2014-09-29
2014-09-27
2014-09-13
de vez em quando dizem-nos num poema
- Yo estoy ausente pero en el fondo de esta ausencia
Hay la espera de mí mismo
Y esta espera es otro modo de presencia
La espera de mi retorno
Yo estoy en otros objetos
Ando en viaje dando un poco de mi vida
A ciertos árboles y a ciertas piedras
Que me han esperado muchos años
Se cansaron de esperarme y se sentaron
Yo no estoy y estoy
Estoy ausente y estoy presente en estado de espera
Ellos querrían mi lenguaje para expresarse
Y yo querría el de ellos para expresarlos
He aquí el equívoco el atroz equívoco.
Angustioso lamentable
Me voy adentrando en estas plantas
Voy dejando mis ropas
Se me van cayendo las carnes
Y mi esqueleto se va revistiendo de cortezas
Me estoy haciendo árbol.
Cuántas cosas me he ido convirtiendo en otras cosas
Es doloroso y lleno de ternura.
Podría dar un grito pero se espantaría la transubstanciación
Hay que guardar silencio. Esperar en silencio.
vicente huidobro
2014-09-08
Baixo os olhos e lembro as discussões com o Reinaldo no tempo em que eu queria sair de casa e ele não deixava. “Sais de casa, mas sais sozinha, sem os miúdos.”, dizia-me e eu ficava sem saber o que fazer. Até que chegou o dia em que dois jovens polícias chegaram e eu pude sair com os meus filhos. Passaram-se apenas alguns anos, mas esse tempo, violento e trágico, parece-me longínquo como se tivesse sido vivido por outra mulher. Já não sinto medo, nem raiva, nem nojo. Serei eu uma mulher diferente? Não sei, mas gosto de acreditar que, se voltasse a passar pelo mesmo, em vez da loucura, dos gestos trágicos, do desespero, saberia agora fazer escutar a minha voz.
daqui
2014-08-29
2014-08-07
Ouve, à noite, como a seda se
rasga
e a taça de chá cai ao chão, sem
ruído,
como por magia,
tu que só tens palavras doces para
os mortos
e levas um ramo de flores na mão
à espera da morte
que cai do seu corcel, ferida por
um cavaleiro
que a prende com os seus lábios
brilhantes
e chora pelas noites pensando que
o amavas,
e diz: vem para o jardim, vê
como as estrelas caem
e falemos em sossego para que
ninguém nos ouça
vem, escuta-me, falemos de nossos
móveis
tenho uma rosa tatuada na face e um
bastão
com um punho em forma de pato
e dizem que chove por nós e que a
neve é nossa
e agora que o poema expira,
como uma criança, te digo :
vem, eu fiz um diadema
(sai ao jardim e verás como a
noite nos envolve)
leopoldo maría panero,
traduzido por Luís Costa, aqui
2014-08-02
2014-07-21
2014-07-12
louvado seja Deus que me deu imediatamente o meu lugar sem que eu tenha de ir procurá-lo. e não lhe peço outro.
eu sou Violaine, tenho dezoito anos, o meu pai chama-se Anne Vercors, a minha mãe chama-se Isabel. a minha irmã chama-se Mara, o meu noivo chama-se Tiago. Pronto, acabou-se, não há mais nada a saber.
tudo é perfeitamente claro, tudo está ordenado desde o princípio e estou muito contente. sou livre e não tenho de me afligir com nada, é o pobre homem, que me conduz e que sabe tudo o que é preciso fazer.
Paul Claudel in "a anunciação de Maria"
#imagem Masao Yamamoto
2014-07-09
2014-06-30
E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenuma flor
erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.
(Dylan Thomas, in A Mão a Assinar Este Papel.
Trad.: Fernando Guimarães. Assírio & Alvim)
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenuma flor
erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.
(Dylan Thomas, in A Mão a Assinar Este Papel.
Trad.: Fernando Guimarães. Assírio & Alvim)
2014-06-15
à espera dos intelectuais de direita
João Pereira Coutinho, Henrique Raposo, Pedro Mexia, João Miguel Tavares ou Pedro Lomba"
Afinal eram cinco os cavaleiros do apocalipse...: "A Peste, a Guerra, a Fome a Morte e o Briefing"...[comenta assim o meu amigo Eduardo Tavares este artigo]
2014-06-14
2014-06-07
2014-05-27
2014-05-25
2014-05-24
2014-05-17
2014-05-11
2014-05-10
O SONHO DE UMA LÍNGUA COMUM
VIII.
Consigo ver-me há anos em Sunion,
doendo-me de um pé infectado, Filoctetes,
em forma de mulher, coxeando o longo caminho,
deitada num promontório sobre o mar escuro,
olhando pelas rochas vermelhas até onde uma espiral silenciosa
de brancura me dizia que uma onda tinha rebentado,
imaginando a força daquela água lá das alturas,
sabendo que suicídio deliberado não era comigo,
mas o tempo todo cuidando, medindo aquela ferida.
Pois bem, tudo isso acabou. A mulher que prezava
o seu sofrimento está morta. Sou a sua descendente.
Amo o tecido cicatrizado que me legou,
mas quero partir daqui contigo
combatendo a tentação de fazer da dor uma carreira.
doendo-me de um pé infectado, Filoctetes,
em forma de mulher, coxeando o longo caminho,
deitada num promontório sobre o mar escuro,
olhando pelas rochas vermelhas até onde uma espiral silenciosa
de brancura me dizia que uma onda tinha rebentado,
imaginando a força daquela água lá das alturas,
sabendo que suicídio deliberado não era comigo,
mas o tempo todo cuidando, medindo aquela ferida.
Pois bem, tudo isso acabou. A mulher que prezava
o seu sofrimento está morta. Sou a sua descendente.
Amo o tecido cicatrizado que me legou,
mas quero partir daqui contigo
combatendo a tentação de fazer da dor uma carreira.
Adrienne Rich in Uma Paciência Selvagem
#imagem - Flor Garduño
#imagem - Flor Garduño
2014-05-06
2014-05-02
2014-05-01
E estas dores, as mais antigas, não deviam
enfim dar-nos mais frutos? Não é tempo de, amando,
nos libertarmos do amado e de, a estremecer, levarmos a melhor:
como a seta vence a corda para, concentrada no desferir-se,
ser mais do que em si mesma. Porque deter-se é em nenhures.
Elegias de Duíno - Primeira
Rainer Maria Rilke
Vasco Graça Moura
imagem, daqui
2014-04-26
2014-04-25
Há quem pense, e talvez com
certa razão, que a mulher deve entrar no mundo da política para, dentro
desse universo, desenvolver as suas ideias e a sua acção. Mas eu penso
que quando uma mulher entra nesse mundo, ela própria é obrigada a
submeter-se a padrões que ameaçam toda a sua natureza, a natureza da sua
cultura. Ela é levada a transigir, torna-se numa cópia daquilo que já é
mau nos homens. Eu penso que a acção da mulher deve desenvolver-se
fora da política do Poder. Uma acção política de contra-poder. Pela
recusa.
O que é a poesia se não uma magia branca, para fazer recuar as forças tenebrosas que querem destruir a vida?!
Natália Correia
O que é a poesia se não uma magia branca, para fazer recuar as forças tenebrosas que querem destruir a vida?!
Natália Correia
A Natália Correia disse isto, nove anos depois do 25 de Abril de 1974. Há trinta e um anos. Não se pode dizer que a escritora não fosse uma mulher esclarecida e politizada.
Na actual Europa das liberdades, uma mulher com um cargo de poder na política - mais mexerico menos mexerico -, anda deste modo a dar que falar ao mundo.
Haverá um modo próprio e adequado para as mulheres exercerem o poder que os cargos políticos lhes outorgam? Ou, pela própria natureza feminina, as mulheres nunca encontrarão no exercício do poder político a sua identidade feminina? Mas esta tal de identidade feminina é determinada por padrão único ou vai evoluindo, como tudo o que é vivo e consciente de si?
Sem querer precipitar-me nas conclusões, deduzo que não existe um papel feminino e outro masculino de participação e exercício do poder. Existem tantos papéis quantos os intervenientes activos. Sejam homens de "barba rija" ou mulheres belas, como a governante socialista francesa, que acaba por se mostrar frágil e insegura.
Sem querer precipitar-me nas conclusões, deduzo que não existe um papel feminino e outro masculino de participação e exercício do poder. Existem tantos papéis quantos os intervenientes activos. Sejam homens de "barba rija" ou mulheres belas, como a governante socialista francesa, que acaba por se mostrar frágil e insegura.
2014-04-21
2014-04-17
Não era a minha alma que queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma altura nova.
Decidida capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada
de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter…
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
nova, nova!
irene lisboa
1892-1958
2014-04-12
2014-04-10
Hora Vermelha
Por que vieste, pensamento?
Já me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
não sei lá bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.
Já me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
erectos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.
Boca rasgada num pedido
a que se quer e se não quer
dizer que não.
Os braços longos estendidos.
A mão em concha sobre o sexo
que nem a Vénus de Camões.
Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua mão branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
Pôr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.
Vai-te depressa, pensamento!
Deixa-me a calma da Poesia.
Fique em minh’alma o só perfume
da cerca alegre de um convento.
Os meus sentidos embalados
numa suave melodia.
(Ah!, não nos quero desgrenhados
como quem volta de uma orgia).
E então meus lábios mais serenos
do que se orassem sobre um berço,
sorrindo à Vida,
sorrindo à Morte.
Ah!, não nos quero assim grosseiros,
ébrios, torcidos,
como depois de um vinho forte.
Sebastião da Gama [no 90º aniversário do nascimento], in 'Cabo da Boa Esperança'
#imagem - Pierre Boucher
2014-04-09
2014-04-05
2014-04-04
2014-04-01
PENSAMENTOS TIDOS NUM SÓTÃO (excerto)
1
E eu disse-me a mim mesma,
naquele dia casual:
Sim,
em cada livro
ou em cada folha que encheres
assinala a tua mudança!
Não é o fato das pintinhas,
com que te vêem
e já te viram,
o que melhor te veste...
Nem o teu gesto irritado,
nem tão-pouco o abatido
que mais te individualizam.
Vai! Vai seguindo,
indiferente e fiel,
pelo fino traço do teu capricho,
um traço solto,
mas severo e sincero...
E assim,
depois das mais breves
e das mais resumidas frases,
do teu laconismo mais acre,
alaga-te em palavras.
Abre-te em palavras!
Que as palavras às bagoadas
te serenem e reconfortem.
Embora não valham nada!
Palavras!
Matilha desordenada e feliz,
lançada atrás de uma pista,
excitante e enganosa...
Irene Lisboa
Folhas Soltas da Seara Nova (1929-1955)
# imagem - Frank Hohenberger
2014-03-18
Desfraldando ao Conjunto Fictício dos Céus estrelados
Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados
O esplendor do sentido nenhum da vida...
Toquem num arraial a marcha fúnebre minha!
Quero cessar sem consequências...
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
2014-03-16
Naqueles dias,
o Senhor disse a Abrão:
«Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai
e vai para a terra que Eu te indicar.
Farei de ti uma grande nação e te abençoarei;
engrandecerei o teu nome e serás uma bênção.
Abençoarei a quem te abençoar,
amaldiçoarei a quem te amaldiçoar;
por ti serão abençoadas todas as nações da terra».
Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.
[do livro do Génesis]
2014-03-15
Vê, nós não amamos como as flores de um
único ano; sobe-nos onde amamos,
imemorial seiva para os braços. Oh rapariga,
isto: que amássemos em nós, não uma coisa, a haver, mas
o inumerável fermentar; não um filho isolado,
mas os pais, que, como escombros da montanha,
nos assentem no fundo; mas sim o seco leito do rio
das mães de outrora -; mas sim toda a
paisagem silenciosa sob o destino enevoado
ou límpido -;isto precedeu-te, rapariga.
E tu mesma, tu, o que sabes -, atraíste
o remoto passado no amante. Que sentimentos
se revolviam vindos de seres para sempre levados. Que mulheres
então te odiavam. Que homens tenebrosos
agitaste nas veias do jovem? Crianças mortas
queriam ir ter contigo...Oh, devagar, devagar,
faz perante ele um trabalho diário de amor e confiança,-
condu-lo para perto do jardim, dá-lhe o excesso
de peso das noites...
...Retém-no...
Rainer Maria Rilke,
da terceira elegia
2014-03-12
2014-03-11
2014-03-09
2014-03-06
Porque todos esperam ser chamados alguma vez pelo próprio nome, esse que ninguém conhece, nem eles. Todos esperam ser chamados por esse Pai, cuja mão e cujo rosto sentimos sobre a nossa cabeça em forma de proibição nos primeiros dias e como sombra sobre a nossa ainda pura fronte no jardim perturbante da infância. E de cuja voz acreditámos ouvir o eco distante atrás de nós, quando na adolescência quisemos sair atravessando o cerco do horto sagrado. E cujo olhar entre as nuvens chegou esvaído até ás nossas faces fazendo subir a elas o fogo do temor e do anseio veemente.
(...)
E todos esperámos ser chamados por esta voz que nos apareceu em eco. Esperáva-mos ouvi-la com palavras que vençam o temor e o transformem em júbilo infinito, em alegria sem limite, perfeita, ver o que somente em sombra se mostrou, completamente e para sempre. E por esta esperança inapagável há quem não ouse acometer até às últmas consequências a tarefa de dar a si mesmo um nome, de ser ele mesmo o seu próprio criador, ainda que fosse possível consegui-lo.
# maría zambrano in a metáfora do coração e outros escritos
2014-03-02
"Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.”
Mt 6, 24
A economia que mata
Não foi certamente com o bezerro de ouro que os hebreus fizeram no deserto que começou a idolatria do dinheiro. Mas este é um exemplo simples de como é possível transferir a fé e a confiança, que só é libertadora na relação com um outro e com Deus, para um objecto que materializa o poder e reduz a escravo quem lhe presta culto. Da história do homem que trabalhava desalmadamente, destruindo a sua vida e a da família, para encher o sétimo pote de moedas de ouro (que nunca enchia por mais moedas que lá colocasse), ao conto da procura da camisa do homem feliz que curaria o rei da sua melancolia (e o único homem feliz encontrado não tinha camisa!), muitos são os relatos que apontam a escravidão que o dinheiro gera. Tal como o excesso e a degradação retratados no filme “O lobo de Wall Street” de Martin Scorcese, que retrata uma história real de enriquecimento e da degradação por ele gerada a partir de um dos “motores” do nosso mundo: a Bolsa de Nova Iorque.
O verdadeiro problema não é o dinheiro mas a sua capacidade de corroer os valores e convicções mais profundas do homem. “Os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do património”, dizia Maquiavel no seu “Príncipe”. Quantas zangas familiares e discórdias chegam a finais violentos que são causados pelas partilhas entre herdeiros, tantas vezes pela insignificância de poucas coisas deixadas pelos pais. Na verdade os bens são um pretexto para vinganças e conflitos mal resolvidos, mas é fácil ficar-se prisioneiro da “pobre” consolação da riqueza. Gandhi dizia: “algemas de ouro são muito piores do que algemas de ferro.” Na lógica do Evangelho, o importante não é ter mas aquilo que se faz com o que se tem. Os bens têm este nome porque se destinam a fazer o bem, quando não o fazem, tornam-se males! Até o poeta Bocage dizia do dinheiro: “Faço a paz, sustento a guerra / Agrado a doutos e a rudes / Gero vícios e virtudes / Torço as leis, domino a terra.”
Uma constante nas palavras do Papa Francisco tem sido a denúncia “da ditadura de uma economia sem rosto”, “uma economia da exclusão e da iniquidade”, e que “essa economia mata”. A 20 de Fevereiro, numa mensagem à Academia Pontifícia da Vida escrevia: “Nas nossas sociedades existe um domínio tirânico de uma lógica económica que exclui e por vezes mata, da qual hoje muitíssimos são vítimas, a começar pelos nossos idosos.”. Os quatro “nãos” da “Alegria do Evangelho interpelam as nossas atitudes: “Não a uma economia de exclusão (…) Não à nova idolatria do dinheiro (…) Não a um dinheiro que governa em vez de servir (…) Não à desigualdade social que gera violência.” Como podemos fazer a economia que dê vida a todos?
daqui
2014-02-28
2014-02-27
Nada de automático, portanto, para evitar que se caia na tentação de banalizar o próprio conceito de misericórdia, advertem, a resguardar um dom que não nos pertence.
2014-02-25
2014-02-24
De bruços sobre o
lavatório, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver
correr a esperança, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a
torneira e, retirando a tampa, vejo-a escoar-se em gorgolejos que cada
vez são mais humanos e mais fundos. É a respiração do ralo, que só então
dou conta de que está dentro de mim, por uma dessas distorções a que é
costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no próprio
espelho, que, apesar de se encontrar à minha frente, não consigo
deslocar do avesso dos meus olhos.
Os meus sentidos rangem, solidários com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um céu azul, desanuviado, e que jamais me dão do espírito visões onde não se encastoem nuvens e rebentem tempestades.
Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade - penso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar, se escoam sem regresso em direcção ao caos.
Os meus sentidos rangem, solidários com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um céu azul, desanuviado, e que jamais me dão do espírito visões onde não se encastoem nuvens e rebentem tempestades.
Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade - penso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar, se escoam sem regresso em direcção ao caos.
Luís Miguel Nava, in 'O Céu Sob as Entranhas (Lembrança de A. Morin)'
2014-02-18
2014-02-17
Pode-se, e a expressão popular bem o sabe, ter entranhas e não ter coração; é próprio dos seres capazes de sentir, mas sem nobreza, dos quais não se deve esperar esses movimentos de ânimo que levam o selo da generosidade, que não têm as condições especiais que a metáfora do coração leva quase sempre: falta-lhes «o espaço vital». Seres com entranhas sem espaço, que são um grau ínfimo na hierarquia do que é vivo. Sentem, mas no seu sentir há um absoluto hermetismo; sentem para si, e o seu sentir jamais se abre, nem sequer irradia. O coração é a víscera mais nobre porque leva consigo a imagem de um espaço, de um dentro obscuro secreto e misterioso que, em algumas ocasiões, se abre.
maría zambrano in a metáfora do coração e outros escritos
tradução - josé bento
assírio & alvim
2014-02-16
2014-02-14
Amor
Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!
Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.
Amor, tão chão de Amor,
que sensível és...
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!
Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e enfurece
e logo recai na branda impotência.
Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes,
tanto grito e pena perdida...
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti
e tu de nós?
Irene Lisboa
2014-02-13
Nunca encontrei uma pessoa oca. Nunca encontrei uma vida sem significado quando se procura realmente o seu significado. É esse o perigo de dizer que não procuramos, porque foi assim que chegámos ao ponto em que sentimos que a vida não tinha qualquer significado. Bem vê, nós repudiámos tantas formas de terapia. Quer dizer, tantos de nós repudiam actualmente a filosofia, a religião ou qualquer outro padrão que nos mantinha coesos anteriormente. Repudiámos tudo. Até repudiámos a terapia da arte. Por isso não nos restou realmente mais que olhar para dentro, e os que o fazem descobrem que toda a vida tem significado porque a vida tem significado. Fomos seriamente prejudicados por pessoas que disseram que a vida era irracional e de qualquer modo não significava nada. Mas assim que começamos a olhar, descobrimos o padrão e descobrimos a pessoa. Nunca encontrei aquilo a que se poderia chamar uma pessoa totalmente oca.
Anais Nin, in "Fala Uma Mulher"
2014-02-12
2014-02-11
fé
Sem fides um velho não lança no terreno uma semente de carvalho; sem fides
o horizonte do mundo passa a ser o teto da casa ou do escritório baixo
de mais para aquele ser, sedento de infinito que é a pessoa, a qual
desde a época das cabanas e dos “nuraghe” (Monumento pré-histórico da
Sardenha) sentia necessidade de fazer uma abertura no topo, e não
apenas para deixar sair o fumo, mas também para que o seu céu fosse
mais alto que a sua casa. Sem este olhar profundo que nos eleva,
conformamo-nos com os cenários da tv, com os seus céus virtuais, que não
têm nem o calor do sol nem a profundidade do horizonte, nem a brisa do
ar que só entram em casa quando abrimos a janela. O oposto da fé foi
sempre a idolatria, que não é a atitude de quem não crê em nada, mas de
quem acredita em demasiadas coisas, fingidas e fabricadas.
2014-02-09
2014-02-08
2014-02-06
2014-02-05
2014-02-03
2014-02-02
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