2012-10-23
vida com vida
A nossa crença na realidade da vida e na realidade do mundo não são, com efeito, a mesma coisa. A segunda provém basicamente da permanência e da durabilidade do mundo, bem superiores às da vida mortal. Se o homem soubesse que o mundo acabaria quando ele morresse, ou logo depois, esse mundo perderia toda a realidade, como a perdeu para os antigos cristãos, na medida em que estavam convencidos de que as suas expectativas escatológicas seriam imediatamente realizadas. A confiança na realidade da vida, pelo contrário, depende quase exclusivamente da intensidade com que a vida é experimentada, do impacte com que ela se faz sentir. Esta intensidade é tão grande e a sua força tão elementar, que onde quer que prevaleça, na alegria ou na dor, oblitera qualquer outra realidade mundana. [...] O facto é que a capacidade humana de vida no mundo implica sempre uma capacidade de transcender e alienar-se dos processos da própria vida, enquanto a vitalidade e o vigor só podem ser conservados na medida em que os homens se disponham a arcar com o ónus, as fadigas e as penas da vida.
Hannah Arendt in "A Condição Humana"
2012-10-22
a lógica da Trindade
Escrevíamos anteriormente que Deus é mistério em si mesmo e para si mesmo. Para os cristãos trata-se de um mistério de comunhão e não de solidão. É a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A ortodoxia afirma: há três Pessoas e um só Deus. É possível isso? Não seria um absurdo 3=1? Aqui tocamos naquilo que os cristãos subentendem quando dizem "Deus”. É diferente que o absoluto monoteísmo judeu e muçulmano. Sem abandonarmos o monoteísmo, faz-se mister um esclarecimento desta Trindade.
O três seguramente é um número. Mas não como resultado de 1+1+1=3. Se pensarmos assim matematicamente, então Deus não é três; mas, um e único. O número três funciona como um símbolo para sinalizar que sob o nome Deus há comunhão e não solidão, distinções que não se excluem mas que se incluem, que não se opõem mas se compõem. O número três seria como a auréola que colocamos simbolicamente ao redor da cabeça das pessoas santas. Não é que elas andem por ai com essa auréola. Para nós é o símbolo a sinalizar que estamos diante de figuras santas. Assim ocorre com o número três.
Com o três dizemos que em Deus há distinções. Se não houvesse distinções, reinaria a solidão do um. A palavra Trindade (número três) está no lugar de amor, comunhão e inter-retro-relações. Trindade significa exatamente isso: distinções em Deus que permitem a troca e a mútua entrega de Pai, Filho e Espírito.
A rigor, como já viu o gênio de Santo Agostinho, não se deveria falar de três Pessoas. Cada Pessoa divina é única. E os únicos não se somam porque o único não é número. Se disser um em termos de número, então não há como parar: seguem o dois, o três, o quatro e assim indefinidamente. Kant erroneamente entendeu assim e por isso rejeitava a ideia de Trindade. Portanto o número três possui valor simbólico e não matemático. O que ele simboliza?
C. G. Jung nos socorre. Ele escreveu longo ensaio sobre o sentido arquetípico-simbólico da Trindade cristã. O três expressa a relação tão íntima e infinita entre as diversas Pessoas que se uni-ficam, quer dizer, ficam um, um só Deus.
Mas se são três Únicos, não resultaria no triteísmo, vale dizer, três Deuses em vez de um: o monoteísmo? Isso seria assim, se funcionasse a lógica matemática dos números. Se somo uma manga+uma manga+uma manga, resultam em três mangas. Mas com a Trindade não é assim, pois estamos diante de outra lógica, a das relações interpessoais. Segundo esta lógica, as relações não se somam. Elas se entrelaçam e se incluem, constituindo uma unidade. Assim, pai, mãe e filhos constituem um único jogo de relações, formando uma única família. A família resulta das relações inclusivas entre os membros. Não há pai e mãe sem filho, não há filho sem pai e mãe. Os três se uni-ficam, ficam um, uma única família. Três distintos; mas, uma só família, a trindade humana.
Quando falamos de Deus-Trindade entra em ação esta lógica das relações interpessoais e não dos números. Em outras palavras: a natureza íntima de Deus não é solidão; mas, comunhão.
Se houvesse um só Deus reinaria, de fato, a absoluta solidão. Se houvesse dois, num frente a frente ao outro, vigoraria a distinção e, ao mesmo tempo, a separação e a exclusão (um não é o outro) e uma mútua contemplação. Não seria egoísmo a dois? Com o três, o um e o dois se voltam para o três, superam a separação e se encontram no três. Irrompe a comunhão circular e a inclusão de uns nos outros, pelos outros e com os outros, numa palavra: a Trindade.
O que existe primeiro é a simultaneidade dos três Únicos. Ninguém é antes ou depois. Emergem juntos sempre se comunicando reciprocamente e sem fim. Por isso dizíamos: no princípio está a comunhão. Como consequência desta comunhão infinita resulta a união e a unidade em Deus. Então: três Pessoas e um só Deus-comunhão.
Não nos dizem exatamente isso os modernos cosmólogos? O universo é feito de relações e nada existe fora das relações. O universo é a grande metáfora da Trindade: tudo é relação de tudo com tudo: um uni-verso. E nós dentro dele.
Leonardo Boff, aqui
José Maria Castillo passou por Lisboa
No passado sábado, inesperadamente, cumpri um desejo. Há vários anos que acompanho, através da leitura, algum do pensamento do padre e teólogo espanhol, José Maria Castillo.
A convite do movimento "Nós Somos Igreja" veio a Lisboa, mais propriamente ao convento de S. Domingos, dar uma conferência sobre o "Concílio Vaticano II, 50 anos depois".
Pude comprovar o que já sabia, que é profundissimamente humano, afável, simples e com um enorme amor à Igreja. O que não o impede, ou por isso mesmo, de, profeticamente, ter uma atitude crítica em relação à mesma.
Na bagagem ainda trouxe alguns livros dos que tem publicado. Consegui um "Espiritualidade para insatisfeitos", que teve a simpatia de, a meu pedido, autografar.
O encontro terminou com a Eucaristia celebrada por Frei Bento Domingues, em ambiente de verdadeira comunidade. Sendo eu uma intrusa, não pertenço ao movimento NSI, e foi esta a única actividade em que participei, senti-me em casa.
A convite do movimento "Nós Somos Igreja" veio a Lisboa, mais propriamente ao convento de S. Domingos, dar uma conferência sobre o "Concílio Vaticano II, 50 anos depois".
Pude comprovar o que já sabia, que é profundissimamente humano, afável, simples e com um enorme amor à Igreja. O que não o impede, ou por isso mesmo, de, profeticamente, ter uma atitude crítica em relação à mesma.
Na bagagem ainda trouxe alguns livros dos que tem publicado. Consegui um "Espiritualidade para insatisfeitos", que teve a simpatia de, a meu pedido, autografar.
O encontro terminou com a Eucaristia celebrada por Frei Bento Domingues, em ambiente de verdadeira comunidade. Sendo eu uma intrusa, não pertenço ao movimento NSI, e foi esta a única actividade em que participei, senti-me em casa.
2012-10-21
2012-10-19
Manuel António Pina - 1943-2012
Amor como em Casa
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"
2012-10-18
a saudável indignação
"Daqui sai outro teorema: este tempo de crise e dificuldade gera muito disparate." E eu diria, quer ao General Ramalho Eanes quer ao articulista, que passamos bem (para não dizer outra coisa) sem os seus teoremas.
A indignação e a zanga são sentimentos que nos permitem impor limites. Tanto a nível pessoal como colectivo. O que se torna óbvio, e a cada diz mais claro, é que a austeridade que nos é imposta, todos os dias ultrapassa os limites do razoável e justo. A tentação de quem nos impõe essa austeridade e os seus (cada vez menos defensores) é reprimir qualquer sentimento ou atitude de indignação.
Quando se tenta reprimir a zanga e a indignação o que acaba por surgir é a sua expressão excessiva, desregulada. Isso, sim, pode conduzir a atitudes e acções menos correctas. Daí, e não só, achar incompreensíveis as recentes declarações do Cardeal Patriarca sobre as manifestações. É que não acredito que ele não considere justa a indignação e também deve conhecer os efeitos da repressão desta.
Estabelecer limites é o começo de uma cidadania activa.
2012-10-16
numa escola portuguesa
Hoje, 16 de Outubro, é o Dia Mundial da Alimentação. Uma criança de cinco anos foi impedida de almoçar na cantina da escola que frequenta, por não terem sido pagas refeições anteriores. A pessoa responsável pelo que aconteceu, apareceu a justificar-se na televisão. Havia razões, claro. E razão nenhuma para que uma criança de cinco anos ficasse sem almoço.
2012-10-15
um espaço de encontro
O diário é um esforço criativo, terapêutico, moral. É um espaço íntimo de observação e contemplação, frágil e desmedido.
Pedro Mexia
2012-10-14
porque hoje é domingo
Orei e foi-me dada a prudência;
implorei e veio a mim o espírito de sabedoria.
Preferi-a aos ceptros e aos tronos
e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada.
Não a equiparei à pedra mais preciosa,
pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia
e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo.
Amei-a mais do que a saúde e a beleza
e decidi tê-la como luz,
porque o seu brilho jamais se extingue.
Com ela me vieram todos os bens
e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis.
Sab 7,7-11
2012-10-13
Concílio Vaticano II, cinquenta anos depois
Joana,
aceito com naturalidade que tenhamos visões diferentes sobre os resultados do Concílio Vaticano II. Logo à partida, a vivência que temos do mesmo, é diversa. A Joana viveu o acontecimento há cinquenta anos, numa idade e numa perspectiva, imagino, de quem deposita grandes expectativas para a Igreja da altura. Eu, como comentei no facebook, considero-me uma filha do Concílio. As recordações que tenho são, de durante toda a infância, e talvez por crescer numa aldeia, os lugares diferenciados que homens, mulheres e crianças, ocupavam durante as celebrações litúrgicas. Alguns homens, mais ligados a alguns movimentos ficavam no altar-mor, as mulheres e crianças no corpo da Igreja, e os restantes homens ao fundo, junto ao guarda-vento. A minha aproximação ao Concílio Vaticano II, aconteceu com o estudo dos textos conciliares muito impulsionado nos grupos que frequentei.
Apesar da minha perspectiva ser a de quem não vivenciou o Concílio no tempo, antes de quem colheu alguns dos frutos que dele emanaram, julgo-me capaz de afirmar que o Concílio Vaticano II, em si, não foi uma decepção, pela porta de renovação evangélica que abriu na Igreja. Não me impede, contudo, de afirmar também, que são evidentes e explícitas algumas situações de poderes instalados na Cúria Romana, e não só, que vêm travando ao longo dos anos a força criadora e renovadora de uma Igreja mais humana e cristã.
Graças a Deus que a Igreja, a par duma estrutura que resiste a renovar-se, vai estimulando crentes cristãos, tanto consagrados como leigos, a manterem presentes e abertos, os caminhos renovadores que o Concílio abriu. E, mesmo que reconheçamos e sintamos o fracasso, saibamos, à semelhança do teólogo espanhol José Maria Castillo, pressentir-lhe o mistério:
Entonces, ¿qué aportó Juan XXIII con su pontificado y su concilio? Lo más decisivo para los discípulos de Jesús: que la bondad es la fuerza que cambia el mundo, que renueva la Iglesia, que nos lleva por los mismos caminos que trazó Jesús. ¿Esto no dice nada? Más aún, ¿esto fue y sigue siendo un fracaso? ¿No terminó la vida de Jesús en el más estrepitoso de los fracasos? Y, sin embargo, ¿no decimos los creyentes que ahí, en eso, está el misterio de lo que más nos humaniza y más felices nos hace? Amigos, aquí estamos tocando el fondo. Como el papa Rocallí lo tocó.
Um abraço,
maria
a vida em imagens #16
submeto-me à beleza irradiante da nespereira que, em pleno Outono, rebenta de flores. e a esta cesta de fruta.
dedicado
Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres
Sophia de Mello Breyner Andresen in "Geografia"
Obra Completa,
Caminho
2012-10-10
longe da vista, longe do coração, seguramente
Partilhou no mural do facebook o que tinha escrito no blogue:"Pensei que sim, que já tinha sorrido hoje, sorrisos amargos, sobretudo,
mas que também tinha chorado com os que me são mais próximos, aflitos
por me saberem desempregado. Estou desempregado. Ao fim de 23 anos de
trabalho estou desempregado e não sei o que vou fazer amanhã.". É o Manuel Jorge Marmelo.
Ao fim do dia, alguém me pediu que descontasse no valor que vai receber - uma bolsa de formação - os dez euros e cinquenta que deve e não pode pagar, por não ter como. Está desempregado e acabou de saber que lhe foi recusado o RSI por ter sido ele a rescindir com entidade patronal, com quem estava em contencioso.
O meu bispo, diz isto numa entrevista:"Acho que estamos a julgar e a reagir a uma situação muito séria, de destino e de verdade fundamental do nosso povo e da Europa, a partir da “comichão” que nos fazem as dificuldades económicas do presente. Não somos redutíveis a isso!" Pois não! Mas eu não posso, em nome do meu bispo, dizer ao Manuel Jorge Marmelo, ou ao formando que me comunicou as dificuldades por que está a passar, que é uma "comichão" e mais logo vai passar.
Ao fim do dia, alguém me pediu que descontasse no valor que vai receber - uma bolsa de formação - os dez euros e cinquenta que deve e não pode pagar, por não ter como. Está desempregado e acabou de saber que lhe foi recusado o RSI por ter sido ele a rescindir com entidade patronal, com quem estava em contencioso.
O meu bispo, diz isto numa entrevista:"Acho que estamos a julgar e a reagir a uma situação muito séria, de destino e de verdade fundamental do nosso povo e da Europa, a partir da “comichão” que nos fazem as dificuldades económicas do presente. Não somos redutíveis a isso!" Pois não! Mas eu não posso, em nome do meu bispo, dizer ao Manuel Jorge Marmelo, ou ao formando que me comunicou as dificuldades por que está a passar, que é uma "comichão" e mais logo vai passar.
2012-10-09
há ou não um Deus?
“Por detrás do silêncio do universo, por detrás das nuvens da história, há ou não um Deus? E se há esse Deus, que nos conhece, o que tem a ver connosco?" discorre o Papa na abertura do Sínodo dos bispos. E a seguir, desafia ao testemunho, mesmo no meio do sofrimento.
É vital que a Igreja continue, com humildade, a debater a questão "Deus". E alargar o debate para além daquilo que são as estruturas em que se define. E o testemunho de fé da Igreja será tanto mais acolhido, quanto ela souber ser próxima, dialogante e desinstalada.
ponto da situação
gosto de capicuas. vá-se lá saber porquê. segundo o dicionário da Priberam, capicua:
aqui fica uma: 3333 mensagens publicadas até à data de hoje.
2012-10-08
repto
Vigiei trinta e uma horas seguidas. Acho que se não foi conTigo é porque não ressuscitastes.
Nuno Bragança in "Directa"
Obra Completa 1969-1985
Dom Quixote
o dedo na ferida
Quanto de cultural, de tradições desumanas, e até de práticas religiosas contrárias às palavras de Jesus, é preciso ainda evangelizar? O que existe ainda de controle, submissão e imposição do homem sobre a mulher no dia a dia, em instituições civis e religiosas? Que “nova evangelização” para a igual dignidade do homem e da mulher é pedida a nós, cristãos?
daqui
2012-10-07
2012-10-05
A Igreja e o Estado, na Alemanha
Na Alemanha há um acordo entre o Estado e as Igrejas católica e
protestante (mas apenas a protestante "oficial" - há algumas pequenas
comunidades protestantes autónomas que não têm acesso a este sistema).
As pessoas que, ao fazerem a inscrição nas finanças, declaram que são
católicas ou protestantes, passam a ver descontado automaticamente do
salário um imposto para a igreja - no valor de 10% dos impostos pagos ao
Estado.
O Estado entrega esse dinheiro às Igrejas - mas é óbvio que a afirmação do Lino não está correcta: o Estado não "paga a padralhada", limita-se a ter um acordo de recolha de fundos com duas das Igrejas que existem na Alemanha.
10% do valor dos impostos é muito dinheiro. E dói ainda mais se as pessoas sentem que a Igreja lhes leva o dinheiro de forma automática, mas não mostra muita consideração por elas. Há casos impressionantes, como um amigo nosso que tem um excelente salário e por isso paga muitos milhares de euros à Igreja todos os anos, mas porque se divorciou (a mulher apaixonou-se por outro) e voltou a casar (não queria deixar a nova companheira numa situação precária apenas para ele ter o direito de continuar a comungar) "vive em pecado" e foi excluído dos sacramentos. Outro caso, gravíssimo, foi o de uma educadora de um jardim infantil católico (pago com esse imposto dos católicos, claro) que perdeu o emprego por ter engravidado sem ser casada.
No fundo, estamos perante uma luta de poder: os católicos não querem pagar automaticamente para uma Igreja com cuja hierarquia não concordam, e a hierarquia trata de os castigar à grande, expulsando-os da comunidade de crentes. Como se a comunidade de crentes fosse propriedade da hierarquia...
Helena, comentário deixado aqui
O Estado entrega esse dinheiro às Igrejas - mas é óbvio que a afirmação do Lino não está correcta: o Estado não "paga a padralhada", limita-se a ter um acordo de recolha de fundos com duas das Igrejas que existem na Alemanha.
10% do valor dos impostos é muito dinheiro. E dói ainda mais se as pessoas sentem que a Igreja lhes leva o dinheiro de forma automática, mas não mostra muita consideração por elas. Há casos impressionantes, como um amigo nosso que tem um excelente salário e por isso paga muitos milhares de euros à Igreja todos os anos, mas porque se divorciou (a mulher apaixonou-se por outro) e voltou a casar (não queria deixar a nova companheira numa situação precária apenas para ele ter o direito de continuar a comungar) "vive em pecado" e foi excluído dos sacramentos. Outro caso, gravíssimo, foi o de uma educadora de um jardim infantil católico (pago com esse imposto dos católicos, claro) que perdeu o emprego por ter engravidado sem ser casada.
No fundo, estamos perante uma luta de poder: os católicos não querem pagar automaticamente para uma Igreja com cuja hierarquia não concordam, e a hierarquia trata de os castigar à grande, expulsando-os da comunidade de crentes. Como se a comunidade de crentes fosse propriedade da hierarquia...
Helena, comentário deixado aqui
nova tem de ser a perspectiva
Muitas vezes não pisamos o mesmo chão lamacento que as pessoas pisam e não vamos ao encontro das pessoas. É isto que quer dizer esta forte expressão: a Igreja não pode ser aérea e etérea, mas tem de estar plantada no meio das pessoas, conhecê-las, saber que rostos têm, que sonhos têm, que problemas têm… Era o que Jesus fazia, passando pelo meio das pessoas.
António Couto, bispo
2012-10-04
2012-10-02
E Deus, não chama as mulheres?
AS MULHERES NÃO CONTAM?
1. Claro
que contam. A sua presença qualificada, em muitos sectores da sociedade
portuguesa, é cada vez mais afirmativa e insubstituível. Alguns homens
chegam a temer um “desequilíbrio” que possa afectar privilégios
ancestrais.
Esse destaque
feminino, ao mostrar uma realidade irrecusável, sublinha o contraste com
um passado humilhante, não muito longínquo. As contínuas notícias de
violência doméstica que, por vezes, vai até ao homicídio conjugal,
arrefece as visões mais eufóricas. Se a violência doméstica designava,
sobretudo, os maus tratos dados às mulheres e crianças, estende-se, cada
vez mais, aos idosos, mulheres e homens. Sem adequadas pensões de
reforma, ficam sem meios para garantir a defesa da sua dignidade. A
predominância actual da cultura utilitarista não pode entender o que
exige e implica a dignidade humana dos idosos.
As Igrejas cristãs
foram confrontadas, desde o começo, com o estado de negação das mulheres
na cultura judaica, gravado para sempre na expressão: “sem contar mulheres e crianças” (Mt 14, 21; 15, 38 e //).
Era, de facto, o retrato da realidade em que Jesus nasceu, foi educado, mas que recusou. As mulheres, afastadas da vida pública, confinadas ao lar, preparando-se
para o matrimónio, estavam destinadas a sacrificar-se pela família até
ao fim dos seus dias, sob o olhar atento do pai e do marido. Sem estudos, sem papel na religião, sem posses, não tinham qualquer capacidade de decisão autónoma.
Nesta situação,
estava certíssima uma oração masculina, cínica e diária: “Bendito sejas,
Senhor, por não me teres feito mulher”. (Tos. Ber. VII, 18)
2.
Dizem os especialistas, que a ruptura activa de Jesus com essa situação
representa um dos traços essenciais da originalidade da sua intervenção
histórica. Afrontou tudo o que, no plano social e religioso,
marginalizava as mulheres. Segundo as narrativas da paixão e
ressurreição, Jesus encontrou nelas quem melhor entendeu a sua mensagem e
o seu caminho. Garantiram futuro ao movimento cristão, quando tudo
parecia morto.
Artur Cunha de Oliveira publicou uma obra notável sobre Jesus de Nazaré e as Mulheres, a propósito de Maria Madalena
(Instituto Açoriano de Cultura, 2011). É uma obra de referência para a
teologia feminista e pode ser de muito proveito para os anti-feministas.
O autor é um sacerdote católico, dispensado do ministério e casado,
licenciado em Teologia Dogmática e em Ciências Bíblicas, tendo sido
professor no Seminário Episcopal de Angra, Cónego da Sé e assistente
diocesano de vários movimentos, organismos e associações de apostolado.
Em 2011 nasceu a
Associação Portuguesa de Teólogas Feministas. Criada por Teresa Toldy,
Fernanda Henriques, Maria Carlos Ramos e Maria Julieta Mendes Dias, com
os seguintes objectivos: contribuir para o aprofundamento da
investigação teológica feminista; criar condições para a troca de
experiências de investigação entre investigadores feministas de Teologia
a nível nacional e internacional; relançar, em Portugal, o debate sobre
as Mulheres, numa perspectiva ecuménica.
Esta Associação vem
preencher, entre nós, uma lacuna no campo da teologia, inscrevendo-se
num movimento sem fronteiras. A publicação das comunicações do I
Colóquio Internacional de Teologia Feminista será apresentada no próximo Colóquio, marcado para o próximo mês de Novembro.
3.
A reflexão teológica na Igreja não tem sentido desligada da experiência
concreta das comunidades cristãs. É, por natureza, contextual. A
descoberta dos direitos e do seu papel na sociedade obrigaram as
mulheres cristãs a fazer uma verificação: a nossa situação é
esquizofrénica. Por um lado, participamos na emancipação das mulheres na
sociedade e por outro, é-nos dito que na Igreja não pode ser assim, tem
de ser diferente, pois ela não existe para reproduzir a sociedade, mas
para a evangelizar na fidelidade a Jesus Cristo. Manifesta-se,
precisamente aqui, um dos aspectos do debate. Na constituição
hierárquica da Igreja, não há lugar para as mulheres. Não têm acesso aos
ministérios ordenados, pois decretaram que o sacramento da Ordem não é
para elas.
Se os ministérios
ordenados são para servir, perguntam-se: que haverá em nós, por sermos
mulheres, que nos impede de ser chamadas a servir as comunidades
cristãs? Surge-nos a dúvida: se fossem verdadeiramente um serviço,
seríamos as primeiras a ser chamadas. Como se trata de poder, fica
privilégio de homens.
Note-se que nem todas
pretendem ser chamadas a preencher a lacuna da falta de vocações
masculinas. Mas não escondem o que as comunidades católicas teriam a
ganhar com as virtualidades da diferença feminina nos ministérios
ordenados. O que não suportam, enquanto cristãs, é que as mulheres não
contem na orientação da vida das comunidades cristãs e sejam reduzidas
ao estado pré-cristão em que Jesus as encontrou.
A Igreja nunca poderá
aceitar a vontade do Simão Pedro do evangelho apócrifo segundo Tomé: “
Maria deve ir embora, pois as mulheres não são dignas da vida”. A
resposta do Jesus desse evangelho é dos diabos: “Vede, vou atraí-la para
que se torne macho a fim de que ela também se torne um espírito vivente
que se assemelha a vós, machos.”
4.
Quando certas personalidades da Igreja, para recusar às mulheres
determinadas funções, invocam a prática de Jesus para as fundamentar,
importa não esquecer o seguinte: antes de mais, é preciso ver a
qualidade e o volume de intervenções de Jesus que são uma autêntica
revolução; alteraram completamente as ideias e atitudes que ofendiam e
marginalizavam a mulher, que faziam dela um ser menor, uma eterna
criança. Hoje, abundam os estudos que podem evidenciar o salto
civilizacional e religioso que a prática de Jesus e a sua palavra
representam.
O que não é aceitável
é o seguinte: não se olha para esse acontecimento e, depois, fala-se de
uma ausência nas decisões de Jesus, acerca de problemáticas que não
pertenciam à sociedade em que Ele viveu. Por exemplo: quando se fala dos
ministérios ordenados das mulheres, não é ridículo imaginar um ritual
que hoje e há séculos se pratica nas Igrejas para ordenar padres ou
bispos? Figurar Jesus, paramentado, de mitra e báculo, rodeado de bispos
e padres e de candidatos prostrados de rosto por terra, esperando a sua
vez, é não só ridículo como inteiramente anacrónico. Se imaginarmos as
coisas assim, Jesus de facto, não ordenou mulheres como não ordenou
homens. Só que a questão não é essa. A questão é simples porque é que
este ritual foi criado para homens e nunca para mulheres. A partir daqui
fica tudo baralhado. O que importa é responder hoje, na problemática de
hoje, à novidade da prática de Jesus para hoje e para sempre. Graças a
Deus, Jesus Cristo continua vivo e nós, continuamos surdos e cegos.
Publicado no "Público" e copiado daqui
2012-10-01
(Setembro 2012)
Ser Igreja é trabalhar com decisão e simplicidade, para que Deus passe por esse mundo desumano. E para o não crente trabalhar para que a solidariedade e a dignidade, o melhor do humano, passe por este mundo, que embora seja mais secular, continua sendo desumano.
Jon Sobrino
2012-09-30
porque hoje é domingo
abandonou-me, a mim,
nascente de águas vivas,
e construiu cisternas para si,
cisternas rotas,
que não podem reter as águas.
Jeremias 2,13
2012-09-29
2012-09-28
2012-09-27
resíduos do verão
(Jardim Botânico Tropical- Lisboa)
Ginkgo biloba
A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos um gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio edificar.
Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?
P’ra responder às perguntas
Tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?
Goethe
2012-09-25
a vida em imagens #15
(Constância, Agosto 2012)
" Desahucio "
Se llamaba María, Ana, Luisa
y tenía su casa
muy cerca de la tuya.
Y hace días, muy pocos, que no vive.
Hace días que no sale a la compra,
que no asoma su rostro a la ventana,
que no sueña,
ni habla,
ni respira.
Se ha vencido en el caos de la crisis
al terror del desahucio y del vacío.
Así muren los pobres,
en silencio,
en el gris abandono de sus vidas,
sin conocer el grito de su fuerza,
su protesta en un coro de gargantas.
Y culpo a la avaricia,
a los mercados,
a los que nos gobiernan pese a todo,
de esta muerte.
Y ya no habrá silencios.
Miguel, Isabel. Revista de Letras Bora Nº 2. Málaga: Agosto 2012, p 45.
trouxe daqui
o seguimento de Jesus, hoje
O seguimento de Jesus em qualquer era, seja pré-científica ou científica, consiste em compreender os ensinamentos de Jesus, interiorizá-los e viver a própria vida com base nestas convicções. O ensinamento de Jesus estava centrado no reinado de Deus, na maneira como o mundo seria de acordo com a intenção criadora de Deus. Uma boa ilustração do reinado de Deus se encontra na parábola de Jesus sobre o “bom samaritano”. Lembremos que os samaritanos eram inimigos dos judeus. Assim, Jesus apresenta, nessa história, o samaritano que faz o que pode para ajudar seu inimigo, um judeu, como um modelo para amar a outra pessoa como nosso próximo. Esse é o ensinamento do amor que se estende inclusive aos inimigos, e ele é tão compreensível e desafiador hoje como foi na Palestina de Jesus.
Embora o significado abstrato básico seja o mesmo ontem e hoje, ele pode assumir significados muito diferentes em diferentes culturas. Hoje eu interpretaria as palavras de Jesus “vai e faze tu o mesmo” num contexto social. Amar os inimigos pode significar mais do que ajudar indivíduos vítimas de assaltantes na estrada; pode significar mudar a situação social de modo que não haja mais pessoas que são marginalizadas da sociedade e, assim, têm de recorrer ao assalto para sobreviver. Em suma, seguir Jesus começa com fazer o que ele fez no seu ensino e ministério. Isso de forma alguma é o fim, mas é a base que se assemelha em culturas diferentes.
daqui
2012-09-23
o que se traduz
"Quando procuro o que há de fundamental em mim, é o gosto da felicidade que eu encontro." (A. Camus)
2012-09-22
exactamente como penso
"Vem isto a propósito das manifestações de dia 15 e do sentimento que as provoca. Parece evidente que a enorme dimensão das manifestações deve muito a uma motivação egoísta, à defesa dos interesses individuais próprios dos cidadãos - uma motivação totalmente legítima - e não escondo que me teria sentido mais emocionado se tivesse visto manifestações desta dimensão perante os cortes no RSI, os aumentos das taxas moderadoras na Saúde, os cortes no apoio a pessoas com deficiências ou os cortes na educação, mesmo quando estas medidas iníquas não nos afectam a todos. Mas o que acontece - e o que o Governo não percebe - é que a indignação das pessoas não se deve apenas aos cortes em si, mas à sua iniquidade, à sua injustiça - bem exemplificada no caso da TSU. Deve-se à falta de vergonha com que se cortam os salários dos trabalhadores para os entregar aos patrões; ao descaramento com que se taxam os rendimentos do trabalho para poupar os do capital."
Vítor Malheiros, aqui
os tempos que vivemos
(Lisboa 15/09/2012)
Não disse quase nada da manifestação (ou das manifestações) do passado 15 de Setembro, na qual que fiz o meu "baptismo", com mais cinco familiares. Todos neófitos. Um deles, dizia no final, que tinha sentido maior expressão de cidadania nesta participação, do que no acto de votar. Eu, como nasci antes de 1974, tenho por muito caro o direito ao exercício do voto, livremente expresso.
E se o slogan/convocatória era "que se lixe a troika ... queremos as nossas vidas", foi por demais evidente que eram diferentes as motivações de participação.
E é dessas motivações e das diferentes questões que se levantam, que não nos permite descansarmos placidamente...o meu querido amigo João Tunes, que depois de longo interregno bloguístico, volta ao nosso convívio, diz o essencial:
É este caminhar já feito (sim, o muito que andámos para se chegar ao 15 Set) que nos dá um pó de esperança sobre o que o futuro nos reserva enquanto povo que se redescobre e grita quando acorda. Sabendo-se que o futuro não passa de um permanente recomeçar sempre num ponto diferente. Para onde? Até onde? Caminhemos para saber.
2012-09-21
despedida de verão
(Ericeira 2012)
e eu
conhecerei eu as tempestades?
e a água dos grandes mares internos?
é o lado escondido das ilhas que amo.
Al Berto in "Apresentação da Noite"
Assírio & Alvim
2012-09-20
prerrogativas da caridade
O debate entre a “caridade” e a “caridadezinha” tem tido, nos últimos tempos, picos de aquecimento na blogosfera e nas redes sociais. Até cantores de esquerda foram acusados de envolvimento em iniciativas pintadas com as cores da caridadezinha, mas a intervenção de Isabel Jonet nessa questão tem sido mais focada. O tema importa, não apenas pela sua relevância política, mas por dizer directamente respeito a pessoas que precisam de não serem deixadas à sua sorte, bem como a pessoas que por isso se interessam. Ora, então, vamos lá por partes.
Ponto 1. Eu não sou contra a caridade. Não sou contra as pessoas que, livremente e para lá de quaisquer direitos ou deveres legais, dão coisas e/ou tempo e/ou dedicação a outras pessoas, gratuitamente. Não sou contra isso, nem na forma individual, nem na forma organizada. Pelo contrário. Por exemplo, acho meritório o trabalho dos Bancos Alimentares contra a Fome. Como instituição e na pessoa dos colaboradores que concretizam a sua acção. Mesmo que eu não partilhe algumas das suas ideias, acho meritório. Há, de facto, seres humanos concretos que obtém, mesmo que momentaneamente, algum tipo de alívio para os seus sofrimentos por causa de acções que costumam designar-se como caridade. Não podemos ser indiferentes a isso.
Ponto 2. No plano de uma comunidade política civilizada, as pessoas têm direitos. Para falar genericamente, direito a uma vida digna. Os direitos não são oferecidos pela boa vontade de alguém, são uma bagagem inalienável de cada pessoa. Os direitos não devem depender de que apareça alguém com disponibilidade para os concretizar, devem ser assumidos por uma comunidade organizada. Uma comunidade onde a caridade é precisa, de forma sistemática, para atender a direitos básicos que deviam estar assegurados, é uma comunidade doente. O "Estado social", tal como o entendo, é necessário para que ninguém precise da caridade. O projecto de tornar a caridade o caminho principal, a via real, relegando para segundo plano a solidariedade organizada e a garantia dos direitos, é um projecto para uma sociedade de pedintes e servos. É que os direitos não podem depender das boas vontades, enquanto a caridade é, por natureza, arbitrária: ninguém pode ser obrigado a ser caridoso, o caridoso é caridoso quando quer, como quer, com quem quer. Esse elemento de discricionaridade, sempre presente na caridade, não é tolerável como elemento central de uma comunidade de cidadãos.
Por isso acho intolerável a ideologia de Isabel Jonet sobre este ponto, quando diz: «Eu sou mais adepta da caridade do que da solidariedade. A caridade é muito mais. A palavra está desvirtuada por ter uma conotação religiosa, mas para mim a caridade é a solidariedade com amor. Com entrega de si mesmo. A grande diferença é que caridade é amor e solidariedade é serviço.» (fonte)
Colocar os direitos, e a solidariedade organizada como meio de os fazer valer, em segundo plano face à caridade, é ideologicamente um regresso ao salazarismo. Que recuso liminarmente.
Ponto 3. Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, tem-se colocado sistematicamente, de há algum tempo a esta parte, numa linha claramente ideológica, política no sentido mais parcial do termo, assumindo teses muito antigas e muito claramente posicionadas no tabuleiro da luta político-partidária. Quando alerta para os «efeitos perversos» do Estado Social; quando defende que o novo pacote de austeridade de Setembro (incluindo o Robin dos Bosques invertido, mais conhecido por TSU) é um «mal menor»; quando afirma: «As pessoas passaram a achar que têm direito a todas as prestações sociais e dão-no como adquirido. Muitas vezes, preferem ir para o subsídio de desemprego do que ter um emprego, ainda que ele seja menos bem pago, porque sabem que vão ter a prestação social no final do mês.» (fonte). Entretanto, se alguém ataca as declarações da senhora, há logo umas vozes escandalizadas porque a senhora é muito boazinha e não pode ser criticada. Ora, nada disto é caridade: isto é política de uma tendência bem determinada.
Saberá Isabel Jonet, por exemplo, que quase metade dos desempregados em Portugal não recebem nenhuma prestação de desemprego? Misturar toda essa gente, em geral, com os que se encostam e não fazem nada (que também existem, sim) é pura ideologia. E é um velho argumento, que vem sempre do lado dos que culpam os aflitos pela sua aflição. Isabel Jonet tem insistido, nos últimos tempos, em fazer ideologia, em falar demasiado genericamente. Fica-lhe mal e, se o que ela quer mesmo é fazer caridade, está a prejudicar essa mesma caridade com esta insistente agenda ideológica. Infelizmente, até já a caridade serve para fazer currículo que depois se usa no combate político (um Fernando Nobre de saias?). O que é uma pena: há pessoas que admiro apesar das divergências, mas também há pessoas que nos fazem perder o respeito pela sua acção quando confundem os carrinhos todos e se metem em guerras a que se deviam poupar.
Ponto 4. Usar a caridade para promover certas ideias políticas é repugnante. Moralmente repugnante. Mesmo em termos cristãos, é contra o Evangelho, que manda que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita (quer dizer, que não se apregoe, não se faça propaganda da caridade praticada). Não sou contra a caridade como caridade, mas tenho muito contra a intrusão da caridade na luta ideológica, como arma de arremesso política. Infelizmente, a Isabel Jonet que assim entra no combate ideológico, sem luvas nem nada (de uma forma quase partidária, pelo tom da sua vinda a terreiro neste momento), lança desse modo uma sombra sobre um projecto (os bancos alimentares contra a fome) que, apesar das discordâncias com as tintas ideológicas, considerávamos meritório. E continuamos a considerar: meritório e necessário. Infelizmente necessário.
Ponto 5. Uma última palavra sobre a solidariedade que vai para além do “Estado social”. Nem toda a caridade é caridadezinha, mas anda por aí muita caridadezinha disfarçada de caridade cristã. Gostaria de saber se todos os entusiastas de Jonet seriam igualmente entusiastas de associações operárias de socorros mútuos, que certamente não beneficiariam de tanta benevolência de certos meios, nem de tantas bênçãos. E, contudo, têm tradição e fizeram muita obra: mas com uma ideologia muito diferente. Aliás, é pena que a esquerda, em tantos países, tenha perdido essas tradições, tornando-se demasiado estatista: mas essa é outra conversa. Entretanto, aos que fazem ideologia e política de facção do alto dos seus tronos de caridade, digo, usando ainda outra expressão do Evangelho, que são "túmulos caiados de branco". E que, como tal, não me merecem o respeito que presumem ser-lhes devido.
(Acrescento este link, por conter alguma informação relevante de enquadramento.)
respiguei daqui
2012-09-19
Jardim Botânico Tropical, Belém-Lisboa
é meticulosa a seiva que nos gerou
conservamos na boca um travo de flor eclodindo
uma luz de cometa guia-nos de órbita em órbita
caindo
no entanto nenhum obstáculo será capaz de impedir o regresso à terra
nem mesmo o inflexível rigor da morte exterminará os
fascinados rebanhos
Al Berto in "A Apresentação da Noite-Paisagens e Regresso"
Assírio & Alvim
2012-09-18
2012-09-16
porque hoje é domingo
O Senhor Deus abriu-me os ouvidos
e eu não resisti nem recuei um passo.
Apresentei as costas àqueles que me batiam
e a face aos que me arrancavam a barba;
não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.
Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio
e por isso não fiquei envergonhado;
tornei o meu rosto duro como pedra,
e sei que não ficarei desiludido.
O meu advogado está perto de mim.
Pretende alguém instaurar-me um processo?
Compareçamos juntos.
Quem é o meu adversário?
Que se apresente!
O Senhor Deus vem em meu auxílio.
Quem ousará condenar-me?
(Isaías 50,5-9a)
É imperativo da fé cristã passar do "eu" ao "nós". É assim que Deus está connosco.
2012-09-14
2012-09-13
e ainda:
“O Reino de Deus deve ser perseguido também aqui na terra, através da luta pela justiça, começando com cada um de nós”
A "religião e a fé não se podem limitar ao ambiente da Igreja; precisam perceber a dimensão política, as causas das injustiças e desigualdades sociais." E "a pobreza não se elimina dando esmola, mas engajando-se no derrube de estruturas injustas".
Bispo emérito de Juazeiro (Brasil) José Rodrigues, falecido a 9/9/2012
Respiguei daqui
A "religião e a fé não se podem limitar ao ambiente da Igreja; precisam perceber a dimensão política, as causas das injustiças e desigualdades sociais." E "a pobreza não se elimina dando esmola, mas engajando-se no derrube de estruturas injustas".
Bispo emérito de Juazeiro (Brasil) José Rodrigues, falecido a 9/9/2012
Respiguei daqui
imperativo
Um cristão “não pode fazer de conta que não vê, que não ouve, que não sabe, que não pode, que não é consigo, que outros farão, que as autoridades resolvam”.
Bispo auxiliar do Porto, hoje em Fátima, daqui
2012-09-12
também a minha
(...)
Lo que quiero dejar bien claro es que el juicio final, tal como lo presenta Jesús, es lo más liberador y lo más desconcertante que seguramente imaginamos. Porque la sentencia definitiva y última, que Dios va a dictar, sobre las naciones y sobre las personas, no va a estar motivada por la fe que cada cual tuvo o no tuvo, ni por las prácticas religiosas que observó o dejó de observar, ni siquiera se va a tener en cuenta la relación con Dios que cada cual aceptó o rechazó. Por lo visto, según el Evangelio, nada de eso le interesa (en última instancia) al Dios de Jesús.
¿Qué es, entonces, lo único que va a quedar en pie? Muy sencillo: la relación que cada cual tuvo o dejó de tener con los demás. A esto se refiere aquello de “tuve hambre y me disteis de comer; tuve sed y me disteis de beber; era extranjero y me acogisteis; estaba desnudo y me vestisteis; enfermo y me visitasteis; en la cárcel y vinisteis a verme” (Mt 25, 35-36). Y Jesús explica por qué semejante juicio sobre semejante conducta: “lo que hicisteis a cualquiera de estos... a mí me lo hicisteis” (Mt 25, 40).
Dios no es como nosotros nos lo imaginamos. Ni como lo explican muchos curas. Dios no está en el cielo. Dios está aquí, en los enfermos, los sin papeles, los parados, los que se quedan sin vivienda, los que no llegan a fin de mes, los que se ven privados de sus derechos, los presos, los desesperados....
Y que nadie me venga diciendo que es hijo fiel de la Iglesia o cosas así. Todo eso, a la hora de la verdad, servirá en la medida - y sólo en la medida - en que nos haya hecho más humanos y más sensibles al dolor de los que sufren. Ésta es mi religión. Y ésta es mi política. Por eso yo me pregunto si ya no tenemos ni religión ni política. Y lo único que ha quedado en pie es la desvergüenza.
José Mª Castillo, aqui
Lo que quiero dejar bien claro es que el juicio final, tal como lo presenta Jesús, es lo más liberador y lo más desconcertante que seguramente imaginamos. Porque la sentencia definitiva y última, que Dios va a dictar, sobre las naciones y sobre las personas, no va a estar motivada por la fe que cada cual tuvo o no tuvo, ni por las prácticas religiosas que observó o dejó de observar, ni siquiera se va a tener en cuenta la relación con Dios que cada cual aceptó o rechazó. Por lo visto, según el Evangelio, nada de eso le interesa (en última instancia) al Dios de Jesús.
¿Qué es, entonces, lo único que va a quedar en pie? Muy sencillo: la relación que cada cual tuvo o dejó de tener con los demás. A esto se refiere aquello de “tuve hambre y me disteis de comer; tuve sed y me disteis de beber; era extranjero y me acogisteis; estaba desnudo y me vestisteis; enfermo y me visitasteis; en la cárcel y vinisteis a verme” (Mt 25, 35-36). Y Jesús explica por qué semejante juicio sobre semejante conducta: “lo que hicisteis a cualquiera de estos... a mí me lo hicisteis” (Mt 25, 40).
Dios no es como nosotros nos lo imaginamos. Ni como lo explican muchos curas. Dios no está en el cielo. Dios está aquí, en los enfermos, los sin papeles, los parados, los que se quedan sin vivienda, los que no llegan a fin de mes, los que se ven privados de sus derechos, los presos, los desesperados....
Y que nadie me venga diciendo que es hijo fiel de la Iglesia o cosas así. Todo eso, a la hora de la verdad, servirá en la medida - y sólo en la medida - en que nos haya hecho más humanos y más sensibles al dolor de los que sufren. Ésta es mi religión. Y ésta es mi política. Por eso yo me pregunto si ya no tenemos ni religión ni política. Y lo único que ha quedado en pie es la desvergüenza.
José Mª Castillo, aqui
2012-09-10
2012-09-09
a vida em imagens #13
(Ericeira-capela S. Sebastião, setembro 2012)
"Amor à vida é saber ver"
Nuno Bragança in "A Noite e o Riso"
um mal que se perpetua
A Cegueira da Governação
Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilacções, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.
Padre António Vieira, in "Sermões"
porque hoje é domingo
31Tornando a sair da região de Tiro, veio por Sídon para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. 32*Trouxeram-lhe um surdo tartamudo e rogaram-lhe que impusesse as mãos sobre ele.
33Afastando-se com ele da multidão, Jesus meteu-lhe os dedos nos ouvidos e fez saliva com que lhe tocou a língua. 34Erguendo depois os olhos ao céu, suspirou dizendo: «Effathá», que quer dizer «abre-te.» 35Logo os ouvidos se lhe abriram, soltou-se a prisão da língua e falava correctamente.
36*Jesus mandou-lhes que a ninguém revelassem o sucedido; mas quanto mais lho recomendava, mais eles o apregoavam. 37No auge do assombro, diziam: «Faz tudo bem feito: faz ouvir os surdos e falar os mudos.»
(Marcos, 7)
2012-09-08
aqui há gato...
Um teólogo e um filósofo discutem os méritos relativos das disciplinas a que se dedicam.
O teólogo diz: A filosofia é como um homem cego que procura numa cave completamente escura um gato preto que não está lá.
O filósofo responde: Pois, e a teologia encontra o gato.
O teólogo diz: A filosofia é como um homem cego que procura numa cave completamente escura um gato preto que não está lá.
O filósofo responde: Pois, e a teologia encontra o gato.
apanhei aqui
2012-09-07
"Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?" (Paul Celan)
Um fio, um fino fio como um dos seus cabelos brancos, é o que a prende à vida.
Ainda lê os jornais e recebe visitas, mas o seu mundo vai do quarto à sala de refeições. Já não lhe reconheci a sageza, nem a alegria vivaz. Reconheci-a apenas na teimosia: a derradeira urgência da sua vida era mostrar-me o DVD da festa. Fez várias tentativas, mas o equipamento não colaborava. Ajudei, e vimos o pequeno filme. Entrecortado com manifestações de desagrado por lhe terem "aberto" a cama. Quem o faz é ela, sempre a seguir ao jantar. Mas iria informar-se sobre quem tinha tido o "desplante".
2012-08-29
diário da alma #6
(Dornes, Agosto 2012)
- Construímos a casa em pedra com porta e janela viradas a sul
rasgámos poços regámos
plantámos árvores que mais tarde derramariam misteriosas raízes de ébano e de açúcar
até onde as águas se ramificam formando imperturbáveis rios subterrâneos
fabricámos os instrumentos rudes de muitos trabalhos
rodeámo-nos de animais e aprendemos a falar-lhes
- No horizonte da casa o rio as dunas o mar
as águas no instante em que não pertencem ao rio
nem pertencem ao mar
em redor avistávamos árduas planícies terras lavradas
crepúsculos imensos deitados sobre as searas
mas apesar de tudo
desenvolvia-se a partir do coração o inocente desejo de fugir
Al Berto
"Apresentação da noite"
Assírio & Alvim
2012-08-28
os sentidos da lei
A Lei, diz o jardineiro, é o Sol,
A Lei é o farol
Que guia o jardineiro
O tempo inteiro.
A Lei é a sageza de antigamente,
O ralhete estridente do avô impotente
A quem os netos deitam uma língua rude,
A Lei são os sentidos da juventude.
A Lei, diz o padre, com seu ar de vigário,
Para um povo bem pouco sacerdotal
A Lei está escrita no meu missal,
A Lei é o meu púlpito o meu campanário.
A Lei, diz o juiz, empinando o nariz,
Num tom severo e isento,
A Lei é, como vos disse uma vez,
A Lei é, como do vosso conhecimento,
A Lei é, mas posso explicar outra vez,
A Lei é A Lei.
E todavia escrevem os doutos escrivães,
A Lei não é certa nem errada,
A Lei são apenas infracções
Punidas em certas ocasiões
A Lei é a roupa usada
Em qualquer sítio, a qualquer hora,
A Lei é Bom-dia, ou vá-se embora.
Outros dizem, a Lei é o nosso fado;
Outros dizem, a Lei é o nosso Estado;
Outros ainda reagem,
A Lei é nada,
A Lei partiu de viagem.
E sempre a multidão com a raiva na voz,
A multidão revoltada num escarcéu,
A Lei é Nós,
E sempre o manso idiota mansamente Eu.
Sabendo nós, amor, que não sabemos mais
Do que eles sobre a lei,
Se eu mais do que tu não sei
O que devemos ou não devemos fazer,
A não ser que é ponto asssente
Feliz ou infelizmente
Que a lei é
E é só o que há a dizer,
E se parece, assim, uma absurdidade
Identificara Lei com outra realidade
Ao contrário de tantos outros
Não posso eu repetir
Que a Lei é,
Não podemos, mais do que eles, suprimir
A ânsia universal de pressentir
Ou de abdicar da nossa posição
Em favor de uma indiferente condição.
Embora possa pelo menos resumir
A tua e a minha vaidade
Atrevendo-me a supor
Uma ténue afinidade,
Podemos, apesar de tudo, presumir,
Por hipótese, como o amor.
Como o amor não sabemos onde nem porquê
Como o amor que não podemos coagir
Como o amor de que não podemos fugir
Como o amor que amiúde choramos
Com o amor que raro guardamos.
W. H. Auden - Outro Tempo
Tradução de Margarida Vale de Gato
Relógio D'Agua2012-08-27
Thomas voltou-se e encaminhou-se para a sua própria casa, transportando o corpo de Elizabeth. Pela primeira vez desde que se recordava, Thomas chorava. Joseph viu-o subir os degraus, e depois afastou-se em passo rápido, quase a correr. Chegou ao rio seco e apressou-se pela sua margem, contornando os pedregulhos arredondados e lisos. O sol baixava na embocadura de Puerto Suelo e as nuvens, que haviam soltado um pouco de chuva, encapelavam-se no leste, como muros vermelhos, projectando para o solo uma luminosidade avermelhada que tornava púrpuras as árvores sem folhas. Joseph apressou-se a subir o rio. «Aqui havia uma poça funda - pensava. - Não poderá estar completamente seca, era demasiado funda.» Seguiu o leito do rio durante pelo menos uma milha, acabando por encontrar a poça, profunda e castanha, com um cheiro doentio. À luz mortiça, via as grandes enguias negras rastejando em lentas convulsões. A charca encontrava-se rodeada por dois lados por pedregulhos redondos e lisos. Em tempos melhores, mergulhava nela uma pequena queda de água. O terceiro lado dava para uma praiazinha arenosa , cortada e marcada por pistas de animais; as delicadas pontas de seta dos veados, as patas almofadadas dos leões e as mãozinhas dos guaxinins e, por cima de tudo aquilo os traços emporcalhados das patas dos javalis. Trepou para cima de um dos pedregulhos da queda de água e sentou-se ali, agarrando um joelho com as mãos. Estremeceu um pouco de frio, embora não o sentisse. Enquanto baixava o olhar para a charca, passou-lhe todo o dia debaixo dos olhos, não como um dia, mas mais como uma era. Recordou-se de pequenas coisas de que nem sequer se apercebera. As palavras de Elizabeth voltaram-lhe ao espírito, com uma entoação tão verídica, tão completa na ênfase, que supôs tê-las ouvido de novo. Soavam-lhe aos ouvidos.
- É esta a tempestade - pensou. - É isto o princípio daquilo que conheço. Há aqui um ciclo, tão firme, rápido e imutável como uma roda. - E ocorreu-lhe o estafado pensamento de que, se fitasse os olhos na charca e libertasse o espírito de quaisquer outras imagens, poderia acabar por compreender qual era esse ciclo.
John Steinbeck in "a um deus desconhecido"
2012-08-26
ir além da fé consolação
Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça.
(Jo 15,16)
2012-08-25
um desafio às nossas dormências
Infeliz do pobre que tem lazeres. Chaktour ia voltar ao trabalho quando avistou o rapaz. Este mantinha-se à entrada da oficina, com o molho de trevo que tinha comprado no mercado debaixo do braço. Olhava o pai com um ar de reprovação nos olhos tristes, como que a recordar-lhe qualquer coisa de grave de que o homem já não se lembrava.
- Que me trazes aí, pequeno?
- É para o carneiro, pai.
- Qual carneiro?
Como é que não compreendia? O garoto estava quase a chorar, mas conseguiu conter-se e explicou tudo àquele pai embrutecido pela miséria, escravo de uma fatalidade rigorosa e cruel.
- O carneiro para a festa, pai. Eu cá arranjei o trevo. Agora só te resta comprar o carneiro.
Apesar de sujo, o rapaz era belo. Estava nu debaixo da túnica cor de terra. Trazia a tristeza em todo o corpo.
Chaktour olhou o filho com espanto e piedade. Não disse nada. No seu espírito continuamente atormentado, já não havia lugar para uma nova dor. Sentia-se simplesmente esmagado pelo gesto do filho. Compreendia agora que nesta criança - da sua carne e do seu sangue - se estava a formar uma miséria consciente e real de que ainda não se tinha apercebido e que para sempre ficaria ligada à sua. O menino crescerá e a sua miséria irá crescer com ele até ao dia em que fraco por sua vez - pode um homem suportar sozinho a sua miséria? - criará um filho que partilhará o peso dela com ele. A única consolação do pobre é não deixar ao morrer um filho pródigo. A ignomínia que lega à descendência é inesgotável.
- A festa não é para nós, meu filho -, disse ele. - Nós somos pobres.
O garoto chorou, chorou amargamente.
- Não me interessa; quero um carneiro.
- Somos pobres -, repetiu Chaktour.
- Somos pobres porquê? -, perguntou a criança.
O homem reflectiu antes de responder. Depois de tantos anos de indigência tenaz, ele próprio não se lembrava por que eram pobres. Era uma coisa que vinha de muito longe, de tão longe que Chaktour já não se lembrava como tinha começado. Dizia para si próprio que a sua miséria com certeza nunca tivera começo. Era uma miséria que se prolongava para além dos homens. Apanhara-o desde a nascença e ele logo lhe pertencera, sem a menor resistência, visto que lhe estava destinada muito antes de ter nascido, ainda na barriga da mãe.
A criança estava sempre à espera que lhe explicassem por que eram pobres. Deixara de chorar, mas ainda havia muitas lágrimas dentro de si, todas as lágrimas das crianças miseráveis cujos sonhos são traídos pela vida.
- Escuta, pequeno, vai-te sentar num canto e deixe-me trabalhar. Se somos pobres é porque Deus nos esqueceu, meu filho.
- Deus! -, exclamou a criança. - E quando se lembrará ele de nós, meu pai?
- Quando Deus esquece alguém, é para sempre.
- Guardo à mesma o trevo -, disse o garoto. Pegou no molho do trevo e pousou-o num canto da oficina, sentando-se em cima dele. Depois recomeçou a chorar, por ser pequeno e ser aquela a maneira de se revoltar contra a injustiça do mundo.
Tradução Ernesto Sampaio
Antígona
2012-08-24
no feminino
disse num tom que parecia casual:"vai ser o segundo funeral em que participa...o primeiro foi o de um casal que se enterrou no mesmo dia". O segundo seria o do marido que morreu com 92 anos.
Grande mistério é a vida. E a desta mulher em particular.
Jorge Luís Borges que nasceu a 24 de Agosto de 1899
Os Justos
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
2012-08-23
| Saudades de Melquisedeque | |
Esta manhã gostaria de ter dado ontem um grande passeio àquela praia onde ontem por sinal passei o dia É difícil a vida dos homens senhor Os anjos tinham outras possibilidades e alguns deles foi o que tu sabes Esta terra não está feita para nós Mesmo que ela fosse diferente nós quereríamos talvez outra terra talvez esta de que agora dispomos Não achas meu senhor que temos braços a mais dias a mais complicações a mais? Pra nascer e morrer seria necessário tanto? Falhamos tantas vezes (Como os judeus que juraram não comer nem beber até matar paulo e apesar disso não o mataram) É difícil a vida difícil a morte. Por vezes os homens juntam-se todos ou quase todos e organizam grandes manifestações. Mas nada disso os dispensa da grande solidão da morte de termos de morrer cada um por nossa conta Todos tivemos pai e mãe nenhum de nós que eu saiba veio de salém Ruy Belo |
2012-08-22
2012-08-20
duas palavras ricas de significado; juntas tornaram-se numa ligeireza estival
Se o arcebispo de Braga, tivesse preparado a homilia com uma releitura de Camus:"Se amar fosse o bastante, as coisas seriam simples de mais", evitava o infrutuoso jogo de palavras. E poupava o A. Gonçalves a mais uma cretinação.
2012-08-18
Camus interpreta "O Castelo" de Kafka
Poucas obras são mais rigorosas no seu andamento do que O Castelo. K... é nomeado agrimensor do castelo e chega à vila. Mas da vila é impossível comunicar com o castelo. Durante centenas de páginas, K... teimará em encontrar o seu caminho, fará todas as diligências, empregará a manha e a subtileza, nunca se aborrecerá, e, com uma fé desconcertante, quererá entrar na função que lhe confiaram. Cada capítulo é um falhanço. E também um novo recomeço. Não se trata de lógica de persistência. A amplitude dessa teimosia faz o trágico da obra. Quando K... telefona para o castelo, são vozes confusas e mescladas, risos vagos, chamamentos longínquos o que ouve. Isso basta para alimentar a sua esperança, tal como esses poucos sinais que aparecem nos céus do Verão, ou como essas promessas da noite que fazem a nossa razão de viver. (...) «Fico melancólica», diz Olga «quando Barnabé me diz de manhã que vai ao castelo: esse trajecto provavelmente inútil, esse dia provavelmente perdido, essa esperança provavelmente vã.» «Provavelmente», ainda neste cambiante Kafka joga a sua obra. Mas nada altera o essencial: a busca do eterno é nela meticulosa.
Albert Camus in "O Mito de Sísifo"-
"A Esperança e o absurdo na Obra de Kafka"
2012-08-17
2012-08-11
(Peniche, Agosto 2012)
A Verdadeira Divisão Humana
Sois vós um daqueles a quem se chama feliz? Pois bem, vós estais tristes todos os dias. Cada dia tem uma grande amargura e um pequeno cuidado. Ontem tremíeis pela saúde de alguém que vos é caro, hoje receais pela vossa; amanhã será uma inquietação de dinheiro, depois a diatribe de um caluniador ou a infelicidade de um amigo, mais tarde o mau tempo que faz, qualquer coisa que se quebrou ou se perdeu, uma vez um prazer que a vossa consciência e a coluna vertebral reprovam, outra vez a marcha dos negócios públicos. Isto sem contar as penas de coração. E assim sucessivamente. Uma nuvem que se dissipa e outra que se forma logo. Apenas um dia em cem de plena felicidade e cheio de sol. E sois desse pequeno número que é feliz! Quanto aos outros homens, envolve-os a noite estagnante.Os espíritos reflectidos usam pouco desta locução: os felizes e os infelizes. Neste mundo, evidentemente vestíbulo de outro, não há felizes.
A verdadeira divisão humana é esta: os iluminados e os tenebrosos.
Diminuir o número dos tenebrosos e aumentar o dos iluminados, eis o fim. É por isso que nós gritamos: ensino, ciência! Aprender a ler, é alumiar com fogo; toda a sílaba soletrada cintila.
De resto, quem diz luz não diz, necessariamente, alegria. Também se sofre com a luz; em demasia queima. A chama é inimiga da asa. Queimar-se sem deixar de voar, é o prodígio do génio.
Quando conhecerdes e quando amardes, sofrereis ainda. O dia nasce em lágrimas. Os iluminados choram quando mais não seja sobre os tenebrosos.
Victor Hugo, in 'Os Miseráveis'
2012-08-07
diário da alma #5
Ontem à noite chorei. Chorei porque o processo pelo qual me tornei mulher foi doloroso. Chorei porque já não era uma criança com uma fé cega de criança. Chorei porque os meus olhos foram abertos para a realidade - para o egoísmo de Henry, o amor de June pelo poder, a minha insaciável criatividade que tem de se preocupar com os outros e não consegue ser suficiente a si mesma. Chorei porque já não podia acreditar e eu adoro acreditar. Ainda consigo amar apaixonadamente sem acreditar. Isso significa que eu amo humanamente. Chorei porque daqui por diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou habituada à sua ausência.
Anaïs Nin - Henry & June
2012-08-06
incendiário
Porventura pode um homem esconder fogo no seu seio,
sem que as suas vestes se inflamem?
Ou pode alguém caminhar sobre brasas,
sem que os seus pés se queimem?Provérbios 6,27-28
2012-08-05
porque hoje é domingo
Por isso, é que o Senhor é paciente com os homens,
e derrama sobre eles a sua misericórdia.
Ben Sira 18,11
uma perspectiva de fé
(...)"creer" en Jesús no significa "imitarle", ni siquiera "seguirle" –aunque ambos sean términos muy queridos en la tradición cristiana-, sino reconocernos o descubrirnos en él: somos Jesús.
Cuando se ha experimentado la no-dualidad, la unidad de todo lo que es, emerge una nueva visión, que aporta una clave de lectura, absolutamente revolucionaria para lo que nuestra mente llama "sentido común" pero que, en realidad, no es otra cosa que el conjunto de hábitos mentales con los que nos habíamos identificado.
Desde esta nueva clave, aparecen lúcidamente certeras las palabras de Aldous Huxley: "Si supiese quién soy en realidad, dejaría de comportarme como lo que creo que soy; y si dejase de comportarme como lo que creo que soy, sabría quién soy".
La experiencia de la no-dualidad nos hace capaces de abandonar los hábitos adquiridos y abrirnos a un nuevo modo de ver, caracterizado por la Presencia, la Plenitud y la Unidad, desde donde todo se "lee" de otra manera, incluida la "fe" en Jesús.
2012-08-03
assim sou feliz
Há três anos adquiri novo estatuto: avó. Hoje recebo o recado: "beijinhos ao telefone, não! Só na casa dela." (quando lhe perguntam se não quer dar um beijinho à avó que está ao telefone)
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