2012-12-02

porque hoje é domingo



Porquê, se é possível, levar assim por diante o prazo
da existência, como o loureiro, um pouco mais escuro do que todo
o outro verde, com pequenas ondas em cada
bordo das folhas (como o sorriso de um vento) -: porquê então
ter de ser humano -, e, evitando o destino,
ter saudades do destino?...

                                                                                       Oh, não porque a ventura,
esse ganho apressado de uma perda próxima.
Não por curiosidade, ou para adestrar o coração
que também haveria no loureiro...

Mas porque estar aqui é muito, e porque aparentemente
precisa de nós tudo o que é daqui, esta efemeridade que
estranhamente nos respeita. A nós, os efémeros. Cada
uma vez, só uma vez. Uma vez e não mais. E nós também
uma vez. Nunca outra. Mas ter sido
esse uma vez, ainda que só uma vez:
ter sido terrestre não parece revogável.

E assim nos apressamos e queremos fazê-lo,
queremos contê-lo nas nossas mãos simples,
no olhar mais transbordante e no coração sem fala.
Queremos sê-lo. - A quem o dar? Mais vale
ficar com tudo para sempre...Ah, para a outra relação,
oh dor, o que se leva? Não o contemplar, aqui
tão lentamente aprendido, e daqui nenhum acontecido. Nenhum.
As dores, portanto. Portanto, antes de mais, o que pesa,
portanto a longa experiência do amor, - portanto
só o indizível. Mas mais tarde,
sob as estrelas, que importa: elas são tão mais indizíveis.
O viajante também não traz da ribanceira da montanha
para o vale uma mão-cheia de terra, a todos indizível, mas sim
uma palavra adquirida, pura, a genciana azul
e amarela. Estamos aqui talvez para dizer: casa,
ponte, fonte, portão, bilha, árvore de fruta, janela, -
quando muito: coluna, torre...mas para dizer, percebes,
oh, para dizer assim, como as próprias coisas nunca
pensaram ser intimamente. [...]



Rainer Maria Rilke, in "Elegias de Duíno - Os soneto de Orfeu"
da 9ª Elegia
Tradução Vasco Graça Moura
Bertrand


2012-12-01

aqui e agora


Deus não me salva como recompensa dos meus actos. Os meus actos serão, antes, a consequência da salvação que Deus me dá.

ler mais aqui

aqui, mais perto do céu

 
 
Eis que virão dias, diz o Senhor, em que cumprirei a promessa de felicidade que fiz ao meu povo: farei nascer um rebento de justiça, que praticará o direito e a equidade.
 
 
 
Jer 33,14-16

2012-11-28

da maioria silenciosa à participação activa


Para melhorar a igualdade entre homens e mulheres na Igreja, é preciso permitir uma verdadeira cidadania das mulheres na Igreja. É urgente que as mulheres que estão privadas da palavra – de maneira equivalente à privação dos direitos cívicos por muito tempo vivida na sociedade civil – se tornem sujeitos da palavra. Certamente, há mulheres nos conselhos pastorais ou que leccionam na faculdade de teologia... Mas as homilias dominicais – lugar de formação cristã para 95% dos católicos – estão fechadas para elas.

daqui

preciosíssimo

ser



Precisamos de uma mística do quotidiano. Deus não vem ao nosso encontro numa praça que nunca visitámos nem bate a uma porta onde não estamos. [José Tolentino de Mendonça]

2012-11-25

olha-te

ignorar não resolve nada



No dia 25 Novembro celebra-se o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) assinala esta efeméride lançando uma campanha de sensibilização sobre violência contra as mulheres. 

Esta campanha da APAV, como as anteriores campanhas, é, pois, uma forma de combate a um dos problemas mais graves das famílias e, por conseguinte, da sociedade, no qual são violados os direitos essenciais da pessoa humana e, em particular, os direitos das crianças, que, em muitos casos, assistem aos atos de violência. 

retirado daqui

2012-11-22

a mística da felicidade


Aquilo que nós, cristãos, mais urgentemente necessitamos é assumir e tornar nossa a mística da felicidade. Até ao presente momento, pregaram-nos, de forma entediante, a mística da renúncia e do sacrifício, a mística do heroísmo e da entrega. Há muita coisa verdadeira em tudo isso, mas desde que se entenda correctamente. Pois o problema não está no facto de que o que agrada a Deus é a dor e o sacrifício. Aquilo que agrada a Deus é que nós, seus filhos, sejamos felizes e vivamos gostosamente a vida, na medida em que isso for possível. Todavia, o que acontece é que nós devemos proporcionar-nos reciprocamente a felicidade. Somos nós que devemos fazer-nos felizes. Não é Deus quem nos dará a felicidade como uma espécie de maná que vai cair dos céus. A felicidade é a grande tarefa dos cristãos e, evidentemente, de todos os seres humanos. Acontece que é mais exigente e difícil proporcionar felicidade aos outros do que vencer-se a si próprio, vencer os próprios vícios e paixões. Pois, para proporcionar felicidade aos outros, a pessoa tem que começar por ser ela mesma uma pessoa feliz. E, sobretudo, tem que tornar-se sensível de tal modo àquilo que agrada aos outros que terá de renunciar a muitas coisas que lhe agradam para que os outros se sintam bem.
(...)
A felicidade não se impõe por decreto nem se ensina como doutrina. A felicidade  contagia-se, isto é, aquele que é feliz torna felizes aqueles que o cercam e com ele convivem. A capacidade de contagiar felicidade é determinante para quem quer falar de Deus.

José Mª Castillo in "Espiritualidade para insatisfeitos"

2012-11-21

de promessas


“Quando o imperador se diviniza e reivindica qualidades divinas, a política ultrapassa os próprios limites e promete aquilo que não pode cumprir”. São palavras do Papa, no novo livro sobre Jesus. Não será difícil que as mesmas acolham simpatia, ao serem lidas e difundidas. Pergunto-me é se, nelas, está implícito algum exame de consciência em relação ao poder papal - nas vertentes do poder temporal e espiritual.

viver

Espaço para uma canção

As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome da noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelipípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção

Ruy Belo

2012-11-19

a matemática e não só...



A fé é um exercício muito concreto de confiança na narrativa de Deus que Jesus nos relata com a sua própria vida, com o seu próprio corpo, os seus gestos, o seu silêncio, a sua história, a poética da sua humanidade. Que se pode concluir então? Que Deus, por exemplo, não bate a uma porta que nós não temos, mas está à nossa porta e bate; que Deus não está numa época passada ou futura simplesmente, mas Deus emerge no nosso presente histórico e é aí (é aqui!) que o encontro com Ele se torna para nós decisivo.

daqui

2012-11-18







Há setenta e sete anos nasceu a minha mãe. Deu-me a vida e ensinou-me coisas preciosas. Entre elas - ser inteira em tudo.

2012-11-17

que assim seja


«Mais do que converter, a Igreja deseja sair dos seus muros, projetos e conceitos, para dialogar com a cultura, como sendo um dos grandes desafios da tão desejada nova-evangelização»

Jorge Ortiga, arcebispo de Braga

2012-11-16

bom fim-de-semana

Novembro 2012
O Juízo Final  

Chegou o miserável milionário no céu e, impacientemente, esperou a sua vez de ser julgado. Introduziram-no numa sala, noutra sala, noutra sala, até que se viu frente a uma luz ofuscante, na qual pouco a pouco foi dintinguindo a figura santa do pai dos Homens. Em voz tonitroante este, tendo à direita, Pedro, e, à esquerda, uma figura que ele não conhecia, julgou sumariamente dois outros pecadores que estavam à sua frente. E, afinal, dirigiu-se a ele:
- Que fez você de bom na sua vida ?
- Bem, eu nasci, cresci, amei, casei, tive filhos, vivi.
- Ora - disse o Senhor - isso são actos sociais e biológicos a que você estava destinado. Quero saber que bondade específica e determinada você teve para com o seu semelhante.
- Bem - disse o milionário - eu criei indústrias, comprei fazendas, dei emprego a muita gente, melhorei as condições sociais de muita gente.
- Não, isso não serve - disse o Todo-Poderoso - essas acções estavam implícitas ao acto de você enriquecer. Você as praticou porque precisava viver melhor. Não foram intrinsecamente boas acções, desprendidas, não servem.
O milionário escarafunchou o cérebro e não encontrou nada. Em verdade, passara uma vida egoísta, pensando apenas em si mesmo. Nunca o preocupara seu semelhante, nunca olhara para o ser humano a seu lado senão como uma fonte de lucro para as suas indústrias. Mas, de repente, lemboru-se das obras de filantropia.
- Ah - disse, puxando uma caderneta - aqui está. Uma vez dei cem cruzeiros para uma velhinha da Casa dos Artistas, outra vez contribuí com duzentos cruzeiros para o Hospital dos Alienados e outra vez contribuí com quinhentos cruzeiros para a Fundação das Operárias de Jesus.
- Só ? - perguntou Deus.
- Só - disse o milionário contrafeito.
- Josué! - gritou o Todo-Poderoso -, dê oitocentos cruzeiros ao cavalheiro aqui e que vá para o Inferno.
Moral: Amor com amor se paga e o dinheiro com dinheiro também.

Millôr Fernandes, in "Pif-Paf"


Daqui

2012-11-15

A Rota Do Individuo (Ferrugem)


Mera luz
Que invade a tarde cinzenta
E algumas folhas deitam sobre a estrada
O frio é o agasalho que esquenta
O coração gelado quando venta
Movendo a água abandonada

Restos de sonho
Sobre o novo dia
Amores nos vagões
Vagões nos trilhos
Parece que invade a ferrovia
Que mesmo não te vendo te vigia
Como mãe, como mãe
Que dorme olhando os filhos
Com os olhos na estrada

E no mistério
Solitário da penugem
Vê-se a vida correndo, parada
Como se não existisse chegada
Na tarde distante ferrugem
Ou nada

Djavan e Orlando Moraes

2012-11-14


excelente repto


O medo de muitos intelectuais cristãos é precisamente o medo de um mundo fortemente tecnológico e científico onde Deus já nem sequer consegue ser uma sombra ou um fantasma assustador para um ser humano entregue a si mesmo e habitando um cosmos onde Deus foi esquecido. Pelo contrário, enquanto ateus e cristãos discutirem, continuaremos a viver no humano, suficientemente humano velho mundo de sempre. Sem isso, resta-nos apenas um mundo que, podendo continuar a ser humano, será de uma humanidade que se basta a si própria, seja para se salvar, seja para se condenar, limitando-se a substituir a imagem do crucificado por uma crucificação de si mesma.

2012-11-13

Deus e a vida

Para tornar claro onde se encontra o centro da espiritualidade cristã, a primeira coisa que precisamos fazer é tomar consciência de que nós, que temos (ou pretendemos ter) crenças religiosas, estabelecemos, com demasiada frequência e sem dar-nos conta disso, uma relação dialética entre Deus e a vida. Quero dizer: para muitas pessoas, Deus e a vida são duas realidades dissociadas uma da outra. Porém, não só dissociadas, mas sobretudo duas realidades opostas. Porque, em última instância, são muitas as pessoas que vêem na vida, com os seus males, sofrimentos e as suas contradições, a grande dificuldade para acreditar em Deus. E porque, em sentido contrário, são abundantes também as pessoas que vêem em Deus o grande obstáculo para viver, desenvolver, usufruir a vida em toda a sua plenitude e com todas as potencialidades. Ou seja, por um lado, a vida neste "vale de lágrimas" representa nada menos que o problema do mal, isto é, o obstáculo insuperável para aceitar que exista um Deus infinitamente bom e infinitamente poderoso. Porém, por outro lado, esse Deus que nos manda e nos proíbe, ameaça e castiga, traduz-se e concretiza-se no problema da religião, que para muitas pessoas se torna intolerável pela ideia segundo a qual, para aproximar-se de Deus, é preciso sacrificar o entendimento, aceitando dogmas que não entendemos, sacrificar a vontade, submetendo-se a mandatos que resultam difíceis, e vencer-se o mais possível em tudo aquilo que nos agrada, porque assim parecemo-nos mais com Cristo que, com a sua dor, paixão e morte, nos mostrou como é preciso caminhar pela vida.



José Mª Castillo in "Espiritualidade para Insatisfeitos"

2012-11-12


Amar o Universo

 Amar o universo não me traz mágoa.
Sobretudo, amar a areia
Arrebata-me de júbilo e paixão.
Amar o mar completa a minha vida
Com o tacto de um amor imenso.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o Sol aqui, depois de uns dias
Com o jardim obscurecido a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos,
ébrios em redor do pólen.

Fiama Hasse Pais Brandão





imagem - Festival Diwali, ou Festival das Luzes, a celebrar em Bangalore, no sul da Índia.

que espiritualidade?


Quando a espiritualidade se estrutura a partir do projeto da própria  perfeição espiritual, existe o perigo de que o indivíduo,sem dar-se conta, se centre em si mesmo. Nesse caso, com a maior boa vontade do mundo, aquilo que se faz é fomentar talvez o mais refinado egoísmo. Toda a preocupação do sujeito se concentra no seu próprio protagonismo, no seu próprio crescimento espiritual, na concentração de virtudes e méritos, a fim de conseguir o mais e melhor que se pode alcançar nesta vida: a santidade. Isso foi o que mil vezes foi dito aos cristãos, sobretudo o que foi dito em conventos, noviciados e seminários, isto é, nos ambientes em que tradicionalmente mais se fomentou e cultivou a espiritualidade. Por isso, não é raro encontrar pessoas que cultivam assiduamente a espiritualidade, mas de tal maneira que, ao mesmo tempo, são pessoas agarradas às suas próprias ideias e aos seus interesses. Pessoas impositivas e dominadores, incapazes de dar o braço a torcer, embora tudo isso fique dissimulado sob formas e práticas que podem parecer o mais sublime espiritual deste mundo.

Como sair deste subjectivismo intimista:

Durante séculos, tivemos uma espiritualidade mais preocupada com a virtude da pobreza do que com o sofrimento dos pobres, ou seja, uma espiritualidade mais interessada com a santidade do "espiritual" do que com a fome do "necessitado". Ninguém põe em dúvida que a liberdade em relação ao dinheiro e aos bens deste mundo é algo fundamental. Todavia, com a disposição de que essa liberdade seja a predisposição e a condição de possibilidade para lutar contra a injustiça, a opressão e o sofrimento que os pobres padecem. (...) Não se trata de substituir a ascética pela luta social. Trata-se, em todo o caso, de ser realmente livre e estar disposto a aliviar e, se for possível, suprimir a dor e a humilhação das vítimas deste mundo.


José Mª Castillo in "Espiritualidade para insatisfeitos"



2012-11-11

porque hoje é domingo


Naquele tempo,
Jesus ensinava a multidão, dizendo:
«Acautelai-vos dos escribas,
que gostam de exibir longas vestes,
de receber cumprimentos nas praças,
de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas
e os primeiros lugares nos banquetes.
Devoram as casas das viúvas
com pretexto de fazerem longas rezas.
Estes receberão uma sentença mais severa».
Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro
a observar como a multidão deixava o dinheiro na caixa.
Muitos ricos deitavam quantias avultadas.
Veio uma pobre viúva
e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante.
Jesus chamou os discípulos e disse-lhes:
«Em verdade vos digo:
Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros.
Eles deitaram do que lhes sobrava,
mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha,
tudo o que possuía para viver».

Mc 12, 38-44

a caridade


En contra de los que solemos pensar, el evangelio nos está diciendo que el principal valor de la limosna no es socorrer una necesidad perentoria de otra persona, sino mostrar una verdadera actitud religiosa. La limosna de la viuda, a pesar de su insignificancia, demuestra una actitud de total confianza en Dios y de total disponibilidad. En nuestras relaciones con Dios no sirven de nada las apariencias. La sinceridad es la única base para que la religiosidad sea efectiva. A Dios no se le puede engañar con apariencias.
No se trata directamente de generosidad, sino de desprendimiento. Lo que el evangelio deja claro es que el egoísmo y el amor son dos platillos de la misma balanza, no puede subir uno si el otro no baja. Nuestro error consiste en creer que podemos ser generosos sin dejar de ser egoístas. Lo que Jesús descubre en la viuda pobre es que, al dar todo lo que tenía, el platillo del ego bajó a cero; con lo que, el platillo del amor había subido hasta el infinito. Si mi limosna no disminuye mi egoísmo, no tiene valor espiritual.
El evangelio de hoy, ni cuestiona ni entra a valorar la limosna desde el punto de vista del necesitado, porque lo que la viuda echó en el cepillo no iba a solucionar ninguna necesidad. Se trata de valorar la limosna desde el punto de vista del que la hace. Jesús ensalza la actitud de la viuda, aunque acaba de criticar muy duramente la manera que tenían los sacerdotes de gestionar los donativos al templo.
La limosna de la que hoy se habla, no es la que salva al que la recibe, sino la que salva al que la da. La diferencia es tan sutil que corremos el riesgo de hablar hoy de tanta necesidad acuciante que podemos encontrar en nuestro mundo y por tanto, de la necesidad de hacer limosna para remediar esas necesidades extremas. Hoy no se trata de eso. Se trata de dilucidar donde ponemos nuestra confianza. Podemos ponerla en la seguridad que dan las posesiones o en la seguridad que nos da la confianza en Dios.
La motivación de cualquier limosna no debe ser, en primer lugar, remediar la necesidad de otro, que está en peores condiciones que yo, sino el manifestar el desapego de las cosas materiales y afianzar nuestra confianza en lo que vale de verdad. La cuantía de la limosna en sí, no tiene ninguna importancia; solo tendrá valor espiritual, si el hacerla, supone privarme de algo. Dar de lo que nos sobra, puede aliviar la carencia de los demás, pero ningún valor religioso para mí. Mi limosna valdrá la pena solo si me duele un poquito.
El que recibe una limosna, puede estar realmente necesitado de lo que recibe; en ese caso, la limosna ha cumplido un objetivo social. Ese objetivo no es lo esencial, porque puede alcanzarse por circunstancias ajenas a una voluntad humana. El que recibe una limosna, puede aceptarla como una lotería sin descubrir la calidad humana del que se la ha dado. O puede darse cuenta de que la actitud del otro le está invitando a ser también él mismo más humano. Si esto segundo no sucede, es que la limosna como acto religioso, ha fallado para el que la recibe. Alcanzar este último objetivo, depende de la manera de hacerla.
El que la da puede ser que tenga sus necesidades bien cubiertas y da de lo que le sobra; o puede ser que se prive de algo que necesita, al hacer la limosna. En el primer caso, aún podía demostrar un cierto desapego al superar el afán de acaparar y buscar en las riquezas seguridad. En el segundo, entramos en una dinámica religiosa. Se podría dar el caso de que un necesitado hace una limosna de la que se va a aprovechar el que no la necesita. En ese caso, el objetivo religioso se cumple. Sin tener esto en cuenta, con frecuencia dejamos de dar una limosna, porque no estamos seguros de que vaya a remediar una necesidad real.
Solo cuando das lo último que te queda, demuestras que confías absolutamente. El primer céntimo no indica nada; el último lo expresa todo, decía S. Ambrosio: Dios no se fija tanto en lo que damos, cuanto en lo que reservamos para nosotros. Un famoso escritor actual dijo en una ocasión: solo se gana lo que se da; lo que se guarda se pierde. La viuda, al renunciar a la más pequeña seguridad, manifiesta la verdadera pobreza.


2012-11-05



e de tudo quanto os meus olhos desejaram, nada lhes recusei: não privei o meu coração de nenhuma alegria, pois o meu coração sentiu alegria em todas as minhas canseiras e este foi o quinhão que me ficou de todo o meu esforço. (Eclesiastes 2,10)         
A teologia do "vale de lágrimas"

A teologia cristã ocupou-se mais com o sofrimento do que com a alegria. E preocupou-se mais com as situações duras e penosas da vida do que com aquilo que nos proporciona  felicidade, bem-estar e satisfação. Em boa medida, pode-se garantir que os teólogos interessaram-se mais pela morte do que pela vida. E, embora seja correcto dizer que nos escritos teológicos se fala com frequência da vida, o facto é que a teologia e a liturgia dão a impressão de que a vida que interessa é a "outra" vida, não "esta" vida. Mais ainda, todos nós sabemos que nas igrejas se fala com frequência de renúncia ao prazer, da mortificação do bem-estar, da austeridade, do sacrifício, da suportabilidade e da resignação, ao passo que mal se escuta algo que mova e leve as pessoas a procurar ser felizes, a deleitar-se com tudo aquilo que de bom Deus pôs no  mundo e na vida, desfrutar o prazeroso, o sensível, o corporal. Sem dúvida alguma, a moral, a espiritualidade, a simples presença do religioso causam mal estar a muitas pessoas. E, evidentemente, não é comum encontrar pessoas que, espontaneamente, associem Deus e a religião à alegria de viver e, em geral, a tudo aquilo que nos faz sentir melhor, sentir-nos bem e ser mais felizes. Por que acontece isso?



José Mª Castillo in "Espiritualidade para insatisfeitos"

2012-11-04


O Falso Conforto da Religião 

O homem comum entende como sendo a sua religião um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado lhe explica os enigmas deste mundo com uma perfeição invejável, e que por outro lhe garante que uma Providência atenta cuidará da sua existência e o compensará, numa futura existência, por qualquer falha nesta vida. O homem comum só consegue imaginar essa Providência sob a figura de um pai extremamente elevado, pois só alguém assim conseguiria compreender as necessidades dos filhos dos homens ou enternecer-se com as suas orações e aplacar-se com os sinais dos seus remorsos. Tudo isto é tão manifestamente infantil, tão incongruente com a realidade, que para aquele que manifeste uma atitude amistosa para com a humanidade é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de estar acima desta visão de vida. 

É ainda mais humilhante descobrir como é grande o número de pessoas, hoje em dia, que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável, e, no entanto, tentam defendê-la sucessivamente, numa série de lamentáveis actos retrógados. Gostaríamos de pertencer ao número dos crentes, para podermos advertir os filósofos que tentam preservar o Deus da religião substituindo-o por um princípio impessoal, obscuro e abstracto, e dizemos: «Não usarás o nome de Deus em vão!». Alguns dos grandes homens do passado fizeram o mesmo, mas isso não serve de justificação para nós; sabemos porque é que tiveram que o fazer.

Sigmund Freud, in 'A Civilização e os Seus Descontentamentos'

2012-11-03

somos o que fazemos para mudar o que somos

 

 

O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse a mão cheia de sal em um copo d’água e bebesse.

- Qual é o gosto? – perguntou o Mestre.
- Ruim. – disse o aprendiz.
O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago. Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago. Então o velho disse:
- Beba um pouco dessa água. Enquanto a água corria no queixo do jovem, o Mestre perguntou:
- Qual é o gosto?
- Bom! – disse o rapaz.
- Você sente o gosto do sal? – perguntou o Mestre.
- Não, disse o jovem.
O Mestre então, sentou ao lado do jovem, pegou em suas mãos e disse:
- A dor na vida de uma pessoa não muda. Mas o sabor da dor depende de onde a colocamos. Quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido de tudo o que está à sua volta. É dar mais valor ao que você tem do que ao que você perdeu. Em outras palavras: é deixar de ser copo para tornar-se lago. Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos.

 

 

daqui

2012-11-02

assim

Arte de Amar  

Metidos nesta pele que nos refuta,
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

inversão do foco



Aqui faz-se a apologia do sofrimento. Tendo como modelo a imitar, o sofrimento de Jesus, tido, ainda, como incomparável. Não subscrevo (com todo o respeito) este modelo de cristianismo. Ao longo da história houve, e há, quem tenha sofrimentos equivalentes ou superiores aos de Jesus Cristo.
Ler a história do nazareno, apenas pela via do sofrimento, é mutilá-la. Porque toda ela é uma demanda para suprimir o sofrimento. É nesse processo que todo e qualquer cristão deve colocar empenho.


2012-11-01

claríssimo


19*Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro. 20*Se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. 21*E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão.



(1ª Jo 4, 19-21)


um dia feliz - descobri um poeta

[...]

Que verdade existe no ventre das pombas?

A verdade está na língua ou no espaço dos espelhos?

A verdade é o que se responde às perguntas dos príncipes?

Qual é então a resposta às perguntas dos oleiros?

Se levantares uma túnica encontrarás um corpo mas não uma
     pergunta:

para quê as palavras enxutas em cíngulos ou as construídas em
     esquinas imóveis,

as convertidas em lâminas e, em seguida, despojadas e ávidas?

Ou melhor: alguma vez fui cínico como asfalto ou pelame?

Não se trata disso, apenas que o asfalto possuía a minha memória e
     as minhas exclamações relatavam a perdição e a inimizade.

A nossa sorte é difícil reclusa na beladona e nos recipientes que
     não devem ser abertos.

Sujo, é o mundo; porém respira. E tu entras no quarto como
     um animal resplandecente.

Depois do conhecimento e do esquecimento que paixão me con-
     cerne?

Não hei-de responder mas sim reunir-me com tudo o que está ofe-
     recido nos átrios e na distribuição dos resíduos,

com tudo o que treme debaixo da noite.





antonio gamoneda
descrição da mentira
trad. vasco gato
quasi
2003

2012-10-31

dedicado



Deus escreve direito

Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desdo o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento




Sophia de Mello Breyner Andresen in "Obra Poética"
Caminho

2012-10-28

Concílio Vaticano II, 50 anos depois - José Mª Castillo em Lisboa

porque hoje é domingo

(Eustache le Sueur)

46Chegaram a Jericó. Quando ia a sair de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão, um mendigo cego, Bartimeu, o filho de Timeu, estava sentado à beira do caminho. 47E ouvindo dizer que se tratava de Jesus de Nazaré, começou a gritar e a dizer: «Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim!» 48Muitos repreendiam-no para o fazer calar, mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem misericórdia de mim!» 49Jesus parou e disse: «Chamai-o.» Chamaram o cego, dizendo-lhe: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te.» 50E ele, atirando fora a capa, deu um salto e veio ter com Jesus. 51Jesus perguntou-lhe: «Que queres que te faça?» «Mestre, que eu veja!» - respondeu o cego. 52*Jesus disse-lhe: «Vai, a tua fé te salvou!» E logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.

Mc 10, 46-52

"Nas bermas da História os pobres acenam ao poder", "A história está hoje a repetir-se em Portugal."  (bispo Januário Torgal Ferreira na homilia da missa comemorativa do dia do exército em Caldas da Rainha)

2012-10-27



Nós reconhecemos a mentira do sonho,
Se assim o queres, Senhor.
Nós quebraremos o vidro da miragem,
Nós quebraremos o arco-íris da aliança com as flores



Sophia de Mello Breyner Andresen in "Obra Completa"
Caminho

"deixa que as coisas sejam"

El engaño que nos impide ver

En un texto central en su evangelio, Marcos presenta a un ciego como prototipo del verdadero discípulo. Quienes acompañaban a Jesús –ha repetido el evangelista en capítulos anteriores- oyen su palabra, pero no entienden; creen ver, pero en realidad están ciegos. Por eso, en la práctica, toman un camino diferente al del propio maestro.
El ciego Bartimeo, por el contrario, es consciente de que no ve y, a diferencia de los discípulos que reclamaban "los primeros puestos", pide únicamente "ver". Y en el momento mismo en que ve, sigue a Jesús por el camino: un camino que no es topográfico, sino teológico, el que propone el propio Jesús.
Empezamos a vivir cuando, decididamente, queremos ver. A falta de esta determinación, sobrevivimos en la ignorancia de quienes somos, en la creencia de estar separados de los otros y del mundo y en la búsqueda, más o menos compulsiva, de "distracciones" y compensaciones.
Tendemos a oír solo la voz de nuestra mente, en la creencia ilusoria de que ella nos mostrará el camino de la vida. Pero la mente tiene una visión corta y estrecha.
Nos hace girar en torno al yo, como si se tratase de nuestra verdadera identidad. Y, dando eso por supuesto, nos hace deudores de lo que le ocurra a ese yo.
Soledad, miedo, ansiedad y, en definitiva, existencia egocentrada: esas son las características que acompañan a tal identificación. Al vivir con la creencia de que somos el yo, no podemos hacer sino preocuparnos por él. Ahora bien, preocuparnos por algo que no tiene consistencia propia conduce directamente a la ansiedad.
Ese es el motivo por el que la identificación con la mente nos encierra en una prisión, hecha de ignorancia y de sufrimiento, en la que nos reducimos a circunstancias impermanentes, viviendo desconectados de nuestra verdadera identidad. Estamos ciegos, con el agravante de que creemos ver.
¿Cómo salir del engaño y poder ver?
La salida de la prisión de la ignorancia y del sufrimiento, en la que nos encierra nuestra reducción a la mente, pasa por desenmascarar el engaño de la identificación.
La excesiva preocupación por el yo es indicio seguro de ceguera y fuente cierta de cansancio estéril. Quizás solo cuando ese cansancio se nos hace insoportable empezamos a replantearnos nuestro modo de vivir. El desencanto o la hartura nos urgen a buscar una salida, porque nos hemos dado cuenta de que la raíz del problema se halla en nuestro modo de ver.
Solo hay un modo de salir de esa trampa: dejar de reducirnos a la mente (pensamientos, sentimientos, emociones...), dejar de identificarnos con el yo.
No te preocupes demasiado por cómo estás, qué sientes, qué te ha ocurrido o qué temes que te pueda ocurrir... Ven al momento presente y entrégate a él.
Toma distancia del yo y ríndete a la realidad de lo que es, deja que las cosas sean, entrégate a la Sabiduría mayor que habita todo lo real..., hasta que tú mismo seas también instrumento o cauce a través del cual esa misma Sabiduría se exprese. Acepta lo que es y deja que todo sea.
Toma conciencia de que no eres la mente, sino Eso que queda cuando la mente se calla: la plenitud del "Yo Soy" universal. Y reconoce que Eso que eres es perfecto y se halla siempre a salvo.
Cuando sueltes la preocupación por el yo, empezarás a ver y podrás seguir el camino adecuado.

Enrique Martínez Lozano

2012-10-24

a igreja-supermercado





"Generosa nos espaços e modesta nos materiais" é assim uma igreja inaugurada em San Sebastián, na vizinha Espanha. E ainda, além de templo católico, alberga na estrutura, um supermercado.

Os templos devem estar acessíveis e próximos das populações, mas este dois em um, desvirtua, no meu entender, os propósitos de um espaço celebrativo.

EL País

2012-10-23

vida com vida




A nossa crença na realidade da vida e na realidade do mundo não são, com efeito, a mesma coisa. A segunda provém basicamente da permanência e da durabilidade do mundo, bem superiores às da vida mortal. Se o homem soubesse que o mundo acabaria quando ele morresse, ou logo depois, esse mundo perderia toda a realidade, como a perdeu para os antigos cristãos, na medida em que estavam convencidos de que as suas expectativas escatológicas seriam imediatamente realizadas. A confiança na realidade da vida, pelo contrário, depende quase exclusivamente da intensidade com que a vida é experimentada, do impacte com que ela se faz sentir. Esta intensidade é tão grande e a sua força tão elementar, que onde quer que prevaleça, na alegria ou na dor, oblitera qualquer outra realidade mundana. [...] O facto é que a capacidade humana de vida no mundo implica sempre uma capacidade de transcender e alienar-se dos processos da própria vida, enquanto a vitalidade e o vigor só podem ser conservados na medida em que os homens se disponham a arcar com o ónus, as fadigas e as penas da vida.


Hannah Arendt in "A Condição Humana"

2012-10-22

sombra

a lógica da Trindade


Escrevíamos anteriormente que Deus é mistério em si mesmo e para si mesmo. Para os cristãos trata-se de um mistério de comunhão e não de solidão. É a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A ortodoxia afirma: há três Pessoas e um só Deus. É possível isso? Não seria um absurdo 3=1? Aqui tocamos naquilo que os cristãos subentendem quando dizem "Deus”. É diferente que o absoluto monoteísmo judeu e muçulmano. Sem abandonarmos o monoteísmo, faz-se mister um esclarecimento desta Trindade.
O três seguramente é um número. Mas não como resultado de 1+1+1=3. Se pensarmos assim matematicamente, então Deus não é três; mas, um e único. O número três funciona como um símbolo para sinalizar que sob o nome Deus há comunhão e não solidão, distinções que não se excluem mas que se incluem, que não se opõem mas se compõem. O número três seria como a auréola que colocamos simbolicamente ao redor da cabeça das pessoas santas. Não é que elas andem por ai com essa auréola. Para nós é o símbolo a sinalizar que estamos diante de figuras santas. Assim ocorre com o número três.
Com o três dizemos que em Deus há distinções. Se não houvesse distinções, reinaria a solidão do um. A palavra Trindade (número três) está no lugar de amor, comunhão e inter-retro-relações. Trindade significa exatamente isso: distinções em Deus que permitem a troca e a mútua entrega de Pai, Filho e Espírito.
A rigor, como já viu o gênio de Santo Agostinho, não se deveria falar de três Pessoas. Cada Pessoa divina é única. E os únicos não se somam porque o único não é número. Se disser um em termos de número, então não há como parar: seguem o dois, o três, o quatro e assim indefinidamente. Kant erroneamente entendeu assim e por isso rejeitava a ideia de Trindade. Portanto o número três possui valor simbólico e não matemático. O que ele simboliza?
C. G. Jung nos socorre. Ele escreveu longo ensaio sobre o sentido arquetípico-simbólico da Trindade cristã. O três expressa a relação tão íntima e infinita entre as diversas Pessoas que se uni-ficam, quer dizer, ficam um, um só Deus.
Mas se são três Únicos, não resultaria no triteísmo, vale dizer, três Deuses em vez de um: o monoteísmo? Isso seria assim, se funcionasse a lógica matemática dos números. Se somo uma manga+uma manga+uma manga, resultam em três mangas. Mas com a Trindade não é assim, pois estamos diante de outra lógica, a das relações interpessoais. Segundo esta lógica, as relações não se somam. Elas se entrelaçam e se incluem, constituindo uma unidade. Assim, pai, mãe e filhos constituem um único jogo de relações, formando uma única família. A família resulta das relações inclusivas entre os membros. Não há pai e mãe sem filho, não há filho sem pai e mãe. Os três se uni-ficam, ficam um, uma única família. Três distintos; mas, uma só família, a trindade humana.
Quando falamos de Deus-Trindade entra em ação esta lógica das relações interpessoais e não dos números. Em outras palavras: a natureza íntima de Deus não é solidão; mas, comunhão.
Se houvesse um só Deus reinaria, de fato, a absoluta solidão. Se houvesse dois, num frente a frente ao outro, vigoraria a distinção e, ao mesmo tempo, a separação e a exclusão (um não é o outro) e uma mútua contemplação. Não seria egoísmo a dois? Com o três, o um e o dois se voltam para o três, superam a separação e se encontram no três. Irrompe a comunhão circular e a inclusão de uns nos outros, pelos outros e com os outros, numa palavra: a Trindade.
O que existe primeiro é a simultaneidade dos três Únicos. Ninguém é antes ou depois. Emergem juntos sempre se comunicando reciprocamente e sem fim. Por isso dizíamos: no princípio está a comunhão. Como consequência desta comunhão infinita resulta a união e a unidade em Deus. Então: três Pessoas e um só Deus-comunhão.
Não nos dizem exatamente isso os modernos cosmólogos? O universo é feito de relações e nada existe fora das relações. O universo é a grande metáfora da Trindade: tudo é relação de tudo com tudo: um uni-verso. E nós dentro dele.

Leonardo Boff, aqui

José Maria Castillo passou por Lisboa

No passado sábado, inesperadamente, cumpri um desejo. Há vários anos que acompanho, através da leitura, algum do pensamento do padre e teólogo espanhol, José Maria Castillo.
A convite do movimento "Nós Somos Igreja" veio a Lisboa, mais propriamente ao convento de S. Domingos, dar uma conferência sobre o "Concílio Vaticano II, 50 anos depois".
Pude comprovar o que já sabia, que é profundissimamente humano, afável, simples e com um enorme amor à Igreja. O que não o impede, ou por isso mesmo, de, profeticamente, ter uma atitude crítica em relação à mesma.

Na bagagem ainda trouxe alguns livros dos que tem publicado. Consegui um "Espiritualidade para insatisfeitos", que teve a simpatia de, a meu pedido, autografar.

O encontro terminou com a Eucaristia celebrada por Frei Bento Domingues, em ambiente de verdadeira comunidade. Sendo eu uma intrusa, não pertenço ao movimento NSI, e foi esta a única actividade em que participei, senti-me em casa.


2012-10-19

Manuel António Pina - 1943-2012



Amor como em Casa 

 Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

2012-10-18

a saudável indignação



 "Daqui sai outro teorema: este tempo de crise e dificuldade gera muito disparate." E eu diria, quer ao General Ramalho Eanes quer ao articulista, que  passamos bem (para não dizer outra coisa) sem os seus teoremas.

A indignação e a zanga são sentimentos que nos permitem impor limites. Tanto a nível pessoal como colectivo. O que se torna óbvio, e a cada diz mais claro, é que a austeridade que nos é imposta, todos os dias ultrapassa os limites do razoável e justo. A tentação de quem nos impõe essa austeridade e os seus (cada vez menos defensores) é reprimir qualquer sentimento ou atitude de indignação.

Quando se tenta reprimir a zanga e a indignação o que acaba por surgir é a sua expressão excessiva, desregulada. Isso, sim, pode conduzir a atitudes e acções menos correctas. Daí, e não só, achar incompreensíveis as recentes declarações do Cardeal Patriarca sobre as manifestações. É que não acredito que ele não considere justa a indignação e também deve conhecer os efeitos da repressão desta.

Estabelecer limites é o começo de uma cidadania activa.

2012-10-16

numa escola portuguesa



Hoje, 16 de Outubro, é o Dia Mundial da Alimentação. Uma criança de cinco anos foi impedida de almoçar na cantina da escola que frequenta, por não terem sido pagas refeições anteriores. A pessoa responsável pelo que aconteceu, apareceu a justificar-se na televisão. Havia razões, claro. E razão nenhuma para que uma criança de cinco anos ficasse sem almoço.

2012-10-15

2012-10-14

porque hoje é domingo


Orei e foi-me dada a prudência;
implorei e veio a mim o espírito de sabedoria.
Preferi-a aos ceptros e aos tronos
e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada.
Não a equiparei à pedra mais preciosa,
pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia
e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo.
Amei-a mais do que a saúde e a beleza
e decidi tê-la como luz,
porque o seu brilho jamais se extingue.
Com ela me vieram todos os bens
e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis.

Sab 7,7-11

2012-10-13

Concílio Vaticano II, cinquenta anos depois



Joana,

aceito com naturalidade que tenhamos visões diferentes sobre os resultados do Concílio Vaticano II. Logo à partida, a vivência que temos do mesmo, é diversa. A Joana viveu o acontecimento há cinquenta anos, numa idade e numa perspectiva, imagino,  de quem deposita grandes expectativas para a Igreja da altura. Eu, como comentei no facebook, considero-me uma filha do Concílio. As recordações que tenho são, de durante toda a infância, e talvez por crescer numa aldeia, os lugares diferenciados que homens, mulheres e crianças, ocupavam durante as celebrações litúrgicas. Alguns homens, mais ligados a alguns movimentos ficavam no altar-mor, as mulheres e crianças no corpo da Igreja, e os restantes homens ao fundo, junto ao guarda-vento. A minha aproximação ao Concílio Vaticano II, aconteceu com o estudo dos textos conciliares muito impulsionado nos grupos que frequentei.

Apesar da minha perspectiva ser a de quem não vivenciou o Concílio no tempo, antes de quem colheu alguns dos frutos que dele emanaram, julgo-me capaz de afirmar que o Concílio Vaticano II, em si, não foi uma decepção, pela porta de renovação evangélica que abriu na Igreja. Não me impede, contudo, de afirmar também, que são evidentes e explícitas algumas situações de poderes instalados na Cúria Romana, e não só, que vêm travando ao longo dos anos a força criadora e renovadora de uma Igreja mais humana e cristã.

Graças a Deus que a Igreja, a par duma estrutura que resiste a renovar-se, vai estimulando crentes cristãos, tanto consagrados como leigos, a manterem presentes e abertos, os caminhos renovadores que o Concílio abriu. E, mesmo que reconheçamos e sintamos o fracasso, saibamos, à semelhança do teólogo espanhol José Maria Castillo, pressentir-lhe o mistério:

Entonces, ¿qué aportó Juan XXIII con su pontificado y su concilio? Lo más decisivo para los discípulos de Jesús: que la bondad es la fuerza que cambia el mundo, que renueva la Iglesia, que nos lleva por los mismos caminos que trazó Jesús. ¿Esto no dice nada? Más aún, ¿esto fue y sigue siendo un fracaso? ¿No terminó la vida de Jesús en el más estrepitoso de los fracasos? Y, sin embargo, ¿no decimos los creyentes que ahí, en eso, está el misterio de lo que más nos humaniza y más felices nos hace? Amigos, aquí estamos tocando el fondo. Como el papa Rocallí lo tocó. 

Um abraço,
maria

a vida em imagens #16



submeto-me à beleza irradiante da nespereira que, em pleno Outono, rebenta de flores. e a esta cesta de fruta.

dedicado



Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres


Sophia de Mello Breyner Andresen in "Geografia"
Obra Completa,
Caminho

2012-10-10

longe da vista, longe do coração, seguramente

Partilhou no mural do facebook o que tinha escrito no blogue:"Pensei que sim, que já tinha sorrido hoje, sorrisos amargos, sobretudo, mas que também tinha chorado com os que me são mais próximos, aflitos por me saberem desempregado. Estou desempregado. Ao fim de 23 anos de trabalho estou desempregado e não sei o que vou fazer amanhã.". É o Manuel Jorge Marmelo
Ao fim do dia, alguém me pediu que descontasse no valor que vai receber  - uma bolsa de formação - os dez euros e cinquenta que deve e não pode pagar, por não ter como. Está desempregado e acabou de saber que lhe foi recusado o RSI por ter sido ele a rescindir com entidade patronal, com quem estava em contencioso.
O meu bispo, diz isto numa entrevista:"Acho que estamos a julgar e a reagir a uma situação muito séria, de destino e de verdade fundamental do nosso povo e da Europa, a partir da “comichão” que nos fazem as dificuldades económicas do presente. Não somos redutíveis a isso!" Pois não! Mas eu não posso, em nome do meu bispo, dizer ao Manuel Jorge Marmelo, ou ao formando que me comunicou  as dificuldades por que está a passar,  que é uma "comichão" e mais logo vai passar.

2012-10-09

há ou não um Deus?


“Por detrás do silêncio do universo, por detrás das nuvens da história, há ou não um Deus? E se há esse Deus, que nos conhece, o que tem a ver connosco?" discorre o Papa na abertura do Sínodo dos bispos. E a seguir, desafia ao testemunho, mesmo no meio do sofrimento.
É vital que a Igreja continue, com humildade, a debater a questão "Deus". E alargar o debate para além daquilo que são as estruturas em que se define. E o testemunho de fé da Igreja será tanto mais acolhido, quanto ela souber ser próxima, dialogante e desinstalada. 

ponto da situação

gosto de capicuas. vá-se lá saber porquê. segundo o dicionário da Priberam, capicua:
 

aqui fica uma: 3333 mensagens publicadas até à data de hoje.

2012-10-08

fundo musical

repto



Vigiei trinta e uma horas seguidas. Acho que se não foi conTigo é porque não ressuscitastes.


Nuno Bragança in "Directa"
Obra Completa 1969-1985
Dom Quixote

o dedo na ferida


Quanto de cultural, de tradições desumanas, e até de práticas religiosas contrárias às palavras de Jesus, é preciso ainda evangelizar? O que existe ainda de controle, submissão e imposição do homem sobre a mulher no dia a dia, em instituições civis e religiosas? Que “nova evangelização” para a igual dignidade do homem e da mulher é pedida a nós, cristãos?

daqui

2012-10-07



És Tu que estás à transparência das cidades
Vê-se o Teu rosto para além dos bairros interditos.

O mal palpável próximo insistente
Parece tornar-Te evidente.

Sobe do destino uma sede de Ti.
Não somos só isto que se torce
Com as mãos cortadas aqui.



Sophia de Mello Breyner Andresen in "Mar Novo"

2012-10-05






e começarmos a partir daqui?

A Igreja e o Estado, na Alemanha

Na Alemanha há um acordo entre o Estado e as Igrejas católica e protestante (mas apenas a protestante "oficial" - há algumas pequenas comunidades protestantes autónomas que não têm acesso a este sistema). As pessoas que, ao fazerem a inscrição nas finanças, declaram que são católicas ou protestantes, passam a ver descontado automaticamente do salário um imposto para a igreja - no valor de 10% dos impostos pagos ao Estado.
O Estado entrega esse dinheiro às Igrejas - mas é óbvio que a afirmação do Lino não está correcta: o Estado não "paga a padralhada", limita-se a ter um acordo de recolha de fundos com duas das Igrejas que existem na Alemanha.

10% do valor dos impostos é muito dinheiro. E dói ainda mais se as pessoas sentem que a Igreja lhes leva o dinheiro de forma automática, mas não mostra muita consideração por elas. Há casos impressionantes, como um amigo nosso que tem um excelente salário e por isso paga muitos milhares de euros à Igreja todos os anos, mas porque se divorciou (a mulher apaixonou-se por outro) e voltou a casar (não queria deixar a nova companheira numa situação precária apenas para ele ter o direito de continuar a comungar) "vive em pecado" e foi excluído dos sacramentos. Outro caso, gravíssimo, foi o de uma educadora de um jardim infantil católico (pago com esse imposto dos católicos, claro) que perdeu o emprego por ter engravidado sem ser casada.

No fundo, estamos perante uma luta de poder: os católicos não querem pagar automaticamente para uma Igreja com cuja hierarquia não concordam, e a hierarquia trata de os castigar à grande, expulsando-os da comunidade de crentes. Como se a comunidade de crentes fosse propriedade da hierarquia...

Helena, comentário deixado aqui

nova tem de ser a perspectiva


Muitas vezes não pisamos o mesmo chão lamacento que as pessoas pisam e não vamos ao encontro das pessoas. É isto que quer dizer esta forte expressão: a Igreja não pode ser aérea e etérea, mas tem de estar plantada no meio das pessoas, conhecê-las, saber que rostos têm, que sonhos têm, que problemas têm… Era o que Jesus fazia, passando pelo meio das pessoas.

António Couto, bispo

2012-10-02

E Deus, não chama as mulheres?

 

AS MULHERES NÃO CONTAM?


1. Claro que contam. A sua presença qualificada, em muitos sectores da sociedade portuguesa, é cada vez mais afirmativa e insubstituível. Alguns homens chegam a temer um “desequilíbrio” que possa afectar privilégios ancestrais.
Esse destaque feminino, ao mostrar uma realidade irrecusável, sublinha o contraste com um passado humilhante, não muito longínquo. As contínuas notícias de violência doméstica que, por vezes, vai até ao homicídio conjugal, arrefece as visões mais eufóricas. Se a violência doméstica designava, sobretudo, os maus tratos dados às mulheres e crianças, estende-se, cada vez mais, aos idosos, mulheres e homens. Sem adequadas pensões de reforma, ficam sem meios para garantir a defesa da sua dignidade. A predominância actual da cultura utilitarista não pode entender o que exige e implica a dignidade humana dos idosos.
As Igrejas cristãs foram confrontadas, desde o começo, com o estado de negação das mulheres na cultura judaica, gravado para sempre na expressão: “sem contar mulheres e crianças” (Mt 14, 21; 15, 38 e //).
Era, de facto, o retrato da realidade em que Jesus nasceu, foi educado, mas que recusou. As mulheres, afastadas da vida pública, confinadas ao lar, preparando-se para o matrimónio, estavam destinadas a sacrificar-se pela família até ao fim dos seus dias, sob o olhar atento do pai e do marido. Sem estudos, sem papel na religião, sem posses, não tinham qualquer capacidade de decisão autónoma.
Nesta situação, estava certíssima uma oração masculina, cínica e diária: “Bendito sejas, Senhor, por não me teres feito mulher”. (Tos. Ber. VII, 18)
2. Dizem os especialistas, que a ruptura activa de Jesus com essa situação representa um dos traços essenciais da originalidade da sua intervenção histórica. Afrontou tudo o que, no plano social e religioso, marginalizava as mulheres. Segundo as narrativas da paixão e ressurreição, Jesus encontrou nelas quem melhor entendeu a sua mensagem e o seu caminho. Garantiram futuro ao movimento cristão, quando tudo parecia morto.
Artur Cunha de Oliveira publicou uma obra notável sobre Jesus de Nazaré e as Mulheres, a propósito de Maria Madalena (Instituto Açoriano de Cultura, 2011). É uma obra de referência para a teologia feminista e pode ser de muito proveito para os anti-feministas. O autor é um sacerdote católico, dispensado do ministério e casado, licenciado em Teologia Dogmática e em Ciências Bíblicas, tendo sido professor no Seminário Episcopal de Angra, Cónego da Sé e assistente diocesano de vários movimentos, organismos e associações de apostolado.
Em 2011 nasceu a Associação Portuguesa de Teólogas Feministas. Criada por Teresa Toldy, Fernanda Henriques, Maria Carlos Ramos e Maria Julieta Mendes Dias, com os seguintes objectivos: contribuir para o aprofundamento da investigação teológica feminista; criar condições para a troca de experiências de investigação entre investigadores feministas de Teologia a nível nacional e internacional; relançar, em Portugal, o debate sobre as Mulheres, numa perspectiva ecuménica.
Esta Associação vem preencher, entre nós, uma lacuna no campo da teologia, inscrevendo-se num movimento sem fronteiras. A publicação das comunicações do I Colóquio Internacional de Teologia Feminista será apresentada no próximo Colóquio, marcado para o próximo mês de Novembro.
3. A reflexão teológica na Igreja não tem sentido desligada da experiência concreta das comunidades cristãs. É, por natureza, contextual. A descoberta dos direitos e do seu papel na sociedade obrigaram as mulheres cristãs a fazer uma verificação: a nossa situação é esquizofrénica. Por um lado, participamos na emancipação das mulheres na sociedade e por outro, é-nos dito que na Igreja não pode ser assim, tem de ser diferente, pois ela não existe para reproduzir a sociedade, mas para a evangelizar na fidelidade a Jesus Cristo. Manifesta-se, precisamente aqui, um dos aspectos do debate. Na constituição hierárquica da Igreja, não há lugar para as mulheres. Não têm acesso aos ministérios ordenados, pois decretaram que o sacramento da Ordem não é para elas.
Se os ministérios ordenados são para servir, perguntam-se: que haverá em nós, por sermos mulheres, que nos impede de ser chamadas a servir as comunidades cristãs? Surge-nos a dúvida: se fossem verdadeiramente um serviço, seríamos as primeiras a ser chamadas. Como se trata de poder, fica privilégio de homens.
Note-se que nem todas pretendem ser chamadas a preencher a lacuna da falta de vocações masculinas. Mas não escondem o que as comunidades católicas teriam a ganhar com as virtualidades da diferença feminina nos ministérios ordenados. O que não suportam, enquanto cristãs, é que as mulheres não contem na orientação da vida das comunidades cristãs e sejam reduzidas ao estado pré-cristão em que Jesus as encontrou.
A Igreja nunca poderá aceitar a vontade do Simão Pedro do evangelho apócrifo segundo Tomé: “ Maria deve ir embora, pois as mulheres não são dignas da vida”. A resposta do Jesus desse evangelho é dos diabos: “Vede, vou atraí-la para que se torne macho a fim de que ela também se torne um espírito vivente que se assemelha a vós, machos.”
4. Quando certas personalidades da Igreja, para recusar às mulheres determinadas funções, invocam a prática de Jesus para as fundamentar, importa não esquecer o seguinte: antes de mais, é preciso ver a qualidade e o volume de intervenções de Jesus que são uma autêntica revolução; alteraram completamente as ideias e atitudes que ofendiam e marginalizavam a mulher, que faziam dela um ser menor, uma eterna criança. Hoje, abundam os estudos que podem evidenciar o salto civilizacional e religioso que a prática de Jesus e a sua palavra representam.
O que não é aceitável é o seguinte: não se olha para esse acontecimento e, depois, fala-se de uma ausência nas decisões de Jesus, acerca de problemáticas que não pertenciam à sociedade em que Ele viveu. Por exemplo: quando se fala dos ministérios ordenados das mulheres, não é ridículo imaginar um ritual que hoje e há séculos se pratica nas Igrejas para ordenar padres ou bispos? Figurar Jesus, paramentado, de mitra e báculo, rodeado de bispos e padres e de candidatos prostrados de rosto por terra, esperando a sua vez, é não só ridículo como inteiramente anacrónico. Se imaginarmos as coisas assim, Jesus de facto, não ordenou mulheres como não ordenou homens. Só que a questão não é essa. A questão é simples porque é que este ritual foi criado para homens e nunca para mulheres. A partir daqui fica tudo baralhado. O que importa é responder hoje, na problemática de hoje, à novidade da prática de Jesus para hoje e para sempre. Graças a Deus, Jesus Cristo continua vivo e nós, continuamos surdos e cegos.
Frei Bento Domingues, O.P.

Publicado no "Público" e copiado daqui 

 

2012-10-01

 (Setembro 2012)


Ser Igreja é trabalhar com decisão e simplicidade, para que Deus passe por esse mundo desumano. E para o não crente trabalhar para que a solidariedade e a dignidade, o melhor do humano, passe por este mundo, que embora seja mais secular, continua sendo desumano. 


Jon Sobrino