2014-04-26

 
 
 
Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos



Alexandre O´Neill

2014-04-25



Há quem pense, e talvez com certa razão, que a mulher deve entrar no mundo da política para, dentro desse universo, desenvolver as suas ideias e a sua acção. Mas eu penso que quando uma mulher entra nesse mundo, ela própria é obrigada a submeter-se a padrões que ameaçam toda a sua natureza, a natureza da sua cultura. Ela é levada a transigir, torna-se numa cópia daquilo que já é mau nos homens. Eu penso que a acção da mulher deve desenvolver-se fora da política do Poder. Uma acção política de contra-poder. Pela recusa.
O que é a poesia se não uma magia branca, para fazer recuar as forças tenebrosas que querem destruir a vida?!


Natália Correia

A Natália Correia disse isto, nove anos depois do 25 de Abril de 1974. Há trinta e um anos. Não se pode dizer que a escritora não fosse uma mulher esclarecida e politizada.
Na actual Europa das liberdades, uma mulher  com um cargo de poder na política - mais mexerico menos mexerico -, anda deste modo a dar que falar ao mundo.
Haverá um modo próprio e adequado para as mulheres exercerem o poder que os cargos políticos lhes outorgam? Ou, pela própria natureza feminina, as mulheres nunca encontrarão no exercício do poder político a sua identidade feminina? Mas esta tal de identidade feminina é determinada por padrão único ou vai evoluindo, como tudo o que é vivo e consciente de si?
Sem querer precipitar-me nas conclusões, deduzo que não existe um papel feminino e outro masculino de participação e exercício do poder. Existem tantos papéis quantos os intervenientes activos. Sejam homens de "barba rija" ou mulheres belas, como a governante socialista francesa, que acaba por se mostrar frágil e insegura. 

 


2014-04-21





tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova.

Romanos, 6 

2014-04-17

 
 
 
 
Não era a minha alma que queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma altura nova.
Decidida capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada
   de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter…
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
     nova, nova!




irene lisboa
1892-1958

2014-04-12






Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada…


Al Berto 


#imagem - Pierre Boucher(French,1908-2000)."Fronde".

2014-04-10




Hora Vermelha  

Por que vieste, pensamento?
Já me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
não sei lá bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.

Já me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
erectos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.

Boca rasgada num pedido
a que se quer e se não quer
dizer que não.
Os braços longos estendidos.
A mão em concha sobre o sexo
que nem a Vénus de Camões.

Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua mão branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
Pôr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.

Vai-te depressa, pensamento!
Deixa-me a calma da Poesia.
Fique em minh’alma o só perfume
da cerca alegre de um convento.

Os meus sentidos embalados
numa suave melodia.
(Ah!, não nos quero desgrenhados
como quem volta de uma orgia).

E então meus lábios mais serenos
do que se orassem sobre um berço,
sorrindo à Vida,
sorrindo à Morte.
Ah!, não nos quero assim grosseiros,
ébrios, torcidos,
como depois de um vinho forte.

Sebastião da Gama [no 90º aniversário do nascimento], in 'Cabo da Boa Esperança'


#imagem - Pierre Boucher

2014-04-09





No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves




mario benedetti 


# imagem - Olive Cotton- 1938

2014-04-05



A tristeza é um muro entre dois jardins.[Khalil Gibran]




#imagem - Emmanuelle Riva e Eiji Okada in Hiroshina mon amour

2014-04-01




PENSAMENTOS TIDOS NUM SÓTÃO (excerto)

1
E eu disse-me a mim mesma,
naquele dia casual:
Sim,
em cada livro
ou em cada folha que encheres
assinala a tua mudança!
Não é o fato das pintinhas,
com que te vêem
e já te viram,
o que melhor te veste...
Nem o teu gesto irritado,
nem tão-pouco o abatido
que mais te individualizam.
Vai! Vai seguindo,
indiferente e fiel,
pelo fino traço do teu capricho,
um traço solto,
mas severo e sincero...


E assim,
depois das mais breves
e das mais resumidas frases,
do teu laconismo mais acre,
alaga-te em palavras.
Abre-te em palavras!
Que as palavras às bagoadas
te serenem e reconfortem.

Embora não valham nada!
Palavras!
Matilha desordenada e feliz,
lançada atrás de uma pista,
excitante e enganosa...



Irene Lisboa
Folhas Soltas da Seara Nova (1929-1955)

# imagem - Frank Hohenberger

2014-03-18



Desfraldando ao Conjunto Fictício dos Céus estrelados  

Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados
O esplendor do sentido nenhum da vida...

Toquem num arraial a marcha fúnebre minha!
Quero cessar sem consequências...
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo. 



Álvaro de Campos, in "Poemas"

2014-03-16




Naqueles dias,
o Senhor disse a Abrão:
«Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai
e vai para a terra que Eu te indicar.
Farei de ti uma grande nação e te abençoarei;
engrandecerei o teu nome e serás uma bênção.
Abençoarei a quem te abençoar,
amaldiçoarei a quem te amaldiçoar;
por ti serão abençoadas todas as nações da terra».
Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.


[do livro do Génesis]

2014-03-15




Vê, nós não amamos como as flores de um
único ano; sobe-nos onde amamos,
imemorial seiva para os braços. Oh rapariga,
isto: que amássemos em nós, não uma coisa, a haver, mas
o inumerável fermentar; não um filho isolado,
mas os pais, que, como escombros da montanha,
nos assentem no fundo; mas sim o seco leito do rio
das mães de outrora -; mas sim toda a
paisagem silenciosa sob o destino enevoado
ou límpido -;isto precedeu-te, rapariga.

E tu mesma, tu, o que sabes -, atraíste
o remoto passado no amante. Que sentimentos
se revolviam vindos de seres para sempre levados. Que mulheres
então te odiavam. Que homens tenebrosos
agitaste nas veias do jovem? Crianças mortas
queriam ir ter contigo...Oh, devagar, devagar,
faz perante ele um trabalho diário de amor e confiança,-
condu-lo para perto do jardim, dá-lhe o excesso
de peso das noites...
...Retém-no...


Rainer Maria Rilke,
da terceira elegia

2014-03-12



não sabemos o contorno do sentir: só o que o forma de fora


Rainier Maria Rilke - da quarta elegia 
imagem - martin munkacsi

2014-03-11





Pela manhã, Senhor, escuta a minha voz.
Mal o Sol nasce, exponho diante de ti o meu pedido
e fico à espera, confiante.


[Salmo 5,4]

2014-03-09





A nossa grande tentação é hoje converter tudo em pão. Reduzir cada vez mais o horizonte da nossa vida à mera satisfação dos nossos desejos; fazer da obsessão por um bem-estar sempre maior, ou do consumismo indiscriminado e sem limites, o único ideal das nossas vidas.


2014-03-06






Porque todos esperam ser chamados alguma vez pelo próprio nome, esse que ninguém conhece, nem eles. Todos esperam ser chamados por esse Pai, cuja mão e cujo rosto sentimos sobre a nossa cabeça em forma de proibição nos primeiros dias e como sombra sobre a nossa ainda pura fronte no jardim perturbante da infância. E de cuja voz acreditámos ouvir o eco distante atrás de nós, quando na adolescência quisemos sair atravessando o cerco do horto sagrado. E cujo olhar entre as nuvens chegou esvaído até ás nossas faces fazendo subir a elas o fogo do temor e do anseio veemente.
(...)
E todos esperámos ser chamados por esta voz que nos apareceu em eco. Esperáva-mos ouvi-la com palavras que vençam o temor e o transformem em júbilo infinito, em alegria sem limite, perfeita, ver o que somente em sombra se mostrou, completamente e para sempre. E por esta esperança inapagável há quem não ouse acometer até às últmas consequências a tarefa de dar a si mesmo um nome, de ser ele mesmo o seu próprio criador, ainda que fosse possível consegui-lo.



# maría zambrano in a metáfora do coração e outros escritos