2012-09-30
porque hoje é domingo
abandonou-me, a mim,
nascente de águas vivas,
e construiu cisternas para si,
cisternas rotas,
que não podem reter as águas.
Jeremias 2,13
2012-09-29
2012-09-28
2012-09-27
resíduos do verão
(Jardim Botânico Tropical- Lisboa)
Ginkgo biloba
A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos um gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio edificar.
Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?
P’ra responder às perguntas
Tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?
Goethe
2012-09-25
a vida em imagens #15
(Constância, Agosto 2012)
" Desahucio "
Se llamaba María, Ana, Luisa
y tenía su casa
muy cerca de la tuya.
Y hace días, muy pocos, que no vive.
Hace días que no sale a la compra,
que no asoma su rostro a la ventana,
que no sueña,
ni habla,
ni respira.
Se ha vencido en el caos de la crisis
al terror del desahucio y del vacío.
Así muren los pobres,
en silencio,
en el gris abandono de sus vidas,
sin conocer el grito de su fuerza,
su protesta en un coro de gargantas.
Y culpo a la avaricia,
a los mercados,
a los que nos gobiernan pese a todo,
de esta muerte.
Y ya no habrá silencios.
Miguel, Isabel. Revista de Letras Bora Nº 2. Málaga: Agosto 2012, p 45.
trouxe daqui
o seguimento de Jesus, hoje
O seguimento de Jesus em qualquer era, seja pré-científica ou científica, consiste em compreender os ensinamentos de Jesus, interiorizá-los e viver a própria vida com base nestas convicções. O ensinamento de Jesus estava centrado no reinado de Deus, na maneira como o mundo seria de acordo com a intenção criadora de Deus. Uma boa ilustração do reinado de Deus se encontra na parábola de Jesus sobre o “bom samaritano”. Lembremos que os samaritanos eram inimigos dos judeus. Assim, Jesus apresenta, nessa história, o samaritano que faz o que pode para ajudar seu inimigo, um judeu, como um modelo para amar a outra pessoa como nosso próximo. Esse é o ensinamento do amor que se estende inclusive aos inimigos, e ele é tão compreensível e desafiador hoje como foi na Palestina de Jesus.
Embora o significado abstrato básico seja o mesmo ontem e hoje, ele pode assumir significados muito diferentes em diferentes culturas. Hoje eu interpretaria as palavras de Jesus “vai e faze tu o mesmo” num contexto social. Amar os inimigos pode significar mais do que ajudar indivíduos vítimas de assaltantes na estrada; pode significar mudar a situação social de modo que não haja mais pessoas que são marginalizadas da sociedade e, assim, têm de recorrer ao assalto para sobreviver. Em suma, seguir Jesus começa com fazer o que ele fez no seu ensino e ministério. Isso de forma alguma é o fim, mas é a base que se assemelha em culturas diferentes.
daqui
2012-09-23
o que se traduz
"Quando procuro o que há de fundamental em mim, é o gosto da felicidade que eu encontro." (A. Camus)
2012-09-22
exactamente como penso
"Vem isto a propósito das manifestações de dia 15 e do sentimento que as provoca. Parece evidente que a enorme dimensão das manifestações deve muito a uma motivação egoísta, à defesa dos interesses individuais próprios dos cidadãos - uma motivação totalmente legítima - e não escondo que me teria sentido mais emocionado se tivesse visto manifestações desta dimensão perante os cortes no RSI, os aumentos das taxas moderadoras na Saúde, os cortes no apoio a pessoas com deficiências ou os cortes na educação, mesmo quando estas medidas iníquas não nos afectam a todos. Mas o que acontece - e o que o Governo não percebe - é que a indignação das pessoas não se deve apenas aos cortes em si, mas à sua iniquidade, à sua injustiça - bem exemplificada no caso da TSU. Deve-se à falta de vergonha com que se cortam os salários dos trabalhadores para os entregar aos patrões; ao descaramento com que se taxam os rendimentos do trabalho para poupar os do capital."
Vítor Malheiros, aqui
os tempos que vivemos
(Lisboa 15/09/2012)
Não disse quase nada da manifestação (ou das manifestações) do passado 15 de Setembro, na qual que fiz o meu "baptismo", com mais cinco familiares. Todos neófitos. Um deles, dizia no final, que tinha sentido maior expressão de cidadania nesta participação, do que no acto de votar. Eu, como nasci antes de 1974, tenho por muito caro o direito ao exercício do voto, livremente expresso.
E se o slogan/convocatória era "que se lixe a troika ... queremos as nossas vidas", foi por demais evidente que eram diferentes as motivações de participação.
E é dessas motivações e das diferentes questões que se levantam, que não nos permite descansarmos placidamente...o meu querido amigo João Tunes, que depois de longo interregno bloguístico, volta ao nosso convívio, diz o essencial:
É este caminhar já feito (sim, o muito que andámos para se chegar ao 15 Set) que nos dá um pó de esperança sobre o que o futuro nos reserva enquanto povo que se redescobre e grita quando acorda. Sabendo-se que o futuro não passa de um permanente recomeçar sempre num ponto diferente. Para onde? Até onde? Caminhemos para saber.
2012-09-21
despedida de verão
(Ericeira 2012)
e eu
conhecerei eu as tempestades?
e a água dos grandes mares internos?
é o lado escondido das ilhas que amo.
Al Berto in "Apresentação da Noite"
Assírio & Alvim
2012-09-20
prerrogativas da caridade
O debate entre a “caridade” e a “caridadezinha” tem tido, nos últimos tempos, picos de aquecimento na blogosfera e nas redes sociais. Até cantores de esquerda foram acusados de envolvimento em iniciativas pintadas com as cores da caridadezinha, mas a intervenção de Isabel Jonet nessa questão tem sido mais focada. O tema importa, não apenas pela sua relevância política, mas por dizer directamente respeito a pessoas que precisam de não serem deixadas à sua sorte, bem como a pessoas que por isso se interessam. Ora, então, vamos lá por partes.
Ponto 1. Eu não sou contra a caridade. Não sou contra as pessoas que, livremente e para lá de quaisquer direitos ou deveres legais, dão coisas e/ou tempo e/ou dedicação a outras pessoas, gratuitamente. Não sou contra isso, nem na forma individual, nem na forma organizada. Pelo contrário. Por exemplo, acho meritório o trabalho dos Bancos Alimentares contra a Fome. Como instituição e na pessoa dos colaboradores que concretizam a sua acção. Mesmo que eu não partilhe algumas das suas ideias, acho meritório. Há, de facto, seres humanos concretos que obtém, mesmo que momentaneamente, algum tipo de alívio para os seus sofrimentos por causa de acções que costumam designar-se como caridade. Não podemos ser indiferentes a isso.
Ponto 2. No plano de uma comunidade política civilizada, as pessoas têm direitos. Para falar genericamente, direito a uma vida digna. Os direitos não são oferecidos pela boa vontade de alguém, são uma bagagem inalienável de cada pessoa. Os direitos não devem depender de que apareça alguém com disponibilidade para os concretizar, devem ser assumidos por uma comunidade organizada. Uma comunidade onde a caridade é precisa, de forma sistemática, para atender a direitos básicos que deviam estar assegurados, é uma comunidade doente. O "Estado social", tal como o entendo, é necessário para que ninguém precise da caridade. O projecto de tornar a caridade o caminho principal, a via real, relegando para segundo plano a solidariedade organizada e a garantia dos direitos, é um projecto para uma sociedade de pedintes e servos. É que os direitos não podem depender das boas vontades, enquanto a caridade é, por natureza, arbitrária: ninguém pode ser obrigado a ser caridoso, o caridoso é caridoso quando quer, como quer, com quem quer. Esse elemento de discricionaridade, sempre presente na caridade, não é tolerável como elemento central de uma comunidade de cidadãos.
Por isso acho intolerável a ideologia de Isabel Jonet sobre este ponto, quando diz: «Eu sou mais adepta da caridade do que da solidariedade. A caridade é muito mais. A palavra está desvirtuada por ter uma conotação religiosa, mas para mim a caridade é a solidariedade com amor. Com entrega de si mesmo. A grande diferença é que caridade é amor e solidariedade é serviço.» (fonte)
Colocar os direitos, e a solidariedade organizada como meio de os fazer valer, em segundo plano face à caridade, é ideologicamente um regresso ao salazarismo. Que recuso liminarmente.
Ponto 3. Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, tem-se colocado sistematicamente, de há algum tempo a esta parte, numa linha claramente ideológica, política no sentido mais parcial do termo, assumindo teses muito antigas e muito claramente posicionadas no tabuleiro da luta político-partidária. Quando alerta para os «efeitos perversos» do Estado Social; quando defende que o novo pacote de austeridade de Setembro (incluindo o Robin dos Bosques invertido, mais conhecido por TSU) é um «mal menor»; quando afirma: «As pessoas passaram a achar que têm direito a todas as prestações sociais e dão-no como adquirido. Muitas vezes, preferem ir para o subsídio de desemprego do que ter um emprego, ainda que ele seja menos bem pago, porque sabem que vão ter a prestação social no final do mês.» (fonte). Entretanto, se alguém ataca as declarações da senhora, há logo umas vozes escandalizadas porque a senhora é muito boazinha e não pode ser criticada. Ora, nada disto é caridade: isto é política de uma tendência bem determinada.
Saberá Isabel Jonet, por exemplo, que quase metade dos desempregados em Portugal não recebem nenhuma prestação de desemprego? Misturar toda essa gente, em geral, com os que se encostam e não fazem nada (que também existem, sim) é pura ideologia. E é um velho argumento, que vem sempre do lado dos que culpam os aflitos pela sua aflição. Isabel Jonet tem insistido, nos últimos tempos, em fazer ideologia, em falar demasiado genericamente. Fica-lhe mal e, se o que ela quer mesmo é fazer caridade, está a prejudicar essa mesma caridade com esta insistente agenda ideológica. Infelizmente, até já a caridade serve para fazer currículo que depois se usa no combate político (um Fernando Nobre de saias?). O que é uma pena: há pessoas que admiro apesar das divergências, mas também há pessoas que nos fazem perder o respeito pela sua acção quando confundem os carrinhos todos e se metem em guerras a que se deviam poupar.
Ponto 4. Usar a caridade para promover certas ideias políticas é repugnante. Moralmente repugnante. Mesmo em termos cristãos, é contra o Evangelho, que manda que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita (quer dizer, que não se apregoe, não se faça propaganda da caridade praticada). Não sou contra a caridade como caridade, mas tenho muito contra a intrusão da caridade na luta ideológica, como arma de arremesso política. Infelizmente, a Isabel Jonet que assim entra no combate ideológico, sem luvas nem nada (de uma forma quase partidária, pelo tom da sua vinda a terreiro neste momento), lança desse modo uma sombra sobre um projecto (os bancos alimentares contra a fome) que, apesar das discordâncias com as tintas ideológicas, considerávamos meritório. E continuamos a considerar: meritório e necessário. Infelizmente necessário.
Ponto 5. Uma última palavra sobre a solidariedade que vai para além do “Estado social”. Nem toda a caridade é caridadezinha, mas anda por aí muita caridadezinha disfarçada de caridade cristã. Gostaria de saber se todos os entusiastas de Jonet seriam igualmente entusiastas de associações operárias de socorros mútuos, que certamente não beneficiariam de tanta benevolência de certos meios, nem de tantas bênçãos. E, contudo, têm tradição e fizeram muita obra: mas com uma ideologia muito diferente. Aliás, é pena que a esquerda, em tantos países, tenha perdido essas tradições, tornando-se demasiado estatista: mas essa é outra conversa. Entretanto, aos que fazem ideologia e política de facção do alto dos seus tronos de caridade, digo, usando ainda outra expressão do Evangelho, que são "túmulos caiados de branco". E que, como tal, não me merecem o respeito que presumem ser-lhes devido.
(Acrescento este link, por conter alguma informação relevante de enquadramento.)
respiguei daqui
2012-09-19
Jardim Botânico Tropical, Belém-Lisboa
é meticulosa a seiva que nos gerou
conservamos na boca um travo de flor eclodindo
uma luz de cometa guia-nos de órbita em órbita
caindo
no entanto nenhum obstáculo será capaz de impedir o regresso à terra
nem mesmo o inflexível rigor da morte exterminará os
fascinados rebanhos
Al Berto in "A Apresentação da Noite-Paisagens e Regresso"
Assírio & Alvim
2012-09-18
2012-09-16
porque hoje é domingo
O Senhor Deus abriu-me os ouvidos
e eu não resisti nem recuei um passo.
Apresentei as costas àqueles que me batiam
e a face aos que me arrancavam a barba;
não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.
Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio
e por isso não fiquei envergonhado;
tornei o meu rosto duro como pedra,
e sei que não ficarei desiludido.
O meu advogado está perto de mim.
Pretende alguém instaurar-me um processo?
Compareçamos juntos.
Quem é o meu adversário?
Que se apresente!
O Senhor Deus vem em meu auxílio.
Quem ousará condenar-me?
(Isaías 50,5-9a)
É imperativo da fé cristã passar do "eu" ao "nós". É assim que Deus está connosco.
2012-09-14
2012-09-13
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