2013-01-06

cada um olhe para si



" Viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.” Mt 2, 11


Quem procura…

É verdade, assusta-me quem não tem dúvidas! Quem se mostra convencido de que sabe tudo, que pode adivinhar o futuro e que conhece todas as soluções (quase sempre as mais catastróficas, porque quem não procura a verdade faz a verdade coincidir com as suas ideias!). Normalmente não pede nem precisa de ajuda e, quase sempre, é profundamente infeliz, ainda que se rodeie de riqueza ou poder e algum espavento. Em dia de Reis (que afinal é de Magos, pois assim conta São Mateus), encantam-me estes personagens que a história e a lenda pintaram com sumptuosas vestes e séquitos deslumbrantes, a começar pelos camelos, daqueles verdadeiros com bossas e tudo! Encanta-me a grandeza que os leva a calcorrear caminhos atrás de uma estrela à procura de um rei extraordinário. Maravilho-me com a humildade de se irem “pôr na boca do lobo”e bater à porta de Herodes a perguntar o caminho. Ah, grandes reis, ou magos, que nos ensinam a procurar e nunca nos julgarmos “donos da verdade”.   
Procurar é algo a que os guardiões da verdadeira religião, neste caso os sumos sacerdotes e os escribas, não estão habituados. E nem têm vontade de para aí se voltarem: então a sua ”religiãozinha” não é tão boa que lhes dá “cama, mesa e roupa lavada”? “E o povinho não gosta tanto de vir fazer os sacrifíciozinhos, e deixar as ofertas no Templo, e volta para casa contentinho porque já fez a sua obrigação?! Para quê procurar? O culto é tão bonito e isto de Deus ser um mistério faz muita confusão que o melhor é não levantar ondas, porque se o Messias vai nascer em Belém ele há-de cá vir ter e nós ensinar-lhe-emos como se deve comportar!” Devo estar enganado e nada disto passou pelas cabeças dos sábios de Jerusalém, mas o certo é que ninguém acompanhou os Magos!
E pode-se convidar um rei a procurar? Mesmo um rei-quase-fantoche como é Herodes, pois Israel está sob domínio romano, não deixa a comodidade do seu poder para ir a uma aldeola porque as Escrituras anunciam que aí nascerá o Messias. “E isto do Messias tem muito que se lhe diga. O povinho alimenta a esperança de que ele irá fazer justiça aos pobres e atender os mais atribulados, e isso pode dar muita confusão. Já cá temos o nosso sistema de esmolas que serve para manter as diferenças entre ricos e pobres senão isto seria o caos! E quanto à justiça todos entendem que ela é feita por quem tem poder e, naturalmente não pode beneficiar os maltrapilhos e borra-botas que não querem fazer nenhum. É preciso manter as diferenças, e se um pretenso rei vem para aí mudar isto e acabar com os poderes instituídos é urgente fazer-lhe frente. Sim, que somos todos filhos de Deus tudo bem, mas há uns mais filhos que outros!” Não, nada disto passou pela cabeça de Herodes (e de todos os Herodes em todos os tempos quando a mensagem de Jesus começa a arder nos bolsos e nas assinaturas!) mas também ele não foi a Belém!
Foram os que procuravam. E ainda hoje é assim: só vai a Jesus quem procura, quem tem fome e sede de justiça, quem é pobre (de coração, mesmo), quem deseja ser melhor, quem não é autosuficiente, quem sonha e ama, quem pouco deseja para si, quem não ambiciona poder nem riqueza, quem é capaz de adorar, quem está vivo! És tu um desses?

P. Vitor Gonçalves, daqui

2013-01-05

ainda aparecem novidades na blogosfera



Ando a seguir com alguma curiosidade e expectativa este blogue. Quero ver até onde vai a capacidade e coragem do autor na abordagem dos temas. É pena ser num registo demasiado "Inimigo Público", e o enfoque ser, sobretudo, sobre pessoas ligadas às religiões, religião católica incluída. E também desconfio da selecção. Veremos...






sempre que como um diospiro, lembro-me do poema






Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua

e só depois
muito depois

se deixam morder

 
Jorge Sousa Braga

o destino que a antiguidade traçou




"O que aqui vedes é pura e simplesmente o ensaio das minhas faculdades naturais e de maneira nenhuma o das adquiridas. Quem me surpreender em flagrante delito da ignorância, não me fará nada de mal, pois não posso responder a outrem pelas minhas opiniões, eu que não o faço a mim mesmo e que não estou satisfeito com elas." [Montaigne, "da amizade e outros ensaios"] Pertinente aviso - é que atrás estava escrito sobre o tema casamento e amizade:"Acresce que, para dizer a verdade, a capacidade normal das mulheres não está à altura de uma confiança mútua e recíproca como a de que se nutre esse santo liame (o casamento) nem tão pouco a alma delas parece assaz constante para sustentar o vínculo de um nó tão apertado e tão duradouro. E, decerto, se assim não fosse, se se pudesse estabelecer uma relação livre e voluntária em que não apenas as almas tivessem cabal fruição mas ainda os corpos tomassem parte na aliança, em que o homem se empenhasse todo inteiro, certo é que a amizade resultante seria mais plena e completa. Mas não há, de resto, nenhum exemplo de que o sexo feminino haja sido capaz de lá chegar; e as escolas filosóficas da Antiguidade, por consenso geral, negam que tal possa acontecer.

2013-01-03



O arcanjo Gabriel bem tentou que se esclarecesse o essencial, mas depois lá desmoronava o dogma da concepção virginal. Ou antes, a forma como tem sido entendido:



"Quebraba Benedicto el sueño, dando unas cabezaditas durante el telediario de sobremesa. Una pálida luz azulada difuminaba la sala cuando se dibujó en el ambiente onírico la figura del arcángel Gabriel.

-Alégrate, Benedicto, el Señor está contigo.
-Agradable sorpresa, Gabriel. Llegas en un buen momento. Necesito que me eches una mano para acabar de redactar el capítulo de la Anunciación.
-Bien, ya sabes, maestro, haz hermenéutica, que algo queda.
-Sí, ya he explicado que los peregrinos de la estrella ni eran tres, ni eran reyes, ni eran magos, que la mula entra en escena por alusión a Isaías; que hay música de salmos de liberación para armonizar el magnifcat del abrazo entre las dos primas embarazadas, telón de fondo de Emmanuel para los nacimientos y gloria en el mutis de los pastores. Ah, y que traduzcan bien lo de la eu-dokía: paz a hombres y mujeres, que por algo son todos y todas objeto de la buena voluntad del Altísimo, que por algo los quiere a todos y a todas la eu-dokía del Señor.
-¿Qué más quieres, Benedicto? Tú tienes muchas tablas para clases magistrales. Tu libro será un best seller. ¿Qué te voy añadir yo?
-Pues justo lo que te decía: el tema de lo vuestro, quiero decir, lo tuyo con María y José cuando irrumpe el Espíritu.
-Escribe bien ese capítulo, que cuando lo pongan en teleserie la máxima audiencia será para la aparición de Gabriel, susto para la niña: una estéril embarazada y una virgen concibiendo; sendos mensajeros tranquilizan en sueños al esposo de una y al novio de la otra...
-Pero es muy delicado aclarar eso. Ahí sí que no me atrevo como con la mula y el buey...
-Tú, buen teólogo, puedes hacerlo. Aclara lo esencial.
- Sí, eso ya lo he escrito. Mateo y Lucas saben lo que hacen: narrativa de promesa, identidad y vocación con mensaje salvífico. Francisco lo popularizó en los belenes: Paz a quienes adoran con amor infante, esperanza adolescente y fe adulta. Yo les repito el mensaje en el Año de la Fe, medio siglo después de Juan XXIII, el Bueno. Que entiendan bien el mensaje de paz en la tierra por la Encarnación de la Palabra de Gracia. Y que vean, como veía el Papa Juan, la clave del misterio en el rostro de la criatura recién nacida. Cada bebé viene al mundo por la unión amorosa de sus progenitores y, a la vez, por obra y gracia de Espíritu de Vida.
-Perfecto, Benedicto.
-Ya, pero no basta, porque van a preguntar por la concepción y... si les digo, como hay que decir, que la estrella de Oriente no es tema de astronomía, ni la concepción mesiánica es cuestión de biología, lo van a entender mal.
-De ningún modo. Llámame a mí por testigo, yo velaba en el umbral mientras María y José dormían su primera noche. Irrumpió el Espíritu Santo. María y José hicieron al niño que el Espíritu les dió. El Espíritu les dió el niño que hicieron ellos.
-Ya lo sé, Gabriel, ya lo sé. Pero el pueblo falto de catequesis adulta no lo va a entender. Mira la que se armó cuando dije lo del buey y la mula; van a pensar que lo de Mateo y Lucas es cuento de hadas y que no es propio de mí desmitificar tu Anunciación. Tengo que decirles claramente que esas narraciones no son mito, sino historia.
-Entonces te criticarán tus colegas de teología, que defienden la verdad mitopoética.
-Pero si te desmitifico, Gabriel, el pueblo creyente sencillo se desconcertará.
-Y si no lo haces, no pasarán a fe adulta y se quedarán creyendo al pie de la letra, como cuando decían que a los bebés los trae de París una cigüeña.
-Calla, Gabriel, calla, por Dios, no mientes a “Cigoñas y cigoñinos”, que trae mala suerte a Religión Digital.
-Entonces díselo con palabras de magisterio papal, que eso tranquiliza mucho a los fundamentalistas. Cítales a tu mentor Juan Pablo II, el Firme, que acuñó una de las mejores fórmulas para hablar de Anunciación y Concepción virginal. Dice al comienzo de la encíclica Evangelium vitae que “la Navidad manifiesta el sentido profundo de todo nacimiento humano” . Es decir, que si virginidad es culmen de receptividad y donación mutua, María y José no pierden la virginidad al unirse para procrear, sino que se hacen vírgenes al unirse para hacerse padre y madre del fruto de su amor. Hay que ser poeta como Lucas y Mateo para plasmar tan bellamente en sus evangelios el misterio de la encarnación de lo divino en lo humano: se consuma cuando una mujer y un varón se dan y reciben por completo, convirtiéndose en vírgenes precisamente por hacerse engendradores de vida."

Juan Masiá, aqui
 (Alexey Bednij)


Faz-se Luz  

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos    e na boca

Mário Cesariny, in "Pena Capital"

2013-01-02

a fé



No outro dia, o Gabriel descobriu numa gaveta - está na fase de investigar o que guardam as gavetas e caixinhas que se encontram pela casa - um saca agrafos que, imediatamente, denominou tubauão. E, a partir daí, o tubauão foi ripar o musgo do presépio, as folhas das plantas da sala, abrindo e fechando as mandíbulas ao ritmo da imaginação do meu neto.
Este episódio  despertou-me para a importância da imaginação - que, sendo tão fértil na infância, decresce e  desaparece na maturidade. E perde-se, desse modo, uma dimensão importante para interagirmos com o mundo à nossa volta e com as diferentes dimensões do nosso ser.

A fé é um desafio à imaginação. Muito mais do que um desafio intelectual. Bem, já estou a imaginar as objecções que a minha explanação vai despoletar. Ainda há poucos dias, no diálogo com dois não crentes, pedi que, numa palavra, definissem Deus. Inevitavelmente, surgiu a palavra "mito". Agora estou a valorar a imaginação como componente da fé. A verdade é que, abordar os textos bíblicos, por exemplo, sem capacidade de imaginação, fazendo-o, apenas - à boa maneira evangélica -, na sua literalidade, perde-se uma parte substancial dos mesmos.








2013-01-01

hoje e sempre



1* Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver amor, sou como um bronze que soa
ou um címbalo que retine.
2Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver amor, nada sou.
3Ainda que eu distribua todos os meus bens
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver amor, de nada me aproveita.
4*O amor é paciente,
o amor é prestável,
não é invejoso,
não é arrogante nem orgulhoso,
5nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita nem guarda ressentimento.
6Não se alegra com a injustiça,
mas rejubila com a verdade.
7Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
8*O amor jamais passará.
As profecias terão o seu fim,
o dom das línguas terminará
e a ciência vai ser inútil.
9Pois o nosso conhecimento é imperfeito
e também imperfeita é a nossa profecia.
10Mas, quando vier o que é perfeito,
o que é imperfeito desaparecerá.
11Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Mas, quando me tornei homem,
deixei o que era próprio de criança.
12*Agora, vemos como num espelho,
de maneira confusa;
depois, veremos face a face.
Agora, conheço de modo imperfeito;
depois, conhecerei como sou conhecido.
13*Agora permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor;
mas a maior de todas é o amor.


1ª Coríntios 13, 1-13

2012-12-31

2012-12-29

questionar o Deus de Aristóteles



“En suma Aristóteles adjudicó los siguientes atributos al Ser que, en su opinión, era la explicación del mundo y su forma más absoluta: inmutabilidad, inmaterialidad, omnipotencia, omnisciencia, unicidad, indivisibilidad, bondad perfecta. Hay una coherencia impresionante entre ese conjunto de atributos y los que son predicados de Dios por la tradición judeocristiana”.
En mi opinión esta afirmación es dudosa en extremo:
1. La “bondad perfecta” no incluye en sí la idea de “Persona”, lo cual es esencial para la “tradición judeocristiana”. Incluir esta noción en la definición de Dios iría contra el sistema aristotélico, en mi opinión.
2. En cuanto a “existencia necesaria”: pienso que Aristóteles jamás creyó en la existencia real de ese Dios (denominado a veces por él la “divinidad” o “lo divino” = to theion en griego, lo que sin duda rechaza el politeísmo), cuya definición sintetiza designándolo como “forma absoluta sin materia alguna”. Ahora bien, tal entidad, que actúa como “Primer Motor” o “Causa final” lógica de todo el universo, no existe en realidad. Es sólo una explicación lógica del universo y de cómo este actúa, sobre todo cómo actúa hacia un fin (teleológicamente). Es un modo cómo el ser humano reflexivo trata de explicarse a sí mismo el universo y su funcionamiento.
Explico estos dos puntos:
1. La divinidad aristotélica no es persona. Es cierto que no se puede responder a esta cuestión claramente porque Aristóteles no se plantea el tema expresamente. Ni se le ocurre. Pero se puede deducir del conjunto de su sistema. Por un lado, parece que Aristóteles habla de un Dios personal y que habla de la felicidad de Dios… cuando escribe que siendo Dios el “pensamiento del pensamiento” no puede pensar más que en sí mismo y que esto le produce felicidad.
Aparte de la observación de que Aristóteles está usando aquí –indebidamente quizás— un lenguaje figurado, es claro que se puede razonar del modo siguiente dentro de su sistema: sólo una persona podría ser feliz. Ahora bien, ser persona significa un ser que tiene conciencia de ser un individuo existente. Ahora bien, Dios como forma absoluta es el universal absoluto. Y el universal absoluto no puede ser un individuo, no puede ser una persona, sino un concepto; y por lo tanto es muy difícil dentro del sistema que pueda ser concebido como pleno de “bondad”, salvo lógica o metafóricamente.
2. Según Aristóteles algo puede ser real pero a la vez no ser una entidad verdaderamente existente. Ejemplo: el concepto “patria” es real porque es capaz de producir variados efectos (de sobra conocidos como morir o matar por la “patria”). Pero a la vez es evidente que “patria” como mero concepto que es no tiene existencia real.
Dios, o la divinidad, según Aristóteles es la forma absoluta. Ahora bien, según su sistema, todo absolutamente todo ha de existir como compuesto de “materia y forma” (por ello el sistema se denomina “hilemorfismo”, donde hýle significa “materia” y morphé, “forma). Aristóteles afirma que no puede existir la materia pura, sólo materia, sin algún tipo de forma; y de igual modo sostiene que no puede existir la forma absoluta, sin materia. Dado que Dios es pura forma absoluta, no puede existir de acuerdo con las premisas del sistema.
Podría objetar alguien que Dios podría ser forma absoluta porque está fuera de la materia, por tanto no sujeto a condicionante alguna. La respuesta es: en el sistema de Aristóteles eso parece imposible, puesto que supondría que la forma absoluta tendría que crear la materia desde la nada. Esa concepción es radicalmente ajena al sistema aristotélico.
Por tanto, el Dios de Aristóteles es el Primer Motor, la Causa final de todo, pero solo como una condición lógica, como premisa para entender el cosmos y para aclarar cómo este aspira siempre a la perfección (es decir, es como si estuviera atraído por la “Causa final” o impulsado por el “Primer motor”. Pero en sí esa divinidad no existe. En mi opinión, Aristóteles fue uno de los primeros ateos prácticos de la historia.
Por último: una postrera dificultad a la llegada hacia Dios postulada por Flew se halla en su definición de Dios como Espíritu, totalmente opuesto y superior a la materia.
En este caso, y por muchas vueltas que se le dé, es muy difícil encontrar una razón suficiente para explicar por qué un Dios espiritual, omnisciente, omnipotente y totalmente feliz en sí mismo, haya podido crear la materia, es decir, el universo entero material. Esa creación no parece tener sentido alguno.
De hecho este el problema que percibió nítidamente Aristóteles en el sistema de su maestro Platón: siendo el mundo de las ideas, absoluto, eterno, inamovible, sin defecto alguno, nao hay razón alguna para que esas ideas absolutamente perfectas se vean reflejadas en la materia. Precisamente por ello construye Aristóteles su sistema lógico de comprensión del universo en el que se presume que la materia es eterna y en el que la Forma absoluta, el Primer Motor inmóvil actúa sólo como explicación lógica del porqué existe un universo tal cual es con materia inorgánica, orgánica, animales, ser humano, estrellas en progresión siempre ascendente impulsado por el deseo de alcanzar la Forma absoluta, que es en si inalcanzable.

En síntesis:
• El Dios al que llegan las disquisiciones de Flew no es un Dios personal. Por tanto, no es el Dios de la revelación cristiana y no puede garantizar una supervivencia al ser humano después de la muerte
• Ese Dios como explicación del mundo es muy parecido a la Razón universal de los estoicos antiguos o a la Naturaleza de Baruch Spinoza.
• No es fácil encontrar una razón de por qué el Espíritu absoluto y perfecto, inamovible, feliz y omnisciente sienta “necesidad” o “conveniencia” de crear la materia, que es un escalón totalmente degradado respecto al ámbito espiritual.
• En cualquier caso si esa divinidad fuera persona, estallaría ante la magnitud del mal y del dolor humano.
La solución de los estoicos y de Spinoza a esta última cuestión es que el espíritu no se distingue cualitativamente de la materia, sino cuantitativamente. Por ello desde el espíritu a la materia no hay un paso infranqueable. Son entidades del mismo orden. Solo que el espíritu tiene una cualidades que la hacen aparecer a nuestra imaginación como distinta.
Por ello, la Razón universal que es la explicación de todo el orden del mundo, puesto que está dentro de todo, permeando todo e invadiéndolo de su calidad, sería la más sublime expresión de la materia, aquella en la que parece estar en un escalón decididamente elevado o superior. En esta suposición la “vida” del ser humano después de la muerte, no sería una inmortalidad personal. Por así decirlo la parte razonable del ser humano, lo que llamamos “alma”, se disolvería como un átomo en la Razón universal. Lo que no quedaría claro en esta hipótesis es qué grado de consciencia tendría cada uno de esos átomos.

António Piñero, aqui

2012-12-28




Vós que nos desertos
buscais veios de água ocultos -
de dorso curvado
escutais à luz nupcial do Sol -
filhos duma nova solidão com Ele -

As vossas pegadas
calcam a saudade
para os mares de sono -
enquanto o vosso corpo
lança a folha escura de flor da sombra
e em terra de novo sagrada
o diálogo que mede o tempo
entre estrela e estrela começa.

(in Poemas de Nelly Sachs, tradução de Paulo Quintela, Portugália editora, 1967 )

caminhar



pela teologia da desilusão.

uma parábola do crer




[...]A Bíblia é distante e remota: é um texto antigo. A arte, tal como a liturgia ou a pregação, transporta a Bíblia para o presente, para o quotidiano. À sua maneira como que a reescreve com a ortografia de hoje. Escolho como exemplo o capítulo XXII do livro do Génesis, quando Abraão escuta aquela palavra aparentemente contraditória da parte de Deus para imolar Isaac. Deus parece desautorizar-se a si próprio, ir contra si mesmo, porque ordena a Abraão o impensável. Ora bem: quem havia dado a Abraão o seu filho? O próprio Deus! Isaac era o filho da promessa, e contudo ele deveria ser sacrificado. Abraão sobe ao monte, ascende com terror sob aquele céu mudo. Deus está ausente, cala-se depois da enigmática ordem. Um extraordinário filósofo do século XIX, Soren Kierkegaard, e tantos outros grandes artistas tomaram este tema para meditação. Rembrandt, por exemplo, representa Abraão a fechar os olhos ao filho enquanto mantém a faca na outra mão, de maneira a ocultar o instrumento da morte. Kierkgaard escreveu sobre este motivo numa obra muito bela, intitulada Temor e Tremor. E aqui procura explicar o significado daquela página bíblica. Situa-a como uma parábola do crer, o drama de todo o crente. No fundo, a qualquer crente a fé exige um último passo, que ocorre na solidão absoluta, sem mais nenhuma prova. É o momento do puro risco. Mas Kierkegaard diz: naquele momento em que Deus nos empurra para o último passo, Deus ama-nos. Tal como uma mãe deve afastar do seu corpo o filho, ajudá-lo a alimentar-se sozinho e não apenas do leite materno, assim Deus parece afastar o homem de Si para que este se torne uma criatura livre, capaz de caminhar pelo mundo. Deus quer que O amemos livremente. Não porque daí tiramos vantagens ou provas.[...]

Gianfranco Ravasi

2012-12-26











Tirareis água com alegria das fontes da salvação.

(Isaías 12,3)

o lugar da pergunta. faz toda a diferença



- Sentinela, o que há da noite?
O que há da crise?

- De onde perguntas?
Perguntas desde a fome
ou desde o consumismo?
O grito dos pobres
sacode tuas perguntas?

Pastores marginais
cantam a Boa Nova
com flautas e silêncios,
contra os grandes meios,
os meios dos grandes.

Nasceu-nos um Menino,
um Deus nos foi dado.
É para nascer de novo,
desnudos como o Menino,
descalços de cobiça,
de medo e de poder,
sobre a terra vermelha.

É para nascer de novo,
abertos ao Mistério,
ungidos de esperança.


Pedro Casaldáliga,
Carta do Natal de 2012

2012-12-25

o que fica do Natal



OUVIR ESTRELAS

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...


E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.


Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"


E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."




Olavo Bilac
(Poesias, Via-Láctea, 1888.)

2012-12-23



Deus que vens de Deu

Deus que vens de Deus,
horizonte da nossa linguagem e do nosso desejo


Deus que anunciamos
na espessura do que em nós é riso
e choro, ao mesmo tempo infiguráveis


Deus, instante fugaz
da sede e da fome saciadas, diferidas


que descubramos no corpo dos outros
os traços do bem que procuramos e perdemos


que a nossa vida te reconheça
pela maneira como por ti se vê reconhecida
na teia do que passa e permanece,


tu que és aquele que há-de vir,
e Deus connosco.

Fr. José Augusto Mourão, OP



FELIZ NATAL, SÃO OS MEUS VOTOS, 

Maria

2012-12-21


O Natal representa sempre oportunidade de voltarmos ao cristianismo originário. Em primeiro lugar, existe a mensagem de Jesus: a experiência de Deus como Pai com características de mãe, o amor incondicional, a misericórdia e a entrega radical a um sonho: o do Reino de Deus. Em segundo lugar, existe o movimento de Jesus: daqueles que, sem aderir a alguma confissão ou dogma, se deixam fascinar por sua saga generosa e radicalmente humana e o tem como uma referência de valor. Em terceiro lugar, há as teologias sobre Jesus,  já contidas nos evangelhos, escritos 40-50 anos após sua execução na cruz. As comunidades subjacentes a cada um dos evangelhos, elaboraram suas interpretações sobre a vida de Jesus, sua prática, seu conflito com os as autoridades, sua experiência de Deus e sobre o significado de sua morte e  ressurreição. No entanto, cobrem sua figura com tantas  doutrinas que se torna difícil saber quem foi realmente o Jesus  histórico que viveu entre nós. Por fim, existem as Igrejas que tentam levar avante o legado de Jesus, uma delas, a católica, com a reivindicação de ser a única verdadeira guardiã de sua mensagem e a exclusiva intérprete de  seu significado. Tal pretensão torna praticamente impossível o diálogo ecumênico e a unidade das igrejas a não ser mediante à conversão.

Hoje tendemos a dizer que Jesus não pode ser apropriado por nenhuma Igreja. Ele pertence à humanidade e representa um dom que Deus  ofereceu a todos, de todos os quadrantes.

 

Tomando como referencia a Igreja Católica, notamos que em sua milenar história, duas tendências, entre outras  menores, ganharam grande curso. A primeira se funda muito  na culpa, no  pecado e na penitência. Sobre tais realidades paira o espectro do inferno, do purgatório e do medo.
Efetivamente, podemos dizer, que o medo foi um dos fatores fundamentais na penetração do cristianismo, como o mostrou J. Delumeau em seu clássico O medo no Ocidente (1978). O método no tempo de Carlos Magno era: converta-te ou serás passado ao fio da espada. Lendo os primeiros catecismos feitos na América Latina como o primeiro de Frei Pedro de Córdoba, Doctrina Cristiana (1510 e 1544), vê-se claramente esta tendência. Começa-se com a descrição idílica do céu e depois a terrificante do inferno “onde estão todos os vossos antepassados, pais, mães,  avós e parentes...e para onde  vós todos ireis  se não vos converterdes”. Setores da atual Igreja manejam ainda hoje as categorias do medo e do inferno.

Outra tendência, mais contemporânea, e penso, mais próxima de Jesus,  põe a ênfase na compaixão e no amor, na justiça original e no fim bom da criação. Entende que a história da salvação se dá dentro da história humana e não como  uma alternativa a ela. Daí surge um perfil de cristianismo mais jovial, em diálogo com as culturas e com os valores modernos.

A festa do Natal se liga a esta última tendência do Cristianismo. O que se celebra é um Deus-menino, que choraminga entre a vaca e  burrinho, que não mete medo nem julga ninguém. É bom que os cristãos voltem a esta figura. Arquetipicamente ele representa o puer aeternus a eterna criança que, no fundo, nunca deixamos de ser.

Uma das melhores discípulas de C. G. Jung, Marie-Louise von Franz, analisou em detalhe este arquétipo em seu livro Puer Aeternus (Paulinas 1992). Ele possui certa ambiguidade. Se colocamos a criança atrás de nós, ela deslancha energias regressivas de nostalgia de um mundo que passou e que não foi totalmente superado e integrado. Continuamos infantis.

Mas se colocamos a criança eterna à nossa frente então ela suscita em nós renovação de vida, inocência, novas possibilidades de ação que correm em direção do futuro.

Pois estes são os sentimentos que queremos alimentar neste Natal no meio de uma situação sombria da Terra e da Humanidade. Sentimentos de que ainda teremos futuro e que podemos nos salvar porque a Estrela é magnânima e o puer é eterno e porque ele se encarnou neste mundo e não permitirá que afunde totalmente. Nele se manifestou a humanidade e a jovialidade do Deus de todos os povos. Tudo o mais é vaidade.

Leonardo Boff, aqui

2012-12-20

o tempo da espera

desafio

 
 
 
Todo o homem e, por maioria de razão, todo o cristão, precisa de lutar contra esta injustiça que envenena o mundo. E, ainda, tratar todo o ser humano como pessoa, igual a si, na dignidade de homem e de filho de Deus, e nunca como um escravo, como uma coisa, como um meio. Tratar o trabalhador como irmão. Saber que a amizade e o amor são partilha e comunhão, mas não são servidão nem sujeição. Tomar consciência de que o mundo está cheio de seres humanos carentes de cuidados e de diálogo – crianças e adolescentes, idosos, pobres, doentes, pessoas diminuídas ou a arrastar vidas cinzentas, até criminosas - , mas ter o discernimento de não colocar essas pessoas na dependência, não lhes incutir falsas esperanças, não ter um tipo de presença que as deforme. 
 
Padre João Resina, daqui

2012-12-18

Deus







3*Entretanto, Eu ensinava Efraim a andar,
trazia-o nos meus braços,
mas não reconheceram
que era Eu quem cuidava deles.

4Segurava-os com laços humanos,
com laços de amor,
fui para eles como os que levantam
uma criancinha contra o seu rosto;
inclinei-me para ele para lhe dar de comer.

[Oseias 11, 3-4]

2012-12-17

Luz silenciosa


Verdadeiramente notável, é um "não crente" alcançar o que a maioria dos crentes dificilmente percebe:  

* "Que o rito precede sempre o mito e o dogma, é a grande lei das coisas espirituais. Se em vez de rito disseres vida [...]"



* Cesare Pavese in "O Ofício de Viver"

2012-12-16

Deus


Para os ateus, o Deus bíblico não é de crer. Está muito bem. Por isso se afirmam ateus. Mas não pensam duas vezes quando, remetendo para esse mesmo Deus, pressurosamente, lhe assacam instintos e actos de crueldade. 

Até o ser humano mais insensível, desconfiaria que algo não batia certo, se lesse o episódio de "Génesis 22, 1-18) como acontecimento histórico e verdade literal. Vamos, então, considerar o episódio do sacrifício de Abraão como ficção que aconteceu nos primórdios dos tempos, e sem qualquer significância para a vida corrente? De todo! 
A verdade profunda que a ficção nos quer revelar é que não existe nada - dentro ou fora de nós - que nos possa "fechar" a Deus.

 




a vida em imagens #17

repouso da figueira em fundo cinza



se não acontecer o cinzento dos dias, como brilhará em nossos olhos a recordação da luz?


2012-12-15

2012-12-13

página arrancada do diário


Hoje falou-se da morte. Entre coisas sérias e mais superficiais - alguns aproveitaram para definir preferências onde e como queriam repousar para sempre. Eu pensei no senhor João. Octogenário, o único bem que sempre lhe conheci foi o trompete e o sorriso. Andei por fora, e vim encontrá-lo quase sem sorriso e o trompete em silêncio. Acabei de saber que a família - nunca casou nem deixa descendentes - disputa o trompete. E eu? O que é que deixo um dia, como recordação?

António Pinho Vargas

2012-12-12

com Deus


À luz da encarnação não faz mais sentido o oposição entre Deus e o Homem. A grandeza do Homem existe porque é com Deus.

2012-12-11



antes de tudo, a possibilidade de síntese entre alegria e dor


Epístola Sobre o Silêncio

Nestas ervas
só o silêncio
se pode deitar


Ninguém ama
tanto o silêncio -
raízes

Uma folha de erva
verga-se sob o
peso de uma palavra

Silêncio - de súbito
o som de duas carriças
fazendo amor

Vento por dentro
Um pensamento
levanta voo

Procura a tua
verdadeira voz
no silêncio

Atento
ao eco
do silêncio

Porque se agitam
as ervas só as ervas
o podem dizer


Jorge de Sousa Braga (in O Novíssimo Testamento e outros poemas; ed. Assírio & Alvim, 2012)

2012-12-09

porque hoje é domingo



Jerusalém, deixa a tua veste de luto e aflição
e reveste para sempre a beleza da glória que vem de Deus.
Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus
e coloca sobre a cabeça o diadema da glória do Eterno.
Deus vai mostrar o teu esplendor
a toda a criatura que há debaixo do céu;
Deus te dará para sempre este nome:
«Paz da justiça e glória da piedade».
Levanta-te, Jerusalém,
sobe ao alto e olha para o Oriente:
vê os teus filhos reunidos desde o Poente ao Nascente,
por ordem do Deus Santo,
felizes por Deus Se ter lembrado deles.
Tinham-te deixado, caminhando a pé, levados pelos inimigos;
mas agora é Deus que os reconduz a ti,
trazidos em triunfo, como filhos de reis.
Deus decidiu abater todos os altos montes e as colinas seculares
e encher os vales, para se aplanar a terra,
a fim de que Israel possa caminhar em segurança,
na glória de Deus.
Também os bosques e todas as árvores aromáticas
darão sombra a Israel, por ordem de Deus,
porque Deus conduzirá Israel na alegria,
à luz da sua glória,
com a misericórdia e a justiça que d’Ele procedem.


livro de Baruc

a experiência da salvação

Al ser humano se le ofrecen hoy infinidad de caminos por los que puede desarrollar su existencia. ¿Cuál será el que le lleve a la verdadera salvación? Como decía Pablo, más que nunca necesitamos hoy crecer en sensibili¬dad para apreciar los auténticos valores humanos. Precisamente porque las ofertas engañosas son más variadas y mucho más atrayentes que nunca, es más difícil acertar con el camino adecuado.
Dios no tiene ni pasado ni futuro; no puede "prometer" nada. Dios es la salvación que se da a todos en cada instante. Algunos hombres (profetas) experimentan esa salvación según las condiciones históricas que les ha tocado vivir, y la comunican a los demás como promesa o como realidad. La misma y única salvación de Dios, llega a Abrahán, a Moisés, a Isaías, a Juan o a Jesús, pero cada uno la vive y la expresa según la espiritualidad de su tiempo.
No encontraremos la salvación que Dios quiere hoy para nosotros, si nos limitamos a repetir lo políticamente correcto. Solo desde la experiencia personal podremos descubrir esa salvación. Cuando pretendemos vivir de experiencias ajenas, la fuerza de placer inmediato acaba por desmontar la programación. En la práctica, es lo que nos sucede a la inmensa mayoría de los humanos. El hedonismo es la pauta: lo más cómodo, lo más fácil, lo que menos cuesta, lo que produce más placer inmediato, es lo que motiva nuestra vida.

Más que nunca, nos hace falta una crítica sincera de la escala de valores en la que desarrollamos nuestra existencia. Digo sincera, porque no sirve de nada admitir teóricamente la escala de Jesús y seguir viviendo en el más absoluto hedonismo. Tal vez sea esto el mal de nuestra religión, que se queda en la pura teoría. Hace ya tiempo, un ministro del gobierno, hablando de los problemas del norte de África, decía muy serio: "Es que para los musulmanes, la religión es una forma de vida". Se supone que para los cristianos, no.
Al celebrar una nueva Navidad, podemos experimentar cierta esquizofrenia. Lo que queremos celebrar es una salvación que apunta a la superación del hedonismo, del placer y del egoísmo. Pero lo que vamos a hacer en realidad es intentar que en nuestra casa no falte de nada en estas Navidades. Si no disponemos de los mejores manjares, si no podemos regalar a nuestros seres queridos lo que les apetece, no habrá fiesta. De esta manera, sin darnos cuenta, caemos en la trampa del consumismo. Cuando nuestras "necesidades" podemos satisfacer¬las en el supermercado, ¿qué necesidad tenemos de otra salvación?
En las lecturas bíblicas debemos descubrir una experiencia de salvación. No quiere decir que tengamos que esperar para nosotros la misma salvación que ellos anhelaban. La experien¬cia es siempre intransferible. Si ellos esperaron la salvación que necesitaron en un momento determinado, nosotros tenemos que encontrar la salvación que necesitamos hoy. No esperando que nos venga de fuera, sino descubriendo que está en lo hondo de nuestro ser y tenemos capacidad para sacarla a la superficie. Dios salva siempre. Cristo está viniendo.
El ser humano no puede, de una vez por todas, planificar su salvación trazando un camino claro y directo que le lleve a su plenitud. Su capacidad es limitada. Solo tanteando puede conocer lo que es bueno para él. Nadie puede dispensarse de la obligación de seguir buscando. No solo porque lo exige su propio progreso, sino porque es responsable de que los demás progresen. No se trata de imponer a nadie los propios descubrimientos, sino de proponer nuevas metas para todos. Dios viene a nosotros siempre como nueva salvación. Ninguna de las salvaciones anunciadas por los profetas puede agotar la oferta de Dios.
Es importante la referencia a la justicia, que hace por dos veces Baruc (Bar 5,1-9) y también Pablo (Flp 1,4-11), como camino hacia la paz. El concepto que nosotros tenemos de justicia, es el romano, que era la restitución según la ley de un equilibrio roto. El concepto bíblico de justicia es muy distinto. Se trata de dar a cada uno lo que espera, según el amor.

daqui

2012-12-08

O comunismo ético de Oscar Niemeyer segundo Leonardo Boff


Não tive muitos encontros com Oscar Niemeyer. Mas os que tive foram longos e densos. Que falaria um arquiteto com um teólogo senão sobre Deus, sobre religião, sobre a injustiça dos pobres e sobre o sentido da vida?
Nas nossas conversas, sentia alguém com uma profunda saudade de Deus. Invejava-me que, me tendo por inteligente (na opinião dele) ainda assim acreditava em Deus, coisa que ele não conseguia. Mas eu o tranquilizava ao dizer: o importante não é crer ou não crer em Deus. Mas viver com ética, amor, solidariedade e compaixão pelos que mais sofrem. Pois, na tarde da vida, o que conta mesmo são tais coisas. E nesse ponto ele estava muito bem colocado. Seu olhar se perdia ao longe, com leve brilho.
Impressionou-se sobremaneira, certa feita, quando lhe disse a frase de um teólogo medieval: “Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe”. E ele retrucou: “mas que significa isso?” Eu respondi:  “Deus não é um objeto que pode ser encontrado por ai; se assim fosse, ele seria uma parte do mundo e não Deus”. Mas então, perguntou ele: “que raio é esse  Deus?” E eu, quase sussurrando, disse-lhe: “É uma espécie de Energia poderosa e amorosa que cria as condições para que as coisas possam existir; é mais ou menos como o olho: ele vê tudo mas não pode ver a si mesmo; ou como o pensamento: a força pela qual o pensamento pensa, não pode ser pensada”. E ele ficou pensativo. Mas continuou: “a teologia cristã diz isso?” Eu respondi: “diz mas tem vergonha de dizê-lo, porque então deveria antes calar que falar; e vive falando, especialmente os Papas”.
Mas consolei-o com uma frase atribuída a Jorge Luis Borges, o grande argentino:”A teologia é uma ciência curiosa: nela tudo é verdadeiro, porque tudo é inventado”.  Achou muita graça.  Mais graça achou com uma bela trouvaille  de um gari do Rio, o famoso “Gari Sorriso: “Deus é o vento e a lua; é a dinâmica do crescer; é aplaudir quem sobe e aparar quem desce”. Desconfio que Oscar não teria dificuldade de aceitar esse Deus tão humano e tão próximo a nós.
Mas sorriu com suavidade. E eu aproveitei para dizer: “Não é a mesma coisa com sua arquitetura? Nela tudo é bonito e simples, não porque é racional mas porque tudo é inventado e fruto da imaginação”. Nisso ele concordou adiantando que na arquitetura se inspira mais lendo poesia, romance e ficção do que se entregando a elucubrações  intelectuais. E eu ponderei: “na religião é mais ou menos a mesma coisa: a grandeza da religião é a fantasia, a capacidade utópica de projetar reinos de justiça e céus de felicidade. E grande pensadores modernos da religião como Bloch, Goldman, Durkheim, Rubem Alves e outros não dizem outra coisa: o nosso equívoco foi colocar a religião na razão quando o seu nicho natural se encontra no imaginário e no princípio esperança. Ai ela mostra a sua verdade. E nos pode inspirar um sentido de vida.”
Para mim a grandeza de Oscar Niemeyer não reside apenas na sua genialidade, reconhecida e louvada no mundo inteiro. Mas na sua concepção da vida e da profundidade de seu comunismo. Para ele “a vida é um sopro”, leve e passageiro. Mas um sopro vivido com plena inteireza. Antes de mais nada, a vida para ele não era puro desfrute, mas criatividade e trabalho. Trabalhou até o fim, como Picazzo, produzindo mais de 600 obras. Mas como era inteiro, cultivava as artes, a literatura e as ciências. Ultimamente se pôs a estudar cosmologia  e física quântica. Enchia-se de admiração e de espanto diante da grandeur do universo.
 Mas mais que tudo cultivou a amizade, a solidariedade e a benquerença para com todos. “O importante não é a arquitetura” repetia muitas vezes, “o importante é a vida”. Mas não qualquer vida; a vida vivida na busca da transformação necessária que supere as injustiças contra os pobres, que melhore esse mundo perverso, vida que se traduza em solidariedade e amizade. No JB de 21/04/2007 confessou: ”O fundamental é reconhecer que a vida é injusta  e só de mãos dadas, como irmãos e irmãs, podemos vive-la melhor”.
Seu comunismo está muito próximo daquele dos primeiros cristãos, referido nos Atos dos Apóstolos nos capítulos 2 e 4. Ai se diz que “os cristãos colocavam tudo em comum e que não havia pobres entre eles”. Portanto, não era um comunismo ideológico mas ético e humanitário: compartilhar, viver com sobriedade, como sempre viveu, despojar-se do dinheiro e ajudar a quem precisasse. Tudo deveria ser comum. Perguntado por um jornalista se aceitaria a pílula da eterna juventude, respondeu coerentemente: “aceitaria se fosse para todo mundo;  não quero a imortalidade só para mim”.
Um fato ficou-me inesquecível. Ocorreu nos inícios dos anos 80 do século passado. Estando Oscar em Petrópolis, me convidou para almoçar com ele. Eu havia chegado naquele dia de Cuba, onde, com Frei Betto, durante anos dialogávamos com os vários escalões do governo (sempre vigiados pelo SNI), a pedido de Fidel Castro, para ver se os tirávamos da concepção dogmática e rígida do marxismo soviético. Eram tempos tranquilos em Cuba que, com o apoio da União Soviética, podia levar avante seus esplêndidos projetos de saúde, de educação e de cultura. Contei que, por todos os lados que tinha ido em Cuba, nunca encontrei favelas mas uma pobreza digna e operosa. Contei mil coisas de Cuba que, segundo frei Betto, na época era “uma Bahia que deu certo”. Seus olhos brilhavam. Quase não comia. Enchia-se de entusiasmo ao ver que, em algum lugar do mundo, seu sonho de comunismo poderia, pelo menos em parte, ganhar corpo e ser bom para as maiorias.
Qual não foi o meu espanto quando,  dois dias após, apareceu na Folha de São Paulo, um artigo dele com um belo desenho de três montanhas, com uma cruz em cima. Em certa altura dizia: “Descendo a serra de Petrópolis ao Rio, eu que sou ateu, rezava para o Deus de Frei Boff para que aquela situação do povo cubano pudesse um dia se realizar no Brasil”. Essa era a generosidade cálida, suave  e radicalmente humana de Oscar Niemeyer.
Guardo uma memória perene dele. Adquiri de Darcy Ribeiro, de quem Oscar era amigo-irmão, uma pequeno apartamento no bairro do Alto da Boa-Vista, no Vale Encantando. De lá se avista toda a Barra da Tijuca até o fim do Recreio dos Bandeirantes.  Oscar reformou aquele apartamento para o seu amigo, de tal forma que de qualquer lugar que estivesse, Darcy (que era pequeno de estatura), pudesse ver sempre o mar. Fez um estrado de uns 50 centrímetros de altura E como não podia deixar de ser, com uma bela curva de canto, qual onda do mar ou corpo da mulher amada. Ai me recolho quando quero escrever e meditar um pouco, pois um teólogo deve cuidar também de salvar a sua alma.
Por duas vezes se ofereceu para fazer uma maquete de igrejinha para o sítio onde moro em Araras em Petrópolis. Relutei, pois considerava injusto valorizar minha propriedade com uma peça de um gênio como Oscar. Finalmente, Deus não está nem no céu nem na terra, está lá onde as portas da casa estão abertas.
A vida não está destinada a desaparecer na morte mas a se transfigurar alquimicamente através da morte. Oscar Niemeyer apenas passou para o outro lado da vida, para o lado invisível. Mas o invisível faz parte do visível. Por isso ele não está ausente,  mas está presente, apenas invisível. Mas sempre com a mesma doçura, suavidade, amizade, solidariedade e amorosidade que permanentemente o caracterizou. E de lá onde estiver, estará fantasiando, projetando e criando mundos belos, curvos e cheios de leveza.

daqui

2012-12-06

Presença


"E agora, pronunciai sobre ele, por minha boca, a dupla e eficaz palavra, sem a qual tudo desmorona, tudo desata, na nossa sabedoria e na nossa experiência, - mas com a qual tudo se reúne e tudo se consolida, a perder de vista, nas nossas especulações e na nossa prática do Universo. – Sobre toda a vida que vai germinar, crescer, florescer e amadurecer neste dia, repeti: "Isto é o meu Corpo". – E, sobre toda a morte pronta a corroer, roubar e segar, ordenai (o mistério de fé por excelência!): "Isto é o meu Sangue".

Theilhard de Chardin in "A Missa Sobre o Mundo" 



imagem-
Museu de Arte Contemporânea de Niteroi (RJ)
Oscar Niemyer

Oscar Niemeyer 15/12/1907 - 05/12/2012



"Interessei-me por tudo o que vi."

2012-12-03

um mistério para comtemplar

A desventura máxima é a solidão. É tão verdade que o reconforto supremo - a religião - consiste em encontrar uma companhia que nunca falhe - Deus. A oração é um desabafo, como com um amigo. A obra equivale à oração, porque nos põe em contacto com os que dela tirarão proveito. O problema da vida é, portanto, o seguinte: como romper com a nossa solidão, como comunicar com os outros. Assim se explica a existência do matrimónio, da paternidade, das amizades. Mas que a felicidade resida nisto, balelas! Porque se deva estar melhor comunicando com os outros do que só, é estranho. É talvez apenas uma ilusão: a maior parte do tempo estamos muitíssimo bem sós. É agradável ter, de tempos a tempos um odre onde nos possamos despejar e, em seguida, bebermo-nos a nós próprios: dado que pedimos aos outros apenas aquilo que já temos em nós. É um mistério o motivo porque não basta perscrutar e beber em nós próprios e seja preciso reavermo-nos por intermédio dos outros.


Cesare Pavese in "O Ofício de Viver"
Tradução de Alfredo Amorim
Relógio D'Água

2012-12-02

apegos


Frei Bento Domingues (ler aqui) tem vindo a manifestar - com experiência e contundência - a deriva que, nos últimos anos, tem surgido na Igreja, de voltar ao latim nas celebrações litúrgicas. E não só.
Eu também não consigo compreender o alcance de tais propostas. E só me ocorre, a propósito do tema, uma expressão que alguém usou, com ironia q.b., que a Igreja Católica é como a McDonald's: serve o mesmo menu em todo o lado.

porque hoje é domingo



Porquê, se é possível, levar assim por diante o prazo
da existência, como o loureiro, um pouco mais escuro do que todo
o outro verde, com pequenas ondas em cada
bordo das folhas (como o sorriso de um vento) -: porquê então
ter de ser humano -, e, evitando o destino,
ter saudades do destino?...

                                                                                       Oh, não porque a ventura,
esse ganho apressado de uma perda próxima.
Não por curiosidade, ou para adestrar o coração
que também haveria no loureiro...

Mas porque estar aqui é muito, e porque aparentemente
precisa de nós tudo o que é daqui, esta efemeridade que
estranhamente nos respeita. A nós, os efémeros. Cada
uma vez, só uma vez. Uma vez e não mais. E nós também
uma vez. Nunca outra. Mas ter sido
esse uma vez, ainda que só uma vez:
ter sido terrestre não parece revogável.

E assim nos apressamos e queremos fazê-lo,
queremos contê-lo nas nossas mãos simples,
no olhar mais transbordante e no coração sem fala.
Queremos sê-lo. - A quem o dar? Mais vale
ficar com tudo para sempre...Ah, para a outra relação,
oh dor, o que se leva? Não o contemplar, aqui
tão lentamente aprendido, e daqui nenhum acontecido. Nenhum.
As dores, portanto. Portanto, antes de mais, o que pesa,
portanto a longa experiência do amor, - portanto
só o indizível. Mas mais tarde,
sob as estrelas, que importa: elas são tão mais indizíveis.
O viajante também não traz da ribanceira da montanha
para o vale uma mão-cheia de terra, a todos indizível, mas sim
uma palavra adquirida, pura, a genciana azul
e amarela. Estamos aqui talvez para dizer: casa,
ponte, fonte, portão, bilha, árvore de fruta, janela, -
quando muito: coluna, torre...mas para dizer, percebes,
oh, para dizer assim, como as próprias coisas nunca
pensaram ser intimamente. [...]



Rainer Maria Rilke, in "Elegias de Duíno - Os soneto de Orfeu"
da 9ª Elegia
Tradução Vasco Graça Moura
Bertrand


2012-12-01

aqui e agora


Deus não me salva como recompensa dos meus actos. Os meus actos serão, antes, a consequência da salvação que Deus me dá.

ler mais aqui

aqui, mais perto do céu

 
 
Eis que virão dias, diz o Senhor, em que cumprirei a promessa de felicidade que fiz ao meu povo: farei nascer um rebento de justiça, que praticará o direito e a equidade.
 
 
 
Jer 33,14-16