2014-03-18



Desfraldando ao Conjunto Fictício dos Céus estrelados  

Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados
O esplendor do sentido nenhum da vida...

Toquem num arraial a marcha fúnebre minha!
Quero cessar sem consequências...
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo. 



Álvaro de Campos, in "Poemas"

2014-03-16




Naqueles dias,
o Senhor disse a Abrão:
«Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai
e vai para a terra que Eu te indicar.
Farei de ti uma grande nação e te abençoarei;
engrandecerei o teu nome e serás uma bênção.
Abençoarei a quem te abençoar,
amaldiçoarei a quem te amaldiçoar;
por ti serão abençoadas todas as nações da terra».
Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.


[do livro do Génesis]

2014-03-15




Vê, nós não amamos como as flores de um
único ano; sobe-nos onde amamos,
imemorial seiva para os braços. Oh rapariga,
isto: que amássemos em nós, não uma coisa, a haver, mas
o inumerável fermentar; não um filho isolado,
mas os pais, que, como escombros da montanha,
nos assentem no fundo; mas sim o seco leito do rio
das mães de outrora -; mas sim toda a
paisagem silenciosa sob o destino enevoado
ou límpido -;isto precedeu-te, rapariga.

E tu mesma, tu, o que sabes -, atraíste
o remoto passado no amante. Que sentimentos
se revolviam vindos de seres para sempre levados. Que mulheres
então te odiavam. Que homens tenebrosos
agitaste nas veias do jovem? Crianças mortas
queriam ir ter contigo...Oh, devagar, devagar,
faz perante ele um trabalho diário de amor e confiança,-
condu-lo para perto do jardim, dá-lhe o excesso
de peso das noites...
...Retém-no...


Rainer Maria Rilke,
da terceira elegia

2014-03-12



não sabemos o contorno do sentir: só o que o forma de fora


Rainier Maria Rilke - da quarta elegia 
imagem - martin munkacsi

2014-03-11





Pela manhã, Senhor, escuta a minha voz.
Mal o Sol nasce, exponho diante de ti o meu pedido
e fico à espera, confiante.


[Salmo 5,4]

2014-03-09





A nossa grande tentação é hoje converter tudo em pão. Reduzir cada vez mais o horizonte da nossa vida à mera satisfação dos nossos desejos; fazer da obsessão por um bem-estar sempre maior, ou do consumismo indiscriminado e sem limites, o único ideal das nossas vidas.


2014-03-06






Porque todos esperam ser chamados alguma vez pelo próprio nome, esse que ninguém conhece, nem eles. Todos esperam ser chamados por esse Pai, cuja mão e cujo rosto sentimos sobre a nossa cabeça em forma de proibição nos primeiros dias e como sombra sobre a nossa ainda pura fronte no jardim perturbante da infância. E de cuja voz acreditámos ouvir o eco distante atrás de nós, quando na adolescência quisemos sair atravessando o cerco do horto sagrado. E cujo olhar entre as nuvens chegou esvaído até ás nossas faces fazendo subir a elas o fogo do temor e do anseio veemente.
(...)
E todos esperámos ser chamados por esta voz que nos apareceu em eco. Esperáva-mos ouvi-la com palavras que vençam o temor e o transformem em júbilo infinito, em alegria sem limite, perfeita, ver o que somente em sombra se mostrou, completamente e para sempre. E por esta esperança inapagável há quem não ouse acometer até às últmas consequências a tarefa de dar a si mesmo um nome, de ser ele mesmo o seu próprio criador, ainda que fosse possível consegui-lo.



# maría zambrano in a metáfora do coração e outros escritos

2014-03-02





Sião dizia:
«O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim».
Poderá a mulher esquecer a criança que amamenta
e não ter compaixão do filho das suas entranhas?
Mas ainda que ela se esqueça,
Eu não te esquecerei.


"Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” 
Mt 6, 24


A economia que mata

Não foi certamente com o bezerro de ouro que os hebreus fizeram no deserto que começou a idolatria do dinheiro. Mas este é um exemplo simples de como é possível transferir a fé e a confiança, que só é libertadora na relação com um outro e com Deus, para um objecto que materializa o poder e reduz a escravo quem lhe presta culto. Da história do homem que trabalhava desalmadamente, destruindo a sua vida e a da família, para encher o sétimo pote de moedas de ouro (que nunca enchia por mais moedas que lá colocasse), ao conto da procura da camisa do homem feliz que curaria o rei da sua melancolia (e o único homem feliz encontrado não tinha camisa!), muitos são os relatos que apontam a escravidão que o dinheiro gera. Tal como o excesso e a degradação retratados no filme “O lobo de Wall Street” de Martin Scorcese, que retrata uma história real de enriquecimento e da degradação por ele gerada a partir de um dos “motores” do nosso mundo: a Bolsa de Nova Iorque.
O verdadeiro problema não é o dinheiro mas a sua capacidade de corroer os valores e convicções mais profundas do homem. “Os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do património”, dizia Maquiavel no seu “Príncipe”. Quantas zangas familiares e discórdias chegam a finais violentos que são causados pelas partilhas entre herdeiros, tantas vezes pela insignificância de poucas coisas deixadas pelos pais. Na verdade os bens são um pretexto para vinganças e conflitos mal resolvidos, mas é fácil ficar-se prisioneiro da “pobre” consolação da riqueza. Gandhi dizia: “algemas de ouro são muito piores do que algemas de ferro.” Na lógica do Evangelho, o importante não é ter mas aquilo que se faz com o que se tem. Os bens têm este nome porque se destinam a fazer o bem, quando não o fazem, tornam-se males! Até o poeta Bocage dizia do dinheiro: “Faço a paz, sustento a guerra / Agrado a doutos e a rudes / Gero vícios e virtudes / Torço as leis, domino a terra.
Uma constante nas palavras do Papa Francisco tem sido a denúncia “da ditadura de uma economia sem rosto”, “uma economia da exclusão e da iniquidade”, e que “essa economia mata”. A 20 de Fevereiro, numa mensagem à Academia Pontifícia da Vida escrevia: “Nas nossas sociedades existe um domínio tirânico de uma lógica económica que exclui e por vezes mata, da qual hoje muitíssimos são vítimas, a começar pelos nossos idosos.”. Os quatro “nãos” da “Alegria do Evangelho interpelam as nossas atitudes: “Não a uma economia de exclusão (…) Não à nova idolatria do dinheiro (…) Não a um dinheiro que governa em vez de servir (…) Não à desigualdade social que gera violência.” Como podemos fazer a economia que dê vida a todos?

daqui

2014-02-27



Nada de automático, portanto, para evitar que se caia na tentação de banalizar o próprio conceito de misericórdia, advertem, a resguardar um dom que não nos pertence.


2014-02-24



Alcaria, 2014


De bruços sobre o lavatório, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver correr a esperança, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a torneira e, retirando a tampa, vejo-a escoar-se em gorgolejos que cada vez são mais humanos e mais fundos. É a respiração do ralo, que só então dou conta de que está dentro de mim, por uma dessas distorções a que é costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no próprio espelho, que, apesar de se encontrar à minha frente, não consigo deslocar do avesso dos meus olhos.

Os meus sentidos rangem, solidários com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um céu azul, desanuviado, e que jamais me dão do espírito visões onde não se encastoem nuvens e rebentem tempestades.

Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade - penso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar, se escoam sem regresso em direcção ao caos.

 
Luís Miguel Nava, in 'O Céu Sob as Entranhas (Lembrança de A. Morin)'

2014-02-17




Pode-se, e a expressão popular bem o sabe, ter entranhas e não ter coração; é próprio dos seres capazes de sentir, mas sem nobreza, dos quais não se deve esperar esses movimentos de ânimo que levam o selo da generosidade, que não têm as condições especiais que a metáfora do coração leva quase sempre: falta-lhes «o espaço vital». Seres com entranhas sem espaço, que são um grau ínfimo na hierarquia do que é vivo. Sentem, mas no seu sentir há um absoluto hermetismo; sentem para si, e o seu sentir jamais se abre, nem sequer irradia. O coração é a víscera mais nobre porque leva consigo a imagem de um espaço, de um dentro obscuro secreto e misterioso que, em algumas ocasiões, se abre.



maría zambrano in a metáfora do coração e outros escritos
tradução - josé bento
assírio & alvim