia a ninguna realidad física. Además, esos conceptos no se emplean ya nunca con sentido metafísico.
 
2º.- No debemos confundir la eucaristía con la comunión. La comunión es sólo la última parte del rito y tiene que estar siempre referida a la celebración de una eucaristía. Tanto la eucaristía sin comunión, como la comunión sin referencia a la eucaristía dejan al sacramento incompleto. Ir a misa y dejar de comulgar, es sencillamente un absurdo. Ir a misa con el único fin de comulgar, sin ninguna referencia a lo que significa el sacramento, sino buscando una religiosidad intimista, es un autoengaño.
 
Esta distinción entre eucaristía y comunión explica la diferencia de lenguaje entre los sinópticos en la cena y Juan en el discurso del pan de vida que hemos leído. Juan dice hace referencia al alimento, pero fíjate bien, alimentarse lo identifica con, el que cree en mí, el que viene a mí.
 
3º.- En las palabras de la consagración, “cuerpo” no significa cuerpo; “sangre” no significa sangre. No se trata del sacramento de la carne y de la sangre físicas de Cristo.
 
Me explico. En la antropología judía, el ser humano no está compuesto por alma y cuerpo (concepción griega). El hombre es una unidad indivisible, pero podemos descubrir en él cuatro aspectos: Hombre-carne, hombre-cuerpo, hombre-alma, hombre-espíritu.
 
Hombre-cuerpo, para los judíos del tiempo de Jesús, es el ser humano en cuanto sujeto de relaciones con los demás. El concepto más cercano hoy, sería lo que nosotros llamamos persona. Cuando Jesús dice: “esto es mi cuerpo”, está diciendo: esto soy yo, esto es mi persona, estoy aquí para dejarme comer.
 
En el caso de la sangre: Para los judíos la sangre era la vida. ¡Ojo! No se trata de que fuese símbolo de la vida. No, era la vida misma. Cuando Jesús dice: “esto es mi sangre, que se derrama”, está diciendo que su vida, no su muerte, está entregada a los demás. Todo lo que él es, está al servicio de todos.
 
4º.- La eucaristía no la celebra el sacerdote, sino la comunidad. El cura puede decir misa. Sólo la comunidad puede hacer presente el don de sí mismo que Jesús significó en la última cena y que es lo que significa el sacramento.
 
Es el sacramento del amor. No puede haber signo de amor en ausencia del otro. Por eso dice Mateo: “donde dos o más estén reunidos en mi nombre, allí estoy yo en medio de ellos”.
 
5º.- La comunión nos es un premio para los buenos “que están en gracia”, sino un remedio para los desgraciados que necesitamos descubrir el amor gratuito de Dios. Solo si me siento pecador estoy necesitado de celebrar el sacramento.
 
Cuando más necesitamos el signo del amor de Dios es cuando nos sentimos separados de Él. Hemos llegado al absurdo de dejar de comulgar cuando más lo necesitábamos.
 
6º.- Lo significado en el pan y el vino no es Jesús en sí mismo, sino Jesús como don. El don de sí mismo que ha manifestado durante toda su vida y que le ha llevado a su plenitud, identificándole con el Padre. Ese es el verdadero significado que yo tengo que hacer mío.
 
Queda claro que la eucaristía no es un producto más de consumo que me proporciona seguridades a cambio de nada.  Podemos oír misa sin que eso nos obligue a nada, pero no se puede celebrar la eucaristía impunemente. No se puede salir de misa lo mismo que se entró, es decir, como si no hubiera pasado nada. Si la celebración no cambia mi vida en nada, es que la he reducido a simple rito folclórico.
 
7º.-Haced esto, no se refiere a que perpetuemos un acto de culto. Jesús no dio importancia al culto. Jesús quiso decir que repitamos el significado de lo que acaba de hacer. Esto soy yo que me parto y me reparto, que me dejo comer... Haced también vosotros esto. Entregad la propia persona y la propia vida a los demás como he hecho yo.
 
8ª.- los signos de la eucaristía no son el pan y el vino sino el pan partido y el vino derramado. Durante siglos, se llamó a la eucaristía “la fracción del pan”. No se trata del pan como cosa, sino del gesto de partir y comer.
 
Al partirse y dejarse comer, Jesús está haciendo presente a Dios, porque Dios es don infinito, entrega total a todos y siempre. Esto tenéis que ser vosotros. Si queréis ser cristianos tenéis que partiros, repartiros, dejaros comer, triturar, asimilar, desapare­cer en beneficio de los demás. Una comunión sin este compromi­so es una farsa, un garabato, como todo signo que no signifique nada.
 
Todavía es más tajante el signo del vino. Cuando Jesús dice: esto es mi sangre, está diciendo esto es mi vida que se está derramando, consumiendo,  en beneficio de todos.
 
Eso que los judíos tenían por la cosa más horrorosa, apropiarse de la vida (la sangre) de otro, eso es lo que pretende Jesús. Tenéis que hacer vuestra, mi propia vida. Tenéis que vivir la misma vida que yo vivo.
 
Nuestra vida sólo será cristiana si se derrama, si se consume, en beneficio de los demás. En la Eucaristía estamos confesando que ser cristiano es ser para los demás. Todas las estructu­ras que están basadas en el interés personal o de grupo, no son cristianas.
 
Una celebración de la Eucaristía compatible con nuestros egoísmos, con nuestro desprecio por los demás, con nuestros odios y rivalidades, con nuestros complejos de superioridad, sean personales o grupales, no tiene nada que ver con lo que Jesús quiso expresar en la última cena.
 
Celebrar la eucaristía es comprometerse a ser fermento de unidad, de armonía, de amor, de paz.
 
La eucaristía es un sacramento. Y los sacramentos ni son milagros ni son magia. El concilio de Trento dice: “Es común a la santísima Eucaristía con los demás Sacramentos, ser símbolo o significación de una cosa sagrada”.
 
Se produce un sacramento cuando el signo (una realidad que entra por los sentidos) está conectado con una realidad trascendente que no podemos ver ni oír ni tocar. Esa realidad significada, es lo que nos debe interesar de verdad.
 
La hacemos presente por medio del signo. No se puede hacer presente de otra manera. Pero las realidades trascendentes, ni se crean ni se destruyen; ni se traen ni se llevan; ni se ponen ni se quitan. Están siempre ahí. Son inmutables y eternas.
 
La eucaristía concentra todo el mensaje de Jesús.
 
El ser humano no tiene que salvar su "ego", a partir de ejercicios de piedad sino liberarse del "ego" que es precisamente lo contrarío. Sólo cuando hayamos descubierto nuestro verdadero ser, descubriremos la falsedad de nuestro yo individual y egoísta que se cree independiente del resto de la creación.
 
Imaginad una habitación llena de globos; si los pinchamos todos descubriremos que lo único que marcaba la diferencia, la fina película de caucho coloreado, no era prácticamen­te nada. Todos eran sustancialmente lo mismo, aire, el mismo aire.     

ó sagrado banquete...

convite

subi as ruas do sangue, dolorosas
e avistareis leões no rasto do Ungido
a presa bebe em nós a água e a sua sombra
come-se a Páscoa na alegria diferida

vinde ao banquete do vinho, não da pedra
onde a doença da morte dorme, recostada
sentai-vos junto do fogo que vos lembre o voo
histórias de perfumes e manhãs de linho

só um vestido nos falta para entrar:
a Deus vai-se despido de roupagens
revista-nos a graça da nudez primeira
a desmesura da abordagem imprevista

comparecei à partilha da Palavra
à memória a que devemos estar presentes
enchei a mesa do dom do corpo entregue
do túmulo vazio o pão do dia rompe

vinde ver o lugar do sangue aberto
o tesouro guardado, indestrutível
ide dizer que o perfume encheu a casa
acordai as alusões esquecidas, as fogueiras

José Augusto Mourão, em: «Dizer Deus – ao (des)abrigo do Nome»
12 de Junho de 2011


retirado daqui

2011-06-17

dedicada

Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia

Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria

Desde então a lavrar
No meu peito a alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia

Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia

Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo

2011-06-16

Travessia do Deserto

Que caminho tão longo!
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande
Sem fronteira nem medida!

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte

Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga

viver "entre"

Fronteira: linha do fim ou do começo? (3) from Pastoral da Cultura on Vimeo.

2011-06-15

Poema da Eterna Presença

Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva,
de olhos postos no céu, e reparo, com alegria,
que as dimensões do infinito não me perturbam.
(O infinito!
Essa incomensurável distância de meio metro
que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!)

O que me perturba é que o todo possa caber na parte,
que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote.

O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim,
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo.
E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas
porque eu não sou braço nem sou perna.

Se eu tivesse a memória das pedras
que logo entram em queda assim que se largam no espaço
sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair;
se eu tivesse a memória da luz
que mal começa, na sua origem, logo se propaga,
sem que nenhuma se esquecesse de propagar;
os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminharam sobre a Terra,
os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram
continentes,
a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a
Terra.

Mas não esqueci tudo.
Guardei a memória da treva, do medo espavorido
do homem da caverna
que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz;
guardei a memória da fome;
da fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo;
guardei a memória do amor,
dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez desejar a mulher do próximo e do distante;
guardei a memória do infinito,
daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos,
em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado,
à formação do Universo.

Tudo se passou defronte de partes de mim.
E aqui estou eu feito carne para o demonstrar,
porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim.
Já cá estavam.
Estão.
E estarão.

António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'
 

2011-06-13

eis-me aqui

um pequeno espaço de férias  (merecidas e necessárias) que iriam terminar num momento especial de celebração da vida, tornaram-se, de modo imprevisto, num tempo intenso de abertura e acolhimento de momentos de alegria e profundo sofrimento. Em todos eles recebi fortes testemunhos de amor.


Hoje apetecia-me a oração do "fariseu": Senhor, dou-te graças, por ser quem sou. E por todas as pessoas que se "cruzam" no meu caminhar.

2011-06-03

um homem/mulher um voto

Podemos convidar a ruína e elevar o cinismo a uma arte menor, mas só um país com uma doença moral profunda reelegerá Sócrates. Isto é importante, porque é a minha única certeza.

Porque não cultivo o mito do "bode expiatório". Porque os seis anos de Governo não se limitaram a uma única pessoa, mas a um colectivo que executou políticas e acções em contexto quase sempre desfavorável e adverso. Porque sei identificar algumas opções erradas, mas também as que significaram  coragem e inovação. Porque não se me oferece alternativa credível e melhor: no dia 5 voto PS (e em Sócrates, claro!)

imagem: Mário Botas

"o respeito deve ser às pessoas e não às ideias"

estado dos dias

O Segredo é Amar 

O segredo é amar. Amar a Vida
com tudo o que há de bom e mau em nós.
Amar a hora breve e apetecida,
ouvir os sons em cada voz
e ver todos os céus em cada olhar.

Amar por mil razões e sem razão.
Amar, só por amar,
com os nervos, o sangue, o coração.
Viver em cada instante a eternidade
e ver, na própria sombra, claridade.

O segredo é amar, mas amar com prazer,
sem limites, fronteiras, horizonte.
Beber em cada fonte,
florir em cada flor,
nascer em cada ninho,
sorver a terra inteira como o vinho.

Amar o ramo em flor que há-de nascer,
de cada obscura, tímida raiz.
Amar em cada pedra, em cada ser,
S. Francisco de Assis.

Amar o tronco, a folha verde,
amar cada alegria, cada mágoa,
pois um beijo de amor jamais se perde
e cedo refloresce em pão, em água!

  Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"

2011-06-02

de momento

ó dor, minha irmã!

a felicidade possível.

Este silêncio interior que me acompanha nasce do curso lento que conduz o dia a este outro dia. Que posso eu querer mais além deste quarto aberto sobre a planície, com os seus móveis antigos e as suas rendas de croché? Tenho todo o céu na minha frente e este rodopio dos dias parece-me que poderia segui-lo sem cessar, imóvel, rodopiando com eles. Impregno-me da única felicidade de que sou capaz - uma consciência atenta e amigável. Passeio durante todo o dia: da colina desço para Vicência ou então vou mais além pelos campos. Cada ser encontrado, cada cheiro desta rua, tudo me serve de pretexto para amar sem limites. Raparigas que vigiam uma colónia de férias, a corneta dos vendedores de gelados (os seus carros são gôndolas montadas sobre rodas e munidas de varais) os estendais de fruta, melancias vermelhas de pevides negras, uvas translúcidas e pegajosas - outros tantos apoios para quem já não sabe estar só. (1) Mas a flauta estridente e terna das cigarras, a doçura das águas e das estrelas que se descobre nas noites de Setembro, os caminhos perfumados, entre os lentiscos e os juncos, outros tantos sinais de amor para quem é forçado a estar só.(1) Assim passam os dias.

(1) Isto é, toda a gente.

Albert Camus - "O Avesso e o Direito"