2012-08-29

diário da alma #6



(Dornes, Agosto 2012)


- Construímos a casa em pedra com porta e janela viradas a sul
rasgámos poços regámos
plantámos árvores que mais tarde derramariam misteriosas raízes de ébano e de açúcar
até onde as águas se ramificam formando imperturbáveis rios subterrâneos
fabricámos os instrumentos rudes de muitos trabalhos
rodeámo-nos de animais e aprendemos a falar-lhes

- No horizonte da casa o rio as dunas o mar
as águas no instante em que não pertencem ao rio
nem pertencem ao mar
em redor avistávamos árduas planícies terras lavradas
crepúsculos imensos deitados sobre as searas
mas apesar de tudo
desenvolvia-se a partir do coração o inocente desejo de fugir

Al Berto
"Apresentação da noite"
Assírio & Alvim

2012-08-28

Nietzsche-um pensador em busca do humano

os sentidos da lei


A Lei, diz o jardineiro, é o Sol,
A Lei é o farol
Que guia o jardineiro
O tempo inteiro.

A Lei é a sageza de antigamente,
O ralhete estridente do avô impotente
A quem os netos deitam uma língua rude,
A Lei são os sentidos da juventude.

A Lei, diz o padre, com  seu ar de vigário,
Para um povo bem pouco sacerdotal
A Lei está escrita no meu missal,
A Lei é o meu púlpito o meu campanário.

A Lei, diz o juiz, empinando o nariz,
Num tom severo e isento,
A Lei é, como vos disse uma vez,
A Lei é, como do vosso conhecimento,
A Lei é, mas posso explicar outra vez,
A Lei é A Lei.

E todavia escrevem os doutos escrivães,
A Lei não é certa nem errada,
A Lei são apenas infracções
Punidas em certas ocasiões
A Lei é a roupa usada
Em qualquer sítio, a qualquer hora,
A Lei é Bom-dia, ou vá-se embora.

Outros dizem, a Lei é o nosso fado;
Outros dizem, a Lei é o nosso  Estado;
Outros ainda reagem,
A Lei é nada,
A Lei partiu de viagem.

E sempre a multidão com a raiva na voz,
A multidão revoltada num escarcéu,
A Lei é Nós,
E sempre o manso idiota mansamente Eu.

Sabendo nós, amor, que não sabemos mais
Do que eles sobre a lei,
Se eu mais do que tu não sei
O que devemos ou não devemos fazer,
A não ser que é ponto asssente
Feliz ou infelizmente
Que a lei é
E é só o que há a dizer,
E se parece, assim, uma absurdidade
Identificara Lei com outra realidade
Ao contrário de tantos outros
Não posso eu repetir
Que a Lei é,
Não podemos, mais do que eles, suprimir
A ânsia universal de pressentir
Ou de abdicar da nossa posição
Em favor de uma indiferente condição.

Embora possa pelo menos resumir
A tua e a minha vaidade
Atrevendo-me a supor
Uma ténue afinidade,
Podemos, apesar de tudo, presumir,
Por hipótese, como o amor.

Como o amor não sabemos onde nem porquê
Como o amor que não podemos coagir
Como o amor de que não podemos fugir
Como o amor que amiúde choramos
Com o amor que raro guardamos.


W. H. Auden - Outro Tempo
Tradução de Margarida Vale de Gato
Relógio D'Agua

2012-08-27

E mais será revelado...


Thomas voltou-se e encaminhou-se para a sua própria casa, transportando o corpo de Elizabeth. Pela primeira vez desde que se recordava, Thomas chorava. Joseph viu-o subir os degraus, e depois afastou-se em passo rápido, quase a correr. Chegou ao rio seco e apressou-se pela sua margem, contornando os pedregulhos arredondados e lisos. O sol baixava na embocadura de Puerto Suelo e as nuvens, que haviam soltado um pouco de chuva, encapelavam-se no leste, como muros vermelhos, projectando para o solo uma luminosidade avermelhada que tornava púrpuras as árvores sem folhas. Joseph apressou-se a subir o rio. «Aqui havia uma poça funda - pensava. - Não poderá estar completamente seca, era demasiado funda.» Seguiu o leito do rio durante pelo menos uma milha, acabando por encontrar a poça, profunda e castanha, com um cheiro doentio. À luz mortiça, via as grandes enguias negras rastejando em lentas convulsões. A charca encontrava-se rodeada por dois lados por pedregulhos redondos e lisos. Em tempos melhores, mergulhava nela uma pequena queda de água. O terceiro lado dava para uma praiazinha arenosa , cortada e marcada por pistas de animais; as delicadas pontas de seta dos veados, as patas almofadadas dos leões e as mãozinhas dos guaxinins e, por cima de tudo aquilo os traços emporcalhados das patas dos javalis. Trepou para cima de um dos pedregulhos da queda de água e sentou-se ali, agarrando um joelho com as mãos. Estremeceu um pouco de frio, embora não o sentisse. Enquanto baixava o olhar para a charca, passou-lhe todo o dia debaixo dos olhos, não como um dia, mas mais como uma era. Recordou-se de pequenas coisas de que nem sequer se apercebera. As palavras de Elizabeth voltaram-lhe ao espírito, com uma entoação tão verídica, tão completa na ênfase, que supôs tê-las ouvido de novo. Soavam-lhe aos ouvidos.
- É esta a tempestade - pensou. - É isto o princípio daquilo que conheço. Há aqui um ciclo, tão firme, rápido e imutável como uma roda. - E ocorreu-lhe o estafado pensamento de que, se fitasse os olhos na charca e libertasse o espírito de quaisquer outras imagens, poderia acabar por compreender qual era esse ciclo.


John Steinbeck in "a um deus desconhecido"

2012-08-26

ir além da fé consolação

 



Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça.

(Jo 15,16)

2012-08-25

um desafio às nossas dormências


Infeliz do pobre que tem lazeres. Chaktour ia voltar ao trabalho quando avistou o rapaz. Este mantinha-se à entrada da oficina, com o molho de trevo que tinha comprado no mercado debaixo do braço. Olhava o pai com um ar de reprovação nos olhos tristes, como que a recordar-lhe qualquer coisa de grave de que o homem já não se lembrava.
- Que me trazes aí, pequeno?
- É para o carneiro, pai.
- Qual carneiro?
Como é que não compreendia? O garoto estava quase a chorar, mas conseguiu conter-se e explicou tudo àquele pai embrutecido pela miséria, escravo de uma fatalidade rigorosa e cruel.
- O carneiro para a festa, pai. Eu cá arranjei o trevo. Agora só te resta comprar o carneiro.
Apesar de sujo, o rapaz era belo. Estava nu debaixo da túnica cor de terra. Trazia a tristeza em todo o corpo.
Chaktour olhou o filho com espanto e piedade. Não disse nada. No seu espírito continuamente atormentado, já não havia lugar para uma nova dor. Sentia-se simplesmente esmagado pelo gesto do filho. Compreendia agora que nesta criança - da sua carne e do seu sangue - se estava a formar uma miséria consciente e real de que ainda não se tinha apercebido e que para sempre ficaria ligada à sua. O menino crescerá e a sua miséria irá crescer com ele até ao dia em que fraco por sua vez - pode um homem suportar sozinho a sua miséria? - criará um filho que partilhará o peso dela com ele. A única consolação do pobre é não deixar ao morrer um filho pródigo. A ignomínia que lega à descendência é inesgotável.
- A festa não é para nós, meu filho -, disse ele. - Nós somos pobres.
O garoto chorou, chorou amargamente.
- Não me interessa; quero um carneiro.
- Somos pobres -, repetiu Chaktour.
- Somos pobres porquê? -, perguntou a criança.
O homem reflectiu antes de responder. Depois de tantos anos de indigência tenaz, ele próprio não se lembrava por que eram pobres. Era uma coisa que vinha de muito longe, de tão longe que Chaktour já não se lembrava como tinha começado. Dizia para si próprio que a sua miséria com certeza nunca tivera começo. Era uma miséria que se prolongava para além dos homens. Apanhara-o desde a nascença e ele logo lhe pertencera, sem a menor resistência, visto que lhe estava destinada muito antes de ter nascido, ainda na barriga da mãe.
A criança estava sempre à espera que lhe explicassem por que eram pobres. Deixara de chorar, mas ainda havia muitas lágrimas dentro de si, todas as lágrimas das crianças miseráveis cujos sonhos são traídos pela vida.
- Escuta, pequeno, vai-te sentar num canto e deixe-me trabalhar. Se somos pobres é porque Deus nos esqueceu, meu filho.
- Deus! -, exclamou a criança. - E quando se lembrará ele de nós, meu pai?
- Quando Deus esquece alguém, é para sempre.
- Guardo à mesma o trevo -, disse o garoto. Pegou no molho do trevo e pousou-o num canto da oficina, sentando-se em cima dele. Depois recomeçou a chorar, por ser pequeno e ser aquela a maneira de se revoltar contra a injustiça do mundo.


Albert Cossery in "Os homens esquecidos de Deus"
Tradução Ernesto Sampaio
Antígona

2012-08-24

sublime capricho

no feminino


disse num tom que parecia casual:"vai ser o segundo funeral em que participa...o primeiro foi o de um casal que se enterrou no mesmo dia". O segundo seria o do marido que morreu com 92 anos.
Grande mistério é a vida. E a desta mulher em particular.

Jorge Luís Borges que nasceu a 24 de Agosto de 1899


Os Justos  

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

2012-08-23

a vida em imagens #12


(Agosto 2012)


caminhar entre as árvores e sentir
Saudades de Melquisedeque

Esta manhã gostaria de ter dado ontem
um grande passeio àquela praia
onde ontem por sinal passei o dia
É difícil a vida dos homens senhor
Os anjos tinham outras possibilidades
e alguns deles foi o que tu sabes
Esta terra não está feita para nós
Mesmo que ela fosse diferente
nós quereríamos talvez outra terra
talvez esta de que agora dispomos
Não achas meu senhor que temos braços a mais
dias a mais complicações a mais?
Pra nascer e morrer seria necessário tanto?
Falhamos tantas vezes (Como os judeus que juraram
não comer nem beber até matar paulo
e apesar disso não o mataram)
É difícil a vida difícil a morte. 
Por vezes os homens juntam-se todos
ou quase todos e organizam
grandes manifestações. Mas nada disso os dispensa
da grande solidão da morte
de termos de morrer cada um por nossa conta
Todos tivemos pai e mãe
nenhum de nós que eu saiba veio de salém



Ruy Belo

2012-08-18

«Je n'ai pas la vertue des femmes de marins»

Camus interpreta "O Castelo" de Kafka


Poucas obras são mais rigorosas no seu andamento do que O Castelo. K... é nomeado agrimensor do castelo e chega à vila. Mas da vila é impossível comunicar com o castelo. Durante centenas de páginas, K... teimará em encontrar o seu caminho, fará todas as diligências, empregará a manha e a subtileza, nunca se aborrecerá, e, com uma fé desconcertante, quererá entrar na função que lhe confiaram. Cada capítulo é um falhanço. E também um novo recomeço. Não se trata de lógica de persistência. A amplitude dessa teimosia faz o trágico da obra. Quando K... telefona para o castelo, são vozes confusas e mescladas, risos vagos, chamamentos longínquos o que ouve. Isso basta para alimentar a sua esperança, tal como esses poucos sinais que aparecem nos céus do Verão, ou como essas promessas da noite que fazem a nossa razão de viver. (...) «Fico melancólica», diz Olga «quando Barnabé me diz de manhã que vai ao castelo: esse trajecto provavelmente inútil, esse dia provavelmente perdido, essa esperança provavelmente vã.» «Provavelmente», ainda neste cambiante Kafka joga a sua obra. Mas nada altera o essencial: a busca do eterno é nela meticulosa.



Albert Camus in "O Mito de Sísifo"-
"A Esperança e o absurdo na Obra de Kafka"