2014-02-28
2014-02-27
Nada de automático, portanto, para evitar que se caia na tentação de banalizar o próprio conceito de misericórdia, advertem, a resguardar um dom que não nos pertence.
2014-02-25
2014-02-24
De bruços sobre o
lavatório, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver
correr a esperança, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a
torneira e, retirando a tampa, vejo-a escoar-se em gorgolejos que cada
vez são mais humanos e mais fundos. É a respiração do ralo, que só então
dou conta de que está dentro de mim, por uma dessas distorções a que é
costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no próprio
espelho, que, apesar de se encontrar à minha frente, não consigo
deslocar do avesso dos meus olhos.
Os meus sentidos rangem, solidários com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um céu azul, desanuviado, e que jamais me dão do espírito visões onde não se encastoem nuvens e rebentem tempestades.
Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade - penso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar, se escoam sem regresso em direcção ao caos.
Os meus sentidos rangem, solidários com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um céu azul, desanuviado, e que jamais me dão do espírito visões onde não se encastoem nuvens e rebentem tempestades.
Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade - penso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar, se escoam sem regresso em direcção ao caos.
Luís Miguel Nava, in 'O Céu Sob as Entranhas (Lembrança de A. Morin)'
2014-02-18
2014-02-17
Pode-se, e a expressão popular bem o sabe, ter entranhas e não ter coração; é próprio dos seres capazes de sentir, mas sem nobreza, dos quais não se deve esperar esses movimentos de ânimo que levam o selo da generosidade, que não têm as condições especiais que a metáfora do coração leva quase sempre: falta-lhes «o espaço vital». Seres com entranhas sem espaço, que são um grau ínfimo na hierarquia do que é vivo. Sentem, mas no seu sentir há um absoluto hermetismo; sentem para si, e o seu sentir jamais se abre, nem sequer irradia. O coração é a víscera mais nobre porque leva consigo a imagem de um espaço, de um dentro obscuro secreto e misterioso que, em algumas ocasiões, se abre.
maría zambrano in a metáfora do coração e outros escritos
tradução - josé bento
assírio & alvim
2014-02-16
2014-02-14
Amor
Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!
Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.
Amor, tão chão de Amor,
que sensível és...
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!
Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e enfurece
e logo recai na branda impotência.
Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes,
tanto grito e pena perdida...
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti
e tu de nós?
Irene Lisboa
2014-02-13
Nunca encontrei uma pessoa oca. Nunca encontrei uma vida sem significado quando se procura realmente o seu significado. É esse o perigo de dizer que não procuramos, porque foi assim que chegámos ao ponto em que sentimos que a vida não tinha qualquer significado. Bem vê, nós repudiámos tantas formas de terapia. Quer dizer, tantos de nós repudiam actualmente a filosofia, a religião ou qualquer outro padrão que nos mantinha coesos anteriormente. Repudiámos tudo. Até repudiámos a terapia da arte. Por isso não nos restou realmente mais que olhar para dentro, e os que o fazem descobrem que toda a vida tem significado porque a vida tem significado. Fomos seriamente prejudicados por pessoas que disseram que a vida era irracional e de qualquer modo não significava nada. Mas assim que começamos a olhar, descobrimos o padrão e descobrimos a pessoa. Nunca encontrei aquilo a que se poderia chamar uma pessoa totalmente oca.
Anais Nin, in "Fala Uma Mulher"
2014-02-12
2014-02-11
fé
Sem fides um velho não lança no terreno uma semente de carvalho; sem fides
o horizonte do mundo passa a ser o teto da casa ou do escritório baixo
de mais para aquele ser, sedento de infinito que é a pessoa, a qual
desde a época das cabanas e dos “nuraghe” (Monumento pré-histórico da
Sardenha) sentia necessidade de fazer uma abertura no topo, e não
apenas para deixar sair o fumo, mas também para que o seu céu fosse
mais alto que a sua casa. Sem este olhar profundo que nos eleva,
conformamo-nos com os cenários da tv, com os seus céus virtuais, que não
têm nem o calor do sol nem a profundidade do horizonte, nem a brisa do
ar que só entram em casa quando abrimos a janela. O oposto da fé foi
sempre a idolatria, que não é a atitude de quem não crê em nada, mas de
quem acredita em demasiadas coisas, fingidas e fabricadas.
2014-02-09
2014-02-08
2014-02-06
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